A Polícia Federal (PF) afirma em relatório da Operação Miragem, deflagrada na terça-feira (23), que o Banco Digimais recebeu autorização para operar em 2020 pelo Banco Central (BC), durante a gestão de Roberto Campos Neto, após um processo de aquisição iniciado em 2009, quando a instituição ainda se chamava Banco Renner e passou a ser controlada pelo grupo ligado ao empresário Edir Macedo. O documento também registra tentativas de venda do banco a diferentes grupos financeiros, incluindo uma proposta de Maurício Antônio Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro, além de negociações que teriam envolvido o BTG Pactual (BPAC11), segundo a PF.
A investigação integra um conjunto de apurações sobre operações financeiras e estruturas de captação no sistema bancário brasileiro, com foco em instituições de médio porte que passaram por mudanças societárias ao longo da última década. O Digimais é citado no contexto de reestruturações e transações envolvendo ativos financeiros, controle acionário e tentativas de reorganização do passivo em ambiente regulatório supervisionado pelo Banco Central.
Controle do Banco Digimais foi concluído em 2020 após mais de uma década de transição
De acordo com o relatório da Polícia Federal, o processo de entrada do Grupo Record, ligado a Edir Macedo, no então Banco Renner começou em outubro de 2009, quando foi comunicada a aquisição de 40% do capital da instituição. Em 2013, o Banco Central teria reconhecido a participação societária, posteriormente ajustada para 49% do capital do banco.
A consolidação do controle total ocorreu apenas em 2020, quando o grupo adquiriu a parcela remanescente das ações e concluiu a saída dos fundadores da estrutura administrativa. A partir desse processo, a instituição passou a operar sob a marca Digimais, após autorização formal do Banco Central.
O relatório destaca que a transição societária foi gradual, com etapas sucessivas de aumento de participação acionária e comunicações ao regulador ao longo de mais de dez anos.
PF aponta práticas financeiras e compara modelo a outros casos sob investigação
No documento, o delegado responsável pela representação afirma que o Banco Digimais teria adotado práticas financeiras consideradas “temerárias”, com estrutura de captação semelhante à observada em outras instituições financeiras que também são alvo de apurações recentes no sistema bancário.
Entre os pontos mencionados estão emissões de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com remuneração acima da média de mercado, mecanismo utilizado para atrair liquidez em ambiente de maior pressão sobre captação e capitalização.
A PF sustenta que esse tipo de estrutura pode indicar aumento de risco financeiro, especialmente em bancos de médio porte que dependem de captação mais agressiva para sustentar operações de crédito e carteiras de investimento.
O relatório também faz paralelos com instituições que enfrentaram deterioração de balanço e necessidade de reorganização de passivos no sistema financeiro brasileiro.
Tentativa de compra por ex-sócio de Vorcaro foi barrada pelo Banco Central
O relatório da Polícia Federal aponta que, em janeiro de 2025, houve uma tentativa de aquisição do Banco Digimais por Maurício Antônio Quadrado, ex-sócio e executivo ligado ao Banco Master, por meio da holding Bluebank.
Segundo a PF, a operação não avançou após veto do Banco Central, que teria identificado riscos associados ao histórico e aos vínculos do proponente. A negativa impediu a formalização da transação.
A investigação também menciona que o banco esteve no radar de outros grupos financeiros, incluindo o BTG Pactual, embora não detalhe estrutura final ou termos das negociações.
Interesse do BTG e reorganização de ativos no sistema bancário
A eventual participação do BTG Pactual em negociações envolvendo o Digimais é tratada no relatório como parte de um movimento mais amplo de reorganização de ativos no sistema financeiro.
Esse modelo envolve a separação entre carteiras consideradas saudáveis e ativos classificados como mais arriscados, com possível participação do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) em estruturas de apoio à transação.
Na prática, esse tipo de operação busca viabilizar a continuidade de instituições sob pressão financeira, reduzindo risco sistêmico e evitando liquidações abruptas no sistema bancário.
O modelo tem sido utilizado em reestruturações recentes no setor, especialmente em bancos médios com exposição a carteiras de crédito e estruturas de captação mais sensíveis.
Edir Macedo teria aportado R$ 250 milhões para reforçar capital do banco
O relatório também aponta que o controlador Edir Macedo teria realizado aporte de aproximadamente R$ 250 milhões no Banco Digimais para reforçar sua estrutura de capital.
Segundo os dados citados na investigação, o índice de capital da instituição estaria abaixo da média do sistema financeiro, o que teria exigido reforço para atendimento das exigências regulatórias do Banco Central.
O movimento é descrito como uma tentativa de manter a operação dentro dos parâmetros prudenciais exigidos para instituições bancárias em funcionamento no país.
Exposição a fundos e disputas ampliam pressão sobre estrutura financeira
A Polícia Federal também menciona exposição do banco a estruturas de investimento que teriam contribuído para perdas financeiras relevantes, incluindo fundos e ativos considerados de maior risco.
Parte dessas operações teria resultado em disputas judiciais envolvendo responsabilidade sobre prejuízos e estruturação de carteiras, ampliando o nível de complexidade do caso.
Essas disputas adicionam pressão ao ambiente financeiro do banco e reforçam o monitoramento regulatório sobre suas operações e governança.
Banco Central e Cade terão papel central em eventual transação do Digimais
Qualquer eventual operação de venda ou reorganização do Banco Digimais depende de aprovação do Banco Central e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), além de eventuais estruturas de suporte envolvendo o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Essas instituições são responsáveis por avaliar risco sistêmico, concentração de mercado e impactos sobre a estabilidade do sistema financeiro.
O modelo regulatório brasileiro exige análise conjunta de governança, solvência e impacto concorrencial em operações que envolvem controle de instituições bancárias.
Caso amplia escrutínio sobre bancos médios e estruturas de captação no sistema financeiro
A inclusão do Banco Digimais na Operação Miragem reforça o aumento do escrutínio sobre bancos de médio porte no Brasil, especialmente aqueles que passaram por mudanças societárias, expansão de crédito e estruturas de captação mais agressivas.
O caso também se insere em um ambiente de maior vigilância sobre operações financeiras complexas e sobre a interação entre grandes instituições, investidores e estruturas de mercado voltadas à reestruturação de ativos.
O avanço das investigações e a menção a potenciais interessados na aquisição do banco indicam que o futuro do Digimais permanece condicionado à atuação conjunta de órgãos reguladores, mercado financeiro e eventuais processos de consolidação no setor bancário.








