A produção industrial brasileira recuou 0,2% em maio na comparação com abril, interrompendo quatro meses consecutivos de crescimento. O resultado divulgado nesta sexta-feira (3) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) passou a dividir as atenções dos investidores com os indicadores de atividade da S&P Global e com a apresentação da balança comercial consolidada de junho, programada para as 15h.
O mercado doméstico opera sem a principal referência externa do dia. As bolsas de valores dos Estados Unidos estão fechadas nesta sexta-feira em razão da antecipação do feriado de 4 de Julho, que em 2026 cai em um sábado. Nasdaq e Bolsa de Nova York confirmaram a suspensão das negociações no mercado acionário e de opções.
A ausência dos investidores norte-americanos tende a reduzir o volume de negócios no exterior e pode diminuir a liquidez da B3, embora o pregão brasileiro funcione normalmente. Nesse ambiente, indicadores domésticos e notícias corporativas ganham maior capacidade de influenciar os preços dos ativos ao longo da sessão.
Indústria interrompe quatro meses de crescimento
A queda de 0,2% da produção industrial em maio foi o primeiro resultado negativo de 2026 na comparação mensal, considerada a série com ajuste sazonal. Entre janeiro e abril, o setor havia acumulado expansão de 4,4%.
Mesmo com a retração, a atividade industrial permanece 4,5% acima do patamar de fevereiro de 2020, período imediatamente anterior à pandemia de Covid-19. A produção, no entanto, ainda opera 13% abaixo do nível recorde alcançado em maio de 2011.
Na comparação com maio de 2025, a indústria apresentou variação positiva de apenas 0,2%. O crescimento acumulado entre janeiro e maio ficou em 1,4%, enquanto a taxa dos últimos 12 meses avançou 0,4%.
O desempenho confirma uma perda de velocidade em relação aos números de abril. No mês anterior, a produção havia crescido 0,7% na comparação mensal e 2,7% sobre abril de 2025.
A desaceleração não ocorreu de maneira uniforme. O IBGE identificou retração mensal em três das quatro grandes categorias econômicas, enquanto diferentes setores da indústria apresentaram movimentos divergentes.
Petróleo e mineração pressionam resultado
As principais contribuições negativas em maio vieram da fabricação de coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis, que caiu 6,1%, e das indústrias extrativas, com retração de 2,6%.
Os dois segmentos interromperam sequências de cinco meses de crescimento. Nesse intervalo, a produção de derivados do petróleo havia acumulado alta de 17,1%, enquanto as indústrias extrativas haviam avançado 7,4%.
Segundo o IBGE, a menor produção de álcool etílico e gasolina pressionou a atividade de derivados de petróleo. No setor extrativo, o recuo foi influenciado pela redução na produção de minério de ferro, petróleo bruto e gás natural.
Também registraram queda na passagem de abril para maio os segmentos de bens de consumo semiduráveis e não duráveis, com retração de 1,3%; bens intermediários, com baixa de 0,4%; e bens de capital, que recuaram 0,2%.
Os bens de consumo duráveis foram a única grande categoria econômica a apresentar crescimento mensal. A produção avançou 3,6%, recuperando a perda de 3,1% registrada em abril.
Veículos e medicamentos evitam queda maior
Entre as atividades que cresceram em maio, os principais destaques foram produtos farmoquímicos e farmacêuticos, com alta de 13,1%, veículos automotores, reboques e carrocerias, com expansão de 4,1%, e produtos químicos, que avançaram 3,1%.
A indústria farmacêutica voltou a crescer depois de quatro meses consecutivos de retração. A fabricação de veículos, por sua vez, completou o quinto resultado mensal positivo, impulsionada pela produção de automóveis, caminhões e autopeças.
Metalurgia, vestuário, outros equipamentos de transporte, materiais elétricos e máquinas e equipamentos também apresentaram crescimento, mas não foram suficientes para neutralizar integralmente as perdas registradas pelos setores extrativo e de derivados de petróleo.
Na comparação anual, apenas oito dos 25 ramos pesquisados pelo IBGE aumentaram a produção. Houve crescimento em 27 dos 80 grupos industriais e em 39% dos 789 produtos acompanhados.
Os segmentos de alimentos e de máquinas e equipamentos exerceram as principais pressões negativas na comparação com maio de 2025, com quedas de 3,7% e 9,5%, respectivamente.
Bens de capital acumulam queda no ano
A composição do resultado industrial mostra que a recuperação segue desigual. Nos cinco primeiros meses de 2026, os bens intermediários cresceram 2,1%, enquanto a produção de bens de consumo semiduráveis e não duráveis avançou 1,5%.
A fabricação de bens duráveis aumentou 0,6%. Os bens de capital, associados à produção de máquinas e equipamentos utilizados para ampliar a capacidade produtiva, acumularam retração de 6,2%.
O desempenho negativo dessa categoria foi influenciado principalmente pela menor produção de bens de capital de uso misto, agrícolas e industriais. A queda pode representar um sinal de cautela dos empresários em relação aos investimentos, embora um único indicador não seja suficiente para determinar uma tendência consolidada.
A produção industrial é acompanhada de perto pelo mercado por sua influência sobre o Produto Interno Bruto, o emprego formal, a arrecadação e as projeções para a política monetária. Dados mais fracos podem reforçar a percepção de desaceleração da atividade, mas a interpretação depende também do comportamento dos serviços, do consumo e do mercado de trabalho.
PMI mostra recuperação da atividade privada
Em contraste com o resultado da pesquisa industrial do IBGE, os índices dos gerentes de compras divulgados pela S&P Global indicaram melhora da atividade econômica em junho.
O PMI de serviços subiu de 50,4 pontos em maio para 51,3 pontos em junho. O indicador permaneceu acima da linha de 50 pontos, que separa expansão de retração, e apontou aceleração moderada da atividade do setor.
O PMI composto, que reúne informações da indústria e dos serviços, avançou de 49,5 para 50,7 pontos, retornando ao território de expansão depois da contração registrada em maio.
A melhora ocorreu em um período no qual o PMI industrial também voltou a superar a marca de 50 pontos. O indicador de manufatura havia passado de 49,1 em maio para 50,8 em junho.
Os levantamentos da S&P Global e do IBGE possuem metodologias diferentes. A pesquisa do IBGE mede o volume físico efetivamente produzido pelas indústrias, enquanto o PMI é baseado em questionários respondidos por gestores de compras e procura identificar mudanças nas condições operacionais em relação ao mês anterior.
Por esse motivo, os resultados não são necessariamente contraditórios. O recuo do IBGE refere-se a maio, enquanto os PMIs já refletem a percepção das empresas durante junho.
Inflação das famílias de menor renda também entra no radar
A Fundação Getulio Vargas programou para as 11h desta sexta-feira a divulgação do Índice de Preços ao Consumidor — Classe 1 referente a junho.
O IPC-C1 mede a variação do custo de vida das famílias com renda mensal entre um e 2,5 salários mínimos. O indicador acompanha preços em sete capitais e atribui peso maior a despesas essenciais, como alimentação e habitação, que consomem parcela mais elevada da renda das famílias de menor poder aquisitivo.
Em maio, o índice havia subido 0,78%, abaixo da variação de 1,01% registrada em abril. No acumulado de 12 meses até maio, a inflação para esse grupo de famílias estava em 3,87%.
A leitura de junho ganha relevância após outros indicadores da própria FGV mostrarem desaceleração dos preços ao consumidor no fim do mês. O IPC-S da quarta quadrissemana de junho avançou 0,36%, ante 0,49% na terceira quadrissemana, acumulando alta de 4,32% em 12 meses.
Balança comercial será divulgada às 15h
O último indicador de maior impacto da agenda doméstica será divulgado às 15h pela Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
A apresentação trará os números consolidados das exportações e importações brasileiras em junho. O cronograma oficial do governo confirma a coletiva mensal desta sexta-feira, com dados referentes ao período entre 1º e 30 de junho.
Até a terceira semana do mês, o Brasil havia exportado US$ 25,6 bilhões e importado US$ 18 bilhões, gerando superávit de US$ 7,6 bilhões. A corrente de comércio — soma das exportações e importações — estava em US$ 43,6 bilhões.
No acumulado parcial de 2026, as exportações somavam US$ 174,1 bilhões, enquanto as importações atingiam US$ 133,9 bilhões. O saldo comercial positivo era de US$ 40,3 bilhões, com corrente de comércio de US$ 308,1 bilhões.
A divulgação permitirá avaliar se a forte expansão das exportações observada nas primeiras semanas de junho foi mantida até o encerramento do mês. Agropecuária, indústria extrativa e indústria de transformação apresentavam crescimento nas vendas externas no levantamento parcial.
Feriado nos Estados Unidos reduz referências externas
Nasdaq, Bolsa de Nova York e mercados norte-americanos de ações e opções permanecem fechados nesta sexta-feira em observância ao Dia da Independência.
O feriado nacional ocorre oficialmente em 4 de julho. Como a data cai em um sábado em 2026, o fechamento dos mercados foi transferido para sexta-feira, 3 de julho. As negociações serão retomadas normalmente na segunda-feira (6).
Sem negócios em Wall Street, os investidores brasileiros acompanham principalmente o comportamento dos juros futuros, do dólar, das commodities negociadas em outros mercados e das ações mais sensíveis aos indicadores domésticos.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, mantém agenda de despachos internos em São Paulo. As informações são da agenda pública de autoridades da instituição.
A combinação entre recuo da produção industrial em maio, recuperação dos PMIs em junho e expectativa pelo resultado da balança comercial forma um quadro misto para a economia. Os dados sinalizam perda de força na indústria no fim do segundo trimestre, mas também mostram melhora mais recente da atividade empresarial, especialmente nos serviços.
Fontes e documentos
IBGE: Pesquisa Industrial Mensal — Produção Física, resultados de maio de 2026.
S&P Global: PMI de Serviços e PMI Composto do Brasil, resultados de junho de 2026.
FGV IBRE: calendário oficial de divulgação e metodologia do IPC-C1.
FGV IBRE: IPC-S da quarta quadrissemana de junho de 2026.
Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços: cronograma e resultados parciais da balança comercial de junho de 2026.
Nasdaq: calendário de feriados dos mercados de ações e opções dos Estados Unidos em 2026.
Banco Central: agenda pública das autoridades em 3 de julho de 2026.








