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Raízen (RAIZ4) escolhe veterano da Shell para vice do conselho em meio à reestruturação

Felix Faber substitui Anna Mascolo no colegiado enquanto a companhia negocia uma reestruturação bilionária, vende ativos e prepara mudanças em sua governança.

por João Souza
24/07/2026 às 12h11
em Empresas
Raizen (Raiz4) - Gazeta Mercantil

A Raízen (RAIZ4) nomeou Felix Faber, executivo com mais de 26 anos de experiência no setor de energia e longa trajetória na Shell, para a vice-presidência de seu conselho de administração. A decisão foi aprovada na quinta-feira (23), em São Paulo, por indicação da Shell Brazil Holding, uma das controladoras da companhia, e entra em vigor imediatamente, em um momento marcado pela recuperação extrajudicial, pela venda de ativos e pela necessidade de recompor a estrutura financeira do grupo.

Faber substitui Anna Mascolo e permanecerá no cargo até a realização da próxima assembleia geral da Raízen (RAIZ4). Na ocasião, sua eleição deverá ser submetida à ratificação dos acionistas para que o executivo complete o mandato em andamento.

Leia também: Crise da Raízen (RAIZ4): credores rejeitam plano e pressionam por nova reestruturação bilionária.

A companhia não informou uma razão específica para a substituição. O movimento, no entanto, ganha relevância por ocorrer durante uma das fases mais complexas desde a formação da Raízen, criada em 2011 a partir da associação entre a Shell e a Cosan (CSAN3).

A chegada de um executivo indicado pela Shell ao segundo posto mais importante do conselho reforça a presença da multinacional na supervisão das decisões estratégicas da Raízen (RAIZ4). O colegiado terá papel central na execução da recuperação extrajudicial, na reorganização societária prevista pela empresa e na definição dos ativos considerados essenciais para o futuro da operação.

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Felix Faber assume posto estratégico no conselho

Felix Faber é formado em administração e construiu sua carreira em diferentes áreas do setor energético. Em mais de duas décadas na Shell, atuou nos negócios de downstream, mobilidade, comercialização, suprimentos, lubrificantes, combustíveis marítimos, estratégia e energias renováveis.

O executivo acumulou experiência em mercados da Europa, do Oriente Médio e da África. Também participou de conselhos de administração de empresas e associações ligadas ao Grupo Shell.

Leia também: Bolsas Europeias Fecham com Desempenho Misturado em Meio a Sinais de Contração Econômica.

Entre as posições ocupadas estão assentos nos conselhos da Shell Panolin, na Suíça; da JOSLOC, joint venture da Shell na Arábia Saudita; e da Shell Vivo Lubricants, companhia com atuação em diferentes países africanos.

Faber também exerceu funções de liderança na Alemanha e na área de lubrificantes da Shell para Europa, Oriente Médio e África. Sua experiência combina operações industriais, distribuição de combustíveis, transformação de refinarias e desenvolvimento de negócios relacionados à transição energética.

Esse histórico aproxima o novo vice-presidente de áreas diretamente ligadas ao portfólio da Raízen (RAIZ4), que reúne produção de açúcar e etanol, geração de bioenergia, comercialização de combustíveis, logística, distribuição e projetos de combustíveis renováveis.

Na prática, porém, a principal cobrança sobre o conselho não estará restrita às oportunidades de crescimento. O colegiado precisará acompanhar a execução de uma profunda reestruturação financeira, concebida para reduzir a pressão dos compromissos assumidos pela companhia e preservar a continuidade dos negócios.

Shell reforça influência sobre a Raízen

A indicação de Felix Faber também evidencia o peso da Shell na estrutura de controle. A multinacional e a Cosan (CSAN3) possuem, cada uma, 50% das ações ordinárias da Raízen (RAIZ4), que concentram os direitos de voto.

Cada controladora detém ainda aproximadamente 4,5% das ações preferenciais. Considerando todas as classes de papéis, Shell e Cosan (CSAN3) possuem participações equivalentes a cerca de 44% do capital total da companhia.

O bloco de controle reúne aproximadamente 88% do capital total. A parcela restante está distribuída entre investidores que possuem ações preferenciais negociadas na B3, além dos papéis mantidos em tesouraria.

A composição faz com que as decisões estratégicas dependam do alinhamento entre os dois grupos controladores. Em períodos de estabilidade, esse modelo permite compartilhar investimentos e riscos. Em uma reestruturação, entretanto, exige coordenação sobre aportes de capital, venda de ativos, gestão da dívida e mudanças de governança.

A escolha de Faber não modifica formalmente a participação da Shell, mas coloca um executivo com trajetória internacional dentro do núcleo encarregado de supervisionar a recuperação da companhia.

Também sinaliza que a controladora pretende acompanhar de perto a execução do plano negociado com credores. A proposta de recuperação prevê aportes dos acionistas, conversão de parte dos créditos em participação acionária e emissão de novos instrumentos financeiros.

Recuperação extrajudicial redefine prioridades

A Raízen (RAIZ4) entrou em recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente R$ 64,7 bilhões em dívidas financeiras sem garantia real. O processo foi apresentado à Justiça de São Paulo e recebeu a adesão de credores que representam mais de 75% dos créditos abrangidos.

O plano foi protocolado depois de negociações com detentores de títulos internacionais, investidores de títulos locais e instituições financeiras. A etapa seguinte é a homologação judicial, necessária para confirmar formalmente os termos aprovados e vincular os credores alcançados pela recuperação.

Diferentemente de uma recuperação judicial tradicional, o procedimento não abrange todas as obrigações da empresa. Dívidas e contratos com fornecedores, clientes, revendedores e parceiros operacionais permanecem fora do escopo informado pela companhia e devem continuar sendo cumpridos conforme as condições originalmente pactuadas.

O plano prevê uma combinação de capitalização, conversão de dívida e reperfilamento dos valores remanescentes. Parte dos créditos deverá ser transformada em participação acionária, enquanto o restante poderá ser substituído ou refinanciado por novos títulos com outros prazos e condições.

A proposta também estabelece uma nova estrutura de governança para acompanhar a execução da recuperação. Entre as medidas apresentadas estão a atuação de um executivo dedicado à reestruturação e a criação de uma instância de acompanhamento formada por representantes dos credores.

A composição definitiva do conselho deverá passar por nova transformação depois da conclusão formal do processo. A proposta divulgada pela Raízen prevê um colegiado com sete integrantes e regras de aprovação qualificada para determinadas decisões.

A nomeação de Faber, portanto, ocorre antes da implementação desse novo desenho. O mandato poderá atravessar uma fase de transição em que a governança atual conviverá com compromissos definidos no plano negociado com os credores.

Venda de ativos busca preservar liquidez

A recuperação extrajudicial é acompanhada por um programa de desinvestimentos. A Raízen (RAIZ4) vem vendendo ativos considerados menos estratégicos para reforçar o caixa, reduzir necessidades de investimento e concentrar recursos nas operações avaliadas como prioritárias.

Entre os movimentos mais relevantes está o desinvestimento das operações na Argentina. A saída reduz a exposição internacional da companhia e libera capital que poderá ser direcionado à reestruturação financeira.

A empresa também anunciou a venda da Usina Caarapó, localizada em Mato Grosso do Sul. A alienação integra a revisão do portfólio agroindustrial e reforça a estratégia de selecionar unidades com maior capacidade de geração de retorno.

A venda de ativos oferece liquidez no curto prazo, mas precisa ser analisada em conjunto com a redução de receitas futuras. Quando uma companhia aliena unidades operacionais, recebe recursos imediatos, porém deixa de contar com o resultado que esses ativos poderiam produzir.

O equilíbrio depende do preço obtido, da rentabilidade da operação vendida, do custo da dívida a ser reduzida e da capacidade da empresa de aumentar a eficiência dos negócios remanescentes.

Na Raízen (RAIZ4), a administração também reduziu investimentos e passou a priorizar projetos com retorno mais previsível. O ajuste busca conter a necessidade de caixa em uma estrutura que combina produção agrícola, indústria, logística, distribuição e desenvolvimento de tecnologias renováveis.

Etanol de segunda geração entra em revisão

Um dos pontos mais sensíveis da estratégia é o etanol de segunda geração, produzido a partir do bagaço e da palha da cana-de-açúcar. A tecnologia permite ampliar a produção sem exigir, na mesma proporção, novas áreas cultivadas.

A Raízen (RAIZ4) se posicionou como uma das principais investidoras globais nessa frente. Os projetos, contudo, exigem capital elevado, construção de unidades industriais complexas e uma curva de aprendizado operacional mais longa do que a observada no etanol convencional.

Com a pressão financeira, a companhia passou a revisar cronogramas, investimentos e prioridades. Projetos em desenvolvimento precisam demonstrar capacidade de atingir escala, custo competitivo e contratos capazes de remunerar o capital empregado.

O histórico de Faber em transformação industrial, lubrificantes e energia renovável pode contribuir para essa avaliação. A decisão final, entretanto, dependerá do conselho como um todo e das limitações impostas pelo plano de recuperação.

O avanço da transição energética continua criando demanda por combustíveis de menor intensidade de carbono. Para a Raízen (RAIZ4), a oportunidade permanece relevante, mas a companhia já não dispõe da mesma liberdade para financiar simultaneamente múltiplas frentes de expansão.

Ações abaixo de R$ 1 ampliam pressão

As ações preferenciais da Raízen (RAIZ4) passaram a ser negociadas abaixo de R$ 1 e entraram no procedimento de reenquadramento previsto pela B3 para companhias com papéis mantidos abaixo desse valor por período prolongado.

A empresa solicitou extensão do prazo para regularizar a cotação. Entre as alternativas normalmente utilizadas estão o grupamento de ações ou uma recuperação consistente do preço no mercado.

O grupamento reduz a quantidade de papéis em circulação e aumenta proporcionalmente o preço unitário, sem alterar o valor financeiro total da participação de cada acionista no momento da operação.

A medida, contudo, não resolve os fundamentos econômicos que levaram à queda. O comportamento de RAIZ4 continuará vinculado à dívida, ao resultado operacional, à geração de caixa, às condições da recuperação extrajudicial e ao eventual nível de diluição provocado pela conversão de créditos em ações.

Os investidores também acompanham a forma como os aportes dos controladores serão realizados. Dependendo da estrutura escolhida, uma capitalização poderá alterar a distribuição do capital e a participação dos atuais detentores de ações preferenciais.

A baixa cotação funciona, assim, como um indicador da percepção de risco atribuída pelo mercado. A normalização dependerá menos de medidas técnicas e mais da capacidade da Raízen (RAIZ4) de executar a recuperação e reconstruir a confiança dos investidores.

Conselho terá de conciliar credores, acionistas e operação

A troca na vice-presidência ocorre em um ponto no qual a governança assume importância financeira direta. O conselho precisará avaliar propostas que afetam simultaneamente controladores, credores, acionistas minoritários, empregados e parceiros comerciais.

O colegiado deverá supervisionar aportes, conversão de dívida, venda de ativos e reorganizações societárias. Também precisará assegurar que o corte de investimentos não prejudique a manutenção das unidades ou a capacidade produtiva dos ativos considerados essenciais.

Outro desafio será preservar a operação durante a reestruturação. A Raízen ocupa posição relevante no mercado brasileiro de combustíveis, na produção de açúcar e etanol e na geração de energia a partir da biomassa.

Uma recuperação financeira mal executada pode comprometer fornecedores, produção agrícola, contratos comerciais e participação de mercado. Por isso, as decisões não poderão se limitar à redução imediata do endividamento.

O conselho precisará encontrar um equilíbrio entre liquidez de curto prazo e competitividade futura. A venda indiscriminada de ativos poderia aliviar o caixa, mas reduzir a capacidade de geração de receita necessária para sustentar a empresa depois da recuperação.

A chegada de Felix Faber amplia a presença da Shell nesse processo. O teste para o novo vice-presidente será contribuir para que experiência industrial, disciplina financeira e transição energética sejam incorporadas a um plano capaz de manter a Raízen (RAIZ4) operacionalmente relevante depois da renegociação de sua dívida.

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