A divulgação de resultados e fatos relevantes de grandes companhias brasileiras aumentou a cautela dos investidores nesta terça-feira, 30 de junho. Raízen (RAIZ4) e Grupo Mateus (GMAT3) concentraram as atenções após apresentarem, respectivamente, um prejuízo bilionário e uma autuação tributária de R$ 1,28 bilhão.
A Raízen (RAIZ4) encerrou o quarto trimestre da safra 2025/26 com prejuízo líquido de R$ 7,3 bilhões, quase três vezes o resultado negativo registrado no mesmo período do ciclo anterior. A dívida líquida da companhia também avançou de forma expressiva e chegou a R$ 58,2 bilhões.
O Grupo Mateus (GMAT3), por sua vez, informou que uma de suas controladas recebeu um auto de infração da Receita Federal relacionado ao tratamento tributário de créditos presumidos de ICMS. A varejista afirmou que contestará a cobrança e classificou a possibilidade de perda como possível, sem constituir provisão no balanço até o momento.
Os acontecimentos ocorrem em um ambiente de juros elevados, crédito mais restritivo e maior seletividade na B3 (B3SA3). Nesse cenário, investidores passaram a observar com ainda mais atenção a capacidade das empresas de gerar caixa, administrar dívidas e enfrentar passivos tributários ou regulatórios.
Também entrou no radar do mercado a situação da Braskem (BRKM5), que teve seus ratings rebaixados após obter proteção judicial temporária para negociar dívidas financeiras. O caso, porém, possui natureza diferente e está relacionado principalmente à estrutura de capital da petroquímica.
Raízen (RAIZ4) amplia prejuízo para R$ 7,3 bilhões
A Raízen (RAIZ4) registrou prejuízo líquido de R$ 7,3 bilhões no quarto trimestre da safra 2025/26, ante uma perda de aproximadamente R$ 2,5 bilhões no mesmo período do ciclo anterior.
A piora foi de cerca de 192% na comparação anual.
A receita líquida recuou 11,1%, para R$ 51,3 bilhões. O Ebitda ajustado, entretanto, avançou 46% e alcançou R$ 2,8 bilhões.
O contraste entre o crescimento do indicador operacional e o aumento do prejuízo demonstra que a Raízen (RAIZ4) continua sendo pressionada por fatores financeiros e contábeis que vão além do funcionamento cotidiano de seus negócios.
O Ebitda mede o resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização. Por isso, uma empresa pode apresentar melhora operacional e, ao mesmo tempo, registrar prejuízo líquido caso despesas financeiras, ajustes contábeis e outras obrigações consumam os ganhos obtidos nas operações.
No caso da Raízen (RAIZ4), o endividamento elevado passou a ocupar posição central na análise do balanço.
Dívida líquida chega a R$ 58,2 bilhões
A dívida líquida da Raízen (RAIZ4) aumentou 69,9% em um ano e atingiu R$ 58,2 bilhões.
No mesmo período da safra anterior, o indicador estava próximo de R$ 34,3 bilhões.
A expansão do endividamento reduz a flexibilidade financeira da companhia e amplia os gastos com juros, especialmente em um ambiente de taxas elevadas no Brasil.
A Raízen (RAIZ4) atua em atividades que exigem grande volume de capital, incluindo produção agrícola, usinas, logística, distribuição de combustíveis e projetos de energia renovável.
Quando a geração de caixa fica abaixo do necessário para financiar investimentos, despesas e compromissos financeiros, a companhia precisa recorrer a novas dívidas, venda de ativos ou aportes dos acionistas.
A Raízen (RAIZ4) já iniciou um processo de reorganização financeira que prevê renegociação com credores, redução de custos, diminuição de investimentos e possível conversão de parte das dívidas em ações.
Distribuição de combustíveis foi destaque positivo
Apesar do prejuízo consolidado, a operação de distribuição de combustíveis da Raízen (RAIZ4) no Brasil apresentou melhora.
O Ebitda ajustado desse segmento avançou 60,4%, para R$ 1,7 bilhão.
A companhia atribuiu o crescimento ao aumento dos volumes comercializados, à recuperação de margens e aos ganhos de eficiência.
A operação inclui a rede de postos Shell (SHEL) e possui importância estratégica por sua presença nacional e geração recorrente de receitas.
O segmento de açúcar, etanol e bioenergia, por outro lado, continuou pressionado por condições climáticas desfavoráveis, menor disponibilidade de cana e redução da moagem.
A Raízen (RAIZ4) também enfrenta oscilações nos preços das commodities, no câmbio e nos custos agrícolas e industriais.
Cortes não impediram piora financeira
A Raízen (RAIZ4) informou ter reduzido aproximadamente R$ 1 bilhão em custos e despesas ao longo da safra.
Os investimentos também foram diminuídos em R$ 3,3 bilhões na comparação com o ciclo anterior.
As medidas fazem parte de uma estratégia destinada a preservar caixa e simplificar as operações.
O resultado mostra, entretanto, que os cortes ainda não foram suficientes para compensar o peso do endividamento e dos demais efeitos sobre o balanço.
A companhia precisará demonstrar nos próximos trimestres que consegue transformar a melhora operacional em geração efetiva de caixa.
Sem esse avanço, a redução da dívida dependerá principalmente de capitalizações, desinvestimentos e renegociações com credores.
Reestruturação pode provocar diluição em RAIZ4
O plano financeiro da Raízen (RAIZ4) prevê aporte de capital, refinanciamento de dívidas e conversão de parte dos créditos em ações.
A Shell (SHEL), uma das controladoras da companhia, deverá participar de uma capitalização de R$ 3,5 bilhões.
A entrada de recursos pode reforçar o caixa e reduzir parte da pressão financeira.
Para os acionistas de RAIZ4, porém, existe o risco de diluição.
Caso novas ações sejam emitidas para receber aportes ou converter dívidas, a participação proporcional dos investidores atuais poderá diminuir.
O tamanho do impacto dependerá do preço de emissão, da quantidade de ações criadas e da participação dos atuais acionistas na operação.
Grupo Mateus (GMAT3) recebe cobrança de R$ 1,28 bilhão
O Grupo Mateus (GMAT3) informou que sua controlada Armazém Mateus foi autuada pela Receita Federal em R$ 1,28 bilhão.
O valor total é composto por:
- R$ 492,9 milhões referentes ao crédito tributário principal;
- R$ 789,1 milhões em multas e juros.
A cobrança está relacionada à exclusão de créditos presumidos de ICMS das bases de cálculo do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido.
A discussão envolve os exercícios fiscais de 2022 e 2023.
Créditos presumidos de ICMS são benefícios concedidos pelos Estados para incentivar investimentos, reduzir custos ou estimular determinadas atividades econômicas.
A controvérsia ocorre quando empresas deixam de incluir esses valores na base de incidência dos tributos federais.
Autuação não exige pagamento imediato
A autuação não representa uma condenação definitiva nem obriga o Grupo Mateus (GMAT3) a realizar um desembolso imediato de R$ 1,28 bilhão.
A companhia poderá apresentar defesa na esfera administrativa e contestar os argumentos utilizados pela fiscalização.
Caso o desfecho administrativo seja desfavorável, o Grupo Mateus (GMAT3) ainda poderá recorrer ao Poder Judiciário.
Disputas tributárias envolvendo grandes empresas costumam se estender durante anos.
O efeito financeiro imediato depende principalmente da classificação contábil atribuída ao processo.
O Grupo Mateus (GMAT3) informou que, após avaliação inicial de seus assessores jurídicos, considera possuir argumentos relevantes para contestar a cobrança.
A possibilidade de perda foi classificada como possível.
Por que o Grupo Mateus (GMAT3) não fez provisão
As normas contábeis diferenciam contingências classificadas como remotas, possíveis ou prováveis.
Quando a chance de perda é considerada possível, a empresa normalmente divulga o risco em notas explicativas ou fatos relevantes, mas não reconhece obrigatoriamente uma despesa no balanço.
A provisão costuma ser necessária quando a perda é avaliada como provável e o valor pode ser estimado com razoável segurança.
Por isso, o Grupo Mateus (GMAT3) não registrou, até o momento, uma provisão equivalente ao valor integral da autuação.
Essa avaliação poderá mudar conforme o processo avance.
Uma decisão administrativa desfavorável, uma alteração de jurisprudência ou uma nova análise dos advogados pode levar a companhia a revisar a classificação.
Multas e juros superam o valor principal
Os R$ 789,1 milhões cobrados em multas e juros são superiores ao valor principal de R$ 492,9 milhões.
Os encargos representam aproximadamente 62% do total da autuação.
Essa diferença evidencia como passivos tributários podem crescer ao longo do tempo.
Caso a cobrança seja mantida integralmente, o impacto poderá alcançar o fluxo de caixa, o endividamento e a capacidade de investimento do Grupo Mateus (GMAT3).
Se a companhia conseguir cancelar parte ou a totalidade do auto, o efeito final poderá ser significativamente menor do que o valor inicialmente divulgado.
Para os investidores de GMAT3, o principal ponto será acompanhar a evolução da defesa e eventuais mudanças na classificação do risco.
Raízen (RAIZ4) e Grupo Mateus (GMAT3) enfrentam riscos diferentes
Embora os dois acontecimentos tenham chamado atenção no mesmo período, eles representam riscos de naturezas distintas.
A Raízen (RAIZ4) enfrenta um problema financeiro imediato, caracterizado por prejuízo elevado, crescimento da dívida e necessidade de reorganização da estrutura de capital.
O Grupo Mateus (GMAT3) enfrenta uma disputa tributária que ainda está em fase administrativa e não exige desembolso imediato.
A Raízen (RAIZ4) precisa melhorar sua geração de caixa e reduzir o endividamento.
O Grupo Mateus (GMAT3) precisa sustentar juridicamente o tratamento tributário adotado nos exercícios questionados pela Receita Federal.
Para o mercado, essa diferença é fundamental.
Uma contingência possível não produz necessariamente o mesmo impacto de uma dívida financeira já contratada e com vencimentos definidos.
Braskem (BRKM5) também permanece no radar
Além de Raízen (RAIZ4) e Grupo Mateus (GMAT3), os investidores acompanham a situação da Braskem (BRKM5).
A petroquímica teve sua nota rebaixada para D pela S&P Global e para C pela Fitch Ratings após obter uma tutela cautelar de 60 dias contra medidas de execução promovidas por credores financeiros.
A Braskem (BRKM5) pretende utilizar o período para negociar sua estrutura de capital.
A proteção está concentrada nas obrigações financeiras e, segundo a companhia, não altera os pagamentos a fornecedores, funcionários, clientes e demais parceiros operacionais.
O caso reforça o ambiente de maior cautela entre investidores, mas possui dinâmica distinta das dificuldades enfrentadas pela Raízen (RAIZ4) e da autuação recebida pelo Grupo Mateus (GMAT3).
Juros elevados ampliam pressão sobre empresas da B3 (B3SA3)
Os três acontecimentos ocorrem em um ambiente de taxas de juros ainda elevadas.
Esse cenário aumenta as despesas financeiras das companhias endividadas e torna a captação de novos recursos mais cara.
A renda fixa também se torna mais competitiva em relação às ações, levando investidores a exigir retornos maiores para permanecerem na B3 (B3SA3).
Empresas com elevada alavancagem passam a enfrentar maior dificuldade para refinanciar dívidas e financiar investimentos.
Companhias com passivos tributários ou regulatórios relevantes também podem sofrer aumento da percepção de risco.
O mercado tende a favorecer negócios com geração de caixa previsível, baixo endividamento e maior capacidade de absorver imprevistos.
Investidores devem avaliar cada risco separadamente
A sequência de notícias não significa que todas as empresas enfrentem o mesmo nível de dificuldade.
A Raízen (RAIZ4) precisa executar uma reestruturação financeira capaz de reduzir a dívida de R$ 58,2 bilhões e recuperar a geração de caixa.
O Grupo Mateus (GMAT3) precisa demonstrar que possui fundamentos jurídicos suficientes para cancelar ou reduzir a autuação de R$ 1,28 bilhão.
A Braskem (BRKM5) tenta alcançar um acordo com credores durante o período de proteção judicial.
Em cada caso, o impacto sobre os acionistas dependerá de fatores específicos.
Na Raízen (RAIZ4), os principais riscos são endividamento, diluição e desempenho operacional.
No Grupo Mateus (GMAT3), os pontos centrais são o andamento do processo tributário, uma eventual provisão e o impacto sobre o caixa.
Na Braskem (BRKM5), o mercado acompanha a renegociação das dívidas e as condições de uma possível reestruturação.
Próximos passos entram no radar do mercado
Para a Raízen (RAIZ4), os investidores deverão acompanhar:
- evolução da dívida líquida;
- conclusão do plano de reestruturação;
- aporte dos acionistas;
- venda de ativos;
- geração de caixa;
- desempenho das operações de combustíveis, açúcar e etanol.
No Grupo Mateus (GMAT3), os principais pontos serão:
- apresentação da defesa administrativa;
- posicionamento da Receita Federal;
- eventual mudança na classificação da contingência;
- necessidade de constituir provisão;
- possível judicialização do processo.
Na Braskem (BRKM5), o mercado acompanhará a mediação com credores e as possíveis alterações na estrutura de capital.
As respostas apresentadas pelas companhias deverão influenciar o comportamento de RAIZ4, GMAT3 e BRKM5 nos próximos meses.
Mercado exige geração de caixa e clareza
O cenário atual aumentou a importância de indicadores como dívida líquida, fluxo de caixa, liquidez e capacidade de financiamento.
Investidores passaram a exigir informações mais detalhadas sobre os planos de recuperação e sobre os riscos que podem comprometer o patrimônio das empresas.
No caso da Raízen (RAIZ4), a melhora do Ebitda precisa ser convertida em caixa e redução do endividamento.
No Grupo Mateus (GMAT3), a companhia terá de demonstrar a solidez de sua defesa e manter o mercado informado sobre mudanças relevantes no processo.
A situação da Braskem (BRKM5) continuará sendo monitorada, mas a atenção desta terça-feira se concentra principalmente no tamanho do prejuízo da Raízen (RAIZ4) e na cobrança tributária recebida pelo Grupo Mateus (GMAT3).
Os desdobramentos deverão permanecer no radar da B3 (B3SA3) à medida que novos balanços, decisões administrativas e propostas de reestruturação forem divulgados.







