Recuperação judicial da Fictor: fundo perde 70%, PF investiga e credores questionam valores
O cenário financeiro da Fictor Holding se consolidou como um caso emblemático de instabilidade no mercado de crédito privado. Documentos recentes mostram que um fundo gerido pela NorthSea Capital e administrado pela Qore Investimentos aumentou significativamente sua exposição à companhia pouco antes da formalização da recuperação judicial da Fictor, resultando em perdas superiores a 70% do patrimônio líquido do fundo. O episódio expõe falhas de governança, riscos de concentração e fragilidades na supervisão de fundos de crédito privado, além de levantar preocupações para investidores institucionais e reguladores.
Fundo Kadesh sofre perdas expressivas
O Kadesh Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), administrado pela Qore e gerido pela NorthSea, direcionou quase metade do seu patrimônio líquido para ativos emitidos pela Fictor Holding em janeiro de 2026. O fundo passou a registrar um depósito a prazo e outros títulos da companhia avaliados em R$ 15,49 milhões, equivalentes a 48,65% do patrimônio total. A movimentação ocorreu enquanto clientes já reportavam atrasos em pagamentos, dividendos e resgates, sinais claros de estresse financeiro que vinham se acumulando desde dezembro do ano anterior. Em fevereiro, após o pedido formal de recuperação judicial da Fictor, o patrimônio do fundo despencou de R$ 31,8 milhões para R$ 9,65 milhões, representando uma queda de 70%. A Qore justificou o prejuízo pela aplicação da provisão para devedores duvidosos (PDD), devido ao aumento do risco de inadimplência após a entrada do pedido de recuperação judicial.
Conexão com o Banco Master e fundos associados
A NorthSea Capital possui histórico de operações vinculadas ao Banco Master. Entre elas, o fundo Delta, também sob sua gestão, foi utilizado pelo banco de Daniel Vorcaro na aquisição de ações do Banco de Brasília (BRB). Essa rede de conexões evidencia a complexidade das estruturas societárias e financeiras, com interdependência entre fundos, emissores de crédito e instituições financeiras, reforçando o alerta regulatório sobre concentração de risco e exposição sistêmica.
Credores contestam valores e ampliam incertezas
A lista de credores da Fictor tem gerado polêmica. A Sefer Investimentos, segunda maior credora com R$ 430 milhões, contestou sua inclusão na relação, alegando atuar apenas como representante legal de terceiros. A American Express aparece como maior credora individual, com R$ 893,1 milhões, mas nega ter relação direta com a Fictor. Além disso, o ex-sócio Luiz Phillippe Gomes Rubini figura com R$ 34,4 milhões a receber, reforçando a percepção de sobreposição entre interesses societários e passivo financeiro. A recuperação judicial da Fictor expõe a complexidade das relações entre credores, fundos e sócios, aumentando a necessidade de transparência e rigor na comunicação de débitos ao mercado.
Transferência de FIDCs poucos dias antes do pedido
Poucos dias antes do protocolo da recuperação judicial, a Fictor transferiu a administração de três FIDCs — Fictor Consignado, Fictor Consignado II e FIDC Fictor — para a Qore. A administradora declarou atuar apenas como fiduciária, sem participação econômica nos fundos, e afirmou que a transferência é procedimento regular de governança. Entretanto, a sequência temporal levanta questionamentos sobre a estratégia da companhia em reorganizar ativos e exposições antes do colapso financeiro formal.
Justiça bloqueia bens de sócios
O Tribunal de Justiça de São Paulo determinou o bloqueio de bens de sócios e ex-sócios da Fictor, incluindo Rafael Góis, Luiz Phillippe Gomes Rubini e Rafael Paixão. As medidas foram fundamentadas em indícios de fraude, confusão patrimonial e sinais de esvaziamento de ativos, intensificando a pressão sobre a companhia durante a recuperação judicial da Fictor.
Operação Fallax da Polícia Federal
A Polícia Federal deflagrou a Operação Fallax, colocando a Fictor no centro de investigações sobre fraudes bancárias e lavagem de dinheiro. Segundo a PF, os responsáveis pelo grupo atuaram como núcleo estruturante do esquema, simulando liquidez e movimentações entre empresas ligadas. Parte dos valores investigados teria origem em células criminosas vinculadas ao Comando Vermelho. Rafael Góis e Luiz Rubini estão entre os alvos de busca e apreensão, reforçando a gravidade das suspeitas.
Impactos no mercado de crédito privado
A recuperação judicial da Fictor evidencia riscos estruturais no mercado de fundos de crédito privado. A concentração de ativos de alto risco aliada à falta de transparência sobre credores e sócios ressalta a necessidade de práticas robustas de governança, auditoria e supervisão regulatória. Investidores institucionais começam a reavaliar exposição a fundos e emissores de crédito concentrado, aumentando a cautela em operações futuras.
Próximos passos para a Fictor
O futuro da companhia permanece incerto. A recuperação judicial da Fictor deverá percorrer etapas complexas de apuração de responsabilidades, reestruturação de dívidas e definição de ativos recuperáveis. Enquanto isso, o caso consolida-se como um dos episódios mais emblemáticos do mercado financeiro recente, envolvendo perdas em fundos de investimento, questionamentos sobre credores, intervenção judicial e policial e riscos sistêmicos no mercado de crédito privado. Acompanhar os desdobramentos será essencial para investidores, reguladores e analistas do setor.









