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Dois anos privatizada: Sabesp (SBSP3) dobra investimentos e enfrenta teste decisivo até 2029

Companhia acelera obras de água e esgoto, melhora resultados operacionalização em áreas informais e rurais concentra os maiores riscos.

por João Souza
23/07/2026 às 12h12
em Empresas
Sabesp (Sbsp3) - Gazeta Mercantil

A Sabesp (SBSP3) completa nesta quinta-feira, 23 de julho, dois anos sob controle privado com o maior volume de investimentos de sua história, melhoso Paulo. O balanço do período, no entanto, mostra que a etapa mais complexa do novo contrato ainda está em execução: ampliar redes de água e esgoto em áreas informais, rurais e periféricas até 2029, sem comprometer tarifas, qualidade do serviço e equilíbrio financeiro.

A mudança de controle foi concluída em 23 de julho de 2024, após a liquidação da oferta secundária de ações conduzida pelo governo paulista. A operação movimentou aproximadamente R$ 14,7 bilhões e reduziu a participação do Estado de São Paulo, então controlador da companhia, de 50,3% para 18,3%.

A Equatorial Energia (EQTL3) adquiriu 15% da Sabesp (SBSP3) por R$ 6,9 bilhões e passou a ocupar a posição de investidora de referência. Os demais papéis foram distribuídos entre investidores institucionais, pessoas físicas, funcionários e aposentados da companhia.

Como a oferta foi integralmente secundária, o dinheiro obtido com a venda das ações pertenceu ao governo estadual e não entrou diretamente no caixa da Sabesp. O financiamento das obras passou a depender da geração operacional da empresa, da contratação de dívida e da capacidade de acessar o mercado de capitais.

A estrutura acionária atual mostra o Estado com 18% do capital da Sabesp (SBSP3), enquanto a Equatorial Energia (EQTL3) mantém 15%. Outros acionistas, incluindo investidores estrangeiros por meio de recibos negociados nos Estados Unidos, concentram a maior parte das ações.

Investimentos saltam de R$ 6,9 bilhões para R$ 15,2 bilhões

O principal resultado dos dois primeiros anos da privatização aparece na execução de obras. A Sabesp (SBSP3) investiu R$ 15,2 bilhões em 2025, crescimento de 120% em relação aos R$ 6,9 bilhões aplicados em 2024.

O desembolso superou o padrão histórico da companhia, que havia permanecido durante vários anos em um nível anual próximo de R$ 7 bilhões. Somente no quarto trimestre de 2025, os investimentos chegaram a R$ 4,77 bilhões, alta de 73,5% na comparação anual.

A maior parte do dinheiro foi destinada ao esgotamento sanitário. Dos R$ 15,2 bilhões investidos em 2025, R$ 10,28 bilhões foram aplicados em redes, estações e projetos de esgoto. Outros R$ 4,92 bilhões foram direcionados ao abastecimento de água.

A expansão continuou no início de 2026. Entre janeiro e março, a Sabesp (SBSP3) investiu R$ 3,73 bilhões, avanço de 30,8% sobre o mesmo trimestre do ano anterior.

O investimento em sistemas de água mais que dobrou, alcançando R$ 1,24 bilhão. Os projetos de esgoto receberam R$ 2,49 bilhões, crescimento de 11,2%.

O ritmo reflete a antecipação das metas previstas no marco nacional do saneamento. Enquanto a legislação federal estabelece 2033 como prazo para a universalização, o contrato paulista determinou que a Sabesp alcance os principais objetivos até 2029.

Meta mais difícil está fora das áreas urbanas formais

Os indicadores divulgados pela Sabesp (SBSP3) até junho de 2026 mostram que as metas acumuladas avançaram mais rapidamente nas áreas urbanas regulares.

Nas novas economias residenciais urbanas de água, a companhia atingiu 107,23% do objetivo previsto para o período. Em ligações urbanas de esgoto, o índice chegou a 99,86%.

O resultado não significa que todo o Estado já tenha alcançado a universalização. Os percentuais medem o cumprimento das metas acumuladas estabelecidas para cada etapa do contrato, e não a cobertura total da população paulista.

No tratamento de esgoto, a execução correspondia a 78,92% da meta acumulada. A Sabesp informou ter alcançado 1,37 milhão de novas economias residenciais com tratamento em 2025.

O cenário é mais desafiador nas áreas informais e rurais. As novas economias de água nesses territórios alcançaram 71,7% da meta, enquanto as ligações de esgoto chegaram a 55,81%.

Os dados ainda precisam ser validados pela Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo, a Arsesp, e pelo verificador independente previsto no contrato.

A distância entre os resultados urbanos e os indicadores das regiões informais e rurais revela onde estará o maior teste operacional dos próximos anos. Nessas áreas, as obras enfrentam obstáculos como ocupação irregular, dificuldade de acesso, licenciamento, necessidade de regularização fundiária e custo mais elevado por ligação.

Obras precisam sair do papel e chegar às residências

O desafio da universalização não se limita à contratação de projetos. Para cumprir as metas, a Sabesp (SBSP3) precisa construir estações, instalar redes e conectar efetivamente os imóveis aos sistemas de água e esgoto.

Em muitos municípios, a companhia deve ampliar primeiro a capacidade de produção e tratamento. Somente depois dessa etapa é possível conectar novas residências sem sobrecarregar a infraestrutura existente.

O contrato de concessão reúne 371 municípios dentro da Unidade Regional de Serviços de Abastecimento de Água Potável e Esgotamento Sanitário Sudeste, a URAE-1. Cada cidade possui metas, cronograma de investimentos e indicadores próprios.

A estrutura prevê acompanhamento pelo Conselho Deliberativo da URAE-1, por comitês técnicos regionais e pela Arsesp. O contrato também estabelece penalidades e impactos tarifários em caso de descumprimento.

Essa característica muda o perfil de risco da Sabesp. Antes da privatização, a execução dos investimentos era acompanhada principalmente sob a perspectiva de uma companhia controlada pelo Estado. No novo modelo, o cumprimento das metas está diretamente ligado à remuneração, à tarifa e à capacidade de distribuição de resultados aos acionistas.

O volume financeiro contratado não será suficiente para determinar o sucesso do processo. O desempenho será medido pela quantidade de domicílios efetivamente atendidos, pela regularidade do abastecimento e pelo esgoto que passar a ser coletado e tratado.

Eficiência operacional sustenta crescimento dos resultados

A aceleração dos investimentos veio acompanhada de melhora nos principais indicadores financeiros ajustados.

No primeiro trimestre de 2026, a receita líquida ajustada de serviços de saneamento chegou a R$ 6,02 bilhões, alta de 10,9% sobre igual período de 2025. O crescimento refletiu reajuste tarifário, novas economias e ações comerciais destinadas a aumentar a arrecadação.

O Ebitda ajustado, indicador que mede o resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização, atingiu R$ 3,79 bilhões. O avanço foi de 25,9%.

O lucro líquido ajustado cresceu 32,2% e alcançou R$ 1,55 bilhão. No resultado contábil reportado, o lucro foi de R$ 1,75 bilhão, aumento de 18%.

A Sabesp (SBSP3) também reduziu em 7,7% os custos e despesas operacionais ajustados, uma economia de R$ 188 milhões em relação ao primeiro trimestre do ano anterior.

O desempenho foi favorecido pelo corte de despesas com pessoal, pela queda das perdas estimadas com inadimplência e pela migração de unidades consumidoras para o mercado livre de energia.

Ao fim de março, 86% do consumo de eletricidade elegível já havia migrado para o ambiente livre. A despesa com energia caiu R$ 56 milhões na comparação anual.

Redução de funcionários amplia debate sobre qualidade

O quadro de empregados da Sabesp (SBSP3) encerrou o primeiro trimestre de 2026 com 8.927 trabalhadores, queda de 8% em 12 meses. Quando considerada a média do período, a redução chegou a 12,6%.

As despesas com salários, benefícios e obrigações previdenciárias diminuíram R$ 170 milhões. O corte ajudou a melhorar as margens e a financiar parte da expansão dos investimentos.

Para os investidores, a redução de custos reforça a tese de eficiência operacional após a mudança de controle. A avaliação, porém, depende da capacidade de manter a qualidade do atendimento em um momento de aumento expressivo das obras.

A companhia precisa administrar simultaneamente redes existentes, emergências operacionais, expansão do sistema, relacionamento com consumidores e milhares de contratos de construção.

Uma estrutura mais enxuta pode elevar a produtividade, mas também exige controle sobre prestadores terceirizados, manutenção preventiva e resposta rápida a falhas no abastecimento.

A Arsesp é responsável por fiscalizar o cumprimento das metas, os indicadores de qualidade e as condições de atendimento nos municípios regulados.

Endividamento cresce para financiar expansão

O aumento do investimento também produziu reflexos no balanço. Os empréstimos e financiamentos de longo prazo da Sabesp (SBSP3) chegaram a R$ 46,77 bilhões ao fim de março de 2026, ante R$ 35,05 bilhões no encerramento de 2025.

No primeiro trimestre, a companhia realizou R$ 13,87 bilhões em novas captações e amortizou R$ 1,55 bilhão em dívidas.

O resultado financeiro negativo atingiu R$ 1,03 bilhão, pressionado pelo aumento do endividamento, pelos juros e por instrumentos financeiros.

A expansão da dívida não representa, isoladamente, deterioração da companhia. Empresas de infraestrutura utilizam financiamento de longo prazo para antecipar obras que serão remuneradas ao longo da concessão.

O risco está na combinação entre juros elevados, eventuais atrasos nos projetos e demora na incorporação dos ativos à base de remuneração regulatória.

A Sabesp precisará demonstrar que o aumento do capital investido será acompanhado por geração de caixa suficiente para pagar a dívida, cumprir as metas e remunerar os acionistas.

Compra da Emae reforça estratégia de segurança hídrica

A aquisição do controle da Empresa Metropolitana de Águas e Energia, a Emae, ampliou o alcance da estratégia da Sabesp (SBSP3).

A companhia comprou inicialmente 70% da empresa por R$ 1,13 bilhão. A operação foi aprovada sem restrições pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, após análise dos possíveis impactos concorrenciais.

A Emae administra reservatórios, canais, barragens e ativos de geração de energia relevantes para a Região Metropolitana de São Paulo. Entre os sistemas associados à empresa estão estruturas ligadas às represas Billings e Guarapiranga.

A integração pode reforçar o planejamento hídrico da Sabesp e ampliar a coordenação entre abastecimento, controle de reservatórios e geração de energia.

A operação também acrescenta complexidade ao grupo. A administração precisará capturar as sinergias sem desviar recursos e capacidade executiva do programa de universalização.

A segurança hídrica ganhou peso após a queda do nível dos reservatórios no fim de 2025. A Sabesp adotou redução de pressão durante determinados períodos, intensificou campanhas de consumo racional e ajustou a operação dos sistemas produtores.

Tarifa será o ponto mais sensível para consumidores

A privatização permanece cercada por uma disputa política e econômica sobre o custo do serviço.

O governo paulista sustenta que o modelo permite antecipar investimentos, reduzir ineficiências e preservar tarifas mais baixas, especialmente para famílias vulneráveis. O contrato também prevê fundos municipais e mecanismos de controle regulatório.

Os críticos da privatização argumentam que a busca por rentabilidade pode aumentar a pressão sobre reajustes, reduzir a capacidade de intervenção direta do Estado e afetar consumidores de baixa renda.

Os resultados do primeiro trimestre mostram que o aumento de clientes enquadrados em tarifas subsidiadas já reduz parte do ganho médio de receita por ligação.

Esse efeito tende a crescer à medida que a Sabesp amplia o atendimento em regiões vulneráveis. A empresa terá de compensar o menor valor médio dessas tarifas por meio de escala, eficiência e redução de perdas.

O equilíbrio entre modicidade tarifária e retorno sobre o investimento será um dos principais temas das revisões regulatórias. Tarifas muito baixas podem prejudicar o financiamento das obras, enquanto aumentos excessivos podem gerar inadimplência, desgaste político e reação dos consumidores.

Mercado mantém visão positiva sobre Sabesp (SBSP3)

A cobertura de analistas divulgada pela própria companhia mostra uma avaliação predominantemente favorável sobre as ações da Sabesp (SBSP3).

Entre 15 instituições financeiras listadas na página de Relações com Investidores, 14 mantinham recomendação de compra e uma classificava o papel como neutro em 7 de julho de 2026.

Os preços-alvo divulgados variavam de R$ 29 a R$ 40, considerando os ajustes societários realizados pela empresa.

A preferência dos analistas está ligada à previsibilidade da receita, ao caráter essencial do serviço, ao ambiente regulatório e ao potencial de crescimento decorrente das novas ligações.

A tese também considera os ganhos de eficiência e a possibilidade de geração de caixa mais elevada depois da conclusão do ciclo pesado de investimentos.

Os riscos permanecem concentrados na execução das obras, no aumento da dívida, na regulação tarifária e na capacidade de cumprir as metas em áreas de maior dificuldade técnica.

Universalização definirá resultado da privatização

Os primeiros dois anos da Sabesp (SBSP3) privatizada mostram uma mudança clara de escala. A companhia mais que dobrou os investimentos anuais, reduziu custos e ampliou os resultados operacionais.

Os números urbanos indicam que a execução inicial avançou em ritmo próximo ou superior ao cronograma. O desafio agora se desloca para as regiões informais e rurais, onde os indicadores permanecem mais distantes das metas acumuladas.

A empresa entra nos três anos finais antes de 2029 com milhares de obras a executar, endividamento maior e cobrança crescente de consumidores, municípios, reguladores e investidores.

O sucesso da privatização não será definido apenas pela valorização das ações ou pelo crescimento do lucro. A avaliação dependerá da capacidade de levar água e esgoto a quem ainda não tem acesso, preservar a qualidade e manter tarifas compatíveis com a renda da população.

É nessa etapa, mais cara e operacionalmente mais difícil, que a Sabesp terá de demonstrar se o aumento de eficiência e a disciplina financeira conseguem produzir a universalização prometida no novo contrato.

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