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Santander (SANB11) capta R$ 600 milhões e reforça capital regulatório

Banco emite letras financeiras subordinadas com prazo de dez anos para reforçar o Capital Nível II sem realizar nova oferta de ações.

por João Souza
21/08/2026 às 18h28
em Mercados
Santander (Sanb11) Capta R$ 600 Milhões E Reforça Capital Regulatório - Gazeta Mercantil - Mercados

O Santander Brasil (SANB11) captou R$ 600,3 milhões por meio da emissão de letras financeiras subordinadas, uma operação que permite ao banco reforçar sua estrutura de capital regulatório sem recorrer à emissão de novas ações. Os títulos foram negociados de forma privada com investidores, possuem prazo de dez anos e poderão ser recomprados pela instituição a partir de 2031, desde que sejam respeitadas as condições estabelecidas pela regulamentação bancária.

Os recursos foram estruturados para integrar o Nível II do Patrimônio de Referência (PR) do Santander. Na prática, isso significa que os R$ 600,3 milhões não representam simplesmente uma captação comum para financiar empréstimos ou reforçar o caixa cotidiano: os instrumentos foram desenhados para funcionar como uma camada adicional de proteção do balanço e absorção de perdas dentro das regras prudenciais aplicadas às instituições financeiras.

A distinção é especialmente importante para quem acompanha SANB11. A operação aumenta o capital regulatório total do banco, mas não representa aumento de capital social e não cria novas ações. Os atuais acionistas, portanto, não sofrem diluição. Ao mesmo tempo, como os recursos são obtidos por meio de dívida subordinada, o Santander terá um custo financeiro associado à remuneração dos investidores, cujas condições não foram detalhadas no comunicado ao mercado.

O movimento ocorre quando o banco já apresenta índices de capital confortáveis. No encerramento do segundo trimestre de 2026, o Santander registrava Índice de Basileia de 15,3%, alta de 0,2 ponto percentual sobre março e de 0,3 ponto em relação a junho de 2025. O capital principal, medido pelo CET1, estava em 11,2%. Os números mostram que a captação não deve ser interpretada automaticamente como resposta a uma situação emergencial de capitalização, mas como parte da gestão da estrutura prudencial de um banco com uma carteira ampliada de crédito de R$ 714,8 bilhões.

O que o Santander está fazendo com os R$ 600 milhões

Para compreender a operação, é necessário separar três conceitos que muitas vezes aparecem misturados: dinheiro captado, patrimônio contábil e capital regulatório. Uma instituição financeira pode captar recursos emitindo diferentes tipos de dívida, mas apenas determinados instrumentos que atendem a requisitos específicos do Banco Central podem ser reconhecidos como parte do Patrimônio de Referência utilizado para medir sua capacidade de absorver perdas.

O Patrimônio de Referência é formado pelo Nível I e pelo Nível II. O Nível I inclui o Capital Principal, considerado a camada de maior qualidade, e o Capital Complementar. Já o Nível II pode incorporar determinados instrumentos subordinados de longo prazo que cumpram requisitos prudenciais definidos pelo regulador.

É nessa segunda categoria que entram as letras financeiras emitidas pelo Santander.

A Resolução BCB nº 122 estabelece as condições para que recursos captados por meio de letras financeiras possam ser reconhecidos no Patrimônio de Referência. Para integrar o Nível II, os títulos precisam possuir cláusulas específicas de subordinação e absorção de perdas. A regulamentação determina, entre outras condições, que o pagamento desses instrumentos fique subordinado a outros passivos em caso de dissolução da instituição e estabelece restrições para recompra ou resgate antecipado.

Essa característica explica por que o título ajuda o banco a cumprir requisitos prudenciais. Para o investidor que compra a letra financeira, a subordinação significa assumir uma posição de maior risco do que a de um credor bancário comum. Em uma situação extrema de liquidação ou inviabilidade da instituição, esses instrumentos foram concebidos justamente para absorver perdas antes de determinadas obrigações mais protegidas.

Em contrapartida, títulos subordinados normalmente precisam oferecer remuneração compatível com esse risco adicional.

Capital Nível II não é a mesma coisa que CET1

Um dos pontos mais importantes para avaliar a operação é que os R$ 600,3 milhões não aumentam diretamente o CET1 do Santander.

O CET1, ou Common Equity Tier 1, é formado essencialmente pelo capital de maior capacidade de absorção de perdas, como ações ordinárias, reservas e lucros elegíveis depois dos ajustes prudenciais aplicáveis. É a parcela mais observada por reguladores e investidores quando se avalia a solidez estrutural de um banco.

O Capital Nível II fica abaixo dessa camada na hierarquia prudencial. Ele aumenta o Patrimônio de Referência total e, consequentemente, pode melhorar a capacidade do banco de cumprir os requisitos globais de capital, mas não possui exatamente a mesma qualidade do capital principal.

Essa diferença ajuda a interpretar os números do segundo trimestre. O Santander terminou junho com Basileia de 15,3% e CET1 de 11,2%. Enquanto o índice total avançou na comparação trimestral, o CET1 recuou 0,1 ponto percentual frente a março e 0,4 ponto em 12 meses.

A nova emissão reforça justamente a parte do capital que fica fora do CET1.

Isso permite ao Santander aumentar a proteção regulatória sem exigir que os acionistas realizem novos aportes ou que o banco retenha imediatamente uma quantidade maior de lucros.

Por que não emitir novas ações?

Para um banco listado em bolsa, existem diferentes maneiras de aumentar sua capacidade de capitalização. Uma delas seria realizar uma oferta de ações. Nesse caso, novos papéis poderiam ser emitidos e os acionistas existentes estariam sujeitos a diluição caso não acompanhassem proporcionalmente o aumento de capital.

O Santander escolheu uma estrutura diferente.

Ao emitir R$ 600,3 milhões em letras financeiras subordinadas, o banco consegue acrescentar um instrumento elegível ao capital prudencial mantendo inalterado o número de ações. Para quem possui SANB11, essa é uma das principais diferenças econômicas da operação.

A vantagem vem acompanhada de um custo. Capital obtido por dívida precisa ser remunerado. O comunicado não informou qual taxa será paga aos investidores que adquiriram os títulos, e essa informação será relevante para avaliar o custo efetivo da captação.

Diferentemente de uma emissão de ações, portanto, a operação não dilui participação societária, mas cria uma obrigação financeira de longo prazo.

A escolha entre capital próprio e instrumentos subordinados faz parte da gestão de capital de praticamente todos os grandes bancos. O objetivo é encontrar uma composição que permita manter folga sobre os requisitos regulatórios sem tornar excessivamente elevado o custo de financiamento da instituição.

Prazo de dez anos é parte importante da estrutura

As letras financeiras emitidas pelo Santander possuem vencimento em dez anos, característica compatível com a função que os títulos desempenham no capital do banco.

Capital regulatório não pode depender excessivamente de recursos que possam desaparecer em poucos meses. Para que um instrumento seja utilizado como proteção contra perdas, o regulador exige características capazes de garantir sua permanência no balanço por um período suficientemente longo.

O Santander terá uma opção de recompra a partir de 2031, mas isso não deve ser confundido com vencimento antecipado garantido aos investidores. A recompra é uma opção da instituição e precisa respeitar os requisitos regulatórios vigentes no momento em que eventualmente for exercida.

A Resolução BCB nº 122 estabelece que a recompra e o resgate antecipado de letras financeiras utilizadas para compor o Patrimônio de Referência estão sujeitos às condições prudenciais e, em determinadas situações, à autorização do Banco Central.

Portanto, o fato de existir uma possibilidade de recompra em 2031 não significa que os papéis necessariamente serão retirados de circulação naquele ano.

Santander chega à captação com R$ 714,8 bilhões em crédito

A emissão também deve ser analisada dentro do tamanho do balanço do banco. Ao final de junho, a carteira ampliada de crédito do Santander alcançava R$ 714,769 bilhões, crescimento de 5,8% em 12 meses e de 1,3% frente ao primeiro trimestre.

As operações com pessoas físicas somavam R$ 263,4 bilhões, enquanto a carteira de pequenas e médias empresas chegava a R$ 96 bilhões e a de grandes empresas atingia aproximadamente R$ 254,6 bilhões. Crédito imobiliário e financiamento ao consumo continuaram entre as principais linhas de crescimento do banco.

Quanto maior a exposição de uma instituição a crédito e outros ativos sujeitos a risco, maior é também o volume de capital necessário para sustentar essas operações dentro das normas prudenciais.

Por isso, bancos costumam administrar capital de maneira prospectiva. A instituição não espera necessariamente que seus índices se aproximem do mínimo regulatório para buscar instrumentos adicionais. Pode antecipar necessidades decorrentes do crescimento da carteira, de mudanças no risco dos ativos, de aquisições, do pagamento de dividendos ou de alterações regulatórias.

Nesse sentido, a emissão de R$ 600,3 milhões oferece uma camada adicional de flexibilidade financeira ao Santander.

Captação ocorre após lucro recuar no segundo trimestre

A decisão também acontece depois de um trimestre de resultados mais fracos. O Santander registrou lucro líquido recorrente de R$ 3,014 bilhões no segundo trimestre, queda de 20,4% em relação aos três primeiros meses do ano e de 17,6% na comparação com o mesmo período de 2025.

O retorno recorrente sobre o patrimônio médio, o ROAE, caiu para 12,5%, ante níveis superiores nos períodos anteriores. Ao mesmo tempo, o resultado de provisões para devedores duvidosos aumentou e o custo de crédito chegou a 3,81%. A inadimplência acima de 90 dias da carteira ampliada ficou em 5,1%, com maior pressão entre pessoas físicas.

Esses números não significam que o banco esteja com problemas de solvência. O próprio Índice de Basileia aumentou no trimestre. Eles mostram, porém, um ambiente no qual crescimento, risco de crédito, rentabilidade e capital precisam ser administrados simultaneamente.

É justamente nesse cenário que instrumentos subordinados podem ganhar relevância: permitem aumentar a folga regulatória sem depender exclusivamente dos lucros gerados internamente.

O que muda para o investidor de SANB11

Para os acionistas, o efeito mais direto é a ausência de diluição. O Santander não está emitindo novas units, ações ordinárias ou preferenciais. A participação relativa de quem já possui SANB11 permanece inalterada apenas por causa dessa transação.

A operação também fortalece a capacidade total de absorção de perdas do banco e amplia sua margem para administrar ativos ponderados pelo risco. Em tese, uma posição de capital mais confortável pode facilitar crescimento da carteira, absorção de volatilidade e manutenção de políticas de remuneração aos acionistas, embora nenhuma dessas consequências ocorra automaticamente apenas porque os R$ 600 milhões foram captados.

Existe também o lado do custo. As letras financeiras gerarão despesas com juros durante sua vida. Como o Santander ainda não divulgou a remuneração dos títulos, não é possível calcular quanto a emissão custará anualmente ao banco nem comparar diretamente esse custo com outras alternativas de capitalização.

Esse será um dos pontos mais importantes para uma análise financeira completa da operação.

Captação não deve ser confundida com necessidade emergencial de caixa

Outra interpretação que os números ajudam a afastar é a de que o Santander teria buscado R$ 600 milhões por falta imediata de liquidez.

O comunicado é explícito ao determinar que a emissão foi estruturada para composição do Capital Nível II do Patrimônio de Referência. Trata-se, portanto, de uma operação de gestão de capital prudencial.

O Santander encerrou junho com Índice de Basileia de 15,3%, enquanto sua carteira de crédito continuava crescendo e o banco mantinha uma base de 76,2 milhões de clientes, dos quais 34,4 milhões eram considerados ativos.

Isso não elimina a importância da emissão. Pelo contrário: mostra que grandes bancos procuram construir proteção antes que ela seja necessária.

Para uma instituição financeira, capital é uma espécie de capacidade operacional. Quanto maior a base de capital elegível em relação aos riscos assumidos, maior tende a ser a capacidade de enfrentar perdas inesperadas sem comprometer depositantes, credores seniores ou o funcionamento normal do banco.

O que falta saber sobre os R$ 600 milhões

A principal informação ainda ausente é a remuneração oferecida aos compradores das letras financeiras. Sem a taxa de juros, não é possível determinar o custo total da operação nem saber com precisão quanto o Santander está pagando para adicionar essa parcela de Capital Nível II ao balanço.

Também não foram divulgados o número de investidores que participaram da colocação nem detalhes individualizados sobre as datas de cada emissão. O banco informou que os títulos foram negociados privadamente, o que diferencia a operação de uma oferta pública destinada ao mercado de varejo.

Nos próximos demonstrativos prudenciais será possível acompanhar como o reconhecimento desses instrumentos aparecerá na composição do Patrimônio de Referência e qual será sua contribuição efetiva para os índices de capitalização.

A emissão de R$ 600,3 milhões, portanto, não transforma sozinha a situação financeira do Santander, um banco com centenas de bilhões de reais em ativos e crédito. Seu significado está na estratégia adotada: reforçar a camada de Capital Nível II enquanto preserva o capital principal e evita diluir os atuais acionistas.

Para quem acompanha SANB11, a operação deixa três pontos centrais. O Santander aumenta sua proteção regulatória, mantém intacta a estrutura acionária e assume, em contrapartida, o custo de uma dívida subordinada de longo prazo.

O tamanho desse custo — e quanto de flexibilidade os novos R$ 600 milhões acrescentarão à estratégia de crescimento e remuneração de capital do banco — serão os próximos números a observar.

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