O Santander suspendeu, em maio de 2026, a comercialização de cartões American Express para novos clientes no Brasil. Os cartões já emitidos continuam funcionando normalmente, mas o banco não esclareceu os motivos da decisão, por quanto tempo a suspensão permanecerá em vigor nem se pretende retomar a oferta da bandeira.
A medida reduz um dos principais canais de distribuição da American Express no país e reforça a concentração de sua linha tradicional de cartões no Bradesco. O episódio, entretanto, não significa o encerramento da operação brasileira nem permite concluir que a marca perdeu relevância globalmente. Ele evidencia uma dificuldade específica: transformar a reputação internacional da Amex em uma proposta competitiva dentro do mercado brasileiro de cartões premium.
A suspensão foi confirmada pelo Santander ao site Passageiro de Primeira. Na página pública em que o banco apresenta seu portfólio, os produtos atualmente destacados utilizam Visa ou Mastercard. A American Express, por sua vez, ainda mantinha, na data da consulta, uma página brasileira com os cartões emitidos pelo Santander, o que revela uma defasagem entre a comunicação pública das duas empresas.
Sem números públicos detalhados sobre cartões ativos, faturamento ou participação de mercado da Amex no Brasil, não é possível medir com precisão o tamanho da retração. Os documentos consultados mostram, contudo, uma redução objetiva na disponibilidade comercial da bandeira e uma pressão competitiva crescente sobre o The Platinum Card, produto que historicamente representou o centro da estratégia premium da companhia.
Parceria anunciada em 2022 perde seu principal impulso
A entrada do Santander como emissor da American Express foi anunciada em janeiro de 2022 como parte de uma estratégia para ampliar a oferta destinada a clientes de alta renda. O banco apresentou inicialmente os cartões American Express Gold Card, The Platinum Card e Centurion, este último reservado a clientes convidados.
Na ocasião, o Santander afirmou que a parceria uniria os benefícios internacionais da bandeira à sua estrutura de atendimento e distribuição. O acordo também reduzia a dependência da Amex em relação ao Bradesco, que havia permanecido por anos como o principal emissor da linha tradicional da marca no Brasil.
Pouco mais de quatro anos depois, a suspensão das novas propostas interrompe essa tentativa de diversificação. O Santander não informou se o contrato continua em vigor, se os produtos serão reformulados ou se a decisão está relacionada a custos, demanda, posicionamento comercial ou reorganização de seu portfólio.
Os clientes que já possuem cartões Amex emitidos pelo Santander não foram afetados. Isso diferencia a suspensão de uma retirada definitiva: não houve anúncio de cancelamento em massa, migração compulsória de bandeira ou encerramento imediato dos benefícios existentes.
A falta de um cronograma, porém, produz incerteza sobre a continuidade do projeto. Enquanto o Santander não reabrir as propostas ou apresentar uma nova estratégia, a American Express perde capacidade de conquistar novos clientes por meio de um dos maiores bancos privados do país.
Modelo global continua forte, mas operação brasileira depende de parceiros
A dificuldade brasileira contrasta com o desempenho internacional da American Express. Em seu relatório anual de 2025, a companhia informou receita de aproximadamente US$ 72 bilhões, crescimento de 10% em relação ao ano anterior, e a aquisição de 12,5 milhões de novos cartões proprietários.
Mais de 70% das novas contas abertas naquele período eram de produtos com cobrança de tarifa. A empresa também informou que seus cartões eram aceitos em mais de 170 milhões de estabelecimentos ao redor do mundo ao fim de 2025. O volume de gastos internacionais, desconsiderados os efeitos cambiais, avançou 13%.
Grande parte da vantagem competitiva da American Express em seus principais mercados está relacionada ao seu modelo de rede fechada. Nos Estados Unidos, a companhia combina atividades de bandeira, emissão, processamento e relacionamento com clientes e comerciantes. Essa integração fornece dados próprios sobre as transações e permite maior controle sobre benefícios, atendimento, fidelidade e posicionamento dos produtos.
A empresa também opera por meio de bancos parceiros em cerca de 110 países e territórios. No fim de 2025, havia 66,2 milhões de cartões emitidos por terceiros dentro de sua rede, responsáveis por US$ 227,2 bilhões em volume processado no ano. Portanto, a emissão por parceiros não é uma particularidade brasileira.
O problema local está na perda de controle sobre a distribuição e na competição dentro do próprio portfólio dos emissores. Bradesco e Santander comercializam cartões Visa e Mastercard que disputam o mesmo público de alta renda e podem oferecer pontuação, salas VIP e condições de isenção superiores às encontradas em determinados produtos Amex.
Venda da operação ao Bradesco mudou a presença da marca no país
A estrutura atual começou a ser formada em 2006, quando o Bradesco adquiriu os negócios brasileiros da American Express ligados a cartões, corretagem de seguros, viagens, câmbio de varejo e crédito direto ao consumidor.
O comunicado arquivado na Comissão de Valores Mobiliários registrou a transferência das subsidiárias locais da American Express para o banco. A operação encerrou a fase em que a companhia norte-americana controlava diretamente a emissão e grande parte do relacionamento comercial com os portadores brasileiros.
A partir daí, o desempenho da marca passou a depender mais das decisões de bancos que também possuem interesse em promover produtos concorrentes. Essa estrutura não elimina a participação da American Express na definição dos benefícios da bandeira, mas torna a proposta final condicionada a tarifas, critérios de elegibilidade, campanhas e estratégias de cada emissor.
O resultado é uma diferença significativa em relação aos Estados Unidos. No mercado norte-americano, a Amex pode reformular diretamente seus cartões, adicionar créditos para viagens ou restaurantes, alterar parceiros e investir em sua própria rede de lounges. No Brasil, essas mudanças precisam ser coordenadas com os bancos responsáveis pela emissão.
The Platinum Card enfrenta concorrentes com pontuação maior
O The Platinum Card emitido pelo Bradesco acumula 2,2 pontos por dólar em compras realizadas no Brasil e 3 pontos por dólar em transações internacionais. Os pontos não expiram enquanto o cartão permanecer ativo.
O produto também oferece acesso aos lounges Bradesco Cartões para o titular, um acompanhante e filhos de até 16 anos, além de concierge, benefícios em hotéis e acesso a salas internacionais vinculadas à American Express. A versão metálica acrescenta dois acessos anuais ao Priority Pass, conforme as condições divulgadas pelo emissor.
Esses benefícios mantêm o cartão dentro do segmento premium. O problema é que eles já não representam, isoladamente, uma vantagem clara sobre os principais concorrentes.
O Santander Unlimited, por exemplo, informa acúmulo padrão de 3 pontos por dólar em compras nacionais e 3,6 pontos no exterior. Clientes de determinados segmentos podem alcançar pontuação superior por meio do programa Santander Rewards. O acesso ilimitado a salas VIP depende do cumprimento de critérios de gastos, e as condições serão alteradas a partir de julho de 2026.
No Bradesco, o Visa Aeternum oferece 4 pontos por dólar e acesso ilimitado a salas VIP, além de uma quantidade anual de entradas para acompanhantes. A comparação é especialmente relevante porque os dois cartões são distribuídos pelo mesmo banco, que precisa decidir qual produto priorizar para seus clientes de maior patrimônio.
Esses produtos não são equivalentes em todos os aspectos. Critérios de concessão, anuidades, seguros, serviços, parceiros e possibilidades de isenção variam conforme o relacionamento do cliente com cada instituição. Ainda assim, a pontuação básica mostra que o The Platinum Card perdeu a liderança objetiva que a reputação da Amex poderia sugerir.
Visa e Mastercard ampliam a disputa pela altíssima renda
A concorrência também avançou no nível das bandeiras. A Visa lançou no Brasil, em maio de 2025, o Visa Infinite Privilege, categoria direcionada a um grupo estimado pela empresa em aproximadamente 200 mil consumidores de altíssima renda.
Segundo a Visa, cartões de crédito representavam cerca de 90% das transações financeiras realizadas pelo público analisado, enquanto viagens lideravam tanto em quantidade quanto em volume de compras. O lançamento ampliou a disputa por clientes que antes poderiam enxergar a American Express como principal símbolo de exclusividade.
A Mastercard também passou a trabalhar com categorias superiores ao Black em determinados mercados e emissores. Ao mesmo tempo, bancos brasileiros desenvolveram produtos próprios com pontuação elevada, contas internacionais, atendimento dedicado e acesso a redes globais de lounges.
Essa evolução reduziu o peso da marca como critério único de escolha. O consumidor de alta renda passou a comparar retorno em pontos, validade das recompensas, parceiros de transferência, convidados em salas VIP, seguros de viagem e possibilidades de redução da anuidade.
O prestígio da American Express continua relevante, especialmente entre consumidores que utilizam seus benefícios internacionais. Entretanto, a decisão racional passou a depender de uma combinação mais ampla de serviços, na qual o produto brasileiro nem sempre se destaca.
Mercado de cartões cresce enquanto gastos no exterior avançam
A retração da distribuição da Amex não ocorre em um mercado em declínio. Dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços mostram que os pagamentos com cartões movimentaram R$ 1,1 trilhão no primeiro trimestre de 2026, aumento de 8,3% em relação ao mesmo período de 2025.
Somente os cartões de crédito responderam por R$ 810,2 bilhões, com expansão anual de 12,8%. O país registrou 11,7 bilhões de transações com cartões entre janeiro e março.
Os gastos de brasileiros com cartões no exterior somaram US$ 5,3 bilhões no trimestre, avanço de 37% em moeda norte-americana. Convertido para reais, o total chegou a R$ 27,9 bilhões, crescimento de 23,2%.
Esses números indicam aumento do uso justamente em atividades associadas ao posicionamento histórico da American Express, como viagens e compras internacionais. Também reforçam que a perda de espaço local não pode ser explicada por falta de interesse dos brasileiros em crédito ou experiências internacionais.
O mercado tornou-se maior, mais digital e mais competitivo. Em março de 2026, os pagamentos por aproximação representaram 74,8% das transações presenciais com cartões. As compras não presenciais movimentaram R$ 310,5 bilhões no primeiro trimestre, crescimento de 18,8%.
Nesse ambiente, a bandeira precisa competir não apenas em prestígio, mas também em aceitação, integração digital, pontuação e benefícios percebidos em relação ao custo.
Lounges continuam disponíveis, mas presença física da marca diminuiu
A American Express mantém benefícios aeroportuários no Brasil, mas sua identidade física tornou-se menos evidente. A página oficial da companhia direciona os titulares elegíveis do The Platinum Card e do Centurion para duas salas operadas pela W Premium no Terminal 3 do Aeroporto Internacional de Guarulhos.
O titular do The Platinum Card pode entrar com um acompanhante, de acordo com as regras publicadas. Clientes Centurion possuem acesso a uma área reservada dentro do lounge W Premium 5th Avenue. Também permanecem disponíveis os lounges do Bradesco para clientes que atendem às condições.
A configuração preserva o benefício funcional, mas é diferente de manter uma unidade integralmente operada e identificada como Centurion Lounge. A rede própria de salas é um dos elementos mais visíveis da proposta internacional da American Express e ajuda a diferenciar a marca de programas genéricos de acesso a aeroportos.
No Brasil, o uso de operadores parceiros reduz essa diferenciação. O consumidor continua tendo onde aguardar o voo, mas encontra uma experiência compartilhada com clientes de outros bancos, bandeiras ou programas.
Centurion preserva exclusividade em uma faixa restrita
O Centurion continua sendo a principal exceção dentro da linha brasileira. O cartão é destinado a clientes convidados e acumula 5 pontos por dólar nas compras em geral e 7 pontos por dólar em companhias aéreas, hotéis, locadoras de veículos e agências de viagens, conforme as regras do programa de recompensas do Bradesco.
O produto também concentra benefícios de viagem, atendimento e transferência de pontos que não estão disponíveis nas mesmas condições para toda a base de clientes Amex.
Sua existência demonstra que a American Express ainda consegue sustentar uma proposta de alta exclusividade no Brasil. O alcance, contudo, é limitado pelo modelo de convite e pela ausência de critérios públicos amplos de elegibilidade. O Centurion reforça a imagem da marca entre clientes de patrimônio elevado, mas não substitui a necessidade de um produto competitivo para um contingente maior de consumidores premium.
Futuro da parceria com o Santander permanece indefinido
O próximo desdobramento depende de uma manifestação formal do Santander ou da American Express. Até o momento, não há data pública para reabertura das propostas, reformulação dos cartões ou encerramento definitivo da parceria.
Também permanece sem explicação a manutenção dos produtos Santander na página brasileira da American Express, apesar de o banco ter suspendido novas solicitações. A divergência pode decorrer apenas de atraso na atualização, mas precisa ser corrigida para evitar que consumidores iniciem uma busca por cartões indisponíveis.
A American Express não deixou de ser uma companhia globalmente relevante nem perdeu todos os seus diferenciais no Brasil. O The Platinum Card ainda oferece pontos sem expiração, serviços de viagem e acesso a salas VIP, enquanto o Centurion mantém uma proposta altamente exclusiva.
A questão central é de competitividade e distribuição. Ao depender de emissores que promovem simultaneamente produtos Visa e Mastercard com pontuação superior ou condições mais flexíveis, a Amex enfrenta dificuldade para transformar sua reputação internacional em preferência objetiva do consumidor brasileiro.
A suspensão no Santander torna esse desafio mais visível. Sem novos canais de emissão, uma reformulação relevante dos benefícios ou uma retomada comercial, a marca tende a permanecer concentrada em uma base restrita, justamente enquanto o mercado brasileiro de cartões premium, viagens e pagamentos internacionais continua crescendo.
Fontes e documentos
American Express: Relatório Anual de 2025 — exercício encerrado em dezembro de 2025 — publicado em 2026 — https://s26.q4cdn.com/747928648/files/doc_financials/2025/ar/American-Express-Annual-Report-2025.pdf.
Comissão de Valores Mobiliários: comunicado conjunto sobre a aquisição das operações brasileiras da American Express pelo Bradesco — 2006 — https://www.rad.cvm.gov.br/ENET/frmDownloadDocumento.aspx?CodigoInstituicao=1&Tela=ext&descTipo=IPE&numProtocolo=82877.
Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços: balanço do setor de meios eletrônicos de pagamento — primeiro trimestre de 2026 — https://abecs.org.br/storage/sector_balances/25/01KRBRHK0XNVRHQQ8Y2A6X07F4.pdf.
Santander: comunicado de lançamento dos cartões American Express no Brasil — 11 de janeiro de 2022 — https://santanderimprensa.com.br/santander-emitira-cartoes-amex-e-ampliara-seu-portfolio-de-beneficios/.
American Express: cartões emitidos pelo Santander no Brasil — página consultada em 1º de julho de 2026 — https://www.americanexpress.com/pt-br/network/cartoes-credito/santander/.
Bradesco: benefícios e características do The Platinum Card — página consultada em 1º de julho de 2026 — https://banco.bradesco/html/principal/cartoes/theplatinumcard.html.
American Express: salas VIP disponíveis para clientes brasileiros — página consultada em 1º de julho de 2026 — https://www.americanexpress.com/pt-br/network/beneficios/viagem/salasvips.html/.
Santander: benefícios e condições do cartão Unlimited — página consultada em 1º de julho de 2026 — https://www.santander.com.br/cartao-credito-santander/unlimited.
Visa: lançamento do Visa Infinite Privilege no Brasil — 28 de maio de 2025 — https://www.visa.com.br/sobre-a-visa/noticias-visa/nova-sala-de-imprensa/visa-lanca-brasil-visa-infinite-privilege-segmento-altissima-renda.html.








