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Home Política

Setores do agro criticam Flávio Bolsonaro após missão aos EUA não evitar tarifa de 25%

por Júlia Campos - Repórter de Política
17/07/2026 às 10h06
em Política,Destaque,Notícias
Flávio Bolsonaro Reforça Ofensiva No Ceará Antes De Decisão Do Pl Sobre Apoio A Ciro Gomes

Lideranças avaliam que embates ideológicos reduziram o foco comercial da viagem; senador afirma que defendeu empresas brasileiras e atribui o desfecho ao governo Lula

Setores do agronegócio brasileiro passaram a criticar nesta semana a atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em Washington, após o governo dos Estados Unidos confirmar uma tarifa adicional de 25% sobre a maior parte dos produtos importados do Brasil. Representantes do setor avaliam que a ênfase em disputas políticas e pautas ideológicas prejudicou a construção de uma agenda comercial mais objetiva durante a missão, realizada entre 4 e 8 de julho. Flávio Bolsonaro rejeita essa interpretação, sustenta que foi aos Estados Unidos defender empresas e produtores brasileiros e responsabiliza o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo resultado das negociações.

A reação expõe um desgaste entre Flávio Bolsonaro e segmentos econômicos que esperavam da viagem uma atuação concentrada em tarifas, acesso a mercados, segurança jurídica e preservação das exportações brasileiras. As críticas não representam uma posição formal e unânime de todo o agronegócio, mas foram atribuídas a lideranças e alas empresariais preocupadas com a condução política da agenda internacional.

O desconforto ganhou força depois que o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, anunciou em 15 de julho a aplicação da sobretaxa, com entrada em vigor prevista para 22 de julho. A medida será cobrada sobre a maior parte das importações brasileiras, embora produtos relevantes para o agronegócio, como carne bovina e suco de laranja, estejam entre as exceções divulgadas pelas autoridades americanas.

Para os críticos, a viagem de Flávio Bolsonaro não conseguiu produzir o efeito político esperado nem ampliar o espaço para uma solução negociada. O senador, por sua vez, argumenta que sua participação foi uma tentativa de impedir uma decisão que já vinha sendo discutida havia meses pelo governo de Donald Trump e que dependia diretamente das relações entre os dois Executivos.

Promessa na Feicorte antecedeu viagem a Washington

A cobrança do agronegócio ocorre menos de um mês depois de Flávio Bolsonaro ter assumido publicamente o compromisso de atuar contra a tarifa americana. Em 23 de junho, durante a abertura da Feira Internacional da Cadeia Produtiva da Carne, a Feicorte, em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, o senador afirmou que viajaria aos Estados Unidos para defender as empresas brasileiras.

Ao lado do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), Flávio Bolsonaro declarou que buscaria evitar a cobrança dos 25% adicionais sobre produtos exportados pelo Brasil. O senador classificou a proposta americana como injusta e direcionou críticas à política comercial e à atuação internacional do governo Lula.

A declaração foi recebida como um aceno direto ao agronegócio, setor que possui forte capacidade de mobilização política, presença relevante no Congresso Nacional e peso decisivo na geração de divisas para o país. A expectativa era de que Flávio Bolsonaro utilizasse sua proximidade com interlocutores do campo conservador americano para reforçar os argumentos apresentados por associações empresariais brasileiras.

A promessa, porém, elevou o custo político da viagem. Ao se apresentar como uma possível ponte entre produtores brasileiros e o governo Trump, Flávio Bolsonaro vinculou sua atuação ao resultado de uma negociação complexa, conduzida formalmente por autoridades comerciais e diplomáticas dos dois países.

Com a confirmação da tarifa, setores do agro passaram a comparar o compromisso assumido na Feicorte com o desfecho anunciado pelo USTR. A avaliação crítica é de que a missão deveria ter adotado uma linguagem mais técnica, baseada em dados comerciais, impactos sobre consumidores americanos e integração entre as cadeias produtivas dos dois países.

Audiência reuniu indústria, produtores e entidades brasileiras

Documentos oficiais do Senado mostram que Flávio Bolsonaro solicitou licença para permanecer nos Estados Unidos de 4 a 8 de julho, sem custos para a Casa, com a finalidade de participar da audiência referente à investigação conduzida sob a Seção 301 da Lei de Comércio americana.

A participação de Flávio Bolsonaro ocorreu em 7 de julho, no segundo dia da audiência pública organizada pelo USTR nas instalações da Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos, em Washington. O senador integrou um painel ao lado do ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio Roberto Azevêdo, representante da Confederação Nacional da Indústria, além de integrantes das indústrias brasileira e americana de calçados.

A audiência não foi formada apenas por políticos. Ao longo dos dois dias, participaram representantes da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, da Sociedade Rural Brasileira, da Associação Brasileira da Indústria do Arroz, do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil e de entidades ligadas ao açúcar, ao etanol, à madeira, à siderurgia, a máquinas, equipamentos e produtos industrializados.

A presença dessas organizações mostra que a defesa comercial brasileira foi conduzida por diferentes frentes. Empresas e associações apresentaram argumentos sobre emprego, preços, cadeias de abastecimento, competitividade e prejuízos que uma tarifa ampla poderia provocar também nos Estados Unidos.

Na avaliação das lideranças que criticaram Flávio Bolsonaro, caberia ao senador reforçar esse trabalho técnico e evitar que a discussão fosse contaminada pela disputa eleitoral brasileira. O temor era de que referências a conflitos políticos internos reduzissem a capacidade de diálogo com funcionários de carreira, representantes democratas, importadores e setores empresariais americanos menos próximos do trumpismo.

Críticas apontam excesso de conteúdo político na missão

O principal questionamento dirigido a Flávio Bolsonaro está relacionado à estratégia adotada em Washington. Segundo relatos atribuídos a representantes do agronegócio, o senador teria concedido espaço excessivo a pautas políticas e ideológicas, quando o interesse imediato do setor era impedir a criação de novas barreiras aos produtos brasileiros.

Essas lideranças defendem que a política comercial exige interlocução permanente com diferentes grupos. Mesmo quando um governo estrangeiro possui afinidade com determinado campo político brasileiro, decisões sobre tarifas envolvem empresas, consumidores, parlamentares, órgãos reguladores e funcionários responsáveis pela elaboração das medidas.

A crítica não significa que todo o agronegócio tenha rompido com Flávio Bolsonaro ou abandonado sua candidatura presidencial. O setor é heterogêneo e reúne produtores rurais, cooperativas, tradings, frigoríficos, indústrias de alimentos, fornecedores de insumos e empresas exportadoras com interesses distintos.

Há também segmentos que mantêm proximidade com o senador e com o ex-presidente Jair Bolsonaro. O que mudou foi o grau de cobrança sobre a capacidade de Flávio Bolsonaro transformar relações políticas internacionais em resultados comerciais concretos.

Para o agronegócio empresarial, a preservação de mercados costuma se sobrepor a alinhamentos partidários. China, Estados Unidos, União Europeia, Oriente Médio e países asiáticos são tratados simultaneamente como destinos estratégicos. A defesa das exportações exige diálogo com governos de orientações diferentes e estabilidade nas relações diplomáticas.

É nesse ponto que a atuação de Flávio Bolsonaro passou a ser contestada. Seus críticos afirmam que uma missão voltada à redução de tarifas deveria priorizar previsibilidade, reciprocidade, competitividade e efeitos econômicos, deixando a disputa eleitoral doméstica fora da mesa comercial.

Tarifa americana alcançará a maior parte das importações

A decisão dos Estados Unidos foi tomada com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo que permite ao governo americano responder a práticas consideradas injustas ou prejudiciais aos interesses comerciais do país.

A investigação mencionou temas como serviços de pagamento eletrônico, tratamento tarifário dado a produtos americanos, proteção da propriedade intelectual, acesso do etanol ao mercado brasileiro, combate ao desmatamento ilegal e aplicação de normas anticorrupção.

Entre os pontos apresentados pelo USTR está a alegação de que determinadas políticas brasileiras colocariam empresas americanas de meios de pagamento em desvantagem. O sistema Pix, administrado pelo Banco Central, tornou-se um dos elementos mais sensíveis da disputa por competir com cartões, carteiras digitais e outras soluções privadas.

O governo brasileiro contesta as conclusões e considera injustificada a aplicação de sobretaxas. Autoridades brasileiras afirmam que mantiveram a negociação aberta, apresentaram respostas técnicas e rejeitaram mudanças que comprometessem a autonomia regulatória do país.

A tarifa adicional de 25% atingirá a maior parte das importações provenientes do Brasil, mas o governo americano estabeleceu uma relação de exceções. Carne bovina, suco de laranja, aeronaves, componentes aeronáuticos e determinados produtos energéticos estão entre os itens poupados.

Para o agronegócio, as exceções reduzem parte do impacto direto, sobretudo em cadeias com elevada exposição ao mercado americano. Isso não elimina, contudo, os riscos para produtos não contemplados, nem os efeitos indiretos sobre custos logísticos, investimentos, contratos e decisões de produção.

A preocupação também alcança futuras negociações. Uma tarifa abrangente pode ser usada como instrumento de pressão para exigir concessões em setores específicos, ampliar a entrada de produtos americanos no Brasil ou alterar regras nacionais relacionadas à tecnologia, combustíveis e meio ambiente.

Flávio Bolsonaro culpa Lula e rejeita responsabilidade

Flávio Bolsonaro afirma que a responsabilidade pela tarifa é do governo Lula. Segundo o senador, o Palácio do Planalto não teria conduzido adequadamente as conversas com Washington nem oferecido respostas capazes de impedir a aplicação da medida.

O senador sustenta que sua presença na audiência teve como objetivo defender o Brasil e reduzir danos econômicos. Durante a passagem pelos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro argumentou que a tarifa poderia afetar produtores, empresas e trabalhadores brasileiros e pediu que a decisão não fosse utilizada de forma a interferir na disputa eleitoral.

Após a confirmação da sobretaxa, Flávio Bolsonaro voltou a atribuir o desfecho ao presidente da República. O governo Lula respondeu acusando integrantes da família Bolsonaro de colaborarem politicamente com ações prejudiciais ao país. A família nega ter trabalhado pela imposição das novas tarifas.

A disputa ocorre em um processo comercial que se estendeu por meses e envolveu dezenas de reuniões entre autoridades e representantes empresariais. A participação de Flávio Bolsonaro foi apenas uma das etapas da investigação e não concedia ao senador poder formal para decidir, suspender ou alterar a tarifa.

Esse contexto impede atribuir o resultado exclusivamente à viagem do parlamentar. As críticas do agronegócio estão concentradas menos em uma relação direta de causa e efeito e mais na forma como Flávio Bolsonaro conduziu sua participação, administrou expectativas e apresentou a missão ao setor produtivo.

Ao prometer atuar contra a tarifa e vincular a viagem à defesa das empresas brasileiras, Flávio Bolsonaro assumiu uma responsabilidade política maior do que sua capacidade institucional de interferência no processo.

Disputa comercial avança sobre a corrida presidencial

A controvérsia deixou de ser apenas comercial e passou a ocupar espaço na eleição presidencial de outubro. Lula e Flávio Bolsonaro utilizam a tarifa para construir narrativas opostas sobre soberania, capacidade de negociação e relações com os Estados Unidos.

Pesquisa Genial/Quaest divulgada depois da audiência mostrou que 51% dos entrevistados concordavam mais com a versão de que Flávio Bolsonaro apoiou a pressão americana para prejudicar o governo. Outros 30% disseram acreditar na afirmação do senador de que ele pediu aos Estados Unidos que não tarifassem o Brasil.

O levantamento também apontou que 63% dos eleitores consideravam que as tarifas poderiam prejudicar sua vida ou a de sua família. O resultado revela que o tema ultrapassou os círculos empresariais e passou a ser percebido como uma questão relacionada a emprego, preços e renda.

Para Flávio Bolsonaro, o risco é permitir que sua proximidade com Donald Trump seja associada a medidas econômicas desfavoráveis ao Brasil. Para Lula, o desafio será demonstrar que o governo esgotou os canais diplomáticos e possui instrumentos para proteger empresas e trabalhadores sem ampliar a tensão bilateral.

O agronegócio ocupa posição central nessa disputa. Embora mantenha afinidades históricas com a direita e o centro-direita, o setor tende a cobrar resultados concretos em abertura de mercados, crédito, infraestrutura, defesa sanitária e comércio exterior.

O apoio político, portanto, não elimina a pressão por pragmatismo. Lideranças empresariais podem preservar relações com Flávio Bolsonaro e, ao mesmo tempo, questionar uma estratégia internacional considerada excessivamente eleitoral.

Tarifa de 25% transforma missão em teste político para Flávio Bolsonaro

A reação de setores do agro cria para Flávio Bolsonaro um teste que vai além da relação com o governo Trump. O senador terá de demonstrar que sua política externa pode combinar afinidade ideológica com capacidade de negociação comercial, especialmente diante de empresários que dependem de previsibilidade e acesso contínuo aos mercados internacionais.

A confirmação da tarifa não encerra as negociações. O governo brasileiro ainda poderá buscar novas exceções, negociar compromissos bilaterais, recorrer a mecanismos internacionais ou adotar medidas de reciprocidade previstas na legislação nacional.

Empresas afetadas também deverão avaliar redirecionamento de exportações, renegociação de contratos, linhas de crédito e alternativas para reduzir perdas. O impacto efetivo dependerá da lista final de produtos, da duração da medida e da possibilidade de entendimentos entre Brasília e Washington.

Para o agronegócio, o critério será econômico. Setores beneficiados pelas exceções acompanharão a preservação das vendas, enquanto cadeias atingidas cobrarão compensações e acesso a outros destinos.

Para Flávio Bolsonaro, a missão que deveria reforçar suas credenciais junto ao setor produtivo passou a integrar a disputa sobre sua capacidade de representar interesses nacionais no exterior. A tarifa de 25% tornou essa avaliação mais imediata e ampliou a cobrança por resultados que ultrapassem o alinhamento político com a Casa Branca.

Tags: agronegócioDonald TrumpEstados Unidosexportações brasileirasFeicorteFlávio Bolsonarogoverno LulaPolíticaSeção 301tarifa de 25%USTR

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