A Shein registrou prejuízo de US$ 99 milhões nos primeiros três meses de 2026, ante lucro de US$ 395 milhões no mesmo período de 2025, e desaceleração acentuada da receita, na primeira divulgação detalhada de resultados financeiros antes da planejada listagem na Bolsa de Hong Kong. Os dados constam do prospecto preliminar arquivado na bolsa hongueconguesa no domingo, 26 de julho de 2026, conforme a Bolsa de Hong Kong e documentos resumidos pela Reuters.
A receita do primeiro trimestre cresceu apenas 1,1%, para cerca de US$ 9,05 bilhões, ante US$ 9,1 bilhões em métricas arredondadas divulgadas no documento. O lucro operacional caiu 26%, para US$ 258 milhões, com margem operacional de 2,9%, ante 3,9% um ano antes, pressionado por custos de marketing e de cumprimento de pedidos enquanto as vendas estagnaram. Segundo o prospecto, o prejuízo trimestral foi impulsionado em grande parte por uma baixa contábil não caixa de US$ 328 milhões no valor justo de ações preferenciais conversíveis e resgatáveis, que se convertem em ações ordinárias na listagem.
O resultado de 2025 também mostra perda de tração. De acordo com o prospecto, o lucro líquido anual caiu 38,7%, para US$ 2,06 bilhões, ante o ano anterior, enquanto a receita cresceu 8%, para US$ 41,85 bilhões. Em versões consolidadas do documento citadas pela Reuters, o faturamento aparece em US$ 41,9 bilhões em 2025, ante US$ 38,8 bilhões em 2024 e US$ 32,1 bilhões em 2023, o que representa taxa de crescimento anual composta de 14,2% em dois anos, bem abaixo dos 20,7% registrados em 2024 e dos 41% observados em 2023.
A divulgação faz parte do processo de listagem em Hong Kong, para o qual a companhia obteve sinal verde do regulador de valores mobiliários da China em 10 de julho, após anos de tentativas frustradas de abrir capital em Nova York e em Londres. A empresa, fundada em 2012 em Nanjing e hoje sediada em Cingapura, vende vestidos de US$ 5 e jeans de US$ 10 em cerca de 160 países e construiu um império de fast fashion com produção majoritariamente na China e envio direto de fornecedores ao consumidor.
Prospecto mostra receita de US$ 41,9 bilhões em 2025 e queda de 38,7% no lucro anual
O prospecto preliminar não trouxe tamanho da oferta, faixa de preço nem cronograma definitivo, mas detalha a virada de rentabilidade. A margem operacional, que variou de 2,5% em 2024 a cerca de 4,3% em 2023, ficou em 2,9% no primeiro trimestre de 2026. Segundo a Reuters, o documento mostra que as vendas de produtos responderam por quase 90% da receita de 2025, ou US$ 37,1 bilhões, enquanto receitas de serviços cresceram de US$ 868 milhões para US$ 4,7 bilhões no período. A participação de vestuário caiu de 68,8% em 2023 para 63,8% em 2025, enquanto outras categorias, como acessórios, itens para casa e eletrônicos de baixo custo, avançaram de US$ 10 bilhões para US$ 15,1 bilhões.
A empresa informa aos investidores que esperava crescimento de vendas de cerca de 15% para 2025, conforme reportagens anteriores, mas entregou 8%, abaixo da meta e em desaceleração ante 21% em 2024. O lucro de 2024 havia sido de US$ 3,37 bilhões em números preliminares, ante US$ 2,06 bilhões em 2025, evidenciando compressão de margens mesmo antes do impacto integral das novas tarifas.
Entre os investidores pré-IPO listados no prospecto estão IDG Capital, Sequoia Capital, HongShan, Tiger Global Management, Boyu Capital, Brookfield e General Atlantic. Segundo o documento, o fundador Sky Xu, de 42 anos, figura como presidente do conselho e diretor-executivo desde a fundação. Donald Tang, que atuou como presidente-executivo do conselho, não aparece entre diretores ou alta administração no arquivo atual. Goldman Sachs, Morgan Stanley e JPMorgan atuam como coordenadores conjuntos da operação.
IPO de US$ 2 bilhões a US$ 3 bilhões em agosto tenta recuperar avaliação de US$ 100 bilhões
A Shein pretende abrir capital já em agosto e levantar cerca de US$ 2 bilhões a US$ 3 bilhões, segundo informações publicadas por agências internacionais com base em pessoas familiarizadas com o assunto. O valor final dependerá da avaliação e do apetite dos investidores. A companhia passou por audiência no comitê de listagem da Bolsa de Hong Kong na semana do dia 24 de julho, etapa necessária para liberar roadshow e bookbuilding.
A avaliação em discussão caiu de forma acentuada nos últimos três anos. De acordo com a Reuters, a empresa foi avaliada em US$ 98,2 bilhões em rodada de 2022, em US$ 64 bilhões dois anos depois e busca agora entre US$ 40 bilhões e US$ 50 bilhões no IPO. Em fevereiro, investidores pressionavam por cerca de US$ 30 bilhões, ante US$ 66 bilhões de uma rodada de 2023 e US$ 100 bilhões estimados em 2022. A empresa ainda não confirmou oficialmente a faixa pretendida.
A análise de mercado aponta dificuldade para sustentar o topo da faixa. Segundo a Reuters, o gestor Eddie Tam, da Central Asset Investments, de Hong Kong, afirmou que US$ 40 bilhões ainda parece caro e que mais próximo de US$ 30 bilhões o papel se torna mais atraente, ao citar impacto de taxas europeias. A agência também publicou análise em que aponta que, mesmo excluindo o encargo contábil de US$ 328 milhões, o lucro operacional ajustado caiu 42% no primeiro trimestre, o que levaria a avaliação implícita para perto de US$ 10 bilhões em cenário mais conservador.
Fim do de minimis nos EUA derruba vendas e Europa vira maior mercado
O prospecto dedica seção relevante ao impacto regulatório. Fundada originalmente na China continental, a Shein afirmou que a revogação, pelo governo americano, da isenção chamada de minimis para encomendas de até US$ 800 teve impacto adverso sobre vendas nos Estados Unidos e sobre o crescimento geral da receita líquida, embora tenha observado desde então normalização parcial nas tendências.
O fim da isenção ocorreu em maio de 2025, segundo documentos e cobertura da imprensa americana, elevando custos de importação de pacotes de baixo valor e forçando aumento de preços ao consumidor. No primeiro trimestre de 2026, a receita nos Estados Unidos caiu 14%, para US$ 2 bilhões, ante um ano antes, com participação no total reduzida de 26,6% para 22,5%, segundo o prospecto. Em 2025, a contribuição americana já havia recuado de 29,4% em 2023 para 24,1%, ou US$ 10,1 bilhões.
A Europa ultrapassou os Estados Unidos como maior mercado em 2024. Segundo o documento, a receita europeia avançou de US$ 10,2 bilhões em 2023 para US$ 14,8 bilhões em 2025, representando 35,4% do faturamento líquido. O chamado Resto do Mundo, que inclui América Latina, Oriente Médio e Ásia-Pacífico fora de Europa e Estados Unidos, cresceu de US$ 12,4 bilhões, ou 38,8% da receita em 2023, para US$ 16,9 bilhões, ou 40,5% em 2025. No Brasil, a empresa mantém operação relevante com centro de distribuição e escritório em São Paulo.
O risco europeu é tratado como potencialmente maior. De acordo com o prospecto, a revogação pela União Europeia da isenção de direitos aduaneiros para pacotes abaixo de 150 euros pode ter impacto igual ou maior que o da medida americana. A companhia gerou cerca de um terço das receitas na Europa em 2025 e no primeiro trimestre de 2026, conforme o arquivo.
Segundo a Reuters, ministros de Finanças da União Europeia concordaram em 12 de dezembro de 2025 em impor taxa aduaneira temporária de 3 euros por tipo de item a partir de 1º de julho de 2026 até que seja encontrada solução permanente para eliminar a isenção de minimis para compras online abaixo de 150 euros. O bloco previa originalmente remover a isenção em 2028 como parte de reforma aduaneira, mas antecipou o cronograma diante do salto no volume de pacotes de baixo valor, que dobrou para 4,6 bilhões em 2024, mais de 90% vindos da China, segundo o Conselho da União Europeia. A União também avalia taxa adicional de manuseio de 2 euros por pacote proposta pela Comissão Europeia.
Tráfego global desacelera de 60% para um dígito e downloads caem 30%
A desaceleração comercial aparece em indicadores de audiência e consumo. Segundo dados da Similarweb citados por publicações setoriais, o crescimento do tráfego global do site da Shein desacelerou de mais de 60% em relação ao ano anterior no segundo semestre de 2025 para cerca de 30% no início de 2026, antes de cair para um dígito em junho e julho. Nos Estados Unidos, o tráfego para sites de moda chinesa como a Shein caiu cerca de 30% em abril, após mudanças tarifárias, segundo a mesma base.
Os downloads do aplicativo em todo o mundo diminuíram na maior parte dos 12 meses até meados de julho, chegando a cair 30% em relação ao mesmo período do ano anterior em seu ponto mais acentuado, de acordo com a empresa de pesquisa Apptopia. A plataforma Similarweb também registrou em junho crescimento de 11% em usuários ativos mensais nos Estados Unidos e 31% no Reino Unido, mas com desaceleração frente ao histórico.
Do lado da demanda, levantamentos da Bloomberg Second Measure, que analisa transações com cartões de crédito e débito nos Estados Unidos, indicam que as vendas da Shein no país caíram na maior parte dos 12 meses até a semana de 19 de julho, com queda de 13% em junho na comparação anual e aprofundamento em julho, segundo reportagem de agência internacional. A empresa também elevou preços para compensar custos mais altos de materiais, em um contexto de guerra no Oriente Médio e tarifas americanas que encareceram insumos.
A concorrência com a Temu, da PDD Holdings, intensificou a pressão. Ambas as plataformas reduziram gastos com anúncios e perderam tração, segundo a empresa Consumer Edge. Nos Estados Unidos, o crescimento do consumo em Temu caiu de 50% para perto de zero e o da Shein de 30% para 20% em abril, conforme a base. Nove em cada dez visitantes dos sites eram apenas navegadores, não compradores, segundo a Similarweb.
Modelo de baixo custo enfrenta escrutínio regulatório e mudança de mix
O prospecto afirma que estratégias para contornar tarifas podem mitigar apenas parcialmente a pressão sobre plataformas de baixo custo originárias da China, à medida que reguladores fecham brechas utilizadas por anos. A empresa cita aumento de custos de materiais e necessidade de repasse ao consumidor como fatores que afetam competitividade.
Além de tarifas, a Shein enfrenta escrutínio crescente sobre conformidade na União Europeia, que pode resultar em mudanças de regras que restrinjam crescimento. Segundo a Reuters, o arquivo de listagem não fez menção específica a riscos ligados a alegações de algodão da região de Xinjiang, tema que gerou questionamentos em tentativas anteriores de listagem em Nova York e Londres. A empresa mantém que não há trabalho forçado em sua cadeia.
A mudança de mix também altera o perfil financeiro. A empresa ampliou catálogo para além de vestuário, com utensílios domésticos, decoração e acessórios eletrônicos de baixo custo, buscando elevar ticket médio e diluir dependência de moda. A receita de serviços, que inclui marketplace e logística para terceiros, cresceu de forma relevante, mas ainda representa parcela menor do faturamento.
Para 2025, a companhia havia informado a investidores que esperava lucro líquido de cerca de US$ 2 bilhões, quase o dobro de US$ 1,1 bilhão reportado em 2024 em projeções internas citadas pela imprensa, sustentado por aumentos de preços e corte de custos. O número efetivamente registrado, de US$ 2,06 bilhões, ficou em linha com essa expectativa mais recente, porém 38,7% abaixo do ano anterior em base comparável do prospecto, indicando que a melhora de preços não compensou totalmente a perda de volume e o aumento de despesas.
O próximo passo será a definição da faixa indicativa de preço e do percentual de capital a ser vendido. Segundo fonte ouvida pela Reuters, a empresa indicou que poderia vender até 8% das ações, embora o nível final deva ser menor. Com avaliação entre US$ 40 bilhões e US$ 50 bilhões, a oferta de US$ 2 bilhões a US$ 3 bilhões representaria entre 4% e 7,5% do capital. O desempenho nas primeiras semanas após a listagem será observado como termômetro da capacidade da companhia de sustentar crescimento em um ambiente de tarifas mais altas e exigências regulatórias mais rígidas nos dois principais mercados, Estados Unidos e Europa.









