A Suzano (SUZB3) concluiu nesta quarta-feira, 1º de julho, a aquisição de 51% da FamPro Tissue Holdings, companhia que passará a adotar o nome Arbex e reunirá a maior parte das operações internacionais de papéis tissue e produtos profissionais da Kimberly-Clark. A fabricante brasileira pagou US$ 1,3 bilhão, equivalentes a R$ 6,7 bilhões, e assumiu o controle de uma empresa com 22 fábricas, atuação em mais de 70 mercados e dívida líquida próxima de US$ 1 bilhão.
A operação foi realizada por meio da subsidiária Suzano International Holding, sediada na Holanda, após o cumprimento das condições previstas no contrato assinado em junho de 2025. A Kimberly-Clark continuará como acionista relevante, com os 49% restantes do capital da nova companhia.
O negócio representa o movimento mais amplo da Suzano para aumentar sua exposição a produtos de consumo e reduzir, gradualmente, a dependência dos ciclos internacionais da celulose de mercado. Embora o tissue permaneça integrado à cadeia de papel e celulose, a dinâmica comercial é diferente: papéis higiênicos, toalhas, guardanapos e lenços são vendidos por marcas reconhecidas, atendem a uma demanda mais recorrente e ficam mais próximos do consumidor final.
Pagamento ficou abaixo do valor anunciado em 2025
Quando a parceria foi apresentada, em junho de 2025, a Suzano informou que pagaria US$ 1,734 bilhão por 51% do negócio, avaliado em aproximadamente US$ 3,4 bilhões. No fechamento, o desembolso foi de US$ 1,3 bilhão, uma diferença nominal de US$ 434 milhões em relação ao valor inicialmente divulgado.
A redução não deve ser interpretada automaticamente como um desconto concedido pela Kimberly-Clark. O fato relevante da Suzano informa que o pagamento final considerou a estrutura inicial de capital da Arbex, que começa a operar com dívida líquida de aproximadamente US$ 1 bilhão, captada no contexto da própria transação. O preço ainda poderá passar pelos ajustes posteriores usuais em operações de fusões e aquisições.
Na prática, uma parcela do financiamento passou a permanecer no balanço da nova empresa, reduzindo o valor que precisou ser desembolsado diretamente pela Suzano no fechamento. A composição final entre dívida, patrimônio e eventuais ajustes será importante para compreender o custo econômico total da operação.
A Suzano passa a ser a sócia controladora, apesar de a companhia continuar sendo descrita como uma joint venture. O contrato celebrado com a Kimberly-Clark estabelece as regras de governança, gestão, controle e funcionamento da Arbex, além das obrigações de cada acionista.
Arbex nasce com receita bilionária e presença em cinco continentes
A Arbex começa a operar como uma das maiores companhias especializadas em papéis tissue e produtos de higiene do mundo. Sua estrutura reúne 22 unidades industriais localizadas em 14 países, capacidade instalada próxima de 1 milhão de toneladas por ano e operações comerciais em mais de 70 mercados de cinco continentes.
A sede societária ficará na Holanda, enquanto o principal escritório operacional será mantido em Londres. Aproximadamente 9 mil funcionários estavam vinculados aos ativos incluídos na transação quando o negócio foi anunciado.
As operações transferidas pertenciam à divisão International Family Care and Professional da Kimberly-Clark. Segundo as demonstrações financeiras da multinacional norte-americana, os negócios classificados como operações descontinuadas registraram receita líquida de US$ 3,254 bilhões em 2025, praticamente estável em comparação com os US$ 3,253 bilhões de 2024.
O lucro operacional avançou de US$ 510 milhões para US$ 520 milhões no mesmo período. O lucro líquido das operações descontinuadas chegou a US$ 400 milhões em 2025, ante US$ 386 milhões no ano anterior. Os números servem como referência histórica, mas não devem ser tratados como projeção para a Arbex, porque o perímetro definitivo, a nova estrutura financeira e os custos de separação podem alterar os resultados futuros.
A nova companhia será proprietária de mais de 40 marcas regionais, entre elas Andrex, Hakle e Scottex. Também terá licença de longo prazo para utilizar marcas globais da Kimberly-Clark em determinadas regiões, incluindo Kleenex, Scott, Cottonelle, WypAll, Viva e Kimberly-Clark Professional.
A combinação fornece à Suzano algo que seria difícil desenvolver apenas com investimentos internos: uma plataforma internacional de marcas, fábricas, canais de distribuição e relacionamento com varejistas e clientes corporativos já estabelecida.
Estratégia avança além da venda de celulose como matéria-prima
A Suzano é a maior fornecedora mundial de celulose de mercado, atividade sujeita a oscilações de preço, câmbio, estoques globais e decisões de capacidade de concorrentes. Ao ampliar a presença em tissue, a companhia avança para uma etapa posterior da cadeia produtiva.
Nesse modelo, a celulose deixa de ser apenas matéria-prima vendida a fabricantes de papel e passa a integrar produtos acabados comercializados sob marcas próprias ou licenciadas. A estratégia pode permitir maior captura de valor, diversificação geográfica e uma receita menos diretamente vinculada à cotação internacional da commodity.
A transação também aproxima duas competências complementares. A Suzano contribui com escala industrial, conhecimento em fibras de eucalipto, gestão de fábricas e custos de produção. A Kimberly-Clark transfere experiência em produtos de consumo, desenvolvimento de marcas, marketing, vendas e distribuição internacional.
Essa complementaridade não elimina os desafios. O mercado de bens de consumo exige investimentos permanentes em publicidade, inovação, embalagens, posicionamento de preços e relacionamento com grandes redes varejistas. A Suzano também passará a lidar com operações industriais distribuídas por diferentes ambientes regulatórios, moedas e padrões de consumo.
A Arbex terá ainda de administrar marcas próprias e licenciadas. O valor comercial de nomes como Kleenex, Scott e Cottonelle depende da manutenção de padrões de qualidade e dos termos estabelecidos nos contratos de propriedade intelectual com a Kimberly-Clark.
Walter Schalka presidirá conselho da nova companhia
A presidência do Conselho de Administração da Arbex ficará com Walter Schalka, que comandou a Suzano por mais de uma década e deixou a presidência executiva da companhia em 2024. Ele permanece como integrante do conselho da fabricante brasileira.
Também participarão do colegiado Carlos Aníbal Fernandes de Almeida Junior, vice-presidente executivo da Suzano para a Europa; Fabricio Bloisi, presidente-executivo da Prosus e da Naspers; Jeffrey Melucci, executivo responsável por estratégia e desenvolvimento de negócios da Kimberly-Clark; e Nelson Urdaneta, diretor financeiro da multinacional norte-americana.
A gestão cotidiana será conduzida por Ehab Abou-Oaf, que dirigia a divisão International Family Care and Professional da Kimberly-Clark e assume como presidente-executivo da Arbex. A escolha mantém no comando um executivo familiarizado com as fábricas, marcas e mercados incorporados à nova empresa.
Luís Bueno, anteriormente responsável pelo negócio de bens de consumo da Suzano, será o diretor de operações. Oscar Mousinho, ex-diretor financeiro global da divisão de nutrição animal da Mars e ex-executivo da Kimberly-Clark, assumirá a diretoria financeira.
Caroline Carpenedo responderá pelas áreas de pessoas, sustentabilidade, comunicação e marca corporativa. A equipe também reúne executivos responsáveis por estratégia, assuntos jurídicos, tecnologia, pesquisa, cadeia de suprimentos e operações regionais na Europa, Ásia e América Latina.
A composição procura equilibrar a continuidade operacional oferecida por antigos executivos da Kimberly-Clark com o controle financeiro e industrial exercido pela Suzano.
Dívida da Arbex aumenta atenção sobre alavancagem
A dívida líquida de aproximadamente US$ 1 bilhão com a qual a Arbex inicia suas atividades será um dos principais indicadores acompanhados pelos investidores. O financiamento foi contratado no contexto da transação e faz parte da estrutura de capital considerada no pagamento realizado pela Suzano.
Antes do fechamento, a própria Suzano já apresentava um nível relevante de endividamento. Ao fim de março de 2026, a companhia registrava dívida líquida de R$ 68,1 bilhões, equivalentes a US$ 13 bilhões. A alavancagem correspondia a 3,2 vezes o Ebitda ajustado em reais e a 3,3 vezes quando calculada em dólares, métrica utilizada em sua política financeira.
A empresa possuía R$ 22,7 bilhões em caixa e aplicações financeiras, além de R$ 9,3 bilhões em linhas de crédito disponíveis. A liquidez somada chegava, portanto, a R$ 31,9 bilhões no encerramento do primeiro trimestre.
Esses valores indicam que a Suzano tinha recursos para realizar o pagamento, mas não eliminam a necessidade de acompanhar a evolução do endividamento consolidado. O impacto definitivo dependerá do tratamento contábil da Arbex, da geração de caixa da nova empresa, dos ajustes posteriores ao fechamento e da velocidade de integração das operações.
Os resultados do segundo trimestre, previstos para agosto, deverão apresentar as primeiras informações sobre a contabilização do investimento. A companhia também precisará detalhar a incorporação dos ativos, passivos, participação dos acionistas não controladores e eventuais efeitos sobre o Ebitda e a alavancagem.
Suzano poderá comprar os 49% restantes
O acordo concede à Suzano uma opção para adquirir futuramente a participação de 49% mantida pela Kimberly-Clark. Documentos regulatórios da companhia indicam que a opção poderá ser exercida a partir do terceiro aniversário do fechamento ou, em determinadas circunstâncias, antes desse prazo.
A existência dessa cláusula abre caminho para que a fabricante brasileira assuma, no futuro, a totalidade da Arbex. O exercício não é automático e dependerá das condições previstas no contrato, do desempenho do negócio, da avaliação atribuída à participação remanescente e da situação financeira da Suzano no momento da decisão.
Para a Kimberly-Clark, manter 49% permite participar de uma eventual valorização da nova empresa, ao mesmo tempo que reduz sua exposição direta a um segmento que a multinacional decidiu separar de suas operações principais.
A estratégia da companhia norte-americana é concentrar recursos em produtos de cuidados pessoais e nas operações de tissue da América do Norte, consideradas áreas de crescimento e margens mais elevadas. Seus negócios norte-americanos e determinadas participações em joint ventures, como as existentes no México e na Coreia do Sul, não foram incluídos na transação com a Suzano.
Compra no Brasil abriu caminho para expansão internacional
A relação entre as duas empresas já havia produzido uma aquisição relevante no mercado brasileiro. Em junho de 2023, a Suzano concluiu a compra do negócio de tissue da Kimberly-Clark no Brasil por um preço-base de US$ 175 milhões.
A transação incluiu a fábrica de Mogi das Cruzes, em São Paulo, com capacidade instalada próxima de 130 mil toneladas anuais, e a propriedade da marca Neve. A Suzano também passou a utilizar determinadas marcas globais da Kimberly-Clark por meio de contratos de licenciamento.
Com a aquisição, a companhia alcançou a liderança brasileira em papel higiênico, com participação próxima de 24% em valor transacionado, segundo informações apresentadas em seus documentos corporativos.
A Arbex amplia esse movimento para uma escala internacional. Em vez de adquirir uma fábrica e marcas concentradas no Brasil, a Suzano passa a controlar uma plataforma distribuída por Europa, Ásia, América Latina, África, Oriente Médio e Oceania.
Integração será o primeiro teste da Arbex
Suzano e Kimberly-Clark celebraram contratos de serviços de transição para evitar interrupções após a separação da antiga divisão internacional. Durante um período limitado, a multinacional norte-americana continuará prestando determinados serviços à Arbex.
As empresas também firmaram contratos de licenciamento de propriedade intelectual e instrumentos comerciais necessários à manutenção das operações. A prioridade inicial será preservar o fornecimento, os sistemas, os contratos com varejistas e a continuidade das marcas enquanto a nova estrutura se torna independente.
O tamanho e a dispersão geográfica do negócio aumentam o risco de execução. A administração terá de integrar sistemas, padronizar processos, administrar custos em diferentes moedas e preservar profissionais que antes pertenciam a uma multinacional com estrutura global consolidada.
Para os investidores da Suzano, os próximos indicadores relevantes serão a geração de caixa da Arbex, a evolução da dívida de US$ 1 bilhão, o desempenho das margens e o efeito da operação sobre a alavancagem do grupo.
A transação não retira a celulose do centro da estratégia da Suzano. Ela cria, porém, uma segunda plataforma global capaz de transformar parte da matéria-prima em produtos de consumo com marcas conhecidas e demanda mais recorrente. O resultado dependerá agora da capacidade de converter escala industrial e presença internacional em rentabilidade suficiente para justificar o investimento e o endividamento assumido.







