A tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros colocou transformadores, motores, geradores e componentes industriais no centro de uma nova frente de tensão comercial entre Brasília e Washington. A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) afirmou nesta quinta-feira (16) que a medida, anunciada após a conclusão da investigação conduzida pela Seção 301 da legislação comercial norte-americana, ameaça um mercado decisivo para o setor e não se sustenta diante do fluxo de negócios entre os dois países.
A cobrança entrará em vigor em 22 de julho e será aplicada às mercadorias brasileiras destinadas ao consumo nos Estados Unidos, ressalvadas as exceções estabelecidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR. O ato final alcança a maior parte das importações originárias do Brasil e eleva o custo de entrada de produtos que disputam contratos em segmentos industriais sensíveis a preço, prazo e especificações técnicas.
“O momento é de muita preocupação, pois o mercado norte-americano é importantíssimo para o nosso setor”, afirmou o presidente executivo da Abinee, Humberto Barbato.
A entidade considera a tarifa de 25% dos EUA injustificável e sustenta que o Brasil não adota práticas discriminatórias ou restritivas contra empresas norte-americanas. O argumento central é que, no setor eletroeletrônico, o comércio bilateral já produz um saldo expressivamente favorável aos Estados Unidos.
Transformadores concentram exposição ao mercado norte-americano
Os Estados Unidos foram o principal destino dos produtos elétricos e eletrônicos brasileiros em 2025. As exportações do setor para o país somaram US$ 2,1 bilhões e representaram 26% de todas as vendas externas da indústria eletroeletrônica, que alcançaram aproximadamente US$ 7,9 bilhões no ano.
A dependência é ainda maior no caso dos transformadores. De acordo com a Abinee, 78% das exportações brasileiras desses equipamentos foram destinadas ao mercado norte-americano em 2025. A concentração torna a tarifa de 25% dos EUA particularmente relevante para fabricantes que produzem sob encomenda e trabalham com contratos de longo prazo.
Os dados do início de 2026 confirmam a importância desse mercado. Em janeiro, as exportações eletroeletrônicas aos Estados Unidos chegaram a US$ 153,5 milhões, alta de 1,5% na comparação com o mesmo mês de 2025. O país respondeu por 29% de todos os embarques do setor.
As vendas externas de transformadores alcançaram US$ 77 milhões em janeiro, avanço de 30% em um ano. Desse total, US$ 59 milhões foram destinados aos Estados Unidos, o equivalente a 77% dos embarques brasileiros do produto.
O crescimento observado no começo do ano não elimina o risco provocado pela nova tarifa dos EUA. Equipamentos para geração, transmissão e distribuição de energia seguem exigências técnicas específicas, passam por processos de certificação e costumam integrar projetos com cronogramas definidos. A substituição do comprador ou o redirecionamento da produção para outro país não ocorre com a mesma velocidade encontrada em mercados de bens padronizados.
Exceções não protegem todo o segmento de energia
O governo norte-americano excluiu da cobrança determinados grupos de mercadorias, entre eles materiais informativos, doações, bagagens acompanhadas, produtos submetidos às tarifas da Seção 232 e itens considerados essenciais para o abastecimento ou para cadeias estratégicas dos Estados Unidos.
A relação apresentada pelo USTR inclui carne bovina, suco de laranja, aeronaves, peças aeronáuticas e alguns produtos de energia. A presença de códigos associados a motores, geradores e transformadores no anexo técnico, porém, não representa uma isenção ampla para o setor elétrico brasileiro.
Em parte relevante da tabela, os equipamentos aparecem com a limitação de escopo para uso aeronáutico. Isso significa que determinados itens enquadrados nas condições previstas pelo ato poderão ser poupados, mas transformadores e máquinas destinados a redes elétricas, subestações e instalações industriais não estão automaticamente livres da tarifa de 25% dos EUA.
A distinção explica a mobilização da Abinee. A entidade enviou ofícios ao Ministério das Relações Exteriores e ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços solicitando apoio para incluir produtos de Geração, Transmissão e Distribuição de Energia Elétrica, o segmento conhecido pela sigla GTD, na lista de exceções.
O pedido abrange transformadores, motores, geradores e componentes utilizados em equipamentos industriais. Para a indústria brasileira, a retirada desses produtos da tarifa dos EUA não beneficiaria somente os exportadores nacionais. A medida também reduziria riscos de encarecimento e atrasos em projetos de infraestrutura norte-americanos dependentes de fornecedores externos.
Déficit brasileiro reforça contestação da Abinee
A balança comercial bilateral é o principal argumento econômico empregado pela Abinee para contestar a medida. Em 2025, o Brasil importou US$ 4,8 bilhões em produtos eletroeletrônicos dos Estados Unidos e exportou US$ 2,1 bilhões, resultando em déficit brasileiro de US$ 2,7 bilhões.
Na prática, as empresas norte-americanas venderam ao mercado brasileiro US$ 2,7 bilhões a mais do que compraram do setor nacional. Para a associação, esse resultado enfraquece a justificativa da tarifa de 25% dos EUA e demonstra que o intercâmbio eletroeletrônico já é superavitário para os produtores norte-americanos.
A entidade também destaca a presença de indústrias de capital dos Estados Unidos operando no Brasil. Uma deterioração da relação comercial pode afetar companhias norte-americanas com fábricas, equipes e investimentos no país, sobretudo em cadeias que combinam componentes importados, produção local e posterior exportação de equipamentos.
A posição da Abinee se soma à reação mais ampla da Confederação Nacional da Indústria. Segundo a CNI, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 13% no primeiro semestre de 2026, queda equivalente a US$ 2,6 bilhões.
Vinte das 27 unidades da Federação reduziram suas vendas ao mercado norte-americano no período. A retração foi influenciada pela queda de 8,7% nas exportações de bens industriais, embora os Estados Unidos tenham permanecido como o principal destino externo da indústria de transformação brasileira.
“Os efeitos do aumento de tarifas dos Estados Unidos estão sendo cada vez mais sentidos pela indústria brasileira”, afirmou o presidente da CNI, Ricardo Alban.
Sobretaxa pressiona preços, contratos e margens
Embora a tarifa seja recolhida na entrada da mercadoria nos Estados Unidos, o custo econômico pode ser dividido por toda a cadeia. Importadores norte-americanos podem exigir descontos dos fornecedores brasileiros, repassar a cobrança aos compradores finais ou buscar fabricantes instalados em países não atingidos pela medida.
Para as empresas brasileiras, o impacto dependerá da estrutura de cada contrato. Fabricantes poderão absorver parte da tarifa de 25% dos EUA e reduzir margens, renegociar preços, dividir o custo com o cliente ou perder encomendas para concorrentes de outras origens.
Nos contratos assinados antes da decisão, será necessário verificar qual parte assumirá a diferença. Equipamentos de grande porte podem levar meses entre a encomenda, a fabricação e a entrega. Uma alteração tarifária durante esse intervalo cria risco de renegociação e de disputa comercial.
A pressão tende a ser maior sobre empresas sem unidades produtivas no exterior. Grupos internacionalizados podem reorganizar etapas da fabricação ou utilizar plantas de outros países, desde que cumpram as regras de origem. Companhias concentradas no Brasil têm menos alternativas para preservar os contratos.
Uma eventual valorização do dólar pode oferecer algum alívio ao elevar a receita das exportações em reais, mas não compensa integralmente uma tarifa de 25%. Parte da indústria também depende de semicondutores e outros componentes importados, o que limita o benefício cambial e eleva o custo de produção.
A incerteza atinge ainda os investimentos. Quando um mercado que recebe mais de um quarto das exportações do setor se torna menos previsível, empresas podem reavaliar projetos de ampliação de fábricas, contratação de trabalhadores e desenvolvimento de produtos.
Seção 301 levou disputa para áreas regulatórias
O USTR abriu a investigação contra o Brasil em 15 de julho de 2025. O processo examinou políticas relacionadas ao comércio digital e a serviços de pagamento eletrônico, tarifas consideradas preferenciais, combate à corrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.
Em junho de 2026, o órgão concluiu que determinadas medidas brasileiras seriam não razoáveis e imporiam ônus ou restrições ao comércio norte-americano. A tarifa de 25% dos EUA foi escolhida como instrumento de pressão para obter mudanças nas áreas questionadas por Washington.
Antes da decisão final, o USTR recebeu mais de 360 manifestações escritas. O órgão também realizou audiências públicas em 6 e 7 de julho, nas quais 77 representantes de empresas, associações e outras organizações apresentaram depoimentos.
A Abinee se manifestou durante a investigação. A associação encaminhou uma carta ao USTR em apoio à posição da CNI e rejeitou os argumentos apresentados pelo governo norte-americano.
Segundo a entidade, as regulamentações e práticas comerciais adotadas pelo Brasil estão em conformidade com as regras internacionais e não foram formuladas para discriminar companhias dos Estados Unidos.
O desenho da medida faz com que setores sem relação direta com algumas das controvérsias regulatórias sejam atingidos pela tarifa dos EUA. Para a indústria eletroeletrônica, transformadores, motores e geradores estão sendo alcançados por uma disputa originada também em políticas de comércio digital, pagamentos eletrônicos e outros temas institucionais.
Empresas revisam códigos tarifários e embarques
Com a vigência marcada para 22 de julho, exportadores e importadores têm poucos dias para interpretar a lista final. O enquadramento não depende apenas da descrição comercial da mercadoria, mas do código tarifário, da aplicação declarada e das limitações previstas para cada exceção.
Essa análise é especialmente importante no setor eletroeletrônico. Um mesmo grupo de produtos pode conter itens isentos e tributados conforme potência, função ou uso final. A lista norte-americana apresenta, por exemplo, códigos de motores, geradores e transformadores cuja exceção está limitada à utilização aeronáutica.
Empresas com cargas já embarcadas também precisarão observar o momento de entrada da mercadoria. O ato do USTR determina que a tarifa de 25% dos EUA será aplicada aos produtos registrados para consumo ou retirados de armazéns alfandegados a partir de 0h01 do horário da Costa Leste em 22 de julho.
A proximidade do prazo aumenta a pressão por esclarecimentos aduaneiros e novas exclusões. Fabricantes também correm para revisar preços, pedidos e condições de entrega, principalmente quando o importador ainda não definiu se absorverá o custo adicional.
O governo brasileiro classificou a sobretaxa como injusta e afirmou que os fundamentos apresentados na investigação não justificam a medida. Em reuniões com representantes de Washington, o MDIC defendeu a preservação das negociações e a busca de um acordo bilateral.
Equipamentos de energia viram teste da negociação Brasil-EUA
A tentativa de retirar os produtos de Geração, Transmissão e Distribuição de Energia Elétrica da tarifa de 25% dos EUA será um dos primeiros testes da capacidade de negociação do governo brasileiro depois da publicação da decisão final.
A Abinee defende que a elevada concentração das exportações no mercado norte-americano e o déficit brasileiro no comércio setorial justificam um tratamento diferenciado. A associação também procura demonstrar que a tributação pode atingir os próprios interesses dos Estados Unidos.
Transformadores e outros equipamentos elétricos são utilizados na ampliação e na modernização de redes de energia. A troca de fornecedores depende de disponibilidade industrial, certificações técnicas, capacidade produtiva e compatibilidade com os projetos em andamento.
Sem uma revisão da lista, a tarifa dos EUA tende a alterar preços, margens e planos comerciais antes mesmo de produzir uma queda mensurável nos embarques. A partir de 22 de julho, a disputa deixará de ficar restrita às mesas de negociação e passará a aparecer diretamente nas faturas, nos contratos e nas decisões de investimento da indústria elétrica brasileira.











