A Uber (UBER) anunciou nesta quinta-feira, 16 de julho, uma oferta pública voluntária de US$ 14,8 bilhões para adquirir a Delivery Hero (DHER), em uma operação que poderá criar uma das maiores plataformas globais de mobilidade, entrega de alimentos e comércio rápido. O negócio, previsto para ser concluído no segundo semestre de 2027, está condicionado à adesão mínima dos acionistas, à aprovação de órgãos reguladores e à venda de operações da companhia alemã em 14 mercados nos quais existe sobreposição com o Uber Eats.
A companhia norte-americana oferecerá € 41,50 em dinheiro por ação da Delivery Hero. O preço atribui à empresa alemã um valor patrimonial diluído de aproximadamente € 13 bilhões, equivalente a US$ 14,8 bilhões. Descontadas as participações que já pertencem à Uber, o desembolso econômico estimado para a aquisição é de US$ 13,7 bilhões.
O valor da proposta representa prêmio de aproximadamente 34% sobre o preço médio ponderado das ações da Delivery Hero nos três meses anteriores ao anúncio. Em relação à média registrada antes do início das movimentações acionárias da Uber, em maio, o prêmio chega a cerca de 127%.
A operação recebeu apoio preliminar e unânime da diretoria-executiva e do conselho de supervisão da Delivery Hero. Os órgãos de administração pretendem recomendar a aceitação da oferta, mas a manifestação definitiva será divulgada somente depois da análise do documento formal que ainda será submetido à autoridade supervisora do mercado financeiro da Alemanha, a BaFin.
Negócio reunirá operações em 99 países
A combinação entre Uber e Delivery Hero formará uma plataforma com presença em 99 países e reservas brutas pro forma de US$ 236 bilhões em 2025. O indicador considera o valor total movimentado pelos serviços de mobilidade e pelas plataformas de entrega das duas companhias antes da dedução de taxas, incentivos e pagamentos aos parceiros.
A Delivery Hero mantém operações em cerca de 65 países da Europa, Ásia, América Latina, Oriente Médio e África. O grupo controla marcas regionais de forte presença, como PedidosYa, Glovo, foodpanda, talabat, HungerStation e Baedal Minjok.
A aquisição permitirá à Uber ampliar principalmente sua exposição a mercados emergentes nos quais o Uber Eats ainda possui participação limitada ou não opera. A empresa calcula que o número de países onde oferece simultaneamente serviços de transporte e entrega passará de 34 para 58.
Essa combinação é central para a estratégia da Uber. Consumidores que utilizam mais de um serviço da plataforma — como transporte, alimentação e entrega de mercadorias — movimentam aproximadamente três vezes mais reservas brutas e lucro do que clientes concentrados em apenas uma modalidade.
Para a Uber, a Delivery Hero representa uma porta de entrada imediata em mercados onde construir uma rede própria exigiria anos de investimentos, subsídios a consumidores, contratação de entregadores e acordos com restaurantes. A incorporação também acrescenta marcas com reconhecimento local, sistemas logísticos já estruturados e relações comerciais consolidadas.
Escala ganha peso na disputa global do setor
O acordo ocorre em meio a um processo acelerado de consolidação no mercado internacional de entrega de alimentos. O setor exige investimentos elevados em tecnologia, marketing, benefícios aos consumidores e incentivos para restaurantes e entregadores, enquanto as margens operacionais permanecem pressionadas em diversos países.
Em outubro de 2025, a DoorDash (DASH) concluiu a aquisição da britânica Deliveroo por £ 2,8 bilhões, ampliando sua presença fora dos Estados Unidos. No mesmo período, a Prosus (PRX) assumiu o controle da Just Eat Takeaway.com em uma transação de € 4,1 bilhões.
A oferta da Uber pela Delivery Hero eleva essa disputa a uma nova escala. A empresa norte-americana passará a competir com grupos que também buscam integrar serviços de alimentação, supermercados, conveniência, publicidade digital, pagamentos e programas de assinatura.
O tamanho da rede tende a ser decisivo porque aumenta a densidade dos pedidos. Quanto maior o número de consumidores, restaurantes e entregadores conectados em uma determinada região, menor tende a ser o custo médio por entrega e maior a possibilidade de reduzir o tempo entre uma corrida e outra.
Para os restaurantes, a concentração pode ampliar o acesso a consumidores e ferramentas de publicidade, mas também aumenta o poder de negociação das plataformas. Taxas, condições comerciais, exposição dentro dos aplicativos e uso de dados deverão permanecer entre os principais pontos de atenção para autoridades concorrenciais.
Já para entregadores e motoristas, a Uber sustenta que uma rede combinada poderá elevar o volume de pedidos e melhorar a utilização do tempo disponível. A materialização desse benefício dependerá, no entanto, das condições de trabalho, da remuneração praticada em cada país e das regulações locais sobre o vínculo entre plataformas e trabalhadores.
Venda de 14 operações tenta reduzir risco antitruste
Como parte da estrutura do negócio, a Delivery Hero assinou um acordo separado para vender operações em 14 mercados à gestora norte-americana SSW Partners. O pacote está avaliado em aproximadamente € 1,4 bilhão, equivalente a cerca de US$ 1,6 bilhão.
Os ativos transferidos movimentaram aproximadamente US$ 11 bilhões em 2025 e estão localizados principalmente em países onde Delivery Hero e Uber Eats já concorrem diretamente.
A lista inclui operações da foodora na Áustria, República Tcheca, Noruega e Suécia; da efood na Grécia; da Foody no Chipre; da Glovo na Espanha, Polônia, Portugal, Romênia e Moldávia; da PedidosYa no Chile e no Equador; e da Yemeksepeti na Turquia.
A SSW Partners administrará os negócios de maneira independente e buscará compradores ou parceiros estratégicos para cada operação. A Uber afirmou que não exercerá controle sobre os ativos transferidos.
A separação procura antecipar parte das preocupações concorrenciais que deverão surgir durante a análise da aquisição da Delivery Hero. Mesmo com a venda, a transação poderá ser examinada individualmente em dezenas de jurisdições, considerando participação de mercado, concentração regional, acesso a dados e possíveis efeitos sobre preços e comissões.
O longo período previsto até o fechamento — apenas no segundo semestre de 2027 — reflete a complexidade regulatória. Durante a análise, Uber e Delivery Hero continuarão funcionando como empresas independentes.
Prosus garante participação suficiente para fortalecer oferta
Antes do anúncio, a Uber já possuía aproximadamente 24,77% do capital votante da Delivery Hero e mantinha exposição econômica adicional de 11,74% por meio de instrumentos financeiros derivativos.
A Prosus, que detém uma participação residual de aproximadamente 16,8%, assumiu o compromisso irrevogável de entregar todas as suas ações à oferta da Uber. Com isso, a companhia norte-americana estima que seu interesse econômico total na Delivery Hero ultrapassará 53%.
A posição da Prosus reduz a possibilidade de uma proposta concorrente e aumenta a previsibilidade da operação. O grupo holandês vinha reduzindo sua participação na Delivery Hero para cumprir compromissos assumidos perante a Comissão Europeia durante a aquisição da Just Eat Takeaway.com.
Em abril, a Prosus vendeu uma fatia de aproximadamente 4,5% da Delivery Hero à própria Uber por € 20 por ação. Em maio, transferiu outros 5% para a gestora Aspex Management. A oferta atual de € 41,50 evidencia a valorização atribuída ao controle da plataforma alemã.
A conclusão dependerá da adesão de acionistas que representem pelo menos 50% do capital da Delivery Hero mais uma ação, considerando os papéis já pertencentes à Uber. O negócio também ficará sujeito a autorizações concorrenciais, financeiras e regulatórias.
Uber recorrerá a caixa e nova dívida
A Uber financiará a aquisição da Delivery Hero com recursos disponíveis em caixa e nova dívida. A companhia já contratou uma linha-ponte de aproximadamente € 14 bilhões, fornecida por instituições financeiras envolvidas na estruturação do negócio.
A empresa declarou que pretende manter a alavancagem bruta abaixo de duas vezes e preservar sua classificação de crédito em grau de investimento. Também afirmou que sua política de recompra de ações e retorno de capital aos acionistas permanecerá inalterada.
Segundo as projeções divulgadas pela administração, a aquisição deverá aumentar o lucro ajustado por ação da Uber já no momento da conclusão. No terceiro ano após o fechamento, a contribuição positiva esperada deverá alcançar um percentual de um dígito alto.
Essas estimativas dependem da integração das plataformas, da captura de sinergias e da manutenção do crescimento nos mercados adquiridos. Custos regulatórios, despesas de reestruturação, integração tecnológica e eventual perda de participação regional podem reduzir os resultados previstos.
Para os investidores da Uber, a transação amplia as oportunidades de crescimento internacional, mas também aumenta a exposição a países com ambientes regulatórios, cambiais e políticos distintos. Parte relevante da Delivery Hero está concentrada em mercados emergentes, onde o potencial de expansão é elevado, mas a volatilidade também tende a ser maior.
Alemanha recebe compromissos de emprego e investimento
A Uber assumiu compromissos específicos para reduzir resistências políticas e institucionais na Alemanha. A empresa manterá a sede da Delivery Hero em Berlim e não fará alterações no quadro de funcionários da unidade até, pelo menos, 2029.
A companhia norte-americana também prometeu investir € 2 bilhões no país até 2031. Os recursos deverão ser destinados à ampliação das equipes corporativas, ao crescimento das operações locais e ao desenvolvimento de projetos ligados a veículos autônomos e à indústria automobilística alemã.
A preservação da sede possui peso simbólico e econômico. Fundada em 2011, a Delivery Hero tornou-se uma das principais empresas de tecnologia da Alemanha e integra o índice MDAX da Bolsa de Frankfurt desde sua abertura de capital, em 2017.
Niklas Östberg, cofundador e presidente-executivo da Delivery Hero, afirmou que a combinação permitirá aproveitar a infraestrutura global de mobilidade e tecnologia da Uber, ao mesmo tempo que preservará as marcas e as capacidades locais construídas pelo grupo alemão.
Dara Khosrowshahi, presidente-executivo da Uber, destacou que a aquisição praticamente dobrará o número de mercados nos quais a companhia oferece simultaneamente mobilidade e entrega. A administração pretende usar essa integração para elevar a frequência de uso dos aplicativos, ampliar o programa Uber One e aumentar as receitas com publicidade e comércio local.
Aprovação regulatória definirá alcance da nova plataforma
Até a conclusão, a aquisição da Delivery Hero continuará exposta a riscos jurídicos, financeiros e operacionais. Autoridades poderão exigir novas vendas de ativos, impor restrições comerciais ou determinar compromissos relacionados a preços, dados, entregadores e restaurantes.
Também existe o risco de que a operação seja aprovada apenas parcialmente ou demore mais do que o previsto. O acordo prevê direitos de rescisão e multas recíprocas, embora os valores dessas penalidades ainda dependam da documentação definitiva.
A Delivery Hero orientou seus acionistas a não tomar decisões antes da publicação do documento oficial da oferta e da manifestação fundamentada de seus conselhos. A operação somente será efetivada depois que todas as condições forem cumpridas ou formalmente dispensadas.
Se concluída nos termos anunciados, a transação colocará sob o mesmo controle dezenas de marcas de entrega e uma infraestrutura que conecta transporte, refeições, supermercados, farmácias e comércio rápido em mercados desenvolvidos e emergentes.
O acordo também confirma que a próxima fase do setor será marcada menos pela abertura de novas plataformas e mais pela disputa por escala, dados, frequência de consumo e integração de serviços. A análise regulatória, prevista para atravessar 2026 e boa parte de 2027, determinará quanto dessa estratégia poderá efetivamente ser incorporado pela Uber.










