O volume de vendas do comércio varejista brasileiro recuou 1,5% em abril na comparação com março, já descontados os efeitos sazonais, segundo dados divulgados nesta terça-feira (16) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado ficou próximo do piso das estimativas do mercado e interrompeu uma sequência de três meses de desempenho mais favorável para o setor, reforçando sinais de perda de fôlego da atividade econômica no início do segundo trimestre.
Na comparação com abril de 2025, as vendas do varejo avançaram 1,0%. No acumulado de 2026, o setor registra crescimento de 2,0%, enquanto o avanço em 12 meses desacelerou para 1,5%.
O resultado também veio abaixo das expectativas para o varejo ampliado, indicador que inclui as atividades de veículos, materiais de construção e atacado alimentício. Nesse segmento, as vendas recuaram 0,7% em abril ante março, contrariando a expectativa mediana do mercado, que apontava para uma alta de 0,2%.
A queda do varejo ocorre em um momento em que a indústria e o setor de serviços ainda mostram alguma resiliência, aumentando as dúvidas sobre a intensidade da desaceleração da economia brasileira nos próximos meses.
Resultado fica próximo do pior cenário projetado pelo mercado
A retração de 1,5% nas vendas do varejo ficou pouco acima do piso das projeções compiladas pelo mercado financeiro, que apontava para uma queda máxima de 1,6%.
A mediana das estimativas indicava recuo de 0,7%, enquanto algumas instituições ainda esperavam uma leve alta de até 0,35%.
O desempenho mais fraco do que o esperado foi interpretado como um sinal de moderação do consumo das famílias, especialmente em segmentos ligados a compras discricionárias e mais dependentes das condições de crédito.
Apesar da surpresa negativa, o IBGE revisou para cima o resultado de março. O crescimento das vendas no varejo passou de 0,5% para 0,7% na comparação com fevereiro.
No varejo ampliado, o resultado anterior foi revisado de uma alta de 0,3% para estabilidade.
As revisões amenizam parcialmente a leitura negativa do dado de abril, mas não alteram a percepção de que a atividade perdeu força no início do segundo trimestre.
Combustíveis mais caros pressionaram o consumo
Economistas apontam que parte relevante da queda nas vendas em abril foi provocada pelo aumento dos preços dos combustíveis, que reduziu o consumo do item e afetou o orçamento das famílias.
A XP destacou em relatório que a elevação dos preços teve impacto direto sobre o desempenho do varejo no mês, contribuindo também para uma redução nas vendas de veículos.
Ainda assim, a instituição avalia que os fundamentos do consumo permanecem relativamente sólidos.
Segundo os economistas Rodolfo Margato e Alexandre Maluf, a renda real disponível das famílias continua em trajetória de crescimento, sustentada por um mercado de trabalho ainda aquecido e pelo aumento das transferências fiscais.
Para a corretora, os estímulos promovidos pelo governo federal devem continuar oferecendo suporte ao consumo no curto prazo, impedindo uma desaceleração mais intensa da demanda doméstica.
A avaliação é de que a fraqueza de abril deve ser interpretada com cautela e não representa, necessariamente, uma mudança estrutural de tendência.
Segmentos ligados ao crédito mostram maior fragilidade
Os dados analisados pela XP indicam que o varejo mais sensível à renda recuou 0,6% em abril, enquanto o segmento mais dependente de crédito apresentou contração de 1,4%.
Segundo os economistas, o comportamento dos números sugere que a desaceleração foi mais intensa em categorias associadas a bens de maior valor agregado e compras discricionárias.
O cenário é compatível com um ambiente de condições financeiras mais restritivas, marcado por juros ainda elevados e maior seletividade na concessão de crédito.
As categorias ligadas ao consumo básico, especialmente alimentos, mantiveram desempenho mais resiliente.
Esse movimento reforça uma mudança no padrão de consumo das famílias, que têm priorizado despesas essenciais em detrimento de bens considerados menos necessários.
Varejo perde força em contraste com indústria e serviços
Para o economista sênior do Banco Inter, André Valério, o comércio varejista foi o setor que apresentou os sinais mais claros de desaceleração em abril.
A avaliação contrasta com o desempenho observado na produção industrial e no setor de serviços, que registraram crescimento no período.
No entanto, o economista ressalta que também é preciso cautela ao analisar os resultados desses segmentos.
Segundo Valério, a indústria continua mostrando uma forte dependência das exportações, especialmente da produção ligada ao petróleo, enquanto setores mais sensíveis à economia doméstica seguem apresentando desempenho mais fraco.
No caso dos serviços, mudanças metodológicas implementadas pelo IBGE em março influenciaram os resultados recentes e podem ter ampliado artificialmente a alta observada em abril.
A leitura predominante entre economistas é que os três grandes setores da economia — indústria, serviços e varejo — já apresentam sinais de moderação no ritmo de crescimento.
Varejo opera abaixo do pico histórico alcançado em março
Após a queda de abril, o volume de vendas do comércio varejista passou a operar 1,5% abaixo do maior nível da série histórica, alcançado em março de 2026.
No caso do varejo ampliado, o setor ficou 0,7% abaixo do recorde observado em fevereiro deste ano.
Apesar da desaceleração recente, algumas atividades continuam em níveis historicamente elevados.
As vendas de supermercados, por exemplo, permanecem em patamar recorde, sustentadas pela demanda por itens de consumo essencial e pela resiliência do mercado de trabalho.
Os dados mostram que, embora haja sinais de perda de dinamismo, o consumo das famílias ainda não entrou em uma trajetória de retração generalizada.
XP reduz projeção para o PIB do segundo trimestre
O desempenho abaixo do esperado das vendas do varejo levou a XP a revisar sua estimativa para o Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre.
O chamado tracker da instituição para a atividade econômica foi reduzido de uma alta de 0,6% para um crescimento de 0,5%.
Apesar da revisão, a corretora manteve sua projeção de expansão de 2% para o PIB brasileiro em 2026.
A expectativa é de que a combinação entre mercado de trabalho resiliente, aumento da renda e estímulos fiscais continue oferecendo sustentação à economia nos próximos meses.
Ainda assim, os números de abril reforçam o cenário de desaceleração gradual da atividade, especialmente em segmentos mais dependentes de crédito e mais sensíveis às condições financeiras.
A Gazeta Mercantil apurou que parte do mercado já monitora a possibilidade de novas revisões para as projeções de crescimento caso os próximos indicadores de consumo confirmem uma perda mais intensa de dinamismo da demanda doméstica.
Desaceleração do varejo amplia incertezas sobre o ritmo da economia
A queda de 1,5% nas vendas do varejo em abril acrescenta um novo elemento de cautela ao cenário econômico brasileiro.
Embora o consumo das famílias continue amparado por fatores como emprego, renda e transferências governamentais, os dados sugerem que o ambiente de juros elevados e crédito mais restrito começa a produzir efeitos mais evidentes sobre as decisões de consumo.
Para investidores, empresas e formuladores de política econômica, a trajetória do varejo nos próximos meses será um dos principais termômetros para medir a capacidade de sustentação da atividade econômica em 2026 e o ritmo de crescimento do PIB brasileiro.







