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Viveo (VVEO3) tenta virar página após queda de quase 95% desde o IPO

Companhia de produtos médicos e hospitalares busca convencer investidores de que a nova fase combina disciplina financeira, rentabilidade e redução da alavancagem

por João Souza
21/05/2026 às 09h00
em Empresas
Viveo (Vveo3) Tenta Virar Página Após Queda De Quase 95% Desde O Ipo - Gazeta Mercantil

A Viveo (VVEO3) tenta deixar para trás o ciclo de expansão acelerada que marcou sua trajetória recente e convencer o mercado de que entrou em uma nova fase, mais focada em rentabilidade, geração de caixa e disciplina financeira. Após anos de crescimento por aquisições e ganho de escala, a distribuidora de produtos médicos e hospitalares passou a priorizar eficiência operacional, integração de negócios e fortalecimento do balanço, em um ambiente de juros ainda elevados e maior seletividade dos investidores.

A mudança de rota ocorre após um período de forte pressão sobre as ações da Viveo (VVEO3). Os papéis acumulam queda superior a 20% em 2026 e perderam perto de 95% de valor desde o IPO, realizado em 2021. A deterioração da percepção do mercado está ligada à combinação de endividamento elevado, dificuldade de conversão de caixa e dúvidas sobre a capacidade da empresa de transformar crescimento em retorno efetivo aos acionistas.

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Em entrevista ao Seu Dinheiro, o vice-presidente financeiro da Viveo (VVEO3), Frederico Oldani, afirmou que a companhia não busca mais crescer “a qualquer custo”. Segundo o executivo, o foco atual está no equilíbrio entre expansão de receita, rentabilidade e geração de caixa, com prioridade para margem, retorno sobre capital e qualidade do resultado.

Viveo tenta se afastar do modelo de crescimento acelerado

A Viveo (VVEO3) cresceu fortemente entre 2020 e 2023, período em que o mercado ainda valorizava empresas em rápida expansão, especialmente aquelas capazes de consolidar setores fragmentados. A companhia avançou por aquisições, ampliou presença nacional e construiu uma plataforma diversificada no setor de saúde.

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Esse modelo, no entanto, passou a ser questionado quando os juros subiram, o custo da dívida aumentou e investidores passaram a cobrar mais previsibilidade financeira. O mercado deixou de premiar crescimento baseado apenas em escala e passou a exigir geração de caixa, desalavancagem e retorno sobre capital investido.

A administração da Viveo (VVEO3) entende que parte dos investidores ainda avalia a companhia pela lente desse ciclo anterior. A leitura interna é que a empresa já iniciou uma transformação operacional e financeira desde 2024, mas que essa mudança ainda não foi totalmente incorporada ao preço das ações.

Segundo Oldani, o crescimento da Viveo (VVEO3) daqui para frente precisa vir acompanhado de qualidade de resultado. Na prática, isso significa selecionar melhor os segmentos em que a empresa pretende acelerar, priorizar negócios com maior rentabilidade e evitar movimentos que ampliem pressão sobre caixa ou endividamento.

Companhia opera em cadeia estratégica da saúde

Fundada em 1996, a Viveo (VVEO3) atua em diferentes etapas da cadeia de saúde. A companhia possui 70 unidades e centros de distribuição no país, sete fábricas e uma base de clientes formada por hospitais, clínicas, laboratórios, farmácias e atacadistas.

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O grupo opera com marcas como Mafra, Prevena e Cremer. Também atua no varejo com marcas voltadas ao consumidor final, como Cremer, Piquitucho e Bellacotton. Essa diversificação permitiu à empresa ganhar escala e presença nacional, mas também tornou a integração operacional mais complexa.

Em 2025, a Viveo (VVEO3) registrou receita de R$ 11,6 bilhões e prejuízo líquido de R$ 78,4 milhões. Os números reforçam o desafio central da companhia: converter uma operação de grande porte em rentabilidade sustentável.

No setor de saúde, escala é relevante, mas não suficiente. Empresas que distribuem produtos médicos, hospitalares e farmacêuticos dependem de capital de giro elevado, gestão eficiente de estoques, controle logístico e capacidade de negociação com fornecedores e clientes. Pequenas mudanças em prazos, margens e custos financeiros podem ter impacto significativo sobre o resultado.

Geração de caixa passa ao centro da estratégia

A principal mudança na narrativa da Viveo (VVEO3) está na prioridade dada à geração de caixa. Depois de anos de expansão e de 26 negócios adquiridos, a companhia tenta capturar sinergias, simplificar operações e transformar escala em produtividade.

A empresa afirma que a nova fase envolve otimização logística, melhor gestão de estoques, revisão de processos e maior disciplina na alocação de capital. O objetivo é reduzir a dependência de crescimento acelerado e aumentar a previsibilidade do resultado.

No primeiro trimestre de 2026, a Viveo (VVEO3) entregou geração de caixa positiva de R$ 45,5 milhões, o primeiro resultado positivo em um primeiro trimestre na história da companhia. A alavancagem caiu para 3,8 vezes o Ebitda, depois de ter superado 4,5 vezes no início de 2025.

O resultado operacional também mostrou melhora. Segundo análise do Safra, o Ebitda ajustado da Viveo (VVEO3) somou R$ 208 milhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 31% sobre o mesmo período do ano anterior, acima das estimativas do banco e do consenso de mercado.

Prejuízo ainda mostra peso dos juros e da dívida

Apesar dos sinais operacionais positivos, a Viveo (VVEO3) ainda enfrenta pressão financeira. A companhia registrou prejuízo líquido contábil de R$ 57 milhões no primeiro trimestre de 2026, ante prejuízo de R$ 59 milhões no mesmo período do ano anterior. O resultado continuou pressionado pelo patamar elevado da Selic e pelo custo da dívida.

Esse ponto é crucial para investidores. A melhora operacional precisa se traduzir em geração de caixa recorrente e redução efetiva do endividamento para que o mercado reavalie a tese de investimento.

Empresas alavancadas são mais sensíveis ao ciclo de juros. Enquanto a Selic permanece em nível elevado, despesas financeiras consomem parte relevante do resultado operacional. No caso da Viveo (VVEO3), a desalavancagem é vista como condição necessária para reduzir risco, melhorar flexibilidade financeira e recuperar a confiança dos acionistas.

A gestão afirma que trabalha para alongar dívidas, fortalecer o balanço e ampliar a resiliência financeira. O desafio é avançar nessa agenda sem comprometer a operação em um setor que exige estoques robustos, capilaridade logística e prazos comerciais adequados.

Mercado cobra consistência antes de reprecificar VVEO3

A forte queda das ações da Viveo (VVEO3) mostra que o mercado ainda não comprou integralmente a tese de transformação. Embora a empresa apresente avanços em caixa e eficiência, investidores tendem a exigir mais trimestres de consistência antes de reprecificar o papel.

A queda acumulada desde o IPO também criou um problema de credibilidade. Companhias que chegam à Bolsa com forte narrativa de crescimento e depois enfrentam deterioração operacional costumam passar por um período prolongado de desconfiança. A recuperação depende menos de promessas e mais de entrega recorrente.

Nesse contexto, a Viveo (VVEO3) precisa provar que a melhora recente não foi pontual. A companhia terá de demonstrar controle sobre capital de giro, disciplina em despesas, margens mais estáveis e redução gradual da alavancagem.

A expectativa da administração é que a percepção do mercado mude à medida que os resultados evidenciem evolução em rentabilidade e conversão de caixa. Para isso, a empresa precisa transformar a escala construída nos últimos anos em retorno mais previsível.

Integração substitui nova onda de aquisições

A Viveo (VVEO3) não descarta oportunidades de fusões e aquisições, mas a prioridade atual é integração. Segundo Oldani, o momento é de consolidação interna, captura de sinergias e maior disciplina financeira, e não de uma nova onda agressiva de compras.

Essa mudança é relevante porque o ciclo anterior de crescimento da companhia foi fortemente associado a aquisições. A estratégia ampliou a presença da empresa na cadeia de saúde, mas também elevou complexidade operacional e exigiu maior controle financeiro.

Ao focar integração, a Viveo (VVEO3) busca extrair valor dos ativos já incorporados. A simplificação da estrutura pode melhorar margens, reduzir duplicidades, otimizar logística e tornar a operação mais eficiente.

Para o mercado, essa fase tende a ser menos vistosa do que uma agenda de expansão acelerada, mas pode ser mais importante para a criação de valor. Em empresas que cresceram rapidamente por aquisições, a captura de sinergias costuma ser decisiva para validar a estratégia original.

Setor de saúde oferece demanda, mas exige capital

A Viveo (VVEO3) atua em um setor com demanda estruturalmente relevante. O envelhecimento da população, a expansão da rede privada de saúde, o avanço de procedimentos médicos e a necessidade constante de suprimentos hospitalares sustentam oportunidades de longo prazo.

Ao mesmo tempo, o setor é intensivo em capital de giro e altamente regulado. Empresas precisam manter estoques, atender prazos de entrega, lidar com variação cambial, negociar com grandes clientes e acompanhar mudanças regulatórias que podem afetar preços, margens e contratos.

A volatilidade cambial é outro fator de risco. Parte dos produtos e insumos da cadeia de saúde tem referência internacional ou componente importado. Quando o dólar sobe, custos podem pressionar margens, especialmente se a empresa não conseguir repassar preços no mesmo ritmo.

Juros elevados também pesam. Distribuidoras e fabricantes que dependem de capital de giro sofrem mais quando o custo financeiro permanece alto. Por isso, a melhora da estrutura de capital é um ponto central para a Viveo (VVEO3).

Nova fase depende de execução e redução de risco

O discurso da Viveo (VVEO3) agora está ancorado em três pilares: rentabilidade, caixa e disciplina. A empresa tenta mostrar que deixou para trás a fase de crescimento acelerado e que está preparada para operar com mais previsibilidade em um mercado menos tolerante a desequilíbrios financeiros.

A tese faz sentido em um ambiente no qual investidores passaram a privilegiar companhias capazes de gerar caixa, reduzir dívida e entregar retorno sobre capital. No entanto, a reavaliação das ações dependerá da continuidade dos resultados.

A companhia ainda precisa enfrentar prejuízo líquido, endividamento relevante e percepção negativa acumulada desde o IPO. O primeiro trimestre de 2026 trouxe sinais positivos, mas o mercado tende a exigir uma sequência mais longa de entregas antes de mudar sua avaliação sobre Viveo (VVEO3).

O caso da empresa resume a mudança de ciclo no mercado de capitais brasileiro. Crescer deixou de ser suficiente. Para recuperar confiança, a Viveo (VVEO3) terá de provar que sua escala pode se converter em caixa, margem e retorno sustentável.

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