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XP entra na adquirência com maquininha e cartão para disputar mercado de PMEs

Empresas integra pagamentos, recebíveis e investimentos à conta digital e prepara avanço no crédito para pequenas e médias empresas.

por João Souza
22/07/2026 às 12h07
em Empresas
Xp Entra Na Adquirência Com Maquininha E Cartão Para Disputar Mercado De Pmes - Gazeta Mercantil

A XP Inc. (XP) anunciou nesta terça-feira, 21 de julho, em São Paulo, a entrada da XP Empresas no mercado de adquirência e o lançamento de um cartão de crédito para pequenas e médias empresas, em uma ofensiva destinada a concentrar pagamentos, recebimentos, investimentos, câmbio e crédito no mesmo ecossistema financeiro. A maquininha XP Empresas Pay e o cartão XP Empresas Visa Infinite serão liberados gradualmente no terceiro trimestre, inicialmente em operação assistida para clientes da plataforma.

A iniciativa amplia uma estratégia iniciada em 2024, quando a XP Empresas lançou sua conta digital para pessoas jurídicas. Dois anos depois, a unidade passa a disputar uma parcela maior da rotina financeira dos clientes empresariais, deixando de atuar apenas nos recursos aplicados e nas operações de câmbio para acompanhar também vendas, despesas e capital de giro.

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O público potencial inclui empresas com faturamento anual de até R$ 500 milhões. Dentro desse universo, a XP separa as PMEs, com receita de até R$ 30 milhões, das companhias de middle market, que podem alcançar o teto de R$ 500 milhões. A primeira etapa será concentrada na base de mais de 100 mil clientes ativos da XP Empresas, número que, segundo a companhia, dobrou nos últimos três anos.

A movimentação coloca a XP Empresas em concorrência mais direta com bancos, fintechs e adquirentes que já oferecem contas, maquininhas, cartões e crédito em uma mesma plataforma. A disputa envolve Cielo, Stone, Rede, Getnet, PagBank e Mercado Pago, além de instituições tradicionais que vêm reforçando serviços digitais para empresas.

Estratégia busca transformar a XP no banco principal das empresas

O objetivo da XP Empresas é elevar a chamada principalidade, expressão usada pelo setor financeiro para definir a instituição na qual o cliente concentra sua movimentação. Até agora, parte relevante da relação da XP com empresas estava ligada a investimentos, gestão de caixa, derivativos e câmbio. Com a adquirência e o cartão, a companhia passa a disputar transações recorrentes mantidas em outros bancos ou plataformas.

A mudança pode aumentar a receita gerada por cliente sem depender exclusivamente da abertura de novas contas. Ao incorporar pagamentos e recebimentos, a XP Empresas amplia as oportunidades de oferecer antecipação de recebíveis, soluções de tesouraria e, posteriormente, crédito corporativo.

Para a XP Inc. (XP), que construiu sua posição no mercado brasileiro a partir da distribuição de investimentos, o avanço em serviços bancários representa uma forma de diversificar receitas e tornar o relacionamento menos dependente dos ciclos do mercado de capitais.

O ganho potencial vem acompanhado de desafios. O mercado de pagamentos opera com margens pressionadas, concorrência intensa e forte sensibilidade a preço, atendimento e estabilidade tecnológica. A XP Empresas precisará demonstrar que a integração com investimentos e câmbio oferece valor suficiente para convencer empresários a transferir fluxos mantidos em instituições consolidadas.

Fiserv e Clover aceleram entrada no mercado de pagamentos

A XP Empresas estruturou a operação em parceria com a Fiserv (FI), utilizando a plataforma Clover como base tecnológica. A opção permite entrar no segmento sem desenvolver do zero toda a infraestrutura necessária para capturar, processar e liquidar transações realizadas com cartões.

A Clover reúne terminais de pagamento e recursos de gestão conectáveis a sistemas empresariais. Na prática, a maquininha XP Empresas Pay deverá funcionar como porta de entrada para conciliação de vendas, controle de recebíveis e integração do faturamento à conta digital.

Para o cliente, a proposta é reduzir a fragmentação entre fornecedores. Uma empresa que hoje recebe em uma adquirente, mantém caixa em um banco e investe em outra instituição poderá concentrar essas etapas na XP Empresas, desde que as condições comerciais e operacionais sejam competitivas.

A companhia indica que não pretende disputar o mercado apenas pela menor taxa. O posicionamento será baseado na combinação entre preço, relacionamento e oferta integrada. Condições diferenciadas poderão variar conforme o volume transacionado, o patrimônio investido e a quantidade de produtos contratados, sempre sujeitas à análise de elegibilidade.

A infraestrutura da Fiserv (FI) reduz parte do risco de execução tecnológica, mas não elimina a responsabilidade da XP Empresas sobre a experiência do usuário. Falhas de integração, atrasos na liquidação ou dificuldades de conciliação podem comprometer a adesão em um mercado diretamente ligado ao caixa diário do comerciante.

Cartão empresarial usa investimentos para ampliar limite

O segundo eixo da expansão é o cartão XP Empresas Visa Infinite, emitido com a bandeira Visa (V). O produto terá anuidade gratuita, possibilidade de emissão de até seis cartões adicionais e Investback de até 1,2% sobre as compras realizadas na função crédito.

O Investback devolverá parte do valor gasto para a própria empresa, em vez de concentrar a recompensa em pontos ou milhas. O retorno poderá ser direcionado à gestão do caixa ou a novos investimentos mantidos na plataforma.

O cartão também prevê acesso a salas VIP, Visa Fast Pass e serviços de assistência tecnológica e reputação digital. Esses benefícios atendem empresas cujos sócios e executivos viajam com frequência, mas o principal diferencial financeiro estará no mecanismo de concessão de limite.

A XP Empresas adotará um modelo híbrido. O cliente receberá inicialmente um limite definido por análise convencional de risco, sem garantia. Depois, poderá ampliar esse valor mediante a vinculação de investimentos mantidos na XP. A colateralização reduz a exposição da instituição e permite que empresas com patrimônio financeiro relevante obtenham maior capacidade de pagamento sem liquidar aplicações.

Para o cliente, a vantagem é preservar os investimentos e usá-los como suporte ao limite. O risco está na possibilidade de bloqueio ou execução da garantia em caso de inadimplência, conforme as condições contratuais. A ampliação do limite, portanto, não equivale a crédito sem custo ou sem risco.

Dados de vendas podem sustentar futuras ofertas de crédito

Além da receita direta, a adquirência oferece à XP Empresas informações sobre faturamento, sazonalidade, tíquete médio e comportamento dos recebíveis. Esses dados podem melhorar a avaliação de risco e permitir ofertas de crédito mais alinhadas à capacidade financeira de cada negócio.

A leitura do fluxo transacional é especialmente relevante entre pequenas e médias empresas. Muitas companhias têm dificuldade para comprovar renda de forma padronizada, apresentam balanços menos detalhados ou misturam despesas pessoais e empresariais. Ao acompanhar os pagamentos processados pela maquininha, a instituição passa a formar uma visão mais atualizada da operação.

Isso pode abrir espaço para capital de giro, antecipação de recebíveis e outras linhas vinculadas ao faturamento. Ao mesmo tempo, o uso intensivo de dados aumenta a exigência de governança, segurança cibernética, transparência e proteção das informações dos clientes.

Para os investidores da XP Inc. (XP), a expansão em crédito pode elevar o potencial de rentabilidade do relacionamento empresarial, mas também altera o perfil de risco. A distribuição de investimentos exige menos capital próprio do que operações de crédito. Quando a instituição passa a carregar exposição a empresas, precisa reforçar provisões, modelos de análise e controles de inadimplência.

A administração não divulgou metas financeiras específicas para a XP Empresas Pay ou para o novo cartão. Sem projeções de volume, receita e custos, o impacto inicial dependerá da velocidade de adesão da base atual, da venda cruzada de produtos e da disciplina na concessão de crédito.

Digitalização das PMEs amplia disputa por pagamentos corporativos

O mercado escolhido pela XP Empresas combina baixa penetração de cartões nas despesas corporativas com digitalização acelerada. Dados da Visa indicaram crescimento de aproximadamente 45% nas transações com cartões empresariais no Brasil em 2024. Os pagamentos por aproximação avançaram mais de 90%, enquanto as compras on-line cresceram quase 60%.

Apesar do avanço, a utilização de cartões por pequenas e médias empresas permanece abaixo do padrão observado entre consumidores. Segundo estimativas apresentadas pela Visa, cerca de 60% das despesas familiares são pagas com cartão, enquanto a participação nas despesas das PMEs gira em torno de 8%.

A diferença aponta espaço para expansão, mas não garante migração automática. Empresas exigem limites mais altos, segregação de despesas, múltiplos usuários, regras de aprovação, conciliação contábil e integração com sistemas de gestão.

Uma pesquisa da Visa com cerca de duas mil PMEs indicou que 43% dos empresários consultados já tiveram crédito negado por falta de limite adequado. A XP Empresas procura responder a essa dificuldade ao combinar análise de risco com investimentos em garantia, mas o modelo tende a favorecer clientes que já mantêm patrimônio financeiro na plataforma.

Essa característica mostra que a estratégia inicial não é disputar todo o mercado de pequenas empresas de forma indiscriminada. A vantagem competitiva da XP Empresas está na base que já utiliza a instituição para investir, fazer câmbio ou administrar reservas. O desafio será transformar esse vínculo em uso cotidiano da conta, do cartão e da maquininha.

Operação assistida testará adesão da base empresarial

A maquininha XP Empresas Pay e o cartão XP Empresas Visa Infinite serão disponibilizados ao longo do terceiro trimestre em operação assistida. O modelo gradual permite acompanhar o funcionamento dos produtos, corrigir falhas e medir o interesse antes de uma distribuição mais ampla.

No curto prazo, o principal indicador será a adesão dos mais de 100 mil clientes empresariais ativos. Uma conversão relevante dessa base pode gerar escala sem o mesmo custo de aquisição exigido para conquistar empresas que ainda não mantêm relacionamento com a XP.

A fase inicial também mostrará se a XP Empresas conseguirá competir em preço sem comprometer margens. Adquirentes estabelecidas oferecem aluguel reduzido ou gratuito, taxas negociadas por volume, antecipação de recebíveis e pacotes integrados. A diferenciação dependerá da qualidade da plataforma e da capacidade de combinar investimentos, câmbio, pagamentos e crédito.

Para a XP Inc. (XP), o lançamento aprofunda a transformação de uma plataforma centrada em investimentos em um grupo financeiro com presença crescente na movimentação bancária de empresas. O resultado da ofensiva será determinado menos pelo número de maquininhas distribuídas e mais pela parcela do fluxo financeiro que a XP Empresas conseguir trazer para dentro de seu ecossistema.

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