A Apple (AAPL34) iniciou nesta terça-feira, 1º de setembro, sua primeira troca de comando em 15 anos. John Ternus assumiu oficialmente o cargo de CEO no lugar de Tim Cook, que deixa a função exercida desde 2011 e passa a ocupar a presidência executiva do conselho de administração da companhia.
A sucessão havia sido anunciada em abril e foi aprovada por unanimidade pelo conselho. A partir desta terça, Ternus também passa a integrar o próprio conselho da Apple, enquanto Arthur Levinson, que presidiu o colegiado nos últimos 15 anos, torna-se diretor independente líder.
A mudança ocorre em um momento de força financeira da companhia, mas também de transformação tecnológica. Ternus recebe uma Apple que superou US$ 4 trilhões em valor de mercado durante a gestão Cook, possui mais de 2,5 bilhões de dispositivos ativos e encerrou seu trimestre mais recente com receita de US$ 109,4 bilhões.
Ao mesmo tempo, o novo CEO assume a responsabilidade de acelerar a estratégia de inteligência artificial, ampliar a integração da Siri AI aos produtos, administrar restrições regulatórias em diferentes mercados e encontrar novas fontes de crescimento para uma empresa que continua fortemente associada ao iPhone.
John Ternus está na Apple desde 2001
Ternus, de 50 anos, não chega ao comando como um executivo externo.
Ele entrou para a equipe de design de produtos da Apple em 2001, quando a companhia ainda estava sob a liderança de Steve Jobs e antes do lançamento do primeiro iPhone.
Em 2013, tornou-se vice-presidente de Hardware Engineering. Em 2021, passou a integrar a equipe executiva como senior vice president da área.
Ao longo dos últimos anos, esteve diretamente ligado ao desenvolvimento de diferentes gerações de iPhone, iPad, Mac, Apple Watch e AirPods.
Também teve participação relevante na transição dos computadores Mac dos processadores Intel para chips desenvolvidos pela própria Apple, uma das mudanças estratégicas mais importantes da companhia na última década.
Antes de ingressar na Apple, Ternus trabalhou como engenheiro mecânico na Virtual Research Systems. Ele é formado em Engenharia Mecânica pela Universidade da Pensilvânia.
A escolha de um executivo com trajetória concentrada em engenharia de hardware sinaliza a intenção do conselho de preservar uma característica central do modelo de negócios da Apple: o controle simultâneo de hardware, software e serviços.
Novo CEO terá salário anual de US$ 3 milhões
No mesmo dia em que a transição entrou em vigor, a Apple apresentou à Securities and Exchange Commission dos Estados Unidos os novos termos de remuneração de Ternus e Cook.
O salário anual do novo CEO foi elevado para US$ 3 milhões.
Além disso, Ternus recebeu nesta terça-feira uma concessão proporcional de ações restritas referente ao período em que atuará como CEO durante o exercício fiscal de 2026. O valor-alvo desse pacote é de US$ 2,5 milhões.
Para o ano fiscal de 2027, o conselho aprovou uma remuneração anual em ações com valor-alvo de US$ 55 milhões.
Desse total, 75% estarão vinculados ao desempenho da companhia. Isso equivale a US$ 41,25 milhões em ações restritas cujo resultado dependerá do retorno total proporcionado pela Apple aos acionistas em comparação com as demais empresas do índice S&P 500.
Os 25% restantes, equivalentes a US$ 13,75 milhões, serão concedidos com base no tempo de permanência no cargo, com aquisição gradual dos direitos ao longo de quatro anos.
A estrutura coloca uma parcela elevada da remuneração futura de Ternus diretamente vinculada ao desempenho das ações da Apple.
Cook continua dentro da companhia
A saída de Tim Cook da posição de CEO não representa seu afastamento da Apple.
Cook assume a função de Executive Chair, ou presidente executivo do conselho, e continuará participando de assuntos considerados estratégicos para a empresa.
A Apple informou que ele deverá colaborar, entre outras áreas, nas relações da companhia com formuladores de políticas públicas e autoridades governamentais ao redor do mundo.
Seu salário anual será de US$ 2 milhões a partir de 26 de setembro.
Cook também terá direito a um novo pacote de ações com valor-alvo de US$ 45 milhões no exercício fiscal de 2027.
Metade será vinculada ao desempenho da Apple em relação às empresas do S&P 500. Os outros US$ 22,5 milhões serão concedidos em ações vinculadas ao tempo de permanência.
A estrutura indica que Cook continuará desempenhando papel relevante na companhia mesmo sem ocupar a função executiva principal.
Apple multiplicou valor de mercado durante gestão Cook
Tim Cook assumiu o comando da Apple em agosto de 2011, depois da saída de Steve Jobs.
Naquele período, a companhia valia aproximadamente US$ 350 bilhões no mercado.
Ao longo de seus 15 anos como CEO, a capitalização ultrapassou US$ 4 trilhões. Isso significa que o valor de mercado da Apple se multiplicou por mais de 11 vezes.
A receita anual também mudou de escala.
No exercício fiscal de 2011, a empresa registrava aproximadamente US$ 108 bilhões em receitas. Em 2025, o número superou US$ 416 bilhões.
A diferença representa crescimento nominal superior a 280% no período.
Cook também comandou a expansão do modelo de negócios para além do iPhone.
Durante sua gestão, surgiram categorias como Apple Watch, AirPods e Vision Pro, enquanto os serviços ganharam peso crescente nas receitas com Apple Music, Apple TV, iCloud, Apple Pay, App Store e outras plataformas.
A empresa afirma estar atualmente presente em mais de 200 países e territórios e operar mais de 500 lojas próprias.
Ternus recebe empresa com receita trimestral de US$ 109,4 bilhões
A transição ocorre depois do melhor trimestre encerrado em junho da história da Apple.
No terceiro trimestre fiscal de 2026, encerrado em 27 de junho, a companhia registrou receita de US$ 109,4 bilhões.
O crescimento foi de 16% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A margem bruta chegou a 50,1%, enquanto o lucro diluído por ação foi de US$ 2,02, alta de 29%.
iPhone, Mac e Serviços estabeleceram recordes de receita para um trimestre encerrado em junho.
A combinação torna a sucessão diferente de trocas de comando realizadas em meio a crises financeiras ou queda abrupta de vendas.
Ternus assume uma empresa lucrativa, com geração elevada de caixa e uma base instalada superior a 2,5 bilhões de dispositivos ativos.
Seu desafio é manter esse ritmo enquanto muda o eixo tecnológico de produtos que alcançaram maturidade comercial.
Inteligência artificial será um dos principais testes
A inteligência artificial será uma das áreas mais observadas durante o início da gestão.
Em junho, a Apple apresentou a Siri AI, uma versão reconstruída de sua assistente virtual baseada na nova geração da Apple Intelligence.
A ferramenta ganhou recursos de reconhecimento do conteúdo exibido na tela, entendimento do contexto pessoal do usuário, integração entre aplicativos e capacidade de recorrer a informações disponíveis na internet.
A estratégia busca colocar recursos de IA diretamente no sistema operacional e nos aparelhos, em vez de tratá-los apenas como aplicativos independentes.
Parte das funcionalidades está sendo disponibilizada inicialmente para desenvolvedores e deverá chegar aos consumidores em versão beta ainda em 2026.
A expansão, entretanto, não será uniforme.
A própria Apple informou que alguns recursos da Siri AI enfrentam restrições regulatórias na União Europeia e não estarão disponíveis inicialmente na China enquanto a companhia trabalha para atender às exigências locais.
Ternus, portanto, terá de transformar a inteligência artificial simultaneamente em produto, infraestrutura tecnológica e estratégia regulatória.
Hardware continuará no centro da estratégia
A formação profissional do novo CEO também aumenta a expectativa sobre o futuro da linha de produtos.
Ternus construiu sua carreira principalmente no desenvolvimento de hardware, materiais e engenharia.
Nos últimos anos, liderou iniciativas relacionadas à durabilidade dos dispositivos, uso de materiais reciclados, novos processos industriais e aumento da possibilidade de reparo dos produtos.
Também participou de projetos que reduziram a dependência tecnológica de fornecedores externos, especialmente com a adoção dos processadores Apple Silicon nos Macs.
Essa experiência poderá ganhar importância em uma fase na qual os recursos de inteligência artificial exigem maior integração entre processadores, memória, consumo de energia, software e infraestrutura de nuvem.
A próxima geração de produtos precisará executar modelos mais avançados sem comprometer autonomia de bateria, desempenho e privacidade, fatores tradicionalmente utilizados pela Apple para diferenciar sua plataforma.
Novo comando começa com uma Apple muito diferente da recebida por Cook
A comparação entre as duas sucessões mostra a transformação da companhia.
Quando Cook assumiu em 2011, o iPhone tinha apenas quatro anos e ainda havia espaço significativo para expansão internacional do smartphone.
Ternus assume uma Apple em que o iPhone é um produto globalmente estabelecido e cuja base instalada já alcança escala bilionária.
O problema estratégico, portanto, mudou.
Em vez de apenas expandir um produto recém-criado, a nova administração precisa encontrar formas de aumentar a receita gerada por uma base de consumidores já consolidada, ampliar serviços, criar novas categorias e integrar inteligência artificial aos dispositivos existentes.
Ao mesmo tempo, precisa preservar margens elevadas e enfrentar pressões regulatórias sobre áreas como App Store, concorrência digital, privacidade e funcionamento das plataformas.
Primeiros resultados serão acompanhados pelo mercado
A entrada de Ternus no cargo não muda imediatamente os números financeiros da Apple, mas cria um novo ponto de referência para os investidores.
A partir desta terça-feira, decisões estratégicas, lançamentos de produtos e desempenho operacional passarão a ser associados à administração do novo CEO.
Cook continuará próximo, agora como presidente executivo do conselho, o que reduz o risco de uma ruptura abrupta na estratégia.
A estrutura escolhida também cria uma transição incomum: o antigo CEO permanece no topo da governança enquanto seu sucessor assume a gestão cotidiana e passa a integrar o conselho.
O desempenho da Apple nos próximos trimestres mostrará até que ponto Ternus conseguirá combinar continuidade operacional com mudanças suficientes para responder à transformação causada pela inteligência artificial.
Depois de 15 anos sob Tim Cook, a Apple inicia em 1º de setembro de 2026 uma nova etapa de liderança. Pela primeira vez desde 2011, o cargo de CEO muda de mãos — e passa para um engenheiro que começou na companhia 25 anos antes de chegar ao posto mais alto.
Fontes:
Apple – comunicado oficial sobre a sucessão de Tim Cook, nomeação de John Ternus e reorganização do conselho de administração
Securities and Exchange Commission – Formulários 8-K e 8-K/A da Apple sobre a nomeação, remuneração e estrutura de incentivos de John Ternus e Tim Cook
Apple – resultados financeiros do terceiro trimestre fiscal de 2026, incluindo receita, margem bruta e lucro por ação
Apple – informações oficiais sobre a Siri AI, Apple Intelligence e disponibilidade dos novos recursos em diferentes mercados
Apple – histórico profissional de John Ternus e informações sobre a evolução da companhia durante a gestão de Tim Cook







