O Brasil registrou déficit de US$ 2,33 bilhões nas transações correntes em junho de 2026, o menor para o mês desde 2022 e 55% abaixo do resultado de junho de 2025. A melhora foi sustentada pelo comércio de bens, que gerou o maior saldo mensal já registrado pela Secretaria de Comércio Exterior, enquanto o ingresso de capital de longo prazo voltou a superar o déficit externo no mês.
Segundo o Banco Central, o resultado ficou ligeiramente abaixo do esperado pelo mercado e interrompeu uma sequência de pressão maior nas contas externas no primeiro semestre. O déficit acumulado em 12 meses recuou para o equivalente a 2,46% do Produto Interno Bruto, contra 3,52% no mesmo período de 2025.
As transações correntes reúnem todas as operações do país com o exterior: a balança comercial de bens, a conta de serviços, a renda primária, que inclui remessas de lucros, dividendos, juros e salários, e a renda secundária, com transferências pessoais. O desempenho de junho mostra um descompasso entre um comércio de bens em forte expansão e contas de serviços e renda ainda deficitárias.
Balança comercial de US$ 9,758 bi compensa rombo em serviços e renda
De acordo com a Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a balança comercial fechou junho com superávit de US$ 9,758 bilhões, crescimento de 66,6% em relação a junho de 2025. O valor foi obtido com exportações de US$ 36,277 bilhões e importações de US$ 26,52 bilhões.
Pelo conceito do balanço de pagamentos utilizado pelo Banco Central, que considera critérios diferentes de contabilização de fretes e seguros, o superávit comercial somou US$ 8,83 bilhões em junho, ante US$ 5,247 bilhões no mesmo mês do ano passado. A diferença metodológica entre os dois critérios é comum, mas ambas as medidas apontam para a mesma direção: avanço expressivo das vendas externas líquidas.
A conta de serviços registrou déficit de US$ 5,133 bilhões em junho, acima dos US$ 4,386 bilhões de um ano antes. Segundo o Banco Central, pesaram o aumento de despesas com telecomunicação, computação e informações, propriedade intelectual e viagens internacionais. As despesas líquidas com viagens somaram US$ 2,1 bilhões em maio, dado mais recente detalhado, e mantiveram tendência de alta no acumulado do ano.
A renda primária teve déficit de US$ 6,466 bilhões, praticamente estável ante US$ 6,44 bilhões em junho de 2025. O componente reflete remessas de lucros e dividendos associadas a investimento direto e em carteira, além de pagamento de juros. As despesas líquidas com lucros e dividendos somaram US$ 4,2 bilhões em maio, com alta de 6,8% na comparação anual, conforme a nota do Banco Central.
Petróleo, minério e soja lideram exportação recorde de US$ 36,2 bi
O recorde mensal de exportações foi explicado por volume e preço. Conforme dados da Secex, as exportações brasileiras cresceram 24,9% em junho na comparação anual, enquanto a corrente de comércio, soma de exportações e importações, chegou a US$ 62,8 bilhões, avanço de 20,3% sobre junho de 2025.
No recorte setorial, a indústria extrativa foi o principal motor. As vendas externas do setor aumentaram US$ 3,66 bilhões, ou 58,4%, na comparação com junho de 2025. A agropecuária cresceu US$ 1,24 bilhão, ou 18%, e a indústria de transformação avançou US$ 2,31 bilhões, ou 14,7%.
O petróleo bruto liderou em valor. As exportações somaram US$ 6,28 bilhões em junho, alta de 78,9% sobre o mesmo mês de 2024, segundo a Secex. O preço médio subiu 67,6%, para US$ 740,53 por tonelada, em um contexto de restrição de oferta no Estreito de Ormuz associado ao conflito envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã, enquanto o volume embarcado cresceu 6,8%, para 8,48 milhões de toneladas.
O minério de ferro e concentrados somou 42,23 milhões de toneladas exportadas, aumento de 17,7% em volume, e US$ 2,85 bilhões em valor, alta de 20%. O preço médio avançou 1,9%, para US$ 67,42 por tonelada. O dado foi divulgado no balanço detalhado de commodities da Secex.
A soja, principal produto da pauta agrícola, alcançou 14,5 milhões de toneladas, crescimento de 8% sobre junho de 2025, com receita de US$ 6,26 bilhões, alta de 17,3%. O preço médio subiu 8,5%, para US$ 431,62 por tonelada. A Secex também registrou recorde para algodão em junho, com 217 mil toneladas embarcadas, alta de 63,4% sobre o mesmo mês de 2025, em meio à safra cheia e à demanda externa aquecida.
Na indústria de transformação, houve alta de 14,7% com destaque para combustíveis, carnes bovina e de aves. As exportações de carne bovina fresca, refrigerada ou congelada chegaram a 279,7 mil toneladas, alta de 16% em volume e 39,2% em valor, totalizando US$ 1,83 bilhão. As carnes de aves somaram 452,5 mil toneladas, crescimento de 44,6% em volume e 62,4% em receita, para US$ 912,8 milhões.
Do lado das importações, o avanço foi de 14,4% em junho, para US$ 26,52 bilhões. Segundo a Secex, as compras de produtos da indústria de transformação cresceram US$ 3,09 bilhões, ou 14,3%, enquanto a indústria extrativa avançou 25% e a agropecuária ficou estável.
Acumulado do ano mantém superávit de US$ 42,4 bi e corrente de US$ 327 bi
No acumulado de janeiro a junho de 2026, as exportações totalizaram US$ 184,77 bilhões, crescimento de 11,5% sobre o mesmo período de 2025, que havia somado US$ 165,72 bilhões. As importações somaram US$ 142,42 bilhões, alta de 5,1% sobre US$ 135,53 bilhões no primeiro semestre do ano passado.
Com isso, o superávit comercial acumulado no ano chegou a US$ 42,4 bilhões e a corrente de comércio totalizou US$ 327,19 bilhões, avanço de 8,6% na comparação interanual, de acordo com dados consolidados da Secex.
A distribuição por setor no semestre reforça o peso da extrativa. As exportações da indústria extrativa cresceram US$ 9,06 bilhões, ou 24,2%, no primeiro semestre. A agropecuária avançou US$ 3,59 bilhões, ou 9,2%, e a indústria de transformação cresceu US$ 6,29 bilhões, ou 7,1%. Nas importações acumuladas, houve queda de 16,3% em agropecuária e de 1,3% em extrativa, com alta de 5,9% em transformação, o equivalente a US$ 7,41 bilhões.
O resultado de junho também ficou abaixo da mediana projetada por instituições financeiras na pesquisa Projeções Broadcast, mas dentro do intervalo esperado, segundo agentes consultados. A diferença foi atribuída a importações ligeiramente maiores que o previsto, em parte por antecipação de compras de insumos.
Investimento direto no país triplica para US$ 9,07 bi e financia déficit
Os Investimentos Diretos no País, com entrada líquida, somaram US$ 9,075 bilhões em junho, acima dos US$ 5 bilhões projetados pelo mercado e quase o triplo dos US$ 3,068 bilhões registrados em junho de 2025, conforme dados do Banco Central.
O desempenho fez com que o ingresso de capital de longo prazo superasse integralmente o déficit em transações correntes do mês, condição considerada confortável para financiamento externo. O IDP acumulado em 12 meses totalizou US$ 83,3 bilhões em maio, dado mais recente detalhado, equivalente a 3,38% do PIB, ante US$ 79,2 bilhões em abril e US$ 71,6 bilhões em maio de 2025. Para junho, com o novo ingresso, o acumulado passou a US$ 89,3 bilhões, equivalente a 3,58% do PIB.
A composição de maio mostrou ingressos líquidos de US$ 7,4 bilhões em participação no capital, dos quais US$ 3 bilhões em participação no capital exceto lucros reinvestidos e US$ 4,4 bilhões em lucros reinvestidos, além de US$ 0,6 bilhão em operações intercompanhia. A metodologia segue o padrão internacional de balanço de pagamentos.
O movimento ocorre em meio à revisão das projeções oficiais. No Relatório de Política Monetária, o Banco Central melhorou a estimativa para o déficit em transações correntes em 2026 de US$ 58 bilhões para US$ 56 bilhões e elevou a projeção de IDP de US$ 70 bilhões para US$ 75 bilhões. A balança comercial no conceito do balanço de pagamentos passou a ser estimada em superávit de US$ 78 bilhões, ante US$ 73 bilhões previstos em março.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços também revisou sua projeção para a balança comercial no conceito Secex, de US$ 72,1 bilhões para US$ 90 bilhões em 2026, com exportações de US$ 394,4 bilhões. A revisão reflete preços mais altos de petróleo e minério e volumes robustos de soja e algodão.
Riscos permanecem em serviços, renda e volatilidade de preços
Apesar da melhora, as contas externas mantêm pontos de atenção. O déficit em serviços segue em trajetória de alta, puxado por despesas com tecnologia, transporte e viagens. A conta de renda primária permanece pressionada por remessas de lucros em um ambiente de juros internacionais elevados e lucratividade de empresas estrangeiras no Brasil.
Outro fator é a volatilidade de preços de commodities. O ganho extraordinário do petróleo em junho está associado a choque geopolítico localizado, com alta de 67,6% no preço médio, e pode não se repetir caso haja normalização no Estreito de Ormuz. No minério de ferro, o preço avançou apenas 1,9%, com o volume como principal vetor, o que torna o resultado mais dependente da demanda chinesa.
No lado doméstico, as importações de bens de capital e insumos da indústria de transformação cresceram 14,3% em junho, indicando retomada de investimento, mas também pressionando o saldo comercial futuro. A evolução do câmbio e da atividade global será determinante para a sustentação do superávit.
Próximos indicadores e agenda do setor externo
A Secretaria de Comércio Exterior divulga os resultados parciais da balança comercial semanalmente, com o fechamento de julho previsto para o início de agosto. O Banco Central publica a próxima nota de Estatísticas do Setor Externo no final de agosto, com os dados completos de julho, incluindo detalhamento de serviços, renda e posição de investimento internacional.
O mercado acompanha também a atualização das projeções do Relatório Focus e do Relatório de Política Monetária, que trazem as estimativas para transações correntes, IDP e balança comercial. A mediana do Focus para o déficit em conta corrente de 2026 recuou recentemente de US$ 60,25 bilhões para US$ 60 bilhões, com IDP esperado em US$ 76 bilhões.
Para empresas exportadoras, o desempenho de junho reforça a importância de gestão cambial e de custos logísticos. Para a política econômica, o superávit comercial recorde reduz a necessidade de financiamento externo e contribui para a dinâmica das reservas internacionais, que somaram US$ 371,1 bilhões em maio, com alta de US$ 4,2 bilhões ante abril, segundo o Banco Central, impulsionada por retorno de operações de linha e receitas de juros.









