A crise financeira da Braskem (BRKM5) entrou em uma nova e mais delicada fase após as agências S&P Global Ratings e Fitch Ratings rebaixarem as classificações de crédito da petroquímica para níveis associados a default ou à iminência de inadimplência.
A S&P reduziu a nota de longo prazo da companhia de CCC- para D, classificação utilizada quando a agência considera que houve um evento de default. A Fitch, por sua vez, cortou o rating global de emissor de CC para C e a nota nacional de CC(bra) para C(bra).
Os rebaixamentos ocorreram depois que a Justiça concedeu à Braskem e a determinadas subsidiárias uma proteção cautelar de 60 dias contra medidas de execução e bloqueio promovidas por credores financeiros convidados a participar de uma mediação.
O objetivo da empresa é utilizar esse período para negociar uma solução consensual e estrutural para sua dívida.
Para quem possui ações BRKM5, a decisão não significa que os papéis deixarão automaticamente de ser negociados nem que a empresa encerrou suas operações. Também não equivale, neste momento, a uma decretação de falência.
O movimento, entretanto, confirma uma deterioração relevante da estrutura financeira e aumenta os riscos de reestruturação de dívida, emissão de novas ações, diluição dos atuais acionistas, venda de ativos e elevada volatilidade na Bolsa.
Por que a S&P classificou a Braskem como default
A nota D é a classificação mais baixa da escala utilizada pela S&P.
A agência atribui esse rating quando considera que uma empresa deixou de cumprir uma obrigação financeira ou adotou uma medida que, na avaliação dos analistas, possui efeito equivalente a um default.
No caso da Braskem, a S&P entendeu que a proteção judicial concedida pela Justiça de São Paulo suspendeu medidas dos credores e alcançou pagamentos de juros e principal ligados às obrigações financeiras incluídas na mediação.
Mesmo que a companhia ainda esteja negociando e não tenha ingressado formalmente em recuperação judicial, a restrição ao exercício dos direitos dos credores foi tratada pela agência como um evento de default.
A S&P também rebaixou para D as notas dos títulos seniores sem garantia e dos papéis subordinados da Braskem.
Isso indica que, na avaliação da agência, os detentores desses títulos estão expostos a uma alteração relevante das condições originalmente contratadas.
O rating não determina sozinho quanto os credores receberão. Ele funciona como uma avaliação da capacidade e da disposição da companhia de cumprir as obrigações nos termos previstos.
O que significa a nota C atribuída pela Fitch
A Fitch adotou uma classificação diferente, mas igualmente severa.
Ao reduzir a nota da Braskem para C, a agência sinalizou que um processo de default ou uma reestruturação considerada prejudicial aos credores é praticamente inevitável.
Na escala da Fitch, a nota C fica imediatamente acima de RD, sigla para “default restrito”, e de D, correspondente ao default mais amplo.
A diferença em relação à S&P decorre dos critérios próprios adotados por cada agência.
Enquanto a S&P considerou que a proteção judicial já configurou um evento suficiente para a nota D, a Fitch manteve a Braskem em C, indicando que o descumprimento efetivo ou a reestruturação ainda está em processo.
As duas avaliações, porém, transmitem a mesma mensagem central: o risco de crédito da petroquímica é extremamente elevado.
Proteção de 60 dias não é recuperação judicial
A decisão concedida pela 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo não representa, por si só, a entrada da Braskem em recuperação judicial.
A empresa solicitou uma tutela cautelar com base na Lei de Recuperações e Falências para preservar um ambiente estável de negociação com credores financeiros.
Durante 60 dias, os credores participantes da mediação ficam impedidos de adotar determinadas medidas de execução, bloqueio ou cobrança contra a companhia e as subsidiárias envolvidas.
O prazo funciona como uma janela de negociação.
A Braskem pretende utilizá-lo para buscar apoio a uma reorganização de sua estrutura de capital, que poderá envolver mudanças em vencimentos, juros, garantias e outras condições das dívidas.
Se houver acordo suficiente, a empresa poderá seguir por uma solução consensual ou por uma recuperação extrajudicial.
Caso as negociações fracassem, a possibilidade de recuperação judicial ou de outras medidas de proteção permanece no radar.
Operações continuam funcionando
A Braskem informou que a tutela possui alcance estritamente financeiro.
As obrigações com fornecedores, clientes, funcionários e outros participantes da operação não estão incluídas na suspensão e continuam válidas.
Isso significa que fábricas, vendas, compras de matérias-primas, entregas e contratos comerciais devem continuar sendo executados normalmente durante as negociações.
A distinção é importante porque uma crise financeira não significa necessariamente que a operação industrial deixou de funcionar.
A Braskem continua sendo uma das maiores petroquímicas das Américas, com unidades produtivas no Brasil e no exterior e presença relevante nos mercados de resinas termoplásticas e produtos químicos.
O problema central está na capacidade de financiar essa operação e honrar a dívida diante de uma geração de caixa insuficiente e de um ciclo desfavorável para a indústria petroquímica.
Endividamento explica rebaixamentos
Ao fim do primeiro trimestre de 2026, a Braskem apresentava dívida bruta corporativa de aproximadamente US$ 9,4 bilhões, sem considerar determinados compromissos das operações Braskem Idesa e TQPM.
A dívida líquida ajustada alcançava US$ 8,5 bilhões, avanço de 13% em relação ao trimestre anterior.
A alavancagem, medida pela relação entre dívida líquida ajustada e Ebitda recorrente dos últimos 12 meses, estava em 16,81 vezes.
Esse patamar significa que a dívida correspondia a quase 17 anos do Ebitda recorrente produzido no ritmo observado no período, desconsiderando juros, impostos e investimentos.
A alavancagem havia encerrado dezembro em 14,74 vezes e março de 2025 em 7,98 vezes.
A deterioração mostra que a dívida cresceu mais rapidamente do que a capacidade operacional de geração de resultado.
A companhia também encerrou março com aproximadamente 91% de sua dívida corporativa denominada em moeda estrangeira.
Embora a Braskem possua receitas e operações internacionais que funcionam como proteção parcial, a elevada exposição ao dólar pode aumentar a volatilidade do balanço.
Lucro contábil não eliminou pressão sobre o caixa
A Braskem registrou lucro líquido atribuído aos acionistas de R$ 1,4 bilhão no primeiro trimestre de 2026.
O número, isoladamente, poderia sugerir uma recuperação financeira. A composição do resultado, porém, mostra uma situação mais complexa.
Uma parcela importante do lucro foi explicada pelo efeito positivo da variação cambial sobre o resultado financeiro, que não representa necessariamente entrada equivalente de dinheiro no caixa.
Ao mesmo tempo, a companhia consumiu R$ 3,2 bilhões em caixa operacional durante o trimestre, principalmente devido à variação negativa do capital de giro.
O Ebitda recorrente ficou próximo de R$ 1 bilhão.
A combinação de lucro contábil, consumo de caixa e alavancagem elevada evidencia por que os investidores precisam analisar mais do que o resultado líquido.
Em empresas endividadas, a capacidade de produzir caixa depois de investimentos e despesas financeiras é mais importante para a sustentabilidade da dívida do que ganhos contábeis provocados por variações cambiais.
O que muda para quem possui BRKM5
Os ratings atribuídos por Fitch e S&P são avaliações de crédito. Eles medem principalmente o risco enfrentado por bancos e investidores que emprestaram dinheiro ou compraram títulos da empresa.
As notas não são recomendações diretas de compra ou venda das ações BRKM5.
Mesmo assim, a deterioração do crédito afeta os acionistas porque dívida e capital próprio fazem parte da mesma estrutura financeira.
Quando uma empresa possui obrigações superiores à sua capacidade de pagamento, os credores ocupam uma posição prioritária em relação aos acionistas.
Em uma reestruturação, o objetivo inicial é preservar a operação e maximizar a recuperação dos credores. O valor que permanece para os acionistas depende do resultado dessas negociações.
Isso torna BRKM5 um ativo de risco elevado e fortemente dependente de eventos.
O preço poderá reagir a informações sobre apoio dos credores, aportes dos controladores, venda de ativos, renegociação de títulos, desempenho da indústria petroquímica e decisões judiciais.
Diluição é um dos principais riscos
Uma das possibilidades em reestruturações financeiras é a conversão de dívida em ações.
Nesse modelo, credores aceitam trocar parte dos valores devidos por participação na companhia.
A operação reduz o endividamento e os pagamentos de juros, mas aumenta a quantidade de ações emitidas.
Os acionistas atuais passam a representar uma parcela menor do capital, fenômeno conhecido como diluição.
Outro caminho possível é um aumento de capital com entrada de dinheiro novo por parte dos controladores, investidores estratégicos ou mercado.
Caso o acionista minoritário não acompanhe a operação, também poderá sofrer redução proporcional de sua participação.
A Braskem ainda não anunciou os termos definitivos de uma reestruturação. Portanto, não é possível calcular o tamanho de uma eventual diluição.
O risco, porém, precisa ser considerado por quem avalia as ações.
Credores podem aceitar perdas ou prazos maiores
A renegociação também pode envolver extensão dos vencimentos, redução dos juros, períodos de carência, novas garantias ou desconto sobre o valor principal.
Para a companhia, essas mudanças podem liberar caixa e permitir a continuidade das operações.
Para os credores, o resultado pode representar receber menos, esperar mais ou aceitar um risco maior do que o previsto originalmente.
As agências costumam considerar uma troca de dívida problemática como default quando os credores aceitam condições inferiores para evitar uma perda ainda maior.
Mesmo que a negociação seja voluntária na forma jurídica, ela pode ser classificada como compulsória do ponto de vista econômico.
Foi essa perspectiva que contribuiu para os rebaixamentos.
Acesso a novos financiamentos fica mais difícil
Ratings C e D praticamente fecham o mercado tradicional de crédito sem garantias para uma companhia.
Bancos e investidores passam a exigir juros muito elevados, garantias adicionais ou prioridade sobre outros credores.
Alguns fundos possuem regulamentos que impedem a manutenção de títulos classificados em default ou abaixo de determinado nível.
Isso pode reduzir a base potencial de compradores dos papéis da Braskem e pressionar os preços de seus títulos no mercado secundário.
A companhia poderá depender de fontes alternativas, como financiamento com garantias, aportes dos acionistas, venda de ativos ou dinheiro novo concedido dentro de uma reestruturação.
Esse tipo de crédito costuma possuir condições mais rígidas e prioridade de pagamento.
Rating D não significa que a ação valerá zero
O rebaixamento da S&P para D não produz automaticamente o cancelamento das ações nem determina que seu valor econômico seja nulo.
Empresas classificadas em default podem continuar operando e, em alguns casos, recuperar-se depois de uma renegociação bem-sucedida.
O valor das ações dependerá do que restará para os acionistas depois de reorganizada a dívida.
Se a Braskem conseguir alongar compromissos, reduzir o custo financeiro, receber capital novo e se beneficiar de uma recuperação das margens petroquímicas, o patrimônio poderá recuperar valor.
Se a dívida consumir a maior parte do valor econômico ou exigir forte conversão em ações, os atuais investidores poderão sofrer perdas significativas.
Por isso, ações de empresas em reestruturação costumam apresentar movimentos intensos, influenciados por expectativas e notícias de curto prazo.
Dividendos deixam de ser a principal tese
Em uma empresa com rating de default e negociação emergencial com credores, a discussão sobre dividendos perde prioridade.
A preservação do caixa, o cumprimento das obrigações operacionais e a reorganização da dívida tornam-se os temas centrais.
Mesmo que a companhia apresente lucro contábil em determinado período, a distribuição de recursos aos acionistas pode ser limitada pelas necessidades financeiras, por contratos de dívida e pelas condições de uma eventual reestruturação.
Para quem investia em BRKM5 esperando dividendos, o cenário passa a exigir uma análise concentrada em liquidez, endividamento e recuperação operacional.
Ciclo petroquímico agrava a crise
A Braskem enfrenta a crise financeira durante um período prolongado de margens reduzidas na indústria petroquímica mundial.
O setor foi afetado por excesso de capacidade produtiva, especialmente na Ásia, demanda mais fraca e pressão sobre os preços das resinas.
A companhia compra matérias-primas como nafta e gás e vende produtos petroquímicos cujos preços são definidos por mercados internacionais.
Quando a diferença entre o preço dos produtos e o custo das matérias-primas fica estreita, a geração de caixa diminui.
A pressão industrial ocorre ao mesmo tempo em que a empresa carrega despesas relacionadas ao evento geológico em Alagoas, dívida elevada e dificuldades financeiras na subsidiária mexicana Braskem Idesa.
A recuperação do ciclo petroquímico poderia ajudar, mas não elimina a necessidade de uma solução imediata para a estrutura de capital.
O que observar nos próximos 60 dias
O prazo concedido pela Justiça será decisivo.
O primeiro ponto será a capacidade da Braskem de obter apoio suficiente dos credores para uma proposta de reestruturação.
Investidores também deverão acompanhar:
- o tratamento dos juros e vencimentos financeiros;
- a possibilidade de recuperação extrajudicial;
- eventuais aportes dos controladores;
- conversão de dívida em ações;
- venda de ativos;
- novas garantias concedidas aos credores;
- continuidade da geração de caixa;
- evolução das margens petroquímicas;
- possíveis medidas de proteção no exterior.
A companhia já autorizou a adoção de medidas internacionais, caso sejam necessárias, incluindo mecanismos destinados a reconhecer no exterior uma reorganização conduzida no Brasil.
Braskem enfrenta teste decisivo
Os rebaixamentos de Fitch e S&P não criaram a crise, mas tornaram explícita a gravidade da situação financeira.
A nota D da S&P indica que a agência considera que a proteção judicial já produziu um evento de default. A nota C da Fitch sinaliza que uma inadimplência ou reestruturação prejudicial aos credores é praticamente inevitável.
Para os investidores de BRKM5, o cenário combina potencial de recuperação com risco elevado de perda e diluição.
A continuidade normal das operações preserva o valor industrial da companhia, mas o tamanho da dívida coloca os credores no centro das decisões.
O desempenho das ações dependerá menos dos resultados trimestrais isolados e mais da capacidade da Braskem de alcançar um acordo que reduza o endividamento sem transferir todo o custo para os acionistas.










