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Caiado é oficializado candidato do PSD à Presidência com Kassab de vice

Com Gilberto Kassab de vice, ex-governador de Goiás tenta nacionalizar a política de combate ao crime, confronta o PT e procura espaço eleitoral fora do bolsonarismo

por Júlia Campos
26/07/2026 às 15h33
em Política
Caiado Lidera Aprovação De Gestões Estaduais, E Cláudio Castro Tem Pior Índice - Gazeta Mercantil

O PSD oficializou neste domingo (26), em São Paulo, a candidatura do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado à Presidência da República, com o presidente nacional da legenda, Gilberto Kassab, como candidato a vice. A chapa integralmente partidária chega à disputa de 2026 com a segurança pública como principal ativo eleitoral, críticas ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva e a tentativa de construir uma alternativa de direita que não dependa do bolsonarismo.

A convenção nacional confirmou uma composição acertada desde o início de julho e transformou Caiado no representante formal do partido na corrida pelo Palácio do Planalto. A escolha feita pela legenda ainda deverá ser submetida à Justiça Eleitoral, que receberá os pedidos de registro de candidatura até 15 de agosto.

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No primeiro discurso depois da oficialização, Caiado concentrou sua mensagem no combate às facções criminosas, na violência contra a mulher e no endurecimento das punições. O ex-governador também atacou o PT, criticou a polarização política e fez referências, sem citar nomes, a casos de “rachadinhas” e ao Banco Master.

A estratégia deixa claro o terreno no qual o PSD pretende iniciar a campanha: segurança, autoridade do Estado e rejeição aos dois polos que estruturaram as últimas eleições presidenciais. O desafio será transformar essa posição em uma candidatura nacionalmente competitiva sem perder o eleitor conservador que se identifica com Jair Bolsonaro e sem parecer apenas uma dissidência da direita.

Segurança pública vira porta de entrada da campanha

Caiado afirmou que um eventual governo deverá recuperar territórios dominados pelo crime organizado e restabelecer a autoridade pública em regiões onde as facções impõem regras próprias à população. Em uma das passagens mais duras do discurso, disse que o próximo presidente terá de “libertar o país do sequestro do PT e das facções”.

A combinação entre crítica partidária e combate ao crime não é circunstancial. Ela constitui o eixo escolhido por Caiado para apresentar sua experiência em Goiás como credencial para governar o país.

O ex-governador deixou o comando estadual em março, depois de mais de sete anos no cargo, para cumprir o prazo eleitoral e disputar a Presidência. Durante a gestão goiana, construiu sua imagem política em torno da integração das forças policiais, da administração do sistema penitenciário e de uma comunicação ostensiva sobre a redução da criminalidade.

Levar esse modelo ao plano federal, contudo, será uma tarefa institucionalmente mais complexa do que sugere o discurso de campanha.

As polícias civis e militares estão subordinadas aos governadores, enquanto a União controla órgãos como a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e a Força Nacional. Uma política nacional de segurança depende, portanto, de coordenação federativa, integração de dados, financiamento, mudanças legislativas e entendimento com os governos estaduais.

Caiado ainda não detalhou como pretende reorganizar essa estrutura nem indicou quais medidas dependeriam de projetos aprovados pelo Congresso. O lançamento privilegiou a mensagem política em detrimento do desenho administrativo.

Essa escolha é comum no início das campanhas, quando os candidatos buscam fixar uma identidade antes de apresentar programas extensos. No caso de Caiado, o objetivo imediato é associar seu nome à ideia de ordem pública e capacidade de comando.

Violência contra a mulher recebe promessa de resposta mais dura

O combate à violência doméstica ocupou parte relevante do pronunciamento. Caiado prometeu ampliar o uso de tornozeleiras eletrônicas, defender a prisão de agressores e impedir que casos de violência contra mulheres sejam tratados como conflitos privados ou restritos ao ambiente familiar.

“Vou meter tornozeleira, algema nesses covardes”, declarou.

O candidato também defendeu a transferência às vítimas de bens pertencentes a condenados por agressão. A proposta foi apresentada como uma forma de reparação patrimonial e de reforço da punição, mas não veio acompanhada de detalhes sobre os critérios de aplicação, o momento processual do confisco ou as alterações legais necessárias.

A execução de uma medida dessa natureza precisaria compatibilizar reparação civil, condenação criminal, direito de propriedade e devido processo judicial. A formulação definitiva dependeria do programa de governo e, provavelmente, da aprovação de mudanças legislativas pelo Congresso.

Caiado estendeu o discurso de endurecimento a estupradores, pedófilos e corruptos. Ao reunir crimes violentos, delitos sexuais e corrupção em uma mesma plataforma, procura apresentar a candidatura como uma resposta ampla ao sentimento de impunidade.

Há também um cálculo eleitoral. A segurança pública costuma mobilizar eleitores conservadores, mas a ênfase na proteção das mulheres permite ampliar a comunicação para segmentos que não se identificam necessariamente com a direita tradicional.

O resultado dependerá da capacidade de transformar frases de impacto em políticas executáveis. Medidas como monitoramento eletrônico, proteção emergencial, abrigamento de vítimas, integração de bancos de dados e cumprimento de medidas protetivas envolvem recursos, pessoal e articulação entre polícia, Ministério Público, Judiciário, assistência social e sistema de saúde.

Caiado ataca Lula e tenta se afastar do bolsonarismo

O PT foi o principal alvo nominal do discurso. Caiado responsabilizou o governo Lula pelos problemas internos do país e acusou o presidente de estimular confrontos externos para deslocar a atenção de questões domésticas.

A crítica procura colocar o candidato do PSD como adversário direto do atual governo, posição indispensável para disputar o eleitorado de oposição. Ao mesmo tempo, Caiado tenta evitar que sua campanha seja absorvida pelo campo bolsonarista.

Sem identificar os destinatários, o ex-governador afirmou que, no outro lado da polarização, também existem agressões a autoridades e estratégias destinadas a impedir o esclarecimento de episódios relevantes. Defendeu ainda a escolha de um candidato sem envolvimento com “rachadinhas” ou com escândalos relacionados ao Banco Master.

As referências ampliaram o alcance do discurso para além dos ataques ao PT. Em vez de pedir apenas a substituição do governo Lula, Caiado apresentou sua candidatura como uma renovação da própria direita.

Essa posição carrega riscos.

Para avançar, o candidato precisará conquistar uma parcela significativa do eleitorado conservador. Uma ruptura excessiva com o bolsonarismo pode limitar seu crescimento. Uma aproximação demasiada, por outro lado, enfraqueceria a promessa de oferecer uma alternativa à polarização.

Caiado chamou a polarização de “o máximo da estupidez”, mas adotou linguagem de confronto ao tratar dos adversários. A aparente contradição traduz a dificuldade central de sua campanha: prometer pacificação institucional sem abrir mão da retórica dura exigida por uma disputa presidencial fragmentada.

Kassab leva articulação política à chapa

A presença de Gilberto Kassab como candidato a vice dá à chapa um componente político diferente daquele representado por Caiado.

O ex-governador será o responsável pela campanha de rua, pelo discurso de segurança e pela interlocução direta com o eleitorado. Kassab deverá atuar na montagem dos palanques estaduais, na aproximação com o setor empresarial e na negociação com partidos e lideranças regionais.

Fundado em 2011, o PSD ampliou sua presença no Congresso e nos municípios, mas ainda não comandou uma chapa presidencial própria com capacidade real de disputar o segundo turno. Segundo os números divulgados pela legenda em abril, o partido tinha 49 deputados federais, 13 senadores, seis governadores e mais de 1,3 mil prefeitos.

Essa capilaridade oferece estrutura, tempo de propaganda, presença regional e capacidade de arrecadação. Não significa, porém, que todas as seções estaduais seguirão automaticamente a candidatura presidencial.

A própria convenção paulista expôs a autonomia regional do partido. Enquanto a direção nacional oficializou Caiado para o Palácio do Planalto, o PSD de São Paulo confirmou apoio à reeleição do governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos.

A coexistência entre uma candidatura nacional própria e alianças estaduais com outros grupos faz parte do modelo de funcionamento do PSD. Kassab construiu a legenda preservando margem de negociação nos Estados, característica que ampliou o partido, mas que pode dificultar a formação de palanques exclusivos para Caiado.

O candidato terá de transformar uma federação informal de interesses regionais em uma campanha presidencial coerente. Essa será uma das principais tarefas de Kassab.

Agenda econômica ainda precisa ganhar densidade

A segurança pública dominou o lançamento, mas não será suficiente para sustentar uma campanha presidencial até outubro. O debate econômico deverá ocupar espaço crescente à medida que os candidatos sejam cobrados sobre contas públicas, inflação, emprego, crédito, investimentos e crescimento.

Em julho, ao aceitar integrar a chapa, Kassab defendeu uma reforma administrativa, a redução de privilégios e a revisão de subsídios. Segundo ele, essas mudanças poderiam liberar mais de R$ 1 trilhão para investimentos em infraestrutura, saúde, educação e segurança.

O valor foi apresentado como uma estimativa política, sem memória de cálculo divulgada. Também não ficou claro se a economia seria anual, plurianual ou obtida pela soma de diferentes medidas ao longo de um mandato.

Para conquistar credibilidade entre empresários, investidores e agentes do mercado financeiro, a campanha precisará detalhar como pretende compatibilizar redução de despesas, preservação de serviços públicos, investimentos e sustentabilidade da dívida.

O programa terá de enfrentar questões que não apareceram com profundidade na convenção: trajetória do gasto obrigatório, política tributária, custo do crédito, papel dos bancos públicos, concessões de infraestrutura, ambiente regulatório, relações comerciais e produtividade.

O PSD começou a organizar as propostas ainda durante o processo interno que reuniu Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Junior. Saúde, educação, desenvolvimento econômico, empreendedorismo, transparência e segurança pública estavam entre as áreas inicialmente submetidas ao debate partidário.

Agora, a candidatura precisará converter essas discussões em compromissos verificáveis.

A experiência administrativa de Caiado será apresentada como contraponto à gestão federal. Para que essa comparação funcione fora de Goiás, entretanto, o ex-governador terá de explicar como políticas estaduais podem ser adaptadas à escala e às restrições fiscais da União.

Candidatura nasceu de disputa interna no PSD

A oficialização encerra um processo iniciado antes da filiação de Caiado ao partido.

O ex-governador ingressou formalmente no PSD em março, durante um evento realizado em Jaraguá, no interior de Goiás. Naquele momento, a indicação presidencial também era disputada pelos governadores Ratinho Junior, do Paraná, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul.

Ratinho retirou seu nome para concluir o mandato estadual. A direção nacional manteve a decisão de lançar candidatura própria e escolheu Caiado depois da disputa interna com Eduardo Leite.

A entrada do ex-governador no PSD também reorganizou sua base em Goiás. Ao deixar o cargo em 31 de março, entregou o governo ao então vice Daniel Vilela, do MDB, apontado como candidato à sucessão estadual.

A composição nacional com Kassab foi anunciada em 1º de julho. Na ocasião, Caiado afirmou que “a chapa está posta” e classificou a candidatura como um caminho sem volta.

A convenção deste domingo confirmou aquela decisão. O PSD deixa de atuar apenas como partido de apoio e passa a assumir os custos, as negociações e os riscos de uma candidatura presidencial própria.

Registro no TSE abre próxima etapa

Partidos e federações podem realizar convenções até 5 de agosto. Os pedidos de registro deverão ser apresentados à Justiça Eleitoral até as 19h de 15 de agosto.

A propaganda eleitoral, inclusive na internet, será permitida a partir de 16 de agosto. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, e o eventual segundo turno será realizado no dia 25 do mesmo mês.

Até o início formal da campanha, Caiado e Kassab deverão concentrar esforços na organização dos palanques, na definição das alianças e na conclusão do programa de governo.

O lançamento deu à chapa uma identidade clara, mas também estabeleceu a medida de seu desafio.

Caiado entra na disputa como candidato de um partido com presença nacional, estrutura parlamentar e uma extensa rede de prefeitos. Ainda precisa, porém, ampliar o conhecimento de seu nome fora do Centro-Oeste, apresentar uma agenda econômica consistente e demonstrar que existe espaço eleitoral entre o PT e o bolsonarismo.

A segurança pública será a primeira aposta. A competitividade da candidatura dependerá do que o PSD conseguir construir em torno dela.

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