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China prepara sistema de pagamentos digitais para desafiar domínio do dólar no comércio global

Plataforma mBridge reúne bancos centrais da Ásia e do Oriente Médio e pode acelerar a internacionalização do renminbi e reduzir custos de transações internacionais.

por Camila Braga
15/06/2026 às 15h21
em Economia
China Prepara Sistema De Pagamentos Digitais Para Desafiar Domínio Do Dólar No Comércio Global-Gazeta Mercantil

A China está nos estágios finais de preparação para lançar comercialmente o mBridge, uma plataforma de pagamentos internacionais baseada em moedas digitais de bancos centrais que poderá reduzir a dependência global do dólar em transações transfronteiriças e ampliar a influência financeira de Pequim entre seus parceiros comerciais. O sistema conta com o apoio dos bancos centrais da China continental, Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita e surge em um momento de crescente fragmentação da arquitetura financeira internacional.

Segundo pessoas familiarizadas com o projeto, os preparativos para a operação comercial estão avançados e uma entidade sediada em Hong Kong será responsável pela supervisão do sistema. Embora ainda não exista uma data oficial para o lançamento, o mBridge já é visto por analistas como uma das iniciativas mais ambiciosas de criação de uma infraestrutura alternativa aos mecanismos tradicionais de pagamentos internacionais.

Leia também: Tarifaço dos EUA: governo prepara plano de contingência para proteger exportações brasileiras.

O projeto é parte da estratégia mais ampla de Pequim para ampliar o uso global do renminbi e fortalecer o papel do yuan digital nas finanças internacionais. Para a China, a plataforma também representa uma ferramenta de integração financeira com os países que participam da Nova Rota da Seda, iniciativa de infraestrutura e comércio que se tornou um dos principais instrumentos de projeção econômica e geopolítica do país.

Plataforma promete custos menores e liquidação em segundos

O mBridge utiliza tecnologia blockchain para permitir que bancos centrais realizem transações diretamente entre suas moedas digitais, dispensando intermediários e reduzindo o tempo de liquidação de operações cambiais para poucos segundos.

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Segundo fontes próximas ao projeto, as taxas cobradas pelo sistema deverão representar aproximadamente metade dos custos praticados pelos mecanismos tradicionais de pagamentos internacionais, especialmente pela rede Swift, atualmente dominante no sistema financeiro global.

A expectativa é que pequenas e médias empresas sejam as principais usuárias da nova plataforma. Muitas dessas companhias consideram os sistemas internacionais existentes caros, burocráticos e de difícil acesso, sobretudo em operações de menor valor.

A nova infraestrutura também permitirá a participação de bancos comerciais, desde que atuem sob supervisão de seus respectivos bancos centrais, ampliando o alcance potencial do sistema e acelerando sua adoção.

Até o momento, o mBridge já processou cerca de 470 bilhões de yuans, o equivalente a aproximadamente US$ 69 bilhões, em operações realizadas durante sua fase de testes.

Guerra no Irã impulsiona busca por alternativas ao dólar

O avanço do projeto ocorre em um contexto de mudanças significativas na geopolítica financeira. A guerra entre Israel e Irã e o aumento das tensões no Oriente Médio ampliaram a preocupação de diversos países em relação à dependência de sistemas de pagamentos dominados pelo Ocidente.

Nesse cenário, o uso do Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços da China, conhecido pela sigla Cips e frequentemente apontado como uma alternativa chinesa ao Swift, registrou forte crescimento desde o início do conflito.

Embora sejam sistemas distintos, o Cips e o mBridge fazem parte de uma estratégia comum de Pequim para ampliar a presença internacional do renminbi e criar mecanismos financeiros menos dependentes da infraestrutura baseada no dólar.

Especialistas avaliam que a criação de redes alternativas de pagamentos ganhou força após as sanções financeiras aplicadas pelos Estados Unidos e seus aliados contra diversos países nos últimos anos. O congelamento de ativos e as restrições de acesso ao sistema financeiro internacional levaram várias economias emergentes a buscar instrumentos que reduzam vulnerabilidades externas.

Corrida global por novas redes de pagamentos se intensifica

O avanço do mBridge ocorre em meio a uma disputa crescente pela criação de novos sistemas de pagamentos internacionais.

Além da iniciativa chinesa, outras plataformas regionais vêm sendo desenvolvidas ao redor do mundo. Na Europa, o Sistema de Pagamentos em Euros, conhecido como Sepa, continua ampliando suas funcionalidades. O setor privado também tem investido em novas soluções, como redes de pagamentos transfronteiriços baseadas em QR Code.

Segundo Tom Keatinge, diretor fundador do Centro de Finanças e Segurança do Royal United Services Institute, o mundo atravessa uma espécie de “corrida armamentista silenciosa” no campo das infraestruturas financeiras.

A afirmação reflete uma tendência de fragmentação do sistema internacional de pagamentos, que durante décadas foi amplamente dominado pelo Swift e pelo dólar norte-americano.

Para Gene Ma, chefe de pesquisa sobre China do Instituto de Finanças Internacionais, o cenário atual está se transformando em uma rede de sistemas concorrentes, na qual o mBridge tende a ocupar posição relevante.

Projeto nasceu em parceria internacional e enfrentou resistência política

A iniciativa teve origem em uma cooperação entre a Autoridade Monetária de Hong Kong e o Banco da Tailândia, em um projeto inicialmente denominado Inthanon-LionRock.

Em 2021, a proposta ganhou dimensão internacional e passou a se chamar mBridge, incorporando a participação do Banco de Compensações Internacionais (BIS) e de autoridades monetárias da China e dos Emirados Árabes Unidos.

Ao longo de sua evolução, o sistema foi alvo de intenso debate político, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa. Parte das preocupações estava relacionada à possibilidade de que a plataforma pudesse ser utilizada para contornar sanções financeiras internacionais ou reduzir a eficácia de mecanismos de controle exercidos pelo sistema financeiro dominado pelo dólar.

Em 2024, o Banco de Compensações Internacionais transferiu a gestão do projeto aos seus parceiros asiáticos e do Oriente Médio. Reportagens internacionais apontaram que a decisão teria sido influenciada por pressões políticas de Washington, hipótese negada à época pelo então diretor-geral do BIS, Agustín Carstens.

As autoridades chinesas e o próprio BIS sustentam que o mBridge está em conformidade com as normas internacionais de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento ilícito.

Internacionalização do renminbi ganha novo instrumento

A estratégia chinesa de ampliar o uso global de sua moeda ganhou novo impulso nos últimos anos, especialmente após o fortalecimento das relações comerciais de Pequim com países emergentes e produtores de commodities.

A adoção crescente de mecanismos de liquidação em moedas locais tem sido incentivada pela China em suas relações com parceiros da Ásia, da África, da América Latina e do Oriente Médio.

Nesse contexto, o mBridge surge como uma ferramenta de integração financeira capaz de reduzir custos de transação, acelerar pagamentos e ampliar a utilização do renminbi digital.

Analistas afirmam que a nova plataforma pode fortalecer a posição da China na ordem monetária global e aprofundar os vínculos econômicos com países participantes da Nova Rota da Seda.

Para exportadores e importadores, a liquidação quase instantânea das operações tende a melhorar o fluxo de caixa e reduzir riscos de liquidez, especialmente em períodos de elevada volatilidade financeira.

Nova infraestrutura financeira amplia disputa pela influência monetária global

Embora o dólar continue sendo a principal moeda de reserva e de liquidação internacional, a expansão de sistemas alternativos de pagamentos evidencia uma mudança estrutural em curso no sistema financeiro global.

O lançamento comercial do mBridge representa mais um passo da China em direção à construção de uma arquitetura financeira menos dependente das instituições criadas e lideradas pelo Ocidente após a Segunda Guerra Mundial.

O movimento também reforça a competição pela influência monetária e tecnológica entre as duas maiores economias do planeta.

Caso a plataforma alcance escala relevante e consiga atrair um número crescente de países e empresas, a iniciativa poderá acelerar a diversificação dos meios de pagamento internacionais e aumentar a participação do renminbi no comércio global, abrindo uma nova etapa na disputa pela liderança do sistema financeiro internacional.

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