Os Correios negociam com bancos a contratação de um novo empréstimo de R$ 7 bilhões com garantia da União ainda este ano, em meio à deterioração financeira da estatal e ao avanço do plano de reestruturação.
A operação integra um programa de financiamento que prevê captações totais de R$ 20 bilhões até 2026, segundo apuração do Valor Econômico. Ela ocorre após a estatal registrar prejuÃzo de R$ 8,5 bilhões em 2025, mais de três vezes o resultado negativo de R$ 2,6 bilhões do ano anterior.
O valor agora em negociação ficou abaixo dos R$ 8 bilhões inicialmente previstos no plano de reestruturação. No fim de fevereiro, o governo federal autorizou uma nova captação de até R$ 8 bilhões para os Correios dentro do limite global anual de operações com garantia da União. A redução para R$ 7 bilhões sinaliza uma tentativa de ajustar a necessidade de financiamento às medidas internas de reforço de caixa adotadas nos últimos meses.
Condições em discussão
As condições da nova operação ainda estão em discussão com as instituições financeiras. A expectativa é que os termos sigam parâmetros semelhantes aos do financiamento contratado em 2025, quando a estatal captou R$ 12 bilhões junto a cinco bancos — Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander. Na ocasião, o custo ficou em torno de 115% do CDI, com prazo de 15 anos e carência de três anos.
Mais de dez instituições foram consultadas e já há interesse de parte dos bancos em participar. A garantia da União é o elemento central para viabilizar o crédito, porque reduz o risco para os credores e pode permitir condições mais favoráveis de prazo e custo.
Quando o Tesouro oferece garantia a uma estatal, os bancos passam a contar com maior segurança de recebimento. Para o governo, porém, a garantia representa risco contingente: se a empresa não honrar os pagamentos, a União poderá ser chamada a cobrir a obrigação. Por isso, a operação precisa de análise de capacidade de pagamento e foi autorizada dentro do limite anual de garantias.
Plano de R$ 20 bilhões
O empréstimo de R$ 7 bilhões deve completar parte relevante da necessidade de recursos da companhia. A primeira etapa do plano foi cumprida em 2025, com os R$ 12 bilhões captados.
A nova rodada ocorre em um momento de forte pressão sobre o caixa. A estatal enfrenta queda de receita, aumento de prejuÃzos e patrimônio lÃquido negativo, o que amplia a dependência de crédito para sustentar a operação e reorganizar sua estrutura financeira.
A captação com garantia também indica a relevância estratégica dos Correios. Por prestar serviços postais e logÃsticos em todo o território nacional, a empresa tem papel de infraestrutura pública, especialmente em regiões onde a presença de operadores privados é limitada.
PrejuÃzo salta para R$ 8,5 bi
O quadro financeiro se agravou em 2025. O prejuÃzo mais que triplicou, para R$ 8,5 bilhões. A empresa completou 14 trimestres consecutivos no vermelho, sequência iniciada no quarto trimestre de 2022.
A receita bruta caiu 11,35% em 2025, para R$ 17,3 bilhões, refletindo perda de dinamismo em um mercado de encomendas cada vez mais competitivo, com concorrência de transportadoras privadas, plataformas de comércio eletrônico e operadores regionais que investem em redes próprias, hubs e tecnologia de rastreamento.
O patrimônio lÃquido encerrou o perÃodo em R$ 13,1 bilhões negativos, ou seja, as obrigações superam os ativos contabilizados.
Valor menor indica alÃvio interno
O presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, afirmou que o valor final da nova captação poderia ficar abaixo dos R$ 8 bilhões inicialmente estimados porque algumas medidas internas trouxeram conforto adicional de liquidez.
A calibragem para R$ 7 bilhões sugere tentativa de adequar a dÃvida à necessidade efetiva de caixa. Ainda assim, o volume permanece elevado. Somados os R$ 12 bilhões de 2025 e os R$ 7 bilhões agora em negociação, a estatal terá captado R$ 19 bilhões em dois anos, próximo da previsão total de R$ 20 bilhões até 2026.
Caso seja mantida a carência de três anos nos moldes da operação anterior, a empresa ganhará fôlego para executar medidas de reestruturação antes do inÃcio do pagamento principal.
O desafio, agora, é transformar o reforço de liquidez em ponte para ajuste operacional. A sequência de perdas mostra que será necessário avançar em controle de despesas, revisão de contratos, modernização tecnológica, reorganização logÃstica e reposicionamento comercial para recuperar receitas e reduzir a dependência de apoio federal.









