O mercado brasileiro de crédito privado entrou no segundo semestre com sinais de recuperação no desempenho de fundos e no mercado secundário, mas sem uma mudança equivalente no apetite a risco dos gestores. Em julho, fundos como Kinea Andes e Kinea Nepal superaram o CDI no mês, enquanto gestores continuaram destacando maior seletividade nas novas alocações, em um ambiente de spreads mais apertados e juros ainda elevados.
O Kinea Andes avançou 1,31% em julho, equivalente a 107,49% do CDI de 1,22% no período. O Kinea Nepal rendeu 1,27%, ou 104,78% do CDI. No acumulado de 2026, porém, ambos ainda carregavam os efeitos do desempenho mais fraco registrado principalmente entre fevereiro e abril: o Andes somava 7,99%, correspondente a 98,16% do CDI, enquanto o Nepal acumulava 7,38%, ou 90,64% do referencial.
Os números mostram recuperação na margem, mas também evidenciam que o comportamento recente não pode ser extrapolado automaticamente para todo o ano nem para toda a indústria. A remuneração dos fundos de crédito depende do carregamento dos títulos, da movimentação dos spreads, dos efeitos da marcação a mercado, da qualidade dos emissores e da capacidade dos gestores de administrar liquidez diante de aplicações e resgates.
A melhora ocorre enquanto a taxa Selic permanece em 14% ao ano. O Comitê de Política Monetária reduziu a taxa básica de 14,25% para 14% em 5 de agosto, mas reiterou que o cenário exige cautela. O Banco Central destacou inflação ainda elevada, expectativas acima da meta e incertezas relevantes, combinação que mantém o custo do dinheiro em patamar alto e influencia diretamente a precificação dos títulos corporativos.
Spreads fecharam, mas risco não desapareceu
A leitura das próprias gestoras ajuda a explicar por que resultados melhores não provocaram uma corrida imediata para títulos de risco mais elevado. Em sua avaliação referente a julho, a Kinea informou que o IDA-DI terminou o mês com fechamento de aproximadamente 2 pontos-base nos spreads.
Segundo a gestora, segmentos de crédito de maior qualidade e de risco intermediário já retornaram a patamares anteriores à abertura observada no primeiro semestre. A situação é diferente nos papéis classificados como high yield, nos quais os spreads haviam recuperado apenas 42% do movimento desde o pico observado em abril.
Para a Kinea, continuam existindo oportunidades em empresas desse segmento, especialmente quando o mercado mantém cautela mesmo diante de fundamentos considerados resilientes. A gestora também apontou que, apesar dos juros elevados, não identificava naquele momento um grupo relevante de grandes emissores prestes a passar por novas reestruturações de dívida que já não estivessem incorporadas aos preços.
Essa diferença entre os segmentos é importante para entender a estratégia dos fundos. Quando o spread de uma debênture diminui, títulos existentes podem se valorizar, beneficiando as carteiras. Ao mesmo tempo, uma nova aplicação passa a ser realizada com prêmio menor em relação ao ativo usado como referência.
Depois de uma sequência de compressão dos spreads, portanto, pode ocorrer uma combinação aparentemente contraditória: melhora do resultado dos fundos que já possuem os papéis e redução da atratividade de determinadas compras novas. É nesse ponto que a análise de risco de crédito volta a ocupar espaço central nas decisões de alocação.
Gestores mantêm postura seletiva
A cautela não está restrita a uma única estratégia. Em sua carta mensal, a Santander Asset manteve visão neutra para o mercado de crédito privado e registrou melhora gradual da classe, com fechamento dos spreads e desaceleração dos resgates.
A gestora, entretanto, afirmou continuar cautelosa e seletiva nas alocações diante da expectativa de manutenção de juros elevados. O mercado secundário permaneceu ativo e contribuiu para o desempenho da classe, enquanto a avaliação sobre novas posições continuou condicionada à relação entre o prêmio oferecido e o risco assumido.
Esse comportamento mostra que uma melhora na marcação dos ativos não equivale necessariamente a uma disposição maior para comprar títulos de empresas mais arriscadas. Gestores podem permanecer expostos ao crédito privado e, simultaneamente, deslocar recursos para emissores mais sólidos, prazos menores, instrumentos bancários ou posições com maior liquidez.
A comparação também precisa levar em conta o nível da taxa básica. Com a Selic em 14%, instrumentos considerados de risco mais baixo já entregam remuneração nominal elevada. Para justificar uma exposição adicional a risco corporativo, uma debênture precisa oferecer um spread considerado suficiente para compensar risco de crédito, prazo e liquidez.
Debêntures movimentam R$ 33,1 bilhões em julho
A postura seletiva ocorre em um mercado primário que continua oferecendo grande quantidade de ativos. Dados da Anbima mostram que o mercado de capitais brasileiro registrou R$ 67,9 bilhões em ofertas encerradas em julho, alta de 4% sobre os R$ 65,3 bilhões do mesmo período de 2025.
As debêntures permaneceram como o principal instrumento de captação, com R$ 33,1 bilhões em ofertas no mês. Apesar de o volume ter ficado abaixo dos R$ 46,4 bilhões de julho de 2025, os títulos corporativos responderam por 48,8% de todo o dinheiro levantado no mercado de capitais naquele mês.
De janeiro a julho, as ofertas de diferentes instrumentos totalizaram R$ 429,8 bilhões, avanço de 8,8% na comparação com os R$ 394,9 bilhões registrados no mesmo intervalo do ano anterior. Além das debêntures, fundos imobiliários, operações subsequentes de ações e instrumentos de securitização tiveram participação relevante nas captações.
O volume mostra que empresas continuam encontrando espaço para financiar suas atividades por meio do mercado de capitais mesmo com juros elevados. Para os fundos de crédito, a oferta recorrente amplia o universo de títulos disponíveis, mas não resolve automaticamente a questão da atratividade.
O ponto decisivo é o preço. Se um emissor oferece um prêmio considerado baixo diante de seu risco, um gestor pode optar por não participar da emissão, mesmo dispondo de recursos para investir. Em contrapartida, uma abertura de spreads em uma companhia com fundamentos considerados sólidos pode produzir oportunidade de alocação.
Fluxo de fundos ainda mostra pressão
A recuperação dos resultados também convive com uma fotografia menos favorável no fluxo de recursos. A indústria brasileira de fundos registrou resgate líquido de R$ 25,3 bilhões em julho, revertendo a entrada líquida de R$ 29,5 bilhões observada em junho.
Apesar da saída mensal, o saldo acumulado em 2026 permanecia positivo em R$ 208,8 bilhões. Entre as grandes categorias, os fundos de renda fixa contribuíram de forma importante para o resultado negativo, com R$ 19,8 bilhões em resgates líquidos no mês.
A maior parcela das retiradas nessa categoria veio dos fundos de duração baixa soberano, que investem integralmente em títulos públicos federais. Esses produtos registraram saída líquida de R$ 17,7 bilhões. O dado, portanto, não indica que os R$ 19,8 bilhões tenham deixado especificamente os fundos de crédito privado.
Os multimercados também registraram saída líquida, de R$ 5,6 bilhões, enquanto os fundos de ações tiveram resgates de R$ 1,4 bilhão. ETFs, fundos de participações e Fiagros estiveram entre as categorias que apresentaram fluxo positivo no período.
Para gestores de crédito, a dinâmica de resgates é especialmente importante porque influencia a parcela da carteira que precisa permanecer em instrumentos facilmente negociáveis. Um fundo sujeito a retiradas rápidas precisa equilibrar a busca por retornos maiores com a possibilidade de transformar posições em caixa sem provocar perdas relevantes.
Selic de 14% aumenta exigência sobre prêmio
O atual patamar dos juros acrescenta outra camada à decisão. O Copom reduziu a Selic para 14% no início de agosto, após manter a taxa em níveis ainda mais altos durante parte de 2026. O ciclo começou o ano com a meta em 15%, passou para 14,75% em março, 14,50% em abril, 14,25% em junho e chegou aos atuais 14%.
Mesmo após esses cortes, a política monetária permanece restritiva. Na ata da reunião de agosto, o Banco Central projetou inflação de 5,1% em 2026 e 3,8% em 2027 no cenário de referência. A autoridade monetária afirmou que o ambiente ainda é marcado por incertezas elevadas e que continuará ajustando a política de acordo com a evolução dos dados.
Para o crédito privado, isso significa que o spread não deve ser analisado isoladamente. Um papel que remunera CDI mais determinado percentual precisa ser comparado com outras oportunidades disponíveis e com os riscos específicos do emissor.
A decisão também varia conforme o tipo de fundo. Estratégias com resgate diário precisam administrar liquidez de maneira diferente daquelas com passivos mais longos. Fundos incentivados, carteiras tradicionais de debêntures e veículos com exposição a FIDCs também possuem estruturas e perfis de risco distintos.
Julho confirma recuperação sem eliminar seletividade
Os resultados recentes dos fundos da Kinea ilustram a mudança ocorrida nos últimos meses. O Andes superou o CDI em maio, junho e julho, depois de ficar abaixo do referencial entre fevereiro e abril. O Nepal também terminou maio, junho e julho acima do CDI, após desempenho mais fraco no início do ano.
A recuperação ainda não foi suficiente para levar o desempenho acumulado dos dois fundos acima do CDI em 2026. Isso reforça a diferença entre uma melhora mensal e uma reversão integral das perdas relativas acumuladas anteriormente.
Ao mesmo tempo, a compressão dos spreads cria uma nova etapa para os gestores. Parte do ganho proporcionado pela recuperação dos preços já ocorreu, enquanto novas posições precisam ser avaliadas com prêmios menores em determinados segmentos. Nos papéis de maior risco, ainda existem distorções maiores, mas também aumenta a importância da análise individual de cada emissor.
Do lado das empresas, os R$ 33,1 bilhões levantados por meio de debêntures em julho confirmam que o crédito corporativo continua sendo uma fonte importante de financiamento. Do lado dos investidores, o cenário reúne desempenho recente melhor, juros elevados e seletividade na tomada de risco.
A próxima etapa formal para o ambiente de juros será a reunião do Copom de setembro. O Banco Central voltará a avaliar inflação, atividade econômica, expectativas e condições financeiras antes de decidir sobre a Selic. Até lá, o mercado de crédito privado chega ao fim do terceiro trimestre com mercado primário ativo, recuperação recente nos fundos observados e gestores ainda condicionando novas compras ao prêmio efetivamente oferecido pelo risco.
Fontes:
- Santander Asset Management — Carta Mensal Julho 2026 — julho de 2026
- Anbima — Mercado de capitais registra R$ 67,9 bilhões em ofertas em julho — 14 de agosto de 2026
- Anbima — Captação líquida dos fundos fica negativa em julho — 7 de agosto de 2026
- Banco Central do Brasil — Ata da 280ª reunião do Copom — 11 de agosto de 2026









