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Crowdfunding cresce 75% e movimenta R$ 2,1 bilhões no primeiro semestre de 2026

Plataformas realizaram 477 emissões até junho, alta de 49,1%; CVM prepara nova regra que pode elevar limites e incluir novos emissores.

por João Souza
09/08/2026 às 19h04
em Negócios
Crowdfunding Cresce 75% E Movimenta R$ 2,1 Bilhões No Primeiro Semestre De 2026 - Gazeta Mercantil - Negócios

O mercado brasileiro de crowdfunding de investimento acelerou novamente em 2026 e movimentou R$ 2,1 bilhões no primeiro semestre, crescimento de 75% em relação aos R$ 1,2 bilhão registrados entre janeiro e junho do ano passado, segundo o mais recente Boletim Econômico da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

O número de emissões também avançou em ritmo expressivo. Foram 477 ofertas realizadas por plataformas eletrônicas de investimento participativo até junho, ante 320 no mesmo intervalo de 2025, uma expansão de 49,1%.

Os números mostram que não houve apenas aumento na quantidade de operações. A captação cresceu mais rapidamente do que o número de ofertas, indicando aumento do volume financeiro médio movimentado em cada operação.

Considerando os valores agregados divulgados pela CVM, cada oferta movimentou, em média, aproximadamente R$ 4,4 milhões no primeiro semestre de 2026. Um ano antes, a média era próxima de R$ 3,75 milhões.

Isso representa crescimento aproximado de 17% no tamanho médio das emissões, embora os valores individuais possam variar significativamente entre uma operação e outra.

A expansão ocorre em um momento especialmente relevante para o setor. A CVM colocou entre as prioridades regulatórias de 2026 a edição de uma nova norma para substituir a Resolução CVM 88, atual marco das ofertas públicas realizadas por plataformas de crowdfunding de investimento.

A proposta em discussão prevê, entre outras mudanças, elevar limites de captação, permitir novos tipos de emissores, incorporar produtores rurais e cooperativas agropecuárias e ampliar a integração das plataformas com instituições tradicionais do mercado de capitais.

Crowdfunding deixa de ser nicho de pequenas captações

O crowdfunding de investimento permite que empresas captem recursos de diversos investidores por meio de plataformas eletrônicas autorizadas pela CVM.

Diferentemente do crowdfunding baseado em doações ou recompensas, o modelo regulado envolve oferta pública de valores mobiliários. Quem aplica recursos participa de uma operação de investimento e assume os riscos associados ao ativo adquirido.

A Resolução CVM 88 criou um regime simplificado para que sociedades empresárias de pequeno porte possam acessar investidores sem cumprir todo o rito normalmente exigido em ofertas públicas tradicionais.

Pela regulamentação atualmente vigente, uma oferta pode captar até R$ 15 milhões, enquanto o conceito de sociedade empresária de pequeno porte admite receita bruta anual de até R$ 40 milhões individualmente, com regras específicas para grupos econômicos.

Quando a norma foi editada, em 2022, a CVM ampliou significativamente os limites existentes e reforçou mecanismos de proteção ao investidor.

A evolução dos números mostra como o mercado mudou desde então.

Na série mais recente apresentada pela CVM, o regime de crowdfunding registrou 398 emissões e aproximadamente R$ 1,2 bilhão em 2024. Em 2025, foram 771 ofertas e aproximadamente R$ 3,5 bilhões, segundo os dados consolidados apresentados no Boletim Econômico do segundo trimestre de 2026.

Agora, apenas nos primeiros seis meses de 2026, o setor já chegou a R$ 2,1 bilhões.

Mantido apenas como referência matemática — e não como projeção —, o volume do semestre equivale a aproximadamente 60% do total de 2025 informado na série atualmente publicada pela CVM.

Mercado de capitais movimentou R$ 420 bilhões no semestre

O crescimento do crowdfunding ocorre dentro de um mercado primário que também aumentou de tamanho.

As emissões de valores mobiliários totalizaram R$ 420 bilhões em 2.384 ofertas no primeiro semestre de 2026. No mesmo período de 2025, haviam sido R$ 379 bilhões distribuídos em 2.123 operações.

O volume financeiro, portanto, aumentou 10,8%, enquanto a quantidade de ofertas avançou 12,3%.

Nesse contexto, os 75% de crescimento do crowdfunding chamam atenção pela velocidade: o segmento avançou quase sete vezes mais, percentualmente, do que o mercado primário agregado em volume financeiro.

Ainda assim, seu tamanho absoluto permanece pequeno quando comparado aos instrumentos tradicionais.

As debêntures, por exemplo, movimentaram R$ 142,2 bilhões em 230 emissões no primeiro semestre.

Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) registraram 795 ofertas, o maior número entre os valores mobiliários destacados pela CVM, e captaram R$ 68,5 bilhões.

Já os Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) realizaram 218 ofertas e movimentaram R$ 62,1 bilhões.

O crowdfunding ainda representa uma parcela reduzida desse universo, mas cresce a partir de uma lógica diferente: facilitar o acesso de empresas menores a investidores e reduzir parte dos custos e da complexidade associados a estruturas tradicionais de mercado de capitais.

Mercado de ações também voltou a crescer

Outro movimento relevante registrado no semestre foi a retomada das ofertas de ações.

As captações chegaram a R$ 25,5 bilhões até junho, valor que já supera em 64,5% todo o montante movimentado em 2025, quando as emissões somaram R$ 15,5 bilhões.

O primeiro semestre também registrou a realização de um IPO — Oferta Pública Inicial —, algo que não ocorria no mercado brasileiro desde 2021.

A combinação entre volta das emissões de ações, expansão dos fundos estruturados e crescimento acelerado das plataformas digitais mostra uma diversificação das fontes de financiamento disponíveis no mercado brasileiro.

Para empresas menores, porém, uma emissão tradicional de ações ou debêntures pode continuar economicamente inviável devido aos custos regulatórios, jurídicos, de distribuição e estruturação.

É justamente nesse espaço que o crowdfunding tenta se consolidar.

CVM prepara uma mudança profunda nas regras

O crescimento do setor ocorre enquanto o regulador discute ampliar substancialmente o alcance desse mercado.

A CVM realizou consulta pública para substituir integralmente a Resolução CVM 88 por um novo marco regulatório. A reforma foi posteriormente incluída entre as prioridades da Agenda Regulatória de 2026.

A proposta apresentada ao mercado é significativamente mais abrangente do que a regra atualmente vigente.

Uma das alterações estudadas é elevar de R$ 15 milhões para R$ 25 milhões o limite de captação para sociedades empresárias.

Para companhias securitizadoras registradas na CVM, a minuta prevê teto de R$ 50 milhões.

Cooperativas agropecuárias também poderiam captar até R$ 25 milhões, enquanto produtores rurais pessoas físicas teriam um limite específico de R$ 2,5 milhões por safra.

Outro ponto importante é a possível retirada do atual limite de faturamento para determinadas sociedades empresárias não registradas.

Se implementadas nos termos apresentados na consulta pública, as mudanças podem alterar substancialmente o perfil das empresas que utilizam as plataformas.

Agronegócio pode entrar com mais força

A inclusão do agronegócio é uma das principais frentes da reforma.

A minuta prevê expressamente a possibilidade de utilização do regime por produtores rurais pessoas naturais e cooperativas agropecuárias.

Isso abriria espaço para que empresas e produtores que hoje dependem principalmente de bancos, cooperativas de crédito, CPRs, securitização ou recursos próprios encontrem nas plataformas digitais uma nova alternativa de financiamento.

A própria CVM afirmou, ao apresentar a proposta, que pretende adaptar o regime à inserção gradual do agronegócio no mercado de capitais.

O movimento aproxima o crowdfunding de áreas que já passaram por forte expansão na securitização e no crédito estruturado.

Ao mesmo tempo, amplia o desafio regulatório porque operações ligadas ao agronegócio podem possuir características de risco, garantias e fluxos financeiros diferentes daqueles encontrados nas captações tradicionais de startups e pequenas empresas.

Securitizadoras também podem ganhar espaço

A reforma propõe ainda permitir que companhias securitizadoras registradas na CVM utilizem esse regime simplificado.

Essa alteração pode ampliar consideravelmente a variedade de ativos disponíveis nas plataformas.

Em vez de o investidor ficar limitado a estruturas diretamente ligadas a pequenas empresas, novas operações poderiam incorporar recebíveis e instrumentos originados a partir de processos de securitização.

A CVM reconhece que o crescimento das operações desse tipo foi uma das razões para a revisão da norma.

A mudança, se confirmada, também aproxima o crowdfunding de segmentos como crédito privado e ativos alternativos.

Integração com o sistema financeiro tradicional

Outra transformação proposta é permitir maior integração das plataformas com instituições integrantes do sistema tradicional de distribuição de valores mobiliários.

A CVM estuda autorizar modelos de distribuição por conta e ordem, criando uma ponte entre plataformas de crowdfunding e intermediários financeiros tradicionais.

Também estão previstas mudanças nas regras para transações posteriores à emissão, inclusive com possibilidade de recompra de valores mobiliários pelos emissores e revisão do conceito de investidor ativo.

Esse é um ponto particularmente sensível para o desenvolvimento do mercado.

Uma das limitações dos investimentos realizados em empresas menores é a liquidez. Diferentemente de uma ação negociada diariamente na B3, muitos ativos adquiridos em crowdfunding não possuem mercado secundário amplo.

Melhorar mecanismos de transações subsequentes pode tornar o produto mais atraente, embora não elimine o risco de o investidor permanecer por longos períodos sem conseguir vender a posição.

Crescimento também aumenta necessidade de proteção

A expansão de um mercado de investimento não elimina seus riscos.

Empresas que utilizam crowdfunding geralmente possuem porte menor e podem apresentar riscos superiores aos encontrados em companhias abertas consolidadas.

Há risco de crédito, risco empresarial, possibilidade de perda integral do capital, baixa liquidez e dificuldade para determinar o valor justo de determinados ativos.

Por essa razão, a proposta regulatória não trata apenas da ampliação das captações.

A CVM também pretende aumentar as exigências de transparência, criar anexos informacionais específicos para diferentes emissores e exigir a divulgação de indicadores de desempenho das plataformas.

A discussão regulatória passa, portanto, por dois objetivos que precisam avançar conjuntamente: permitir que mais empresas cheguem ao mercado de capitais e garantir que investidores tenham informações suficientes para compreender o risco das operações.

Risco de crédito avançou no segundo trimestre

O próprio Boletim Econômico que mostra o avanço das emissões traz um sinal de atenção sobre o ambiente financeiro.

O indicador de risco de crédito calculado pela CVM passou de 1,0 no primeiro trimestre para 2,0 no segundo trimestre de 2026.

O risco de liquidez subiu de 2,1 para 2,9.

Ao mesmo tempo, o indicador de risco de mercado recuou de 2,7 para 2,3 e o risco macroeconômico passou de 1,1 para 1,0.

O indicador de apetite ao risco caiu de 3,5 para 3,1.

Segundo a CVM, o aumento do indicador de crédito ocorreu a partir de maio e acompanhou a elevação da probabilidade média de default das companhias listadas.

Já a piora do indicador de liquidez refletiu a abertura dos spreads entre preços de compra e venda e a perda de intensidade do fluxo de investimentos estrangeiros em bolsa.

Os indicadores não se referem especificamente às empresas que captam por crowdfunding, mas ajudam a contextualizar o ambiente no qual esse mercado está crescendo.

Mercado regulado chega a R$ 52,33 trilhões

A dimensão total do mercado supervisionado pela CVM também aumentou.

A autarquia estima em R$ 52,33 trilhões o valor total do mercado regulado. Excluído o valor nocional dos derivativos, o montante é de R$ 18,94 trilhões.

Na comparação anual, os aumentos são de 22,8% e 13,1%, respectivamente.

Os fundos de investimento responderam por uma parcela importante desse crescimento e alcançaram R$ 11,83 trilhões, alta de 14,3%.

O número de participantes regulados chegou a 92.978, avanço de 0,3% em relação ao encerramento de 2025.

Crowdfunding entra em uma nova etapa

Os números do primeiro semestre mostram que o crowdfunding brasileiro está deixando de ser apenas uma alternativa experimental de financiamento para pequenos negócios.

Ainda é um segmento pequeno quando comparado a debêntures, FIDCs, FIIs ou à indústria de fundos, mas sua velocidade de crescimento é significativamente superior.

Em seis meses, R$ 2,1 bilhões foram movimentados em 477 emissões.

E o avanço acontece justamente quando a CVM prepara uma reforma que pode elevar os limites das ofertas, abrir o mercado para novos emissores, aproximar as plataformas do agronegócio e da securitização e ampliar sua integração com intermediários tradicionais.

A próxima etapa, portanto, não será apenas medir quanto esse mercado consegue crescer.

O desafio será determinar se a expansão conseguirá preservar transparência, qualidade das ofertas e proteção ao investidor à medida que as plataformas passem a movimentar volumes cada vez maiores.

Fontes:

  • Comissão de Valores Mobiliários — Boletim Econômico, volume 110, referente ao segundo trimestre de 2026.
  • Comissão de Valores Mobiliários — comunicado sobre os resultados do mercado de capitais no primeiro semestre de 2026.
  • Comissão de Valores Mobiliários — Resolução CVM 88.
  • Comissão de Valores Mobiliários — Consulta Pública SDM 05/2025 sobre a reforma do crowdfunding de investimento.
  • Comissão de Valores Mobiliários — Agenda Regulatória 2026.
Tags: agronegóciocrowdfundingCVMfintechsinvestimentosmercado de capitaisnegóciosResolução CVM 88securitização

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