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Educação financeira nas escolas avança no Congresso e pode mudar o currículo em todo o país

Projeto aprovado pelo Senado inclui educação financeira na LDB e prevê conteúdos sobre orçamento, crédito, impostos, previdência e seguros no ensino fundamental e médio; texto ainda depende da Câmara.

por Henrique Valverde
21/07/2026 às 17h03
em Economia
Educação Financeira Nas Escolas Avança No Congresso E Pode Mudar O Currículo Em Todo O País - Gazeta Mercantil

A educação financeira poderá passar a integrar obrigatoriamente os currículos do ensino fundamental e do ensino médio em escolas públicas e privadas de todo o Brasil. O Senado aprovou, em 15 de julho de 2026, uma nova versão do Projeto de Lei 2.979/2023, que inclui o tema diretamente na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a LDB. Como o texto foi modificado pelos senadores, a proposta retornou à Câmara dos Deputados e ainda precisa superar novas etapas antes de entrar em vigor.

O projeto determina que a educação financeira seja tratada como tema transversal e integrador. Isso significa que o assunto poderá ser incorporado às disciplinas já existentes, como matemática, história, geografia e projetos interdisciplinares, sem a obrigação de criar uma matéria autônoma ou ampliar formalmente a grade escolar.

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A proposta também amplia o alcance do conteúdo. Além de orçamento, consumo, juros e crédito, o texto aprovado no Senado prevê a promoção de conhecimentos relacionados à educação fiscal, previdenciária e securitária.

Na prática, os estudantes poderão aprender como organizar receitas e despesas, identificar o custo de uma dívida, compreender a função dos impostos, conhecer princípios básicos da Previdência Social e entender a finalidade dos seguros.

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A mudança ainda não é lei. A Câmara dos Deputados terá de examinar a emenda aprovada pelo Senado. Se os deputados confirmarem a nova redação, o projeto poderá seguir para sanção ou veto da Presidência da República.

Projeto coloca educação financeira dentro da LDB

O ponto central do PL 2.979/2023 é a alteração do artigo 26 da LDB, norma responsável por estabelecer as diretrizes gerais dos currículos da educação básica.

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Ao incluir a educação financeira nesse dispositivo, o Congresso pretende transformar o tema em uma obrigação mais clara para os sistemas de ensino. A regra alcançaria tanto o ensino fundamental quanto o ensino médio.

A proposta não estabelece uma disciplina chamada “educação financeira”. O conteúdo deverá ser desenvolvido de maneira transversal, ligado a diferentes áreas do conhecimento e adequado à idade dos alunos.

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Em matemática, por exemplo, poderão ser trabalhadas situações envolvendo porcentagens, juros, parcelamentos, orçamento e comparação de preços. Em história e geografia, os estudantes poderão discutir tributação, relações de trabalho, consumo, distribuição de renda e financiamento dos serviços públicos.

A abordagem integrada procura evitar o aumento da carga horária e permitir que cada escola adapte o conteúdo ao próprio projeto pedagógico. As instituições continuarão responsáveis por escolher métodos, exemplos e atividades compatíveis com a realidade local.

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O texto aprovado preserva, portanto, a autonomia pedagógica, mas cria uma obrigação nacional de incluir o tema na formação dos estudantes.

Educação financeira já aparece nas diretrizes curriculares

A educação financeira não é inédita na educação básica brasileira. O assunto já aparece na Base Nacional Comum Curricular, a BNCC, entre os temas que podem ser trabalhados de maneira transversal.

A BNCC também prevê habilidades matemáticas relacionadas a porcentagens, juros e resolução de problemas que envolvem situações financeiras. Algumas redes públicas e escolas particulares já desenvolvem atividades próprias sobre planejamento, consumo e uso do dinheiro.

A aplicação, entretanto, ocorre de forma desigual. Há instituições com programas estruturados, materiais específicos e professores capacitados, enquanto outras abordam o assunto apenas em atividades isoladas.

A inclusão direta na LDB pretende reduzir essa diferença. Como a lei estabelece as bases da educação nacional, sua alteração tende a produzir efeitos mais amplos sobre currículos estaduais, municipais e privados.

Estados e municípios poderão ter de rever documentos curriculares, materiais didáticos e programas de formação docente para atender à nova determinação.

A proposta busca, assim, transformar uma orientação educacional já existente em uma obrigação legal de aplicação mais uniforme.

Conteúdo não ficará limitado a poupança e investimentos

A educação financeira prevista no projeto vai além de ensinar o aluno a economizar dinheiro ou conhecer investimentos.

O objetivo é desenvolver conhecimentos que façam parte das decisões econômicas enfrentadas no cotidiano. Isso inclui entender a diferença entre renda e patrimônio, planejar despesas, avaliar compras parceladas e reconhecer os efeitos dos juros.

O estudante também poderá aprender a analisar o uso do crédito. Cartão, cheque especial, empréstimo e financiamento possuem custos diferentes e podem aumentar rapidamente uma dívida quando não são administrados adequadamente.

Outro eixo é o consumo. As escolas poderão trabalhar comparação de preços, planejamento de compras, publicidade, contratos, direitos do consumidor e consequências do consumo por impulso.

O conteúdo deverá ser adequado a cada etapa escolar. Nos primeiros anos, a abordagem pode envolver noções simples de escolha, troca, prioridade e planejamento. No ensino médio, os alunos poderão entrar em contato com conceitos mais complexos, como inflação, crédito, tributação, previdência e proteção financeira.

A proposta não define um programa detalhado. Caberá aos sistemas de ensino e às escolas organizar a aplicação dentro de seus currículos.

Educação fiscal entra no alcance da proposta

Uma das mudanças promovidas no Senado foi a inclusão expressa da educação fiscal.

Esse eixo pretende ajudar os estudantes a compreender a origem dos recursos utilizados pelo poder público e a função dos tributos no financiamento de áreas como saúde, educação, segurança, infraestrutura e assistência social.

A abordagem poderá explicar diferenças entre impostos, taxas e contribuições, além de mostrar como a arrecadação se relaciona com as políticas públicas.

O tema também pode envolver cidadania fiscal, acompanhamento do orçamento público e importância da transparência na utilização dos recursos.

A educação fiscal não significa apenas ensinar nomes de tributos ou regras de cobrança. A proposta abre espaço para discutir a relação entre arrecadação, serviços oferecidos pelo Estado e participação da sociedade na fiscalização dos gastos.

Essa dimensão amplia o caráter da educação financeira, que deixa de ficar restrita às decisões individuais e passa a envolver o funcionamento econômico das instituições públicas.

Previdência e seguros também poderão entrar nas aulas

O substitutivo aprovado pelo Senado também prevê conteúdos de educação previdenciária e securitária.

Na área previdenciária, os estudantes poderão receber explicações sobre contribuição, aposentadoria, proteção social e planejamento de longo prazo.

A complexidade do tema deverá ser ajustada à faixa etária. Para alunos mais jovens, a abordagem pode se concentrar na ideia de proteção futura e solidariedade entre gerações. No ensino médio, poderão ser apresentados conceitos básicos do sistema previdenciário.

A educação securitária deverá tratar da proteção contra riscos. Os alunos poderão aprender por que existem seguros, como funcionam coberturas e quais situações podem gerar indenizações.

Também poderão ser explicados conceitos como apólice, prêmio, franquia, beneficiário e exclusão contratual.

O objetivo não é promover produtos específicos, mas permitir que os estudantes compreendam instrumentos que fazem parte da vida econômica das famílias e das empresas.

Para que isso ocorra de maneira equilibrada, os materiais pedagógicos deverão preservar independência em relação a bancos, seguradoras, corretoras e demais instituições do mercado financeiro.

Formação dos professores será desafio central

A aprovação da proposta não garante, por si só, que a educação financeira seja ensinada de forma adequada.

Um dos principais desafios será preparar professores para trabalhar assuntos que envolvem matemática, economia, cidadania, consumo e comportamento.

Muitos profissionais não tiveram formação específica sobre juros, crédito, tributação, previdência ou seguros. A aplicação poderá exigir cursos, materiais de apoio e orientações pedagógicas produzidas pelas redes de ensino.

A abordagem também terá de respeitar as diferentes realidades sociais dos estudantes. O planejamento financeiro de uma família com renda estável é diferente daquele enfrentado por famílias com desemprego, informalidade ou dificuldade para cobrir despesas básicas.

Por isso, o conteúdo não poderá se limitar a recomendações genéricas sobre poupança. Será necessário discutir renda, custo de vida, acesso ao crédito e limites concretos enfrentados pelas famílias.

A educação financeira também não deve transmitir a ideia de que todos os problemas econômicos decorrem exclusivamente de escolhas pessoais. Fatores como emprego, inflação, renda e oferta de serviços públicos influenciam diretamente a capacidade de planejamento.

Escolas terão autonomia para adaptar o ensino

O modelo transversal permite que cada instituição desenvolva atividades compatíveis com seu projeto pedagógico.

Uma escola poderá utilizar simulações de orçamento doméstico, comparação de preços, análise de contas ou planejamento de pequenas metas financeiras.

Outras instituições poderão integrar o tema a feiras de conhecimento, projetos de matemática, atividades sobre consumo consciente ou estudos sobre arrecadação pública.

A autonomia é importante porque as realidades econômicas variam entre regiões. Escolas rurais, comunidades urbanas, municípios turísticos e regiões industriais enfrentam situações diferentes de renda, trabalho e consumo.

O projeto permite que essas características sejam consideradas na escolha dos exemplos e das atividades.

Ao mesmo tempo, a existência de uma obrigação nacional exigirá parâmetros mínimos. Os sistemas de ensino precisarão garantir que a educação financeira não seja tratada apenas de forma ocasional ou superficial.

Texto original foi modificado durante a tramitação

O PL 2.979/2023 foi apresentado pela deputada Any Ortiz em junho de 2023.

A proposta original previa a criação de uma Campanha Nacional Pró-Ensino da Educação Financeira e do selo “Escola Amiga da Educação Financeira”, destinado a reconhecer instituições que desenvolvessem iniciativas na área.

Durante a análise na Câmara dos Deputados, o texto foi simplificado. A Comissão de Educação retirou a campanha e o selo e concentrou a proposta na alteração da LDB.

A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania aprovou a redação em 2025. Como a tramitação ocorreu em caráter conclusivo nas comissões e não houve recurso para votação no Plenário, o projeto seguiu para o Senado.

Na Câmara, a versão aprovada já previa a educação financeira como tema transversal e integrador nos currículos do ensino fundamental e médio.

No Senado, a relatora Teresa Leitão apresentou um texto alternativo. A nova redação manteve a alteração da LDB e acrescentou a promoção das dimensões fiscal, previdenciária e securitária.

A Comissão de Educação e Cultura aprovou o parecer em 30 de junho de 2026. O Plenário do Senado confirmou a proposta em 15 de julho.

Câmara dará a palavra final antes da sanção

Como o Senado modificou o texto, a Câmara dos Deputados precisará analisar a emenda apresentada pelos senadores.

Os deputados poderão aceitar a alteração e encaminhar o projeto à Presidência da República. Também poderão rejeitar a emenda e restabelecer a redação anteriormente aprovada pela Câmara.

Somente após essa decisão o projeto estará pronto para sanção.

A Presidência poderá sancionar integralmente a proposta, vetar dispositivos específicos ou rejeitar o texto. Eventuais vetos ainda poderão ser examinados pelo Congresso Nacional.

Até que todas essas etapas sejam concluídas, não existe obrigação legal nova para as escolas.

A educação financeira continua presente nas orientações curriculares e pode ser trabalhada pelas redes de ensino, mas o PL 2.979/2023 ainda não alterou formalmente a LDB.

Também não há, nesta fase, um calendário nacional definitivo para adaptação das escolas.

Mudança poderá alcançar redes públicas e privadas

Se o projeto for convertido em lei, seus efeitos alcançarão instituições públicas e particulares de ensino fundamental e médio.

Estados e municípios terão de verificar se seus currículos atendem à nova determinação. Escolas privadas também precisarão incorporar o tema a seus projetos pedagógicos.

A mudança poderá afetar a formação de professores, a produção de livros didáticos, os sistemas de ensino e as plataformas educacionais.

Redes com programas já consolidados terão vantagem na adaptação. Municípios com menor estrutura técnica poderão depender de apoio do Ministério da Educação e das secretarias estaduais.

A implementação também deverá ser acompanhada para evitar desigualdades. A simples presença do tema no currículo não garante que todos os alunos recebam formação com a mesma profundidade.

Avaliações futuras poderão indicar se os estudantes desenvolveram habilidades para compreender juros, organizar despesas, analisar contratos e reconhecer riscos financeiros.

Proposta leva decisões do cotidiano para a sala de aula

O avanço da educação financeira no Congresso ocorre em uma realidade marcada pela ampliação do crédito digital, das compras on-line e dos pagamentos instantâneos.

Crianças e adolescentes têm contato cada vez mais cedo com aplicativos, publicidade, assinaturas digitais e decisões de consumo.

Esse cenário reforça a necessidade de apresentar conceitos financeiros antes da vida adulta.

O projeto pretende garantir uma base comum de conhecimento, independentemente da experiência financeira existente dentro de cada família.

A efetividade da medida dependerá, no entanto, da qualidade dos materiais, da preparação dos professores e da capacidade das redes de transformar conceitos abstratos em situações concretas.

A próxima decisão caberá à Câmara dos Deputados. Até que a nova redação seja aprovada e sancionada, a educação financeira não pode ser apresentada como uma disciplina obrigatória já criada, mas como uma mudança curricular que avançou no Congresso e está mais próxima de ser incorporada à principal lei da educação brasileira.

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