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Empresas reduzem CVCs e ficam mais seletivas ao investir em startups

Braskem interrompeu novos aportes na Oxygea, enquanto grandes companhias revisam portfólios e passam a exigir maior retorno estratégico

por Ana Luiza Farias
01/09/2026 às 09h43
em Empresas
Empresas Reduzem Cvcs E Ficam Mais Seletivas Ao Investir Em Startups - Gazeta Mercantil - Empresas

O ciclo em que grandes empresas brasileiras criavam braços próprios para investir diretamente em startups está passando por uma reorganização. Depois da expansão acelerada do corporate venture capital, ou CVC, entre 2020 e 2022, companhias passaram a revisar estruturas, interromper novos aportes, eliminar projetos com menor retorno e buscar formas menos intensivas em capital para acessar inovação.

A mudança não representa o desaparecimento do investimento corporativo em startups. O que está ocorrendo é uma transição entre dois modelos: sai de cena parte da lógica de criar estruturas quase independentes, com equipes, orçamento e carteiras próprias, e ganha espaço uma estratégia mais seletiva, ligada diretamente às necessidades do negócio principal.

Leia também: Tribunal condena empresas por ataque hacker.

Braskem, Gerdau e Grupo Casas Bahia oferecem exemplos diferentes dessa transformação. O Banco BV também revisa sua atuação no ecossistema de inovação, embora seus canais oficiais ainda apresentem corporate venture capital como uma das frentes do BVx, o que impede tratar como confirmado, apenas com fontes primárias, o encerramento integral da atividade.

A mudança acontece em um ambiente financeiro muito diferente daquele que estimulou a expansão dos CVCs. A taxa Selic, apesar do ciclo de cortes iniciado em 2026, permanece em 14% ao ano. Com dinheiro caro e maior remuneração disponível em ativos de baixo risco, investimentos em startups precisam demonstrar uma relação mais clara entre risco, retorno e valor estratégico para a corporação.

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Braskem fez uma das mudanças mais explícitas

O caso mais documentado é o da Braskem (BRKM5).

Em 2022, a petroquímica anunciou a criação da Oxygea, estrutura destinada a aproximar a companhia de startups e desenvolver novos negócios ligados principalmente a sustentabilidade e transformação digital.

O projeto nasceu com previsão de aproximadamente US$ 150 milhões em investimentos. O desenho original separava os recursos entre duas frentes: cerca de US$ 100 milhões seriam destinados a corporate venture capital, com participações em startups mais maduras, e US$ 50 milhões à criação e incubação de novos negócios.

A proposta refletia exatamente o ambiente corporativo daquele momento. Grandes empresas procuravam startups não apenas como fornecedoras de tecnologia, mas como ativos nos quais poderiam se tornar acionistas e capturar eventual valorização futura.

Pouco mais de dois anos depois, a Braskem mudou a estratégia.

Em comunicado ao mercado de janeiro de 2025, a empresa informou oficialmente que decidiu reavaliar e descontinuar novos investimentos na Oxygea.

A justificativa foi financeira e estratégica: priorização de ativos, otimização da alocação de capital e geração de caixa.

Posteriormente, nas demonstrações financeiras, a companhia informou que estava integrando à própria Braskem os ativos que estavam dentro da Oxygea.

A decisão é relevante porque mostra uma diferença fundamental entre abandonar inovação e abandonar uma determinada arquitetura para financiar inovação.

A Braskem afirmou expressamente que a mudança não eliminava inovação de seus pilares estratégicos. O que deixou de ser prioridade foi manter novos investimentos por meio daquela estrutura específica.

Gerdau começou a cortar projetos antes

Na Gerdau (GGBR4), o processo tomou outra forma.

A empresa criou a Gerdau Next em 2020 para desenvolver negócios além da produção tradicional de aço. A estratégia incluía aquisições, criação interna de empresas, participação em startups e corporate venture capital.

Dentro desse ecossistema surgiu a Gerdau Next Ventures, destinada à aceleração e ao investimento em startups ligadas principalmente a construção, mobilidade, sustentabilidade e tecnologia.

O próprio relatório anual da companhia mostra, entretanto, que o período de expansão deu lugar a uma fase de seleção.

Em 2024, a Gerdau Next realizou o que chamou de primeira grande revisão de seu portfólio. O processo levou à descontinuação de projetos considerados menos aderentes ao plano da unidade.

A justificativa apresentada pela companhia foi concentrar recursos nos negócios com maior capacidade de crescimento e rentabilidade.

Para 2025, o modelo passou a privilegiar uma proposta de integração entre as próprias empresas mantidas dentro da Gerdau Next. Em vez de simplesmente ampliar indefinidamente o número de participações, a companhia começou a buscar soluções conjuntas entre negócios do portfólio e clientes do grupo.

Esse movimento revela uma mudança importante na lógica corporativa.

Durante a fase mais expansiva dos CVCs, possuir uma carteira de startups podia ser interpretado como indicador de capacidade de inovação. Na fase atual, a cobrança passa a ser diferente: qual receita, economia, tecnologia, cliente ou vantagem competitiva aquela participação consegue gerar para o grupo?

Casas Bahia passou do investimento ao “back to basics”

O Grupo Casas Bahia (BHIA3) apresenta uma trajetória ainda mais clara quando se observa a sequência de suas prioridades estratégicas.

Em 2021, quando ainda utilizava a marca Via, a companhia lançou o Via Next e realizou investimentos minoritários em quatro startups por meio de corporate venture capital.

No ano seguinte, ampliou a aproximação com o ecossistema. Foram realizados investimentos minoritários em outras cinco startups por meio de uma estrutura desenvolvida com a Darwin Startups, acompanhada por um programa de aceleração.

A estratégia fazia sentido dentro do projeto, vigente naquele momento, de transformar a varejista em uma plataforma digital com serviços financeiros, logística, marketplace e novas fontes de receita.

O cenário mudou rapidamente.

Em 2023, com a troca de gestão e o início do plano de transformação, a própria cronologia corporativa passou a destacar expressões como “back to basics”, disciplina na alocação de capital e recuperação da rentabilidade.

Em 2024, a prioridade declarada foi redução de dívida, rentabilidade e crescimento sustentável. Em 2026, o grupo passou a falar em um novo ciclo de expansão, mas concentrado em crédito, serviços, logística e omnicanalidade rentável.

O site institucional continua exibindo o portfólio de startups que recebeu investimentos durante a fase anterior. Também permanece aberta uma estrutura de inovação na qual startups podem se cadastrar para oferecer soluções à companhia.

Isso demonstra que reduzir a disposição para investir capital diretamente em startups não significa cortar o relacionamento com elas.

Uma empresa pode contratar uma startup como fornecedora, executar uma prova de conceito, licenciar uma tecnologia ou criar uma parceria comercial sem necessariamente comprar uma participação societária.

Banco BV mostra que inovação aberta pode sobreviver ao CVC

O Banco BV apresenta outro exemplo dessa separação.

O banco desenvolveu ao longo dos últimos anos um ecossistema denominado BVx, reunindo inovação aberta, Banking as a Service, Open Finance, ativos digitais, relacionamento com startups e corporate venture capital.

O histórico institucional registra o primeiro investimento em venture capital em 2017 e a criação do BVx em 2023.

No balanço divulgado pela própria instituição para 2024, o ecossistema somava mais de 170 startups conectadas, 29 provas de conceito realizadas, dez empresas investidas e 40 contratos ativos com startups.

Atualmente, a página institucional do BVx continua apresentando corporate venture capital entre suas áreas de atuação.

Além disso, o banco mantém o Programa de Inovação Aberta, o PIA, destinado a identificar soluções em áreas como inteligência artificial, ativos digitais, Open Finance, portabilidade de crédito, mercado automotivo, energia solar e finanças sustentáveis.

Assim, embora haja informações de mercado sobre mudanças na estrutura de investimento do banco, as fontes primárias disponíveis não permitem afirmar que o BV tenha encerrado integralmente sua atividade de CVC.

O que pode ser comprovado é que o relacionamento com startups continua institucionalizado e que inovação aberta permanece ativa.

Mercado saiu da quantidade e passou para a qualidade

A reorganização observada nas empresas aparece também nos números do setor.

Um levantamento realizado pela EloGroup em parceria com ApexBrasil, Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital e Global Corporate Venturing Institute identificou 66 rodadas de investimento envolvendo CVCs brasileiros entre julho de 2024 e junho de 2025.

Quase metade, 45%, foi liderada por um CVC brasileiro.

O dado mais importante, entretanto, está na distribuição dos investimentos.

As rodadas Series B ou posteriores passaram a representar 27% das operações mapeadas, enquanto o ticket médio cresceu nos diferentes estágios.

Isso significa que as empresas continuam investindo, mas estão exigindo mais evidências de que a startup já possui mercado, clientes, receita e capacidade de expansão.

Finanças e tecnologia concentraram aproximadamente metade das rodadas analisadas.

A transformação pode ser resumida como uma passagem da experimentação para a seleção.

Durante o período de abundância de capital, empresas podiam manter dezenas de apostas pequenas esperando que algumas produzissem resultado relevante. Com juros elevados e pressão por eficiência, carregar participações durante anos sem retorno operacional imediato tornou-se uma decisão mais difícil de justificar.

Selic muda a matemática do investimento

A política monetária ajuda a explicar essa disciplina.

Depois de atingir 15% ao ano, a Selic começou a cair em 2026 e chegou a 14% em agosto. Mesmo assim, permanece em nível suficientemente alto para alterar profundamente o custo de oportunidade de qualquer investimento de risco.

Uma participação em startup pode levar sete, oito ou dez anos para produzir uma saída relevante.

Nesse período, a empresa investidora imobiliza capital, mantém equipes para acompanhar o portfólio e assume o risco de o negócio investido não alcançar escala.

Quando a renda fixa oferece retornos elevados, o conselho de administração e a diretoria financeira passam a exigir justificativas mais fortes para esse tipo de aplicação.

Isso não elimina o CVC. Muda o critério para sua existência.

CVC deixa de ser vitrine de inovação

A principal transformação, portanto, não é simplesmente o fechamento de fundos corporativos.

O corporate venture capital brasileiro está entrando em uma fase na qual sua sobrevivência depende de maior integração com a estratégia das companhias.

Investir em uma startup porque ela atua em um setor considerado promissor já não basta. A empresa investida precisa oferecer tecnologia que possa ser incorporada, abrir mercado, criar receita, reduzir custos, antecipar uma transformação estrutural ou entregar retorno financeiro compatível com o risco assumido.

Para as startups, isso também modifica o processo de captação.

O investidor corporativo tende a fazer perguntas mais próximas das áreas operacionais: qual problema da companhia a tecnologia resolve, quanto dinheiro economiza, quanto tempo reduz, quantos clientes acrescenta e qual vantagem competitiva cria.

Braskem, Gerdau, Casas Bahia e BV mostram caminhos distintos dessa transição. Em alguns casos, há interrupção formal de novos investimentos. Em outros, revisão de portfólio, integração com o negócio principal ou substituição da participação societária por programas de inovação aberta.

A próxima etapa será verificar se a redução do número de estruturas próprias levará a uma concentração do mercado em CVCs maiores e especializados ou se as grandes empresas passarão a investir cada vez mais por meio de gestores independentes e fundos com múltiplos cotistas.

O dado central, por enquanto, é que o dinheiro corporativo não desapareceu do mercado de startups. Ele ficou mais caro, mais seletivo e passou a precisar justificar, com maior rapidez, por que merece permanecer dentro da estratégia das companhias.

Fontes:

Braskem — Comunicado ao Mercado sobre a Oxygea

Braskem — informações financeiras e integração dos ativos da Oxygea

Gerdau — Relatório Anual, revisão do portfólio da Gerdau Next

Grupo Casas Bahia — Histórico corporativo e evolução da estratégia

Grupo Casas Bahia — Estratégia de inovação e relacionamento com startups

Banco BV — BVx, ecossistema de inovação e startups

Banco BV — Programa de Inovação Aberta

EloGroup, ApexBrasil, ABVCAP e GCVI — Estudo de Corporate Venture Capital no Brasil

Banco Central — decisão do Copom de agosto de 2026

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