Documento histórico antecipou a pressão sobre aquíferos, o peso da agricultura, o combate às perdas e o avanço da dessalinização; quase três décadas depois, a crise não ocorreu de maneira uniforme, mas atinge bilhões de pessoas e amplia os riscos para cidades, produção de alimentos e infraestrutura.
Em 5 de dezembro de 1998, a Gazeta Mercantil alertou que o avanço do consumo, o crescimento populacional e a pressão sobre as reservas poderiam deixar uma parcela significativa da humanidade sem água garantida antes de 2025. Passados quase 28 anos, o mundo não chegou a um colapso hídrico generalizado, mas os dados disponíveis em 2026 mostram que a preocupação central daquela análise estava correta: a oferta de água segura não acompanhou as necessidades de parte expressiva da população, enquanto secas, enchentes, perdas nas redes e exploração intensiva dos mananciais elevaram o custo econômico da água.
O documento, preservado no Acervo Histórico da Gazeta Mercantil, apresentava o projeto editorial “Água, Ouro do Século XXI”. A publicação relacionava o aumento da demanda à produção de alimentos, ao crescimento das cidades, à exploração de aquíferos, à manutenção dos mananciais, ao tratamento de águas contaminadas e à dessalinização. Vários desses temas, tratados no fim do século passado como desafios futuros, passaram a ocupar o centro das políticas de segurança hídrica.
Em 2026, cerca de 2,1 bilhões de pessoas ainda não dispõem de serviços de água potável geridos de forma segura. Ao mesmo tempo, aproximadamente 4 bilhões enfrentam escassez hídrica severa durante pelo menos um mês do ano. Os dois indicadores medem problemas diferentes, mas revelam a dimensão de uma crise que combina falta física de água, deficiência de infraestrutura, contaminação e desigualdade de acesso.
O futuro previsto em 1998 chegou de forma desigual
O principal cuidado ao comparar as previsões de 1998 com o cenário atual é não tratar conceitos diferentes como se fossem equivalentes. Não ter água “garantida”, expressão utilizada no documento histórico, pode significar ausência de abastecimento contínuo, dependência de fontes inseguras, escassez em determinados períodos ou insuficiência da reserva disponível para atender a todos os usos.
A previsão, portanto, não deve ser julgada apenas pela existência ou não de torneiras funcionando em 2025. Uma população pode ter acesso formal à rede e, ainda assim, enfrentar interrupções, pressão insuficiente, contaminação, racionamento ou tarifas incompatíveis com sua renda. Da mesma forma, uma região pode possuir grandes reservas naturais, mas não dispor da infraestrutura necessária para captar, tratar e distribuir a água.
O relatório de 2026 das Nações Unidas mostra que a desigualdade continua sendo um dos principais componentes da crise. A falta de água potável segura afeta saúde, educação, renda, segurança e permanência das famílias em seus territórios. Mulheres e meninas ainda gastam, em conjunto, cerca de 250 milhões de horas por dia coletando água, uma medida do impacto econômico e social que não aparece nos mapas de disponibilidade hídrica.
Projeção populacional chegou perto da realidade
Um dos números apresentados pela Gazeta Mercantil em 1998 era a possibilidade de a população mundial alcançar aproximadamente 8,3 bilhões de pessoas em 2025. A revisão mais recente das projeções demográficas das Nações Unidas estimou 8,2 bilhões de habitantes em 2024 e indicou a continuidade do crescimento populacional nas décadas seguintes.
A previsão feita no fim dos anos 1990, portanto, ficou próxima da trajetória demográfica efetivamente observada. O planeta ganhou mais de 2 bilhões de habitantes desde a época em que o texto foi publicado, ampliando a demanda por alimentos, energia, moradia, saneamento e abastecimento urbano.
Isso não significa, porém, que a demanda mundial por água tenha dobrado de forma uniforme até 2025, como também se estimava na época. As séries atuais adotam metodologias diferentes e separam retiradas de água, consumo efetivo, disponibilidade renovável, estresse hídrico e eficiência de uso. A comparação direta com uma projeção produzida quase três décadas atrás seria tecnicamente imprecisa.
Os dados mais recentes da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura mostram, contudo, que a disponibilidade renovável de água por habitante caiu 7% em uma década. As retiradas também cresceram em regiões que já enfrentavam pressão sobre rios e aquíferos, especialmente em partes da África e da Ásia Ocidental.
Agricultura confirma o peso previsto no século passado
O documento de 1998 chamava a atenção para a quantidade de água necessária à produção de grãos. A relação entre segurança alimentar e recursos hídricos continua sendo um dos pontos mais sensíveis da economia mundial.
A agricultura responde atualmente por cerca de 72% das retiradas globais de água doce. A irrigação permite ampliar a produtividade e reduzir a exposição das lavouras à irregularidade das chuvas, mas também aumenta a competição pelo recurso em bacias onde cidades, indústrias, geração de energia e ecossistemas dependem da mesma disponibilidade.
O problema não se limita à quantidade retirada. Sistemas de irrigação pouco eficientes, degradação do solo, evaporação elevada e escolha de culturas incompatíveis com as condições locais podem ampliar o consumo sem produzir ganhos proporcionais. Em regiões sujeitas a secas mais frequentes, a gestão da água passou a influenciar diretamente preços agrícolas, custos de seguro, crédito rural e decisões de investimento.
A previsão de que a água se tornaria um ativo estratégico para a produção de alimentos, portanto, foi confirmada. Em 2026, a discussão já não se resume à existência de reservas, mas à produtividade econômica obtida com cada metro cúbico utilizado.
Brasil concentra reservas, mas convive com extremos
O Brasil ocupa uma posição singular. O país possui grande disponibilidade hídrica em termos agregados, mas a água está distribuída de maneira desigual pelo território e ao longo do ano. As maiores reservas não coincidem necessariamente com as áreas de maior concentração populacional, industrial e agrícola.
Em 2024, a retirada total de água no território brasileiro foi estimada em 2.098,7 metros cúbicos por segundo, equivalentes a 66,37 trilhões de litros no ano. A irrigação respondeu por 50,3% do volume, seguida pelo abastecimento humano, com 22,3%, e pela indústria, com 9,9%.
O mesmo período demonstrou como excesso e falta de água podem ocorrer no mesmo país. Mais de 10 milhões de pessoas foram impactadas por secas em 2024, enquanto 11,95 milhões foram afetadas por cheias. No Rio Grande do Sul, mais de 15 mil quilômetros quadrados ficaram submersos durante o maior desastre relacionado a enchentes da história do Estado.
As projeções climáticas ampliam a preocupação. Estudo da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico aponta que a disponibilidade hídrica pode cair mais de 40% até 2040 em bacias das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e de parte do Sudeste. No Sul, a tendência é de maior disponibilidade média, acompanhada, porém, de mais imprevisibilidade e eventos extremos.
O risco brasileiro não está apenas em uma eventual redução nacional das reservas. Ele se encontra na combinação entre mudanças nos regimes de chuva, crescimento da demanda, ocupação inadequada do território, degradação de mananciais e infraestrutura insuficiente para enfrentar períodos críticos.
Quase 40% da água se perde na distribuição
A matéria de 1998 já destacava o monitoramento de vazamentos como uma das respostas necessárias para evitar o desperdício. O exemplo citado era Fortaleza, onde sensores seriam usados para localizar problemas na rede e permitir reparos mais rápidos.
A tecnologia avançou, mas as perdas continuam elevadas. O Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico mostra que 39,5% do volume produzido no Brasil é perdido durante a distribuição. O índice inclui perdas físicas, provocadas por vazamentos, e aparentes, relacionadas a falhas de medição, fraudes, ligações clandestinas e problemas cadastrais.
O consumo médio informado pelos prestadores chegou a 180,04 litros por habitante por dia. Ao mesmo tempo, foram realizados R$ 14,59 bilhões em investimentos no abastecimento de água, dos quais aproximadamente R$ 5,06 bilhões tiveram como destino a distribuição.
A perda de água tratada gera uma cadeia de custos. O recurso precisa ser captado, bombeado, tratado e transportado antes de desaparecer em tubulações danificadas ou deixar de ser contabilizado. Energia, produtos químicos, equipamentos e mão de obra são empregados sem que a água chegue regularmente ao consumidor ou produza receita para financiar o sistema.
Fortaleza continua recorrendo à tecnologia para enfrentar esse problema. A rede vem sendo dividida em setores de medição e controle, com acompanhamento durante 24 horas por centros operacionais. Em 2025, a companhia estadual informou possuir cerca de 1.200 equipamentos destinados ao monitoramento de pressão, vazão e funcionamento da rede.
Ribeirão Preto mantém dependência do aquífero
Outro exemplo citado em 1998 era Ribeirão Preto, então apresentada como uma cidade abastecida integralmente por poços ligados ao chamado aquífero Botucatu. Atualmente, o sistema é identificado como Aquífero Guarani, uma das maiores reservas subterrâneas transfronteiriças do mundo.
A dependência permanece. Ribeirão Preto continua sendo abastecida integralmente por água subterrânea proveniente do Aquífero Guarani. Em 2025, o sistema municipal possuía 122 poços tubulares profundos, responsáveis pela captação utilizada no abastecimento da cidade.
Em 2026, a administração municipal avançou em um projeto destinado a avaliar a capacidade máxima, a resiliência e a sustentabilidade do aquífero. Trinta poços receberam equipamentos para medir o nível dinâmico e a recuperação da reserva após o bombeamento. O objetivo é orientar a abertura de novos poços, identificar áreas que precisam ter a exploração reduzida e incorporar as mudanças climáticas ao planejamento.
O caso mostra como uma preocupação registrada há quase três décadas permaneceu relevante. A água subterrânea pode oferecer qualidade e regularidade, mas não constitui uma reserva ilimitada. A retirada acima da capacidade de recarga, a impermeabilização do solo e a contaminação das áreas de recarga podem comprometer a segurança futura.
Dessalinização deixa de ser experiência isolada
Em 1998, o uso comercial da dessalinização ainda era apresentado ao público brasileiro como uma alternativa distante, concentrada em ilhas e países do Oriente Médio. Desde então, a tecnologia de osmose reversa ganhou escala e passou a integrar estratégias nacionais de abastecimento.
A dessalinização não elimina a necessidade de proteger rios, aquíferos e reservatórios. O processo exige energia, investimentos elevados e controle ambiental sobre a captação e o descarte da salmoura. Ainda assim, tornou-se uma opção concreta para áreas litorâneas expostas a secas recorrentes.
Fortaleza, justamente uma das cidades citadas no texto histórico por suas iniciativas de combate às perdas, prepara uma planta de dessalinização na Praia do Futuro. O projeto foi concebido para reforçar o abastecimento da região metropolitana, especialmente durante períodos de seca, com capacidade projetada para atender cerca de 700 mil pessoas.
A passagem da dessalinização de tema prospectivo para obra de infraestrutura é uma das confirmações mais claras do diagnóstico apresentado pela Gazeta Mercantil no fim do século passado.
Água não provocou uma guerra mundial, mas agrava tensões
A previsão de que a água seria o estopim das guerras do século XXI não se concretizou de forma literal. Conflitos contemporâneos raramente possuem uma causa única, e disputas territoriais, políticas, étnicas, energéticas e econômicas normalmente se sobrepõem.
Isso não significa que a água tenha perdido importância geopolítica. A escassez pode agravar insegurança alimentar, deslocamentos populacionais, desemprego e disputas entre regiões ou países que compartilham rios e aquíferos. Sistemas de abastecimento também podem ser destruídos, bloqueados ou utilizados como instrumento de pressão durante conflitos.
O Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos de 2024 concluiu que a insegurança hídrica amplia os efeitos dos conflitos, enquanto a gestão conjunta de águas transfronteiriças pode funcionar como instrumento de estabilidade e cooperação.
A formulação mais adequada em 2026, portanto, não é afirmar que as guerras do século serão exclusivamente travadas pela água. O risco está em a escassez atuar como multiplicador de crises econômicas, sociais e políticas já existentes.
O alerta permanece como pauta econômica
A leitura do documento de 1998 mostra que a Gazeta Mercantil identificou corretamente vários eixos que definiriam a economia da água nas décadas seguintes: crescimento populacional, produção de alimentos, exploração de aquíferos, controle de perdas, tratamento de água contaminada e dessalinização.
Nem todas as projeções podem ser confirmadas literalmente. O consumo mundial não evoluiu de maneira uniforme, e a crise não atingiu todos os países com a mesma intensidade. Também houve avanços tecnológicos, investimentos e políticas de cooperação que evitaram cenários mais graves.
O problema central, entretanto, permanece. Água em quantidade suficiente não garante abastecimento seguro. Reservas naturais não substituem redes eficientes. Tecnologia não elimina a necessidade de governança. E a existência de grandes volumes em uma região não resolve a escassez enfrentada em outra.
Quase três décadas depois, a água efetivamente se consolidou como um dos ativos estratégicos do século XXI. Seu valor está presente na produção de alimentos, na geração de energia, no funcionamento das cidades, na atividade industrial e na adaptação climática. A diferença é que, em 2026, o alerta deixou de ser uma projeção sobre o futuro e passou a ser uma variável concreta das decisões econômicas do presente.









