O etanol hidratado atingiu a maior vantagem econômica sobre a gasolina comum em São Paulo desde 2018, segundo levantamento divulgado nesta segunda-feira, 3 de agosto, pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia. Com o biocombustível vendido, em média, a R$ 3,70 por litro e a gasolina a R$ 6,39, a diferença pode representar economia de R$ 79,29 no abastecimento de um tanque de 60 litros.
O cálculo considera que um litro de etanol proporciona, em média, 73% do rendimento energético da gasolina. Aplicado esse parâmetro, a gasolina vendida a R$ 6,39 corresponderia a um preço equivalente de R$ 5,07 para o etanol. Como o valor efetivamente encontrado nas bombas paulistas foi de R$ 3,70, a diferença ajustada chegou a R$ 1,32 por litro.
A relação entre os preços ficou em 57,9% em São Paulo. Quanto menor essa proporção, maior tende a ser a vantagem do etanol para os veículos flex. O resultado foi o mais favorável ao biocombustível em oito anos e o segundo melhor desde o início da série utilizada pela entidade, em 2013.
Os dados têm como base o levantamento semanal da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, responsável por acompanhar os preços praticados nos postos. A pesquisa abrange gasolina comum, etanol hidratado, diesel, gás veicular e gás liquefeito de petróleo, com resultados nacionais, estaduais e municipais.
Vantagem depende do consumo de cada veículo
A proporção de 73% utilizada no cálculo representa uma referência técnica mais atualizada do que a regra simplificada dos 70%, tradicionalmente adotada para comparar os dois combustíveis. O ponto de equilíbrio pode variar conforme o modelo do veículo, o motor, as condições de condução e o tipo de percurso.
Para um automóvel que percorra proporcionalmente 73 quilômetros com etanol para cada 100 quilômetros realizados com gasolina, o biocombustível será economicamente vantajoso quando custar menos de 73% do preço do combustível fóssil. Em São Paulo, a relação de 57,9% ficou 15,1 pontos percentuais abaixo desse limite.
A economia de R$ 79,29 não corresponde apenas à diferença nominal entre os preços na bomba. Se fossem comparados diretamente os valores de um tanque de 60 litros, o abastecimento com etanol custaria R$ 222, enquanto a gasolina exigiria R$ 383,40. A distância nominal seria de R$ 161,40, mas parte dela é compensada pelo menor rendimento energético do etanol.
Depois do ajuste pelo consumo, o custo equivalente da gasolina para a mesma distância seria de aproximadamente R$ 304,20. A diferença em relação aos R$ 222 gastos com o etanol fica próxima dos R$ 80 estimados. O benefício efetivo poderá ser maior ou menor conforme a eficiência específica de cada automóvel.
Motoristas podem calcular a paridade dividindo o preço do etanol pelo preço da gasolina. Com os valores médios paulistas, a operação de R$ 3,70 divididos por R$ 6,39 resulta em 0,579, ou 57,9%. O resultado indica vantagem ampla mesmo para veículos nos quais o rendimento relativo do etanol fique abaixo dos 73% adotados pela entidade.
Etanol é competitivo em seis Estados pesquisados
A vantagem não ficou restrita à média estadual de São Paulo. Segundo a análise dos dados da ANP, todos os municípios pesquisados em São Paulo, Paraná, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais apresentaram preços do etanol abaixo da paridade técnica com a gasolina.
Os seis Estados concentram parcela relevante da produção brasileira de cana-de-açúcar e de etanol de milho. A proximidade das usinas, a disponibilidade do produto e a estrutura logística reduzem custos de transporte e favorecem a transmissão dos preços praticados pelos produtores até os postos.
Em Mato Grosso, a relação entre os preços caiu para 55%. O etanol hidratado foi comercializado, em média, a R$ 3,74 por litro, diante de R$ 6,80 para a gasolina. A diferença nominal atingiu R$ 3,06 por litro, superior aos R$ 2,69 registrados em São Paulo.
A competitividade, entretanto, não é uniforme em todo o território nacional. Estados distantes das principais regiões produtoras enfrentam custos logísticos maiores, e a tributação também interfere no preço final. A ANP esclarece que os combustíveis operam em regime de liberdade de preços desde 2002, sem tabelamento ou autorização prévia para reajustes.
O valor ao consumidor é composto pelos preços praticados por produtores ou importadores, tributos federais e estaduais, custos de distribuição, despesas de revenda e margens comerciais. No caso da gasolina, também influencia a proporção de etanol anidro obrigatoriamente adicionada ao produto antes de sua comercialização.
Preço nas usinas acumula quedas em julho
A redução observada nos postos ocorreu após uma sequência de quedas nas negociações entre usinas e distribuidoras. O Indicador Semanal do Etanol Hidratado Cepea/Esalq para São Paulo passou de R$ 2,2427 por litro no período encerrado em 3 de julho para R$ 2,0764 entre os dias 20 e 24.
O recuo acumulado nesse intervalo foi de 7,4%. Apenas na semana de 20 a 24 de julho, a diminuição chegou a 2,68%. O indicador é calculado sem frete, ICMS, PIS e Cofins, motivo pelo qual não deve ser comparado diretamente com os valores pagos pelo consumidor nos postos.
O etanol anidro, misturado à gasolina, apresentou trajetória semelhante. O preço médio caiu de R$ 2,5808 por litro na semana encerrada em 3 de julho para R$ 2,3786 entre os dias 20 e 24, uma redução de 7,8%.
O movimento refletiu a intensificação da moagem de cana-de-açúcar e a necessidade de comercialização por parte de algumas unidades produtoras. A entrada de maior volume no mercado pressionou as cotações, enquanto distribuidoras mantiveram cautela nas compras diante da expectativa de continuidade da oferta.
A transmissão das quedas das usinas para os postos não é automática nem integral. Estoques adquiridos anteriormente, contratos, frete, tributos e margens comerciais podem retardar ou reduzir o repasse. A sequência de recuos, porém, abriu espaço para uma diminuição dos preços ao consumidor ao longo de julho.
Produção cresce com cana e etanol de milho
A oferta também foi favorecida pelo desempenho da produção na safra 2026/2027. Até 1º de junho, as unidades do Centro-Sul haviam produzido 7,54 bilhões de litros de etanol, crescimento de 31,55% em relação ao mesmo estágio do ciclo anterior.
O etanol hidratado, vendido diretamente nos postos, somou 4,96 bilhões de litros, aumento de 29%. A fabricação de anidro alcançou 2,58 bilhões de litros, avanço de 36,73%. Os dados abrangem a produção a partir de cana-de-açúcar e de milho.
Somente na segunda quinzena de maio, foram fabricados 2,13 bilhões de litros de etanol. Desse volume, 1,33 bilhão correspondeu ao hidratado e 796 milhões ao anidro. Cerca de 19,4% da produção quinzenal teve o milho como matéria-prima.
A produção de etanol de milho atingiu 1,57 bilhão de litros desde o começo da safra, alta de 8,63%. Essa modalidade permite fabricação ao longo de períodos em que a moagem de cana diminui e amplia a disponibilidade do combustível em Estados do Centro-Oeste.
A expansão da produção ocorreu apesar de a moagem de cana ter recuado na segunda metade de maio. As usinas processaram 41,55 milhões de toneladas, 13,08% abaixo do volume do mesmo período da safra anterior. A maior destinação da matéria-prima ao etanol e o crescimento da produção de milho compensaram parcialmente a redução.
Vendas internas acompanham ganho de competitividade
As vendas das unidades do Centro-Sul somaram 2,88 bilhões de litros de etanol em maio. O hidratado respondeu por 1,79 bilhão de litros, enquanto o anidro totalizou 1,09 bilhão.
No mercado doméstico, a comercialização de hidratado alcançou 1,77 bilhão de litros. A média diária avançou 2,09% na comparação com maio da safra anterior. As vendas de anidro aumentaram 1,66%, também considerando o mercado interno.
A melhora já era observada no fim de maio, quando o preço do etanol nos postos correspondia a 60,7% do valor da gasolina em São Paulo. Na última semana daquele mês, todos os municípios pesquisados nos seis principais Estados produtores apresentavam vantagem para o biocombustível.
Entre o fim de maio e o levantamento divulgado em agosto, a paridade paulista caiu mais 2,8 pontos percentuais, de 60,7% para 57,9%. A redução mostra que o preço do etanol recuou em ritmo superior ao da gasolina durante o período.
No acumulado da safra até 1º de junho, as vendas das usinas do Centro-Sul chegaram a 5,66 bilhões de litros. O hidratado respondeu por 3,55 bilhões, e o anidro, por 2,11 bilhões.
Mistura de etanol na gasolina sobe para 32%
O ganho de competitividade do hidratado ocorre simultaneamente ao aumento do uso do etanol anidro na gasolina. O Conselho Nacional de Política Energética aprovou a elevação temporária da mistura obrigatória de 30% para 32%, conhecida como E32.
A medida entrou em vigor em 1º de agosto e terá duração inicial de 180 dias, com possibilidade de uma única prorrogação por igual período. A autorização está prevista na Lei do Combustível do Futuro e foi precedida por testes coordenados pelo Ministério de Minas e Energia e executados pelo Instituto Mauá de Tecnologia.
Os ensaios avaliaram desempenho, dirigibilidade, partida a frio, consumo e emissões em veículos leves e motocicletas. Segundo o ministério, a mistura com 32% apresentou comportamento equivalente ao das proporções anteriores, inclusive em veículos que não possuem motor flex.
O governo estima que o E32 poderá reduzir em aproximadamente 900 milhões de litros por ano a necessidade de importação de gasolina. A maior demanda por anidro cria uma destinação adicional para a produção das usinas, ao mesmo tempo que o hidratado permanece disponível como opção direta para proprietários de veículos flex.
A vantagem econômica observada em agosto dependerá da continuidade da oferta, das cotações nas usinas e dos repasses ao varejo. A ANP atualizará semanalmente os preços estaduais e municipais, permitindo verificar se a relação favorável ao etanol será mantida após o início do E32 e durante o avanço da moagem no Centro-Sul.
Fontes:
- União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia — Preço do etanol atinge maior vantagem frente à gasolina desde 2018 — 3 de agosto de 2026
- Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis — Levantamento de Preços de Combustíveis — consultado em 4 de agosto de 2026
- Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis — Série Histórica de Preços de Combustíveis e de GLP — consultada em 4 de agosto de 2026
- Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada — Indicador Semanal do Etanol Cepea/Esalq — consultado em 4 de agosto de 2026
- União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia — Safra 2026/2027, segunda quinzena de maio — 24 de junho de 2026
- Ministério de Minas e Energia — CNPE aprova elevação do teor de etanol anidro na gasolina para 32% — 24 de julho de 2026










