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Mercado aposta em alta de juros dos EUA já em setembro após ‘estreia’ dura de Warsh

Probabilidade de elevação saltou para 65% após coletiva do novo presidente do Fed; comunicado e projeções também reforçam postura mais rígida contra inflação

por Maria Helena Costa
17/06/2026 às 20h09
em Economia
Mercado Aposta Em Alta De Juros Dos Eua Já Em Setembro Após 'Estreia' Dura De Warsh - Gazeta Mercantil
São Paulo, 17 de junho de 2026 — A primeira reunião de política monetária do Federal Reserve (Fed) sob o comando de Kevin Warsh mudou radicalmente as expectativas do mercado financeiro global. Embora a instituição tenha mantido a taxa básica de juros estável na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano, como era amplamente esperado, o tom duro do comunicado, as projeções revisadas e, principalmente, as declarações do novo presidente durante a coletiva de imprensa fizeram investidores passarem a ver uma alta de juros muito mais cedo do que se imaginava.
Dados da ferramenta FedWatch, do CME Group, mostram que a probabilidade de elevação dos juros já na reunião de setembro saltou para 65,3%, enquanto a chance de manutenção caiu para apenas 34,7%. Antes da decisão, o mercado avaliava que o primeiro movimento de aperto monetário só ocorreria em dezembro; logo após a divulgação do comunicado, a aposta mudou para outubro, mas foi durante a fala de Warsh que o cenário se alterou definitivamente para um ajuste já no terceiro trimestre.

Mensagem clara: inflação é prioridade, cortes estão fora de pauta

Desde o início da entrevista coletiva, Warsh deixou claro que seu foco principal é o controle da inflação, que segue acima da meta de 2% ao ano. Ele evitou qualquer menção a possíveis cortes de juros — movimento que chegou a ser discutido no mercado nos meses anteriores — e reforçou que a economia dos Estados Unidos continua crescendo em ritmo sólido, o que dá espaço para manter a política monetária restritiva por mais tempo ou até apertá-la novamente, se necessário.
“Estamos comprometidos em garantir que a inflação retorne de forma sustentável à nossa meta. Nossa ação será sempre dependente dos dados, e temos consciência de que riscos ainda existem, tanto no cenário interno quanto no externo”, afirmou o dirigente, em tom considerado mais duro e direto do que o de seu antecessor, Jerome Powell.
Warsh também explicou que decidiu não enviar sua projeção individual para o chamado dot plot — gráfico que reúne as estimativas de cada dirigente para os juros nos próximos anos — alegando que ainda está consolidando sua visão sobre a trajetória econômica. Mesmo assim, a mediana das projeções dos outros membros do comitê já sinalizou que haverá pelo menos uma alta adicional em 2026, com a taxa terminando o ano em 3,8%, ante 3,4% projetados em março.

Reviravolta nas apostas do mercado

A mudança de percepção foi rápida e intensa. Durante toda a manhã e início da tarde, operadores ainda trabalhavam com cenários em que os juros permaneceriam estáveis até o final do ano ou começariam a subir apenas no último trimestre. A divulgação do comunicado oficial já trouxe alertas, mas foi na resposta a perguntas de jornalistas que Warsh dissipou qualquer dúvida sobre a direção da política monetária.
Ele destacou pontos que pesam contra a flexibilização: o mercado de trabalho segue muito aquecido, os salários ainda sobem em ritmo incompatível com a meta de inflação, e os gastos das famílias continuam fortes, mesmo com o crédito mais caro. Para ele, esses fatores mantêm pressão sobre os preços e exigem cautela.
“Se os dados mostrarem que a inflação está estagnada ou subindo, ou que a atividade segue muito acima do potencial, não hesitaremos em agir”, disse Warsh, em frase que se tornou o destaque do dia e impulsionou as apostas de alta já em setembro.

Impactos globais e reflexos no Brasil

A sinalização do Fed teve efeito imediato nos mercados: índices acionários recuaram, o dólar se valorizou frente a moedas de países emergentes e os preços de ativos de risco caíram ao redor do mundo. No Brasil, o movimento ajudou a explicar a queda de 0,70% do Ibovespa e a alta de 0,41% do dólar, que fechou cotado a R$ 5,10.
Para a economia brasileira, um cenário de juros mais altos nos Estados Unidos reduz o espaço para cortes na taxa Selic. Com atratividade maior para aplicações em dólar, o Brasil precisa manter juros elevados para evitar saída de capitais e desvalorização cambial, o que pressionaria ainda mais a inflação.
A decisão do Copom, que reduziu a Selic em 0,25 ponto para 14,25% nesta quarta-feira, já levou em conta esses riscos externos, e o comunicado do BC também adotou tom mais cauteloso, justamente citando incertezas vindas do exterior.

O que esperar até setembro

Agora, o foco do mercado se volta para os próximos indicadores econômicos dos Estados Unidos, especialmente dados de inflação, emprego e atividade. Qualquer sinal de que os preços estão desacelerando mais lentamente ou que a economia continua aquecida deve confirmar a expectativa de alta em setembro.
Por outro lado, se houver surpresas negativas — como desaceleração forte do crescimento ou queda acentuada da inflação — o Fed pode adiar a decisão. Mas, depois da estreia de Warsh, o entendimento geral é que a política monetária americana entrou em uma nova fase: mais rígida, mais dependente de dados e muito menos inclinada a facilitar o crédito.
Para investidores, empresas e governos ao redor do mundo, a mensagem é clara: o custo do dinheiro deve ficar mais alto e permanecer assim por mais tempo.

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