OPINIÃO — Flávio diz que o caso do financiamento de Dark Horse é “página virada”, mas a documentação citada por ele foi apresentada em uma investigação da Polícia Civil de São Paulo, enquanto a Polícia Federal continua apurando justamente o caminho do dinheiro ligado a Daniel Vorcaro
Há uma diferença importante entre dizer que uma questão está resolvida e demonstrar que ela foi, de fato, esclarecida. Flávio Bolsonaro parece querer eliminar essa diferença ao tratar como “página virada” a controvérsia envolvendo aproximadamente R$ 61 milhões destinados ao financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. A frase pode funcionar como resposta política, sobretudo em campanha eleitoral, mas não resolve o problema concreto: a Polícia Federal continua investigando o caminho desses recursos e, até aqui, a prestação de contas apresentada publicamente não permite reconstruir de forma suficientemente transparente de onde veio cada valor, por onde passou e quem recebeu o dinheiro.
É preciso começar pelo básico para que a crítica não seja confundida com acusação. Não há fundamento, neste momento, para afirmar que Flávio Bolsonaro tenha desviado os R$ 61 milhões, apropriado-se pessoalmente do dinheiro ou cometido crime. Ele tem direito à presunção de inocência e a apresentar sua versão dos fatos. O ponto é outro, e justamente por isso é mais difícil de contornar: o próprio Flávio reconheceu sua participação na busca por financiamento para o projeto e, quando o caso se tornou público, prometeu transparência. A cobrança que existe hoje não nasceu de uma condenação antecipada, mas da distância entre aquela promessa e aquilo que efetivamente foi apresentado à sociedade.
Quando o assunto ganhou repercussão, Flávio disse que pediria uma prestação de contas à produtora e aos responsáveis financeiros pelo filme. O compromisso sugeria algo relativamente simples: apresentar informações capazes de explicar quanto havia sido captado, quem financiou a produção, como os recursos circularam e em que foram efetivamente empregados. Passado o prazo inicialmente mencionado, a prestação pública e detalhada não apareceu da forma esperada. Agora, meses depois, o candidato afirma que a questão já foi resolvida e aponta para uma perícia privada como prova de que estaria “tudo certinho”.
É aqui que começa a principal inconsistência dessa narrativa. O documento usado para sustentar o encerramento do caso foi contratado pela própria produtora de Dark Horse e acabou juntado a um inquérito da Polícia Civil de São Paulo. A perícia informa que a produção teria custado aproximadamente R$ 75 milhões e sustenta que os recursos examinados eram privados. Essa conclusão merece ser considerada e pode perfeitamente estar correta. O problema é apresentá-la como se fosse equivalente a uma auditoria independente realizada pela autoridade que investiga especificamente os repasses relacionados a Daniel Vorcaro.
Não é.
Uma perícia privada pode ser tecnicamente séria, mas continua sendo um trabalho contratado por uma das partes interessadas e desenvolvido a partir da documentação que lhe foi disponibilizada. Além disso, aquilo que chegou ao conhecimento público não contém uma abertura completa das despesas capaz de permitir que qualquer cidadão acompanhe o percurso dos valores. Dizer que o filme consumiu R$ 75 milhões é uma informação relevante. Mostrar quem colocou o dinheiro, em quais contas ele entrou, como foi transferido, quais empresas ou profissionais receberam os pagamentos e quais documentos justificam cada despesa é outra coisa. É justamente essa segunda camada que transforma uma afirmação em prestação de contas.
A diferença entre as duas investigações também não pode ser dissolvida pela retórica. A Polícia Civil paulista apura fatos relacionados a suspeitas envolvendo um contrato da Prefeitura de São Paulo e empresas ou entidades conectadas à estrutura da produtora. Já a Polícia Federal abriu investigação para examinar o financiamento do filme e o caminho dos recursos atribuídos a Daniel Vorcaro. São apurações distintas, conduzidas por instituições diferentes e com objetos que não se confundem integralmente. Por isso, anexar uma perícia a um inquérito estadual não significa automaticamente responder às perguntas que deram origem ao inquérito federal.
Essa distinção deveria ser óbvia, mas desaparece quando Flávio apresenta o caso como resolvido. Se a investigação que suscita a pergunta “onde foram parar os R$ 61 milhões?” é conduzida pela Polícia Federal, então o teste decisivo não é saber se um documento foi entregue à Polícia Civil de São Paulo. É saber se a PF recebeu e conseguiu verificar todo o conjunto bancário, contratual e contábil necessário para seguir o dinheiro desde a origem até os destinatários finais. E, principalmente, se depois de fazer isso concluiu que não houve irregularidade. Até onde se sabe, essa conclusão ainda não existe.
É por isso que a expressão “página virada” soa tão inadequada. Uma página pode estar virada no discurso de campanha, mas uma investigação aberta não desaparece porque o investigado ou o interessado já se considera satisfeito com as próprias explicações. O processo de esclarecimento pertence às autoridades e, no plano político, também à sociedade. Quem ocupa cargo público e pretende chegar à Presidência não pode escolher sozinho o momento em que as perguntas deixam de ser legítimas.
Há ainda um elemento político que precisa ser mencionado com cuidado, justamente para não ultrapassar o que os fatos permitem afirmar. A Polícia Civil de São Paulo está inserida na estrutura administrativa de um Estado governado por Tarcísio de Freitas, aliado político de Flávio Bolsonaro. Isso não prova, sugere ou autoriza afirmar que Tarcísio tenha interferido na investigação. Não há evidência pública de interferência, e seria irresponsável insinuá-la. A própria Polícia Civil realizou diligências contra pessoas e estruturas ligadas à produtora, o que mostra que o simples vínculo administrativo com o governo estadual não pode ser usado para desqualificar o trabalho policial.
Mas essa proximidade política torna ainda mais importante que Flávio não use a existência de um documento no inquérito estadual como se ele encerrasse uma apuração federal independente. Quanto maior a possibilidade de percepção pública de conflito ou proximidade política, maior deveria ser o cuidado em separar as instituições, os objetos dos inquéritos e as conclusões de cada uma. A melhor maneira de dissipar qualquer dúvida seria justamente colocar toda a documentação à disposição da Polícia Federal e deixar que a autoridade responsável pela investigação dos repasses federaismente questionados chegue à sua própria conclusão.
Isso também ajudaria a resolver outra fragilidade da resposta de Flávio: o uso excessivamente amplo da expressão “prestação de contas”. Prestação de contas não é apenas um total no fim da planilha. Se alguém afirma que uma produção cinematográfica custou R$ 75 milhões, a pergunta seguinte é inevitável: como? Quanto foi destinado a atores, locações, equipamentos, viagens, hospedagem, produção, pós-produção, serviços técnicos e fornecedores? Quais pagamentos foram feitos no Brasil e quais foram feitos no exterior? Quais empresas receberam? Quais contratos sustentam essas despesas? Quais notas, recibos ou comprovantes existem?
E há uma questão anterior a todas essas: quem financiou efetivamente cada parcela da produção? Se Daniel Vorcaro aparece como responsável por um volume relevante dos recursos e se os valores teriam transitado por uma estrutura financeira no exterior, a prestação de contas precisa ser capaz de reconciliar todas essas informações. Quanto saiu de Vorcaro? Quanto entrou no fundo? Quanto chegou à produtora? Houve outros financiadores? Quais foram os aportes de cada um? O valor total declarado pela perícia corresponde integralmente aos recursos captados? Essas não são perguntas de oposição partidária. São perguntas contábeis.
Flávio poderia transformar essa controvérsia em uma demonstração de transparência. Bastaria publicar o máximo de documentação possível, preservando apenas aquilo que estiver legalmente protegido, e entregar integralmente às autoridades os documentos sujeitos a sigilo. Se existem contratos confidenciais, que a PF os examine. Se há movimentações bancárias protegidas, que sejam apresentadas sob reserva. Se os recursos passaram regularmente por um fundo no exterior, que os registros demonstrem a operação. Se todo o dinheiro terminou efetivamente na produção de Dark Horse, isso deveria ser comprovável documentalmente.
Seria uma resposta muito mais forte do que “página virada”.
Também é insuficiente tentar deslocar a discussão para Lulinha. As investigações envolvendo o filho do presidente Lula são graves e precisam ser conduzidas até o fim. Se houver tráfico de influência, corrupção, intermediação irregular de interesses ou qualquer outro crime, que os responsáveis sejam identificados e punidos. Mas a existência de suspeitas sobre Lulinha não produz uma prestação de contas para Flávio. O eleitor tem o direito de cobrar ambos ao mesmo tempo. Uma democracia madura não trabalha com compensação de escândalos, como se uma suspeita de um lado anulasse automaticamente uma suspeita do outro.
Aliás, talvez esse seja um dos problemas mais corrosivos da política brasileira: a seletividade com que cada campo trata investigações. Quando o alvo é o adversário, uma mensagem é tratada como sentença, um depoimento vira confissão e qualquer movimentação financeira passa a ser apresentada como prova de crime. Quando o alvo é um aliado, surgem de imediato argumentos sobre contexto, presunção de inocência, necessidade de aguardar o processo e risco de condenação antecipada. Todos esses cuidados são corretos. O erro está em usá-los apenas para os próprios.
A régua precisa ser a mesma. Lulinha não deve ser declarado culpado porque seu nome aparece em conversas investigadas. Flávio Bolsonaro também não deve ser condenado porque participou da captação de recursos para um filme. Mas ambos devem responder às perguntas objetivas que surgirem, entregar os documentos exigidos pelas autoridades e aceitar o escrutínio que acompanha a proximidade com o poder. O princípio não pode mudar conforme o sobrenome do investigado.
No caso de Flávio, existe ainda uma responsabilidade adicional: ele quer ser presidente da República. Quem pede ao eleitor o direito de administrar trilhões de reais em recursos públicos precisa demonstrar enorme tolerância à fiscalização, não impaciência com ela. Um candidato à Presidência deveria querer que qualquer dúvida envolvendo dezenas de milhões de reais fosse esclarecida de maneira tão completa que a própria investigação se tornasse sua melhor defesa. Se não houve irregularidade, a transparência é aliada, não inimiga.
Por isso, a questão continua sendo muito mais simples do que o ruído político construído em torno dela. Ninguém está pedindo que Flávio prove uma inocência abstrata. Está sendo cobrada uma demonstração documental concreta sobre um volume determinado de dinheiro cuja origem e destinação se tornaram objeto de investigação. Se tudo foi empregado regularmente na produção do filme, os documentos podem mostrar isso. Se a Polícia Federal concluir que não houve crime ou desvio, essa será a resposta institucional adequada.
Mas enquanto a PF ainda investiga, enquanto a reconstrução completa do caminho dos recursos não está publicamente disponível e enquanto a “prestação de contas” apontada por Flávio permanece vinculada a uma perícia privada apresentada em outro inquérito, não existe base para tratar o assunto como encerrado.
Flávio Bolsonaro pode querer virar a página. A campanha pode querer virar a página. Seus aliados podem querer virar a página.
A Polícia Federal ainda não virou.
E, enquanto não virar, a sociedade tem todo o direito de continuar perguntando:
onde estão os documentos que mostram, de forma completa e verificável, o caminho dos R$ 61 milhões?
Isso não é perseguição. Não é condenação antecipada. Não é militância.
É prestação de contas.









