As expectativas do mercado financeiro para a inflação voltaram a piorar e atingiram um novo patamar em 2026, segundo dados do Boletim Focus divulgados nesta segunda-feira (22) pelo Banco Central. A projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi elevada pela 15ª semana consecutiva, enquanto os analistas passaram a prever apenas mais um corte na taxa Selic até o fim do ano.
O levantamento, que reúne estimativas de bancos, corretoras, gestoras e consultorias econômicas, indica que a inflação deverá encerrar 2026 em 5,33%, acima dos 5,30% projetados na semana anterior. O movimento reforça o cenário de persistente deterioração das expectativas inflacionárias e amplia os desafios do Banco Central para conduzir a política monetária.
Ao mesmo tempo, o mercado revisou suas apostas para os juros. Após o Comitê de Política Monetária (Copom) reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual na última semana, para 14,25% ao ano, os economistas passaram a projetar que a taxa básica encerrará 2026 em 14%, ante expectativa anterior de 13,75%.
A mudança reflete a avaliação de que o ciclo de flexibilização monetária está próximo do fim diante da resistência da inflação e das incertezas relacionadas ao cenário fiscal.
Inflação se afasta da meta do Banco Central
O principal destaque da nova edição do Boletim Focus foi o avanço das projeções para o IPCA, indicador oficial utilizado no sistema de metas de inflação.
A expectativa para 2026 subiu para 5,33%, consolidando uma sequência de revisões altistas observada ao longo dos últimos meses.
As estimativas para os anos seguintes também registraram piora. Para 2027, o mercado passou a projetar inflação de 4,15%, ante 4,10% na pesquisa anterior. Já para 2028, a previsão avançou de 3,68% para 3,70%.
Os números permanecem acima do centro da meta contínua de inflação estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), fixada em 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.
Embora as projeções ainda permaneçam dentro do limite superior da banda, o distanciamento em relação ao centro da meta aumenta a pressão sobre a atuação da autoridade monetária.
O comportamento das expectativas é acompanhado de perto pelo Banco Central porque influencia decisões de investimento, consumo, formação de preços e negociações salariais.
Mercado vê apenas mais um corte na Selic
As novas projeções indicam que o mercado financeiro espera uma desaceleração significativa no ritmo de redução dos juros.
Após a decisão da última quarta-feira, quando o Copom cortou a Selic de 14,50% para 14,25% ao ano, os economistas passaram a enxergar espaço para apenas mais uma redução de 0,25 ponto percentual.
Com isso, a taxa básica encerraria o ano em 14%.
Na semana passada, antes da decisão do Banco Central, a mediana das projeções apontava juros de 13,75% ao final de 2026.
A mudança evidencia que o mercado interpretou a comunicação do Copom como mais cautelosa em relação ao futuro da política monetária.
Em seu comunicado, o comitê evitou indicar explicitamente os próximos passos e destacou que continua avaliando diferentes trajetórias para os juros a fim de assegurar a convergência da inflação para a meta em horizontes mais longos.
A atenção dos investidores agora se volta para a ata da reunião, que deverá trazer mais detalhes sobre a avaliação dos diretores do Banco Central e os fatores considerados para a condução da política monetária nos próximos meses.
Comunicação do Copom reforça cautela com cenário inflacionário
O comunicado divulgado após a reunião do Copom foi interpretado pelo mercado como um sinal de prudência diante da persistência das pressões inflacionárias.
Embora tenha mantido o processo de flexibilização monetária iniciado anteriormente, o Banco Central deixou em aberto o ritmo e a intensidade dos próximos movimentos.
A autoridade monetária destacou que seguirá observando a evolução das expectativas de inflação, o comportamento da atividade econômica, as condições do mercado de trabalho e os efeitos da política fiscal sobre o cenário macroeconômico.
Nos últimos meses, integrantes do Banco Central têm ressaltado que a credibilidade do processo de desinflação depende não apenas da política monetária, mas também da percepção dos agentes econômicos sobre a sustentabilidade das contas públicas.
Esse contexto explica parte da cautela observada nas projeções para os juros.
Quanto maior a resistência da inflação e a deterioração das expectativas, menor tende a ser o espaço para cortes mais agressivos na Selic.
PIB tem leve melhora nas projeções para este ano
Apesar da piora das estimativas para inflação e juros, o Boletim Focus trouxe uma revisão positiva para o crescimento econômico em 2026.
A projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) avançou de 1,96% para 1,98%.
Embora a alteração seja modesta, ela sugere que o mercado continua enxergando alguma resiliência da atividade econômica mesmo em um ambiente de juros elevados.
Para 2027, a expectativa de crescimento foi mantida em 1,70%.
O desempenho da economia brasileira tem surpreendido parte dos analistas nos últimos trimestres, impulsionado pelo mercado de trabalho aquecido, pelo consumo das famílias e pelo avanço de setores ligados a serviços e agronegócio.
No entanto, economistas alertam que a manutenção dos juros em patamares elevados por mais tempo pode limitar o ritmo de expansão da atividade nos próximos anos.
Empresas mais dependentes de crédito, além dos segmentos de construção civil, varejo e bens duráveis, tendem a ser mais sensíveis ao custo do dinheiro.
Dólar permanece estável nas estimativas do mercado
As projeções para o câmbio apresentaram poucas alterações na pesquisa desta semana.
A expectativa para a cotação do dólar ao final de 2026 foi mantida em R$ 5,20.
Já para 2027, a previsão passou de R$ 5,25 para R$ 5,27.
A relativa estabilidade das estimativas cambiais reflete um cenário em que os analistas não identificam mudanças significativas na percepção de risco externo ou doméstico no curto prazo.
Ainda assim, o comportamento da moeda norte-americana continuará sendo influenciado por fatores como a trajetória dos juros nos Estados Unidos, o fluxo de capitais para mercados emergentes, a evolução das contas públicas brasileiras e o desempenho das commodities.
Movimentos mais intensos no câmbio podem afetar diretamente as expectativas de inflação, especialmente por meio dos preços de combustíveis, alimentos e produtos importados.
Piora das expectativas reforça debate sobre política monetária
A nova rodada do Boletim Focus reforça um dos principais desafios da economia brasileira em 2026: controlar a inflação sem comprometer excessivamente o crescimento econômico.
A sequência de revisões para cima nas projeções do IPCA mostra que o mercado continua encontrando dificuldades para enxergar uma convergência mais rápida dos preços para a meta definida pelo Banco Central.
Ao mesmo tempo, a expectativa de menos cortes na Selic indica que os juros deverão permanecer em níveis historicamente elevados por mais tempo do que se imaginava há poucos meses.
Para investidores, empresas e consumidores, o cenário sugere um ambiente ainda marcado por cautela, custos financeiros elevados e monitoramento constante dos sinais emitidos pela autoridade monetária.
As próximas decisões do Copom e a evolução das expectativas inflacionárias continuarão entre os principais fatores capazes de influenciar os mercados, o crédito e o ritmo da atividade econômica brasileira ao longo do segundo semestre.









