A chegada do frio reduziu a produtividade de culturas sensíveis às baixas temperaturas e fez o preço médio dos legumes subir 15,1% em maio na comparação com abril, de R$ 6,89 para R$ 7,93. A elevação ocorreu em todas as regiões brasileiras e colocou as hortaliças no centro da pressão sobre os gastos das famílias com alimentação, segundo o estudo “Variações de Preços: Brasil & Regiões”, elaborado pela Neogrid.
O avanço mensal foi acompanhado por aumentos no leite em pó, no feijão, na água mineral e no molho de tomate. Em sentido contrário, ovos, café, massas, carne suína, açúcar e óleo de soja ficaram mais baratos, oferecendo alívio parcial ao consumidor.
O comportamento dos legumes evidencia a vulnerabilidade dos alimentos frescos às alterações climáticas. Temperaturas mais baixas afetam o desenvolvimento das plantas, retardam a maturação, diminuem a frequência das colheitas e podem elevar a incidência de doenças nas lavouras.
Como hortaliças possuem ciclos relativamente curtos e menor capacidade de armazenamento, qualquer redução na oferta chega rapidamente ao varejo. O impacto aparece nas feiras, supermercados, restaurantes e serviços de alimentação, com reflexos diretos sobre o orçamento doméstico.
No acumulado entre dezembro de 2025 e maio de 2026, o preço médio dos legumes aumentou 44,2%, de R$ 5,50 para R$ 7,93. A alta superou a registrada por outras categorias relevantes da cesta alimentar e reforçou a pressão sobre consumidores de menor renda, que destinam parcela maior dos rendimentos à compra de alimentos.
Temperaturas mais baixas reduzem ritmo das lavouras
O frio interfere na produção agrícola de formas diferentes, conforme a espécie cultivada, a região produtora e a fase de desenvolvimento da planta.
Em algumas culturas, a redução da temperatura desacelera o metabolismo e prolonga o tempo necessário para que frutos e hortaliças atinjam o ponto de colheita. Em outras, o frio pode interromper o florescimento, provocar perda de flores ou reduzir a qualidade comercial dos produtos.
O resultado é uma diminuição temporária do volume disponível para venda. Como o consumo de alimentos básicos não costuma cair na mesma proporção, os preços avançam para equilibrar a menor oferta.
A umidade também interfere nesse processo. Frentes frias acompanhadas de chuvas podem dificultar a colheita, comprometer o transporte e criar condições favoráveis ao aparecimento de fungos e bactérias.
Segundo Marcelo Alves, gerente executivo de Dados da Neogrid, as categorias que sofreram maior pressão em maio foram justamente aquelas mais dependentes das condições climáticas e da disponibilidade imediata no mercado.
A queda da produtividade e a maturação mais lenta diminuíram o volume disponível para consumidores e varejistas. Esse movimento pressionou os preços mesmo sem uma mudança equivalente na demanda.
Tomate, chuchu e quiabo sentem impacto do frio
Dados do mercado atacadista corroboram o movimento identificado no varejo. No entreposto da Ceagesp em São Paulo, o grupo dos legumes registrou alta de 12,95% em maio, depois de já ter avançado 6,11% em abril.
Entre as maiores elevações estavam tomate sweet grape, chuchu, quiabo, tomate-cereja e pepino japonês.
O tomate depende de temperatura e luminosidade adequadas para amadurecer. A redução da radiação solar e o frio desaceleram a formação dos açúcares e do licopeno, pigmento responsável pela coloração vermelha do fruto.
A umidade elevada também pode favorecer doenças que reduzem a produtividade e a qualidade dos lotes. Com menos produto dentro do padrão exigido pelo mercado, os preços das melhores unidades tendem a subir.
O chuchu também apresenta sensibilidade às baixas temperaturas. O frio pode comprometer flores e reduzir a velocidade de crescimento dos frutos, limitando a disponibilidade para comercialização.
No caso do quiabo, temperaturas inferiores às condições ideais prejudicam o surgimento de novas flores e a formação regular de frutos. A redução da oferta pode produzir altas intensas porque o produto é perecível e não pode ser armazenado por períodos prolongados.
O pepino japonês enfrenta dinâmica semelhante. Oscilações térmicas retardam o ciclo da planta e podem provocar deformações, diminuindo a quantidade de lotes com qualidade comercial.
Oferta menor chega rapidamente ao consumidor
A transmissão dos preços no setor de hortaliças ocorre com velocidade maior do que em segmentos de alimentos industrializados.
Legumes e verduras precisam ser comercializados pouco tempo depois da colheita. Os produtos não podem permanecer armazenados por longos períodos sem perder qualidade, aparência ou valor comercial.
Essa característica reduz a capacidade da cadeia de compensar oscilações abruptas na produção. Quando a colheita diminui em uma semana, atacadistas e varejistas enfrentam menor disponibilidade quase imediatamente.
Custos logísticos também podem ampliar a alta. Chuvas e condições desfavoráveis dificultam a retirada dos produtos das lavouras, atrasam carregamentos e encarecem o transporte.
O varejo ainda precisa considerar perdas provocadas pela deterioração. Parte do preço final cobre produtos que não chegam a ser vendidos por danos, amadurecimento excessivo ou redução da qualidade.
Em momentos de escassez, supermercados podem receber menos mercadoria do que o volume solicitado. A ruptura — ausência temporária do produto nas prateleiras — aumenta o risco de perda de vendas e obriga o consumidor a substituir itens ou procurar outros estabelecimentos.
Sudeste registra alta de 14,3% nos legumes
O aumento ocorreu em todas as regiões brasileiras, embora com intensidades diferentes.
No Sudeste, o preço dos legumes subiu 14,3% em maio. O feijão avançou 6,3%, a farinha de mandioca aumentou 4,5%, o leite em pó teve alta de 2,9% e o molho de tomate ficou 2,7% mais caro.
A concentração de grandes centros consumidores na região amplia a sensibilidade a mudanças no fornecimento. São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais dependem de redes logísticas capazes de transportar rapidamente produtos provenientes de diferentes áreas agrícolas.
Quando o frio afeta o Cinturão Verde paulista ou regiões produtoras próximas aos grandes mercados, a redução da oferta se reflete com rapidez no atacado e no varejo.
O comportamento regional também depende da origem dos produtos. Estados que recebem alimentos de áreas mais distantes podem enfrentar aumentos adicionais de frete e perdas durante o transporte.
Ao mesmo tempo, diferenças na produção local, na concorrência entre supermercados e no nível dos estoques podem fazer com que a mesma categoria apresente variações distintas entre regiões.
Leite em pó sobe 9% e feijão avança 5%
A pressão sobre os alimentos não ficou restrita às hortaliças.
O leite em pó registrou alta mensal de 9%, com o preço médio passando de R$ 40,47 para R$ 44,10. O movimento pode refletir oferta de leite, custos industriais, sazonalidade da produção e comportamento dos estoques.
O feijão ficou 5% mais caro em maio. A categoria já acumulava alta de 26,5% desde dezembro de 2025, mostrando que a pressão sobre o produto não se limitava a uma única variação mensal.
O molho de tomate aumentou 3,3%, enquanto a água mineral subiu 3,5%.
Essas altas atingem itens com presença frequente na cesta das famílias. O feijão, especialmente, integra a alimentação diária e possui poucas alternativas com características semelhantes de hábito, preço e valor nutricional.
Quando vários produtos básicos sobem ao mesmo tempo, o consumidor precisa reduzir quantidades, substituir marcas ou retirar outros itens do carrinho para manter o valor total da compra.
A pressão é mais intensa entre famílias de baixa renda, para as quais alimentação representa uma parcela maior do orçamento mensal.
Ovos, café e carne suína oferecem alívio parcial
Nem todas as categorias ficaram mais caras em maio.
Os ovos recuaram 6,5%, com o preço médio por unidade diminuindo de R$ 0,97 para R$ 0,90. A queda representa algum alívio, sobretudo porque o produto funciona como alternativa mais acessível às carnes.
As massas alimentícias secas caíram 3%. O café em pó e em grãos recuou 2,5%, após um período de forte pressão sobre os preços.
A carne suína ficou 1,4% mais barata, enquanto o açúcar apresentou redução de 1,1%.
O óleo de soja caiu 0,9% e foi a única categoria analisada que apresentou redução em todas as regiões do país.
As quedas, entretanto, não anulam o impacto do avanço dos legumes, do leite e do feijão. O efeito sobre cada família dependerá da composição de sua cesta e da frequência de consumo dos diferentes produtos.
Consumidores podem aproveitar a redução de alguns itens para fazer substituições. A carne suína e os ovos, por exemplo, podem ganhar espaço quando outras proteínas ficam mais caras.
Legumes acumulam alta de 44,2% em seis meses
O avanço acumulado mostra que a alta dos legumes não se resume a um choque isolado de maio.
Entre dezembro de 2025 e maio de 2026, o preço médio da categoria passou de R$ 5,50 para R$ 7,93, aumento de 44,2%.
O feijão acumulou valorização de 26,5% no mesmo período, enquanto o leite UHT avançou 23,9%.
Carne bovina e ovos apresentaram altas de 6% cada.
A elevação acumulada dos legumes pressiona o consumo de alimentos frescos e pode levar famílias a reduzir a diversidade da alimentação. Quando hortaliças ficam mais caras, o consumidor tende a priorizar itens mais duráveis ou de menor preço.
Esse comportamento pode afetar não apenas o varejo, mas também restaurantes, cozinhas industriais, escolas, hospitais e empresas que oferecem refeições.
Estabelecimentos de alimentação enfrentam o dilema de absorver os aumentos, reduzir margens, substituir ingredientes ou repassar parte do custo aos clientes.
Alta aumenta desafio para supermercados
A volatilidade dos produtos frescos exige maior coordenação entre produtores, distribuidores e varejistas.
Supermercados precisam estimar a demanda com precisão para evitar dois problemas opostos: falta de mercadoria ou excesso de estoque.
Quando o pedido é inferior à procura, a loja enfrenta ruptura e perde vendas. Quando compra acima da demanda, aumenta o risco de desperdício devido à perecibilidade.
A previsibilidade se torna mais difícil em períodos de alterações climáticas. A oferta pode variar rapidamente, enquanto o comportamento dos consumidores muda em resposta ao preço.
Ferramentas de análise de dados ajudam a acompanhar vendas, estoques, frequência de reposição e diferenças entre unidades. A combinação dessas informações permite ajustar pedidos conforme a demanda local.
A visibilidade sobre toda a cadeia também facilita a identificação de gargalos. Se determinado produto começa a faltar no atacado, o varejista pode procurar fornecedores alternativos ou ampliar a presença de substitutos.
O objetivo não é eliminar a volatilidade, característica natural do mercado agrícola, mas reduzir perdas e melhorar a reação às mudanças de oferta.
Restaurantes e serviços de alimentação também sentem efeito
A alta dos legumes tem impacto direto sobre restaurantes, lanchonetes, hotéis e empresas de alimentação coletiva.
Esses negócios utilizam hortaliças em grande volume e precisam manter regularidade nos cardápios. Mudanças frequentes de preço dificultam o planejamento e a formação do custo de cada refeição.
Empresas com contratos de preço fixo enfrentam pressão adicional. Se o custo dos ingredientes sobe, o fornecedor pode não conseguir repassar imediatamente a diferença ao cliente.
Uma das alternativas é ajustar os cardápios conforme a sazonalidade. Produtos com maior oferta podem substituir temporariamente os itens mais caros, desde que sejam preservadas qualidade e composição nutricional.
A negociação direta com produtores e distribuidores também pode reduzir intermediários e melhorar a previsibilidade. Essa estratégia, porém, exige escala, estrutura logística e capacidade de armazenamento.
Pequenos estabelecimentos possuem menor poder de negociação e costumam sentir mais rapidamente a alta observada no atacado.
Clima mantém risco de novas oscilações
A evolução dos preços nos próximos meses dependerá do comportamento do clima, da recuperação das lavouras e da entrada de novas safras.
Se as temperaturas se estabilizarem e a oferta aumentar, parte das altas poderá ser revertida. Produtos agrícolas frequentemente apresentam movimentos intensos de elevação e queda em intervalos curtos.
A recuperação não ocorre de forma imediata. Mesmo depois da melhora do tempo, as plantas precisam completar seus ciclos e os produtores precisam retomar o ritmo de colheita.
A possibilidade de alterações no regime de chuvas e temperaturas associadas ao El Niño também entrou no radar do setor.
Caso o fenômeno se consolide, diferentes regiões produtoras poderão enfrentar excesso ou falta de chuva, calor acima da média e mudanças nos calendários agrícolas.
O impacto não será uniforme. Algumas culturas podem se beneficiar, enquanto outras terão redução de produtividade ou aumento de doenças.
Além dos hortifrutigranjeiros, os lácteos podem ser afetados por mudanças nas pastagens, no conforto térmico dos animais e nos custos de alimentação dos rebanhos.
Preços dos alimentos mantêm pressão sobre orçamento
O aumento de 15,1% dos legumes reforça o papel dos alimentos frescos na volatilidade do custo de vida.
Embora a variação tenha sido medida por um levantamento de preços do varejo, e não pelo índice oficial de inflação, ela mostra uma tendência percebida diretamente pelo consumidor nas compras cotidianas.
A pressão sobre alimentação costuma ter impacto econômico e social superior ao peso estatístico dos produtos. Famílias compram alimentos com frequência e percebem rapidamente as mudanças nas prateleiras.
Itens como legumes, feijão e leite também possuem forte presença na alimentação doméstica. Quando sobem ao mesmo tempo, reduzem o espaço para outras despesas.
O frio que desacelerou as lavouras em maio evidenciou como alterações climáticas podem atravessar toda a cadeia, do produtor ao consumidor.
Nos próximos meses, a recomposição da oferta será decisiva para determinar se os preços dos legumes devolverão parte da alta ou permanecerão em patamar elevado. Até lá, varejistas, serviços de alimentação e famílias terão de administrar uma cesta marcada por diferenças expressivas entre os produtos.









