O Brasil entrou no grupo dos dez países mais afetados financeiramente por golpes em proporção ao Produto Interno Bruto, com perdas estimadas em 0,9% do PIB, segundo levantamento elaborado pela consultoria jurídica e de cibersegurança PP Tech a partir dos dados do Global State of Scams 2025. O país ocupa a nona posição na classificação, em um cenário marcado pela expansão das fraudes digitais, pelo uso de engenharia social e pela velocidade das transferências realizadas por meio do Pix.
Em valores absolutos, a Global Anti-Scam Alliance, a GASA, estima que os brasileiros perderam R$ 99 bilhões em golpes ao longo de 12 meses. O cálculo integra uma pesquisa nacional realizada com mil adultos entre fevereiro e março de 2025 e ponderada para representar a população brasileira por idade, gênero e região.
O valor não corresponde à soma de boletins de ocorrência ou de registros bancários auditados. Trata-se de uma estimativa construída a partir das perdas declaradas pelos entrevistados e projetada para a população adulta. A metodologia excluiu entre 2% e 5% dos maiores valores reportados para reduzir a influência de casos extremos.
A classificação proporcional também utiliza uma base diferente daquelas adotadas nas estatísticas oficiais de segurança pública. O percentual de 0,9% permite comparar o impacto econômico relativo dos golpes em países com economias de tamanhos distintos, mas deve ser interpretado como uma estimativa derivada de pesquisa amostral.
Nigéria e Quênia lideram ranking proporcional
O levantamento analisado pela PP Tech coloca a Nigéria na primeira posição, com perdas estimadas em 11,3% do PIB. O Quênia aparece em seguida, com 10,9%.
Paquistão, com 2,5%, Malásia, com 2,1%, Arábia Saudita, com 1,7%, Argentina, com 1,4%, Índia, com 1,3%, e Filipinas, com 1%, antecedem o Brasil. A Bélgica completa as dez primeiras posições, com impacto calculado em 0,7% do PIB.
As diferenças mostram que o valor nominal perdido não é o único indicador relevante. Economias menores ou com sistemas financeiros em rápida digitalização podem sofrer efeitos proporcionalmente mais severos, mesmo quando o prejuízo em dólares é inferior ao registrado em países desenvolvidos.
No Brasil, o PIB de 2025 alcançou R$ 12,7 trilhões. O percentual usado no ranking, entretanto, considera a base econômica e o período de referência adotados no estudo internacional, razão pela qual não deve ser simplesmente aplicado ao PIB corrente para recalcular as perdas.
A pesquisa também não mede apenas ataques tecnicamente sofisticados contra sistemas bancários. O conceito de golpe inclui fraudes nas quais a própria vítima é manipulada para enviar dinheiro, compartilhar informações ou autorizar uma operação que aparenta ser legítima.
Brasileiros enfrentam uma tentativa a cada dia e meio
O recorte nacional da GASA mostra que 70% dos adultos brasileiros foram vítimas de ao menos um golpe no período pesquisado. Cada entrevistado relatou, em média, 252 contatos ou tentativas de fraude por ano, o equivalente a uma ocorrência a cada dia e meio.
A exposição ocorre por diferentes canais. Ligações telefônicas foram citadas por 65% dos participantes, enquanto mensagens de texto e e-mails apareceram em 55% das respostas.
Aplicativos de mensagens, redes sociais, páginas falsas, plataformas de comércio eletrônico e anúncios patrocinados também são utilizados para aproximar os criminosos das vítimas.
Os golpes de compras foram os mais frequentes no Brasil, atingindo 60% das pessoas que relataram ter sido enganadas. A categoria abrange lojas falsas, mercadorias inexistentes, anúncios clonados, perfis que simulam vendedores legítimos e produtos pagos que nunca são entregues.
A elevada incidência contrasta com a percepção de segurança. Embora 75% dos brasileiros afirmem confiar na própria capacidade de identificar uma tentativa de fraude, sete em cada dez disseram ter sido vítimas ao menos uma vez.
O resultado reforça uma das conclusões centrais do relatório: conhecer recomendações genéricas de segurança não significa reconhecer um golpe construído especificamente para explorar urgência, confiança, medo ou expectativa de ganho.
Perdas globais chegam a US$ 442 bilhões
O Global State of Scams 2025 ouviu 46 mil adultos em 42 mercados. Segundo a pesquisa, 57% dos participantes enfrentaram algum golpe nos 12 meses anteriores e 23% perderam dinheiro.
As perdas combinadas nos países pesquisados foram estimadas em pelo menos US$ 442 bilhões. A própria GASA considera o número conservador diante da subnotificação, da dificuldade de contabilizar valores transferidos em diferentes jurisdições e da resistência das vítimas em relatar o ocorrido.
Os golpes de compras atingiram 54% das vítimas no levantamento global. Fraudes de investimento e promessas de recebimento inesperado de dinheiro apareceram em seguida, ambas com 48%.
Os esquemas de investimento incluem falsas corretoras, plataformas fraudulentas de criptomoedas, promessas de rendimento garantido e abordagens feitas por supostos assessores financeiros. Já os golpes de dinheiro inesperado envolvem falsos prêmios, heranças, indenizações ou créditos condicionados ao pagamento prévio de uma taxa.
A velocidade é uma característica relevante. Cerca de 64% dos golpes são concluídos em até 24 horas após o primeiro contato, reduzindo a possibilidade de reflexão, consulta a terceiros e bloqueio da transferência.
O criminoso procura manter a vítima sob pressão. São comuns alegações de conta invadida, oportunidade disponível por poucos minutos, familiar em emergência, ordem judicial urgente ou suposta necessidade de transferir dinheiro para uma conta segura.
DataSenado aponta mais de 40 milhões de vítimas
Outro levantamento ajuda a dimensionar o problema, embora utilize metodologia e perguntas diferentes.
Pesquisa do Instituto DataSenado divulgada em outubro de 2024 mostrou que 24% dos brasileiros com mais de 16 anos haviam perdido dinheiro em crimes cibernéticos nos 12 meses anteriores. O percentual representava cerca de 40,85 milhões de pessoas.
Os entrevistados foram questionados sobre clonagem de cartão, fraudes na internet e invasões de contas bancárias. O estudo não identificou um perfil socioeconômico único para as vítimas.
A distribuição foi estatisticamente semelhante entre regiões, faixas de renda, níveis de escolaridade, idades, gêneros e grupos raciais. Ceará, com 17%, e Piauí, com 18%, apresentaram os menores percentuais declarados.
Os dados da GASA e do DataSenado não devem ser comparados diretamente. A pesquisa internacional considera uma definição mais ampla de contato, tentativa e vitimização, enquanto o levantamento do Senado pergunta especificamente sobre perda financeira decorrente de crime cibernético.
Em conjunto, os estudos mostram que a exposição não está restrita a idosos, pessoas com baixa escolaridade ou usuários pouco familiarizados com tecnologia. Os criminosos adaptam a abordagem ao perfil da vítima e exploram informações obtidas em redes sociais, vazamentos de dados e cadastros comerciais.
Fraudes via Pix podem superar US$ 1,9 bilhão
A expansão dos pagamentos instantâneos criou novas oportunidades para consumidores e empresas, mas também reduziu o tempo disponível para detectar e interromper operações fraudulentas.
Relatório Scamscope, elaborado pela ACI Worldwide em parceria com a GlobalData, estima que as perdas brasileiras com golpes de pagamento autorizado podem alcançar US$ 1,937 bilhão em 2028.
O valor projetado é mais de cinco vezes superior aos quase US$ 380 milhões estimados em 2023. O crescimento médio anual deve ficar próximo de 38%, o maior entre os seis mercados analisados pela pesquisa.
Em 2028, aproximadamente 94% das perdas brasileiras nessa modalidade deverão ocorrer por meios de pagamento em tempo real. O índice era de 92% em 2023.
A classificação inclui situações nas quais o cliente é enganado e autoriza a transferência. A operação é tecnicamente legítima para o sistema, pois parte de um usuário autenticado, mas o consentimento foi obtido por meio de manipulação.
No Brasil, essas fraudes são frequentemente associadas ao Pix. O criminoso pode assumir a identidade de um familiar, funcionário de banco, advogado, fornecedor, comprador ou representante de órgão público.
Os golpes de compras representam 22% das perdas projetadas no país. Fraudes de investimento respondem por 21%, enquanto pedidos de pagamento antecipado concentram 17%.
Contas laranjas sustentam circulação do dinheiro
Depois de receber o valor, as organizações criminosas procuram movimentá-lo rapidamente por diferentes contas.
As chamadas contas laranjas podem ser abertas com documentos falsos, controladas por terceiros ou cedidas voluntariamente por seus titulares em troca de pagamento.
A pulverização dificulta o bloqueio e o rastreamento. O dinheiro pode passar por várias instituições em poucos minutos antes de ser sacado, usado para comprar ativos digitais ou transferido para outro país.
A partir de fevereiro de 2026, tornou-se obrigatório o uso da nova funcionalidade do Mecanismo Especial de Devolução, o MED, que permite identificar caminhos percorridos pelo dinheiro após a transferência inicial.
Antes da mudança, a devolução dependia principalmente da existência de saldo na primeira conta recebedora. Como os criminosos esvaziavam essa conta rapidamente, muitas vítimas não conseguiam recuperar os recursos.
O sistema ampliado compartilha informações entre as instituições envolvidas e permite alcançar outras contas utilizadas na cadeia da fraude. A devolução pode ocorrer de forma integral ou parcial, conforme os valores localizados.
O MED não garante ressarcimento e não se aplica a desacordos comerciais, Pix enviado por engano ou transferências recebidas por terceiros de boa-fé que não participaram do golpe.
Nova lei pune cessão de conta bancária
A Lei nº 15.397, sancionada em 30 de abril de 2026 e publicada em 4 de maio, alterou o Código Penal e tornou expressamente criminosa a cessão de conta bancária para movimentar recursos ligados a atividades ilícitas.
Quem ceder gratuitamente ou mediante pagamento uma conta para receber dinheiro destinado ao financiamento de crime ou proveniente de atividade criminosa poderá responder por estelionato, cuja pena básica passou a ser de um a cinco anos de reclusão, além de multa.
A legislação também ampliou a descrição da fraude eletrônica. O crime abrange o uso de redes sociais, ligações telefônicas, e-mails fraudulentos, duplicação de dispositivos, aplicativos e outros meios semelhantes para induzir a vítima a fornecer informações ou realizar operações.
A pena prevista para fraude eletrônica é de quatro a oito anos de prisão e multa. O objetivo é alcançar tanto os responsáveis pela abordagem direta quanto a infraestrutura utilizada para receber e ocultar os valores.
O endurecimento penal, porém, não resolve sozinho o problema. A aplicação depende da identificação dos envolvidos, obtenção de provas digitais, cooperação entre instituições financeiras e capacidade de investigar grupos que operam em diferentes Estados ou países.
Golpes provocam estresse e perda de confiança
O prejuízo vai além do dinheiro transferido.
A pesquisa global aponta que 69% das vítimas enfrentaram nível elevado de estresse. Outros 17% relataram perda de confiança, enquanto 14% disseram que o golpe provocou tensão familiar.
A vergonha e o receio de julgamento dificultam a denúncia. Há vítimas que omitem o caso da família, não procuram o banco ou deixam de registrar boletim de ocorrência porque acreditam ter sido responsáveis pelo prejuízo.
A falta de informação sobre onde comunicar a fraude também aparece entre as barreiras. Dependendo do caso, a vítima precisa acionar imediatamente a instituição financeira, contestar a operação pelo aplicativo, registrar boletim de ocorrência e preservar mensagens, comprovantes e dados do recebedor.
No caso do Pix, o MED pode ser solicitado em até 80 dias após a transação, mas o Banco Central recomenda agir o mais rápido possível. Quanto menor o intervalo, maior a possibilidade de ainda existir saldo nas contas envolvidas.
A instituição analisa a contestação e pode bloquear temporariamente os recursos. Se a fraude for confirmada, a devolução dependerá do dinheiro encontrado nas contas ligadas à operação.
Fraudes ameaçam reputação de bancos e plataformas
O avanço dos golpes também produz efeitos empresariais.
Segundo a ACI Worldwide, uma em cada quatro vítimas considera abandonar a instituição financeira utilizada após sofrer uma fraude. Cerca de 20% podem encerrar a conta sem abrir outra imediatamente.
Mesmo quando a transação foi autorizada pelo cliente, a percepção de falha afeta a confiança no banco, no aplicativo ou no meio de pagamento.
Instituições financeiras passaram a investir em sistemas que analisam não apenas dados técnicos da transação, mas também o provável comportamento e a intenção do usuário.
Uma transferência realizada em dispositivo conhecido pode ser fraudulenta quando apresenta beneficiário incomum, valor fora do padrão, mudança abrupta de horário ou sequência de movimentações incompatível com o histórico do cliente.
Plataformas digitais, operadoras de telecomunicações e redes sociais também ocupam posição central. Grande parte das abordagens começa fora do sistema bancário, por meio de anúncios falsos, perfis clonados, mensagens e ligações.
A contenção depende de compartilhamento de informações, remoção rápida de contas fraudulentas, bloqueio de anúncios, identificação de linhas telefônicas e rastreamento das redes de contas laranjas.
Escalada das fraudes testa bancos e aplicação da nova lei
O Brasil chega ao segundo semestre de 2026 com instrumentos mais rígidos para combater golpes digitais, mas os números mostram que a capacidade de prevenção ainda será testada.
A nova legislação aumenta as penas e cria uma tipificação específica para a cessão de contas. O Banco Central ampliou o rastreamento de transferências e tornou mais simples a contestação de operações pelo aplicativo das instituições.
Ao mesmo tempo, a projeção de perdas superiores a US$ 1,9 bilhão em pagamentos autorizados até 2028 indica que os criminosos continuam adaptando métodos à velocidade do sistema financeiro.
O desafio passa por impedir a fraude antes da transferência. Depois que o dinheiro é enviado e pulverizado, a possibilidade de recuperação cai rapidamente.
Para consumidores e empresas, a principal proteção permanece a confirmação por um canal independente. Pedidos urgentes de transferência devem ser verificados por meio do número oficial da instituição, da empresa ou da pessoa que supostamente fez a solicitação.
Senhas, códigos de autenticação e compartilhamento de tela não devem ser fornecidos em ligações ou videochamadas. Bancos não orientam clientes a transferir recursos para uma “conta segura” nem exigem pagamentos para cancelar uma fraude.
Com perdas estimadas em R$ 99 bilhões e milhões de vítimas distribuídas por todas as faixas sociais, os golpes digitais deixaram de ser apenas um problema individual. Tornaram-se um risco econômico, regulatório e reputacional para bancos, empresas de tecnologia, plataformas de comércio e o sistema de pagamentos brasileiro.











