São Paulo, 17 de junho de 2026 — O Ibovespa encerrou o pregão desta quarta-feira (17) em queda de 0,70%, aos 168.453,93 pontos, em sessão marcada por forte volatilidade e reviravolta no humor dos investidores. Embora tenha operado em alta durante a maior parte do dia, chegando a avançar mais de 1% e tocar 171.878 pontos na máxima intradiária, o principal índice da bolsa brasileira perdeu tração na reta final, acompanhando o tom negativo das bolsas de Nova York após comunicado mais duro do
Federal Reserve (Fed), o
banco central dos Estados Unidos. O volume negociado foi de R$ 29,1 bilhões.
O
mercado doméstico também ficou atento à decisão do Comitê de
Política Monetária (Copom), que, após o fechamento do mercado, confirmou a redução de 0,25 ponto percentual da taxa Selic, que passou de 14,50% para 14,25% ao ano — terceira queda consecutiva, mas já com sinais de que o ciclo de afrouxamento pode perder força nos próximos meses.
Fed mantém juros, mas sinaliza alta ainda em 2026
O grande evento do dia foi a reunião do Fed, que manteve a taxa básica de juros dos Estados Unidos na faixa entre 3,50% e 3,75%, como amplamente esperado. O impacto veio do comunicado e das projeções dos dirigentes: pela primeira vez neste ciclo, a autoridade monetária indicou que pode voltar a elevar os juros ainda em 2026, caso a inflação não desacelere na velocidade esperada.
A mediana das projeções agora aponta taxa de 3,8% ao fim deste ano, ante 3,4% projetados em março. Para 2027, a estimativa subiu de 3,1% para 3,6%. O novo presidente do Fed, Kevin Warsh, em sua primeira coletiva no cargo, reforçou tom duro ao dizer que a prioridade é restaurar a credibilidade no combate à inflação, que segue acima da meta de 2% ao ano.
“O mercado interpretou o recado como uma mudança de postura: antes, se falava em quanto e quando seriam os cortes; agora, a dúvida é se haverá cortes ou se teremos alta”, resume a estratégia da Guide Investimentos. A sinalização provocou queda generalizada em ativos de risco, valorização do
dólar e ajustes nos preços de ativos ao redor do mundo.
Em Nova York, Dow Jones recuou 0,97%, S&P 500 caiu 1,21% e Nasdaq teve baixa de 1,35%. Na Europa, índices operaram sem direção única, enquanto na Ásia predominaram quedas após o anúncio.
Dólar avança 0,41% e fecha a R$ 5,10
Com o cenário externo mais restritivo, o dólar ganhou força globalmente e também no Brasil. A moeda norte-americana encerrou o dia cotada a R$ 5,1077 para venda, alta de 0,41% ante o real. O movimento reflete a saída de recursos de mercados emergentes, que ficam mais vulneráveis quando os juros sobem na maior
economia do mundo.
A alta do câmbio pressionou especialmente ações de
empresas voltadas para o mercado interno, enquanto exportadores e empresas ligadas a commodities tiveram desempenho misto, ainda que o preço do petróleo e do minério de ferro também tenham ficado sob pressão ao longo do dia.
Selic cai para 14,25%, mas futuro é incerto
No Brasil, o Copom confirmou a redução de 0,25 ponto percentual da taxa Selic, como era esperado por 80% dos economistas ouvidos pelo Projeções Broadcast. O comunicado, porém, trouxe sinais de alerta: o BC citou “incertezas maiores” no cenário externo e reforçou que a continuidade do ciclo de cortes dependerá da evolução da inflação, da atividade econômica e do balanço de riscos.
Dados do IBC-Br, divulgados pela manhã, mostraram alta de 0,5% da atividade econômica em abril ante março — resultado abaixo da mediana de mercado de 0,6%, mas que confirma crescimento consistente, o que pode limitar o ritmo de queda dos juros daqui para frente.
Destaques corporativos: Cosan dispara, Natura despenca
Entre as ações que mais movimentaram o pregão, a
Cosan (CSAN3) foi a principal alta do
Ibovespa, com valorização de 6,12%, aos R$ 3,47. O impulso veio do anúncio de que o Grupo Radar, controlado pela empresa, assinou compromisso para vender 12% de seu portfólio de propriedades agrícolas, em operação avaliada em R$ 1,85 bilhão. A iniciativa é vista como forma de captar recursos e reequilibrar a estrutura de capital.
Na ponta oposta, a
Natura (NATU3) teve o pior desempenho do dia, com desvalorização de 8,74%, aos R$ 7,83. O setor de bens de consumo e varejo foi um dos mais pressionados pela
alta de juros futuros, que encarece o crédito e reduz a capacidade de compra das famílias. Outras quedas relevantes foram de
CSN (CSNA3), -6,48%,
Usiminas (USIM5), -5,63%, e
Hapvida (HAPV3), -5,62%.
A Vale (VALE3), uma das maiores ações do índice, recuou 2,04%, aos R$ 79,78, mesmo com o minério de ferro estável na China. O movimento refletiu saída de fluxo estrangeiro e ajuste técnico após altas recentes.
Por outro lado, Embraer (EMBJ3) subiu 3,24%, aos R$ 78,74, beneficiada pela perspectiva de novos contratos no mercado aeronáutico global. BB Seguridade (BBSE3) avançou 2,91% e Weg (WEGE3) teve alta de 2,26%, ambos sustentados por resultados operacionais consistentes.
Juros futuros sobem com cenário externo
Os contratos de juros futuros na B3 tiveram dia de forte ajuste, com taxas subindo em todos os vértices. O movimento começou ainda pela manhã e se intensificou após o comunicado do Fed, refletindo a preocupação de que os juros no Brasil possam parar de cair mais cedo ou até voltar a subir, dependendo do cenário externo e da inflação.
Os contratos mais negociados, com vencimento em janeiro de 2027 e janeiro de 2029, registraram altas expressivas, incorporando prêmio de risco maior por parte dos investidores.
Perspectivas para os próximos dias
Agora, o foco do
mercado se volta para os dados de inflação de junho e para a próxima reunião do Copom, em agosto. A dúvida que fica é se o BC terá espaço para continuar cortando juros em meio a um cenário externo mais hostil e atividade econômica ainda aquecida.
“O Ibovespa mostrou resiliência durante boa parte do dia, mas não conseguiu segurar a onda de aversão ao risco que vem de fora”, avalia analista da XP. “Daqui para frente, cada dado de inflação e cada sinal do Fed vão pesar ainda mais nas decisões de investimento.”