Os investimentos em rodovias concedidas à iniciativa privada devem ultrapassar R$ 30 bilhões em 2026, estabelecendo um novo recorde histórico para o setor de infraestrutura de transportes no Brasil. A estimativa foi divulgada nesta quarta-feira (17) pela Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), durante a abertura da Bienal das Rodovias, em Brasília, e sinaliza a continuidade de um ciclo de expansão iniciado após a pandemia de Covid-19.
Segundo a entidade, o volume previsto supera o recorde de R$ 29,1 bilhões registrado em 2025 e consolida uma trajetória de recuperação dos investimentos em infraestrutura rodoviária, após mais de uma década marcada por desaceleração, incertezas regulatórias e os efeitos econômicos da crise sanitária.
A expectativa do setor ocorre em um momento de intensificação dos leilões de concessão promovidos pelo governo federal e de renovado interesse de investidores em ativos de infraestrutura de longo prazo, considerados estratégicos em um cenário de expansão da demanda por logística e transporte no país.
“O ano de 2026 será o momento em que atravessaremos a marca de R$ 30 bilhões em investimentos. Essa é a força do setor”, afirmou o presidente da ABCR, Marco Aurélio Barcelos, durante o evento.
Ciclo de investimentos supera patamar alcançado antes da pandemia
O desempenho previsto para este ano representa a consolidação de uma retomada iniciada em 2021, após o período de retração observado durante a pandemia.
Dados da ABCR mostram que o setor havia registrado um primeiro pico de investimentos em 2013, quando os aportes chegaram a aproximadamente R$ 21,8 bilhões. A partir de então, o ritmo desacelerou progressivamente, pressionado pela deterioração econômica, pela redução do tráfego em algumas concessões e, posteriormente, pelos efeitos da Covid-19.
Em 2020, a queda na circulação de veículos e a redução das receitas de pedágio afetaram significativamente a capacidade de investimento das concessionárias.
Desde então, contudo, o setor voltou a acelerar.
Em 2024, os aportes superaram pela primeira vez a marca de R$ 20 bilhões, abrindo caminho para o recorde registrado em 2025 e para a nova máxima prevista em 2026.
Para a ABCR, a recuperação demonstra a resiliência das concessões rodoviárias e a capacidade do modelo de atrair capital privado mesmo em ambientes macroeconômicos desafiadores.
Governo amplia concessões e estimula concorrência nos leilões
Parte importante da retomada dos investimentos em rodovias está associada à política de concessões adotada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Nos últimos anos, o Ministério dos Transportes acelerou a realização de novos leilões e reformulou o modelo de licitação para aumentar a competitividade entre os interessados.
A nova estrutura prevê que os concorrentes disputem as concessões oferecendo descontos sobre a tarifa básica de pedágio, em substituição a modelos anteriores que, em diversos casos, atraíram número reduzido de participantes.
O objetivo é ampliar a concorrência, reduzir custos para os usuários e criar maior previsibilidade para os investidores.
O ambiente mais favorável para novos projetos de infraestrutura tem atraído fundos de investimento, operadores especializados e grupos estrangeiros em busca de ativos de longo prazo, capazes de gerar receitas recorrentes e protegidas contra ciclos econômicos mais curtos.
Especialistas do setor avaliam que a combinação entre novos leilões, marcos regulatórios mais estáveis e maior demanda por logística tende a sustentar o ciclo de investimentos nos próximos anos.
Obras ampliam capacidade logística e impulsionam economia regional
Os recursos destinados às concessões de rodovias têm impacto direto sobre a economia.
Além das obras de duplicação, recuperação e ampliação da capacidade das estradas, os investimentos em rodovias geram empregos, aumentam a eficiência logística e reduzem custos de transporte para diversos setores produtivos.
Em um país fortemente dependente do modal rodoviário para o escoamento de mercadorias, a modernização das estradas é considerada um fator estratégico para a competitividade nacional.
A melhoria da infraestrutura beneficia especialmente setores como agronegócio, indústria de transformação, mineração e comércio, que dependem de corredores logísticos eficientes para reduzir custos e ampliar mercados.
Os investimentos também possuem efeitos multiplicadores sobre as economias regionais, impulsionando a geração de empregos e estimulando a cadeia de fornecedores de equipamentos, materiais de construção e serviços especializados.
Setor alerta para impacto dos juros sobre novos projetos
Apesar das perspectivas positivas para os investimentos em rodovias, representantes do setor demonstraram preocupação com o ambiente de juros elevados no Brasil.
Durante a Bienal das Rodovias, o ministro dos Transportes, George Santoro, afirmou que o debate sobre a política monetária e seus efeitos sobre os investimentos em infraestrutura precisa ganhar maior profundidade.
Segundo ele, o tema ainda é tratado de maneira limitada no país, apesar do impacto direto do custo de capital sobre a viabilidade econômica dos projetos de longo prazo.
As declarações ocorreram no mesmo dia em que o Comitê de Política Monetária (Copom) se reuniu para definir o novo patamar da taxa Selic.
Na avaliação de agentes do mercado, a trajetória dos juros será determinante para o ritmo de novos investimentos em infraestrutura.
Projetos de concessão possuem horizonte de retorno de longo prazo e dependem fortemente das condições de financiamento. Custos elevados de captação podem reduzir a atratividade de novos empreendimentos e aumentar os desafios de execução das obras.
“É preciso discutir metodologias e política monetária também. Isso é importante em uma democracia”, afirmou Santoro.
Infraestrutura volta ao centro das estratégias de investimento
A retomada dos investimentos em rodovias ocorre em um contexto de crescente interesse por ativos de infraestrutura em todo o mundo.
Em meio à volatilidade dos mercados financeiros e às incertezas econômicas globais, projetos de concessão passaram a ser vistos por investidores institucionais como alternativas de longo prazo com potencial de geração de caixa previsível.
No Brasil, a combinação entre necessidade de modernização da malha logística e espaço fiscal limitado do governo reforçou a importância das parcerias com a iniciativa privada.
Os investimentos em rodovias se tornaram uma das principais frentes de expansão da infraestrutura nacional, atraindo operadores locais, grupos internacionais e fundos especializados.
A continuidade desse movimento dependerá da manutenção de um ambiente regulatório estável, da previsibilidade dos contratos e das condições macroeconômicas para financiamento dos projetos.
Recorde de investimentos reforça protagonismo das concessões rodoviárias
A projeção de mais de R$ 30 bilhões em investimentos em rodovias em 2026 consolida o setor de concessões como uma das principais alavancas de expansão da infraestrutura brasileira.
Depois de mais de dez anos para recuperar os níveis de aportes observados antes da crise econômica e da pandemia, as concessionárias voltam a operar em um ambiente de forte mobilização de capital e de crescimento dos projetos de modernização das estradas.
O novo recorde também reforça o papel do capital privado na ampliação da capacidade logística do país e sinaliza que as rodovias permanecerão no centro da agenda de investimentos em infraestrutura nos próximos anos.











