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IPCA-15 sobe 0,41% em junho, abaixo do esperado, mas inflação acelera em 12 meses

Prévia da inflação desacelera ante maio, mas acumulado de 4,80% mantém pressão sobre Banco Central e Selic.

por Camila Braga
25/06/2026 às 10h37
em Economia
Ipca-15 Desacelera Para 0,62% Em Maio, Mas Inflação Segue Pressionada

Reprodução

O IPCA-15 subiu 0,41% em junho, informou o IBGE nesta quinta-feira (25), em resultado abaixo da expectativa do mercado, que projetava alta de 0,44%. Apesar da desaceleração em relação a maio, quando a prévia da inflação havia avançado 0,62%, o índice acumulado em 12 meses acelerou para 4,80%, reforçando a leitura de que o processo de desinflação segue lento e ainda impõe cautela ao Banco Central na condução da Selic.

Segundo apuração da Gazeta Mercantil com economistas e operadores de mercado, o dado trouxe alívio parcial por ficar abaixo das estimativas, mas não muda substancialmente o quadro de preocupação com a inflação acumulada. O IPCA-15 segue acima do teto da meta perseguida pelo Banco Central, de 4,5%, considerando centro de 3% e intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual.

Leia também: Preço do diesel sobe com cortes da Petrobras e acende alerta para inflação no Brasil.

No ano, o IPCA-15 acumula alta de 3,45%. Em junho de 2025, a variação mensal havia sido de 0,26%, o que explica parte da aceleração no acumulado em 12 meses. O resultado desta quinta também representa o maior patamar para o mês de junho desde 2022.

Alimentos e habitação concentram pressão sobre o índice

A principal pressão do IPCA-15 em junho veio de Alimentação e bebidas, grupo que avançou 0,74% e respondeu por 0,16 ponto percentual do índice geral. Em seguida, Habitação subiu 0,72%, com impacto de 0,11 ponto percentual.

Juntos, os dois grupos responderam por cerca de dois terços da inflação capturada pela prévia do mês, segundo o IBGE.

Na alimentação no domicílio, a alta foi de 0,87%. Os destaques ficaram por conta da batata-inglesa, que subiu 29,42%, do tomate, com alta de 17,27%, do feijão-carioca, que avançou 14,29%, e da cebola, com aumento de 9,54%.

O movimento mantém os alimentos como uma das maiores fontes de pressão sobre o orçamento das famílias, especialmente nas faixas de renda mais sensíveis à variação dos itens básicos.

No acumulado do primeiro semestre, tomate, cenoura e batata-inglesa mais que dobraram de preço. O tomate subiu 103,84%, a cenoura avançou 103,10% e a batata-inglesa acumulou alta de 100,20%.

Na direção oposta, o café moído recuou 3,69% em junho e as frutas caíram 0,96%, ajudando a reduzir parte da pressão dentro do grupo.

Energia elétrica pesa em Habitação

No grupo Habitação, o principal impacto individual veio da energia elétrica residencial, que subiu 2,04% em junho.

O avanço refletiu a manutenção da bandeira tarifária amarela, que adiciona custo extra às contas de luz. A alta da energia é considerada relevante porque tem efeito disseminado sobre o orçamento das famílias e sobre custos de empresas, especialmente em setores intensivos em eletricidade.

Segundo agentes ouvidos pela Gazeta Mercantil, a pressão de energia limita a leitura positiva da desaceleração mensal do IPCA-15, porque mostra que componentes administrados e preços sensíveis a condições climáticas ainda podem dificultar a convergência da inflação.

Transportes ajudam a conter a alta mensal

O grupo Transportes foi o principal contraponto no índice de junho, com queda de 0,03%.

A baixa foi explicada sobretudo pelo recuo de 1,22% nos combustíveis. O movimento compensou altas em outros itens do grupo, como passagem aérea, que subiu 7,24%, ônibus urbano, com avanço de 1,18%, e automóvel novo, que teve alta de 0,42%.

A queda dos combustíveis ajudou a impedir uma alta maior do IPCA-15, mas economistas avaliam que o alívio pode ser temporário, dependendo da trajetória do petróleo, do câmbio e da política de preços praticada no mercado doméstico.

Saúde e cuidados pessoais também avançam

Saúde e cuidados pessoais subiu 0,47% em junho e exerceu impacto de 0,06 ponto percentual no índice geral.

Dentro do grupo, artigos de higiene pessoal avançaram 1,03%, com destaque para perfume, que subiu 2,22%. Planos de saúde tiveram alta de 0,35%, refletindo a incorporação do reajuste autorizado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar para planos contratados após a Lei nº 9.656/98.

O reajuste autorizado foi de 5,11%, vigente a partir de maio de 2026, e tende a continuar aparecendo de forma gradual nos índices de inflação.

Dado abaixo do esperado reduz pressão imediata, mas não altera cautela do BC

A leitura de 0,41% veio abaixo da mediana do mercado, que apontava alta de 0,44%. Esse desvio favorável pode aliviar parcialmente os juros futuros no curto prazo, mas não deve ser suficiente para alterar de forma relevante a postura do Banco Central.

A autoridade monetária acabou de reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, e vem sinalizando uma estratégia de flexibilização gradual. A inflação acumulada em 12 meses, agora em 4,80%, continua acima do limite superior da meta.

Segundo a leitura de economistas consultados pela Gazeta Mercantil, o número de junho reforça duas mensagens simultâneas: a inflação mensal perdeu força, mas a composição ainda exige atenção, principalmente por alimentos, energia, serviços e itens administrados.

Mercado recalibra apostas para Selic

Para investidores, o IPCA-15 desta quinta-feira ganha importância adicional porque foi divulgado no mesmo dia do Relatório de Política Monetária do Banco Central.

O documento atualiza projeções para inflação, atividade econômica e juros, em um momento em que o mercado ainda tenta interpretar a comunicação recente do Copom.

A combinação entre inflação abaixo do esperado no mês e acumulado de 12 meses acima da meta deve manter a curva de juros sensível a novas declarações do Banco Central.

Se a autoridade monetária indicar preocupação com a persistência inflacionária, os investidores podem reduzir apostas em cortes mais rápidos da Selic. Caso a comunicação reconheça melhora marginal dos dados, o mercado pode testar uma reprecificação mais benigna dos juros futuros.

Inflação segue no centro da política monetária

O resultado do IPCA-15 reforça que a inflação continua sendo o principal condicionante da política monetária brasileira.

Embora a desaceleração mensal seja positiva, o patamar de 4,80% em 12 meses mantém o Banco Central sob pressão para evitar uma flexibilização excessivamente rápida dos juros.

A leitura também afeta diretamente o câmbio e a Bolsa. Juros mais altos por mais tempo tendem a sustentar o real em determinados momentos, mas pressionam setores sensíveis ao crédito, como varejo, construção civil e consumo discricionário.

Para empresas, a inflação persistente mantém desafios de margem, reajuste de preços e planejamento de custos. Para consumidores, o peso de alimentos, energia e saúde limita a melhora do poder de compra, mesmo com avanços no mercado de trabalho.

Alívio mensal não elimina pressão acumulada sobre preços

O IPCA-15 de junho trouxe uma leitura melhor que a esperada pelo mercado, mas manteve um quadro de inflação acumulada elevada e composição ainda desconfortável.

A desaceleração em relação a maio reduz a pressão imediata sobre a política monetária, mas não encerra a preocupação com a persistência dos preços.

Com alimentos e energia ainda no centro das pressões, o dado reforça que o Banco Central deve continuar adotando cautela na condução da Selic, enquanto investidores ajustam expectativas para inflação, juros, dólar e Bolsa no segundo semestre.

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