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Irmãos Batista miram posição de referência na Vale (VALE3), diz jornal

Wesley e Joesley teriam avaliado trocar ativos da LHG Mining e aportar bilhões para ingressar no capital da mineradora.

por João Souza
27/07/2026 às 00h03
em Empresas,Destaque,Notícias
Irmãos Batista Miram Posição De Referência Na Vale (Vale3), Diz Jornal - Gazeta Mercantil - Empresas

Os empresários Wesley e Joesley Batista avaliam uma estratégia para se tornar acionistas de referência da Vale (VALE3), segundo informação publicada neste domingo, 26 de julho, pelo jornalista Lauro Jardim, de O Globo. O movimento teria começado com uma tentativa de combinar ativos minerais da LHG Mining, controlada pela J&F, com uma aquisição bilionária de ações da mineradora, mas o desenho inicial não avançou e nenhuma operação foi formalmente anunciada ao mercado.

De acordo com a publicação, o plano previa a transferência de metade das minas da LHG em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, para a Vale, em uma transação estimada em R$ 2 bilhões. O pagamento seria realizado em ações da companhia. Wesley e Joesley também aportariam recursos adicionais para ampliar a participação e assumir uma posição relevante na estrutura acionária.

A possibilidade ainda está restrita ao campo das articulações atribuídas aos empresários. Não há, até o momento, comunicado da Vale, da J&F ou da LHG confirmando uma negociação para a compra de ações, a formação de bloco acionário ou a indicação de representantes ao conselho de administração.

O relato surge menos de duas semanas depois de a Vale informar que avaliou e descartou um investimento no Sistema Centro-Oeste, conjunto de ativos minerais pertencente à LHG. A aproximação entre as empresas, portanto, existiu, mas não resultou na aquisição das minas nem na entrada da mineradora no capital da empresa dos irmãos Batista.

Vale descartou investimento nas minas de Corumbá

A Vale confirmou em 14 de julho que analisou uma oportunidade de investimento no Sistema Centro-Oeste, mas decidiu não prosseguir com a operação. O complexo reúne ativos de minério de ferro e manganês que anteriormente pertenciam à própria Vale e foram vendidos à J&F em 2022.

Na ocasião, a companhia afirmou que avalia regularmente oportunidades de investimento e que suas decisões de alocação de capital passam por análises técnicas, econômicas e financeiras, de acordo com as regras internas de governança.

A manifestação ocorreu depois da divulgação de que integrantes do conselho de administração da Vale haviam visitado as operações da LHG em Corumbá. A viagem provocou questionamentos sobre o estágio das conversas e a eventual recompra, total ou parcial, dos ativos.

A J&F confirmou que recebeu uma comitiva da Vale, mas negou que a LHG Mining estivesse à venda. A holding afirmou que a visita ocorreu a pedido da mineradora e tinha como objetivo apresentar as instalações e as melhorias realizadas desde a aquisição.

A empresa também informou ter contratado o Citi para organizar um processo competitivo voltado à possível entrada de um investidor minoritário na LHG. Segundo a J&F, essa iniciativa não significava a venda do controle e não previa a Vale como sócia, diante do potencial conflito concorrencial entre as duas mineradoras.

Esse histórico torna mais complexa a nova informação sobre o interesse dos Batista na Vale. Em vez de a companhia investir na LHG, o movimento agora atribuído aos empresários seria na direção oposta: a utilização dos ativos minerais e de recursos financeiros para ingressar no capital da Vale.

Estrutura pulverizada torna Vale alvo de investidores estratégicos

A Vale não possui um acionista controlador nem um acordo de acionistas em vigor. Desde 2020, a companhia opera como uma corporação de capital pulverizado, condição que aumenta a influência relativa de investidores capazes de reunir participações expressivas.

A estrutura divulgada pela empresa em fevereiro mostrava quatro acionistas ou grupos econômicos com mais de 5% do capital: Previ, BlackRock, Mitsui e Capital World Investors. Juntos, esses investidores detinham pouco mais de 25% das ações.

A Previ aparecia com 7,48% do capital, seguida pela BlackRock, com 6,56%, pela Mitsui, com 6,31%, e pela Capital World Investors, com 5,02%. Os demais acionistas estavam reunidos em uma base pulverizada correspondente a aproximadamente 68,7% da companhia.

Nenhum desses grupos exerce isoladamente o controle da Vale. Ainda assim, participações acima de 5% oferecem capacidade de interlocução com a administração, influência nas assembleias e maior peso nas discussões sobre estratégia, governança e composição do conselho.

Para entrar nesse grupo, os irmãos Batista precisariam realizar uma operação de grande porte. Considerando o capital total informado pela Vale, uma fatia de 5% corresponderia a cerca de 227 milhões de ações.

Na cotação de referência utilizada pela própria companhia em sua composição acionária de fevereiro, uma participação desse tamanho equivaleria a aproximadamente US$ 3,9 bilhões. O valor efetivo dependeria do preço das ações no momento da aquisição, do câmbio e da existência de eventual prêmio exigido pelos vendedores.

A posição necessária para superar a Previ, maior acionista listado individualmente no documento, seria ainda mais elevada. O cálculo, contudo, não significa que esse seja o objetivo imediato dos empresários. A expressão “maiores acionistas individuais” pode se referir à titularidade econômica de pessoas físicas, e não à superação dos investidores institucionais que aparecem na composição oficial.

Compra relevante exigiria divulgação ao mercado

Uma aquisição dessa dimensão não poderia permanecer indefinidamente restrita aos bastidores. As regras do mercado de capitais obrigam investidores a comunicar participações relevantes quando atingem determinados limites no capital de companhias abertas.

Ao alcançar 5% das ações, o investidor deve informar a posição, o objetivo da participação e, conforme o caso, se pretende alterar o controle ou a estrutura administrativa da empresa. Novas comunicações são exigidas quando ocorrem mudanças relevantes no percentual detido.

Até a publicação desta matéria, a Vale não havia divulgado comunicado informando a entrada de Wesley Batista, Joesley Batista, J&F ou empresas relacionadas entre seus acionistas relevantes.

A ausência de comunicação indica que não houve aquisição acima do limite regulatório ou que eventual estratégia permanece em fase preliminar. Também não existe confirmação pública de contratação de bancos, negociação de bloco de ações ou preparação de oferta para compra de participação.

A montagem de uma posição pode ocorrer gradualmente no mercado, por operações privadas com acionistas ou por uma combinação desses mecanismos. Dependendo do percentual pretendido, o investidor também precisa avaliar efeitos concorrenciais e possíveis análises regulatórias.

No caso dos irmãos Batista, esse último ponto é especialmente importante. A J&F controla uma operação de mineração com planos agressivos de expansão, enquanto a Vale ocupa posição dominante no mercado brasileiro de minério de ferro.

LHG passou de ativo vendido pela Vale a plataforma de expansão

A LHG Mining nasceu da aquisição, pela J&F, da Mineração Corumbaense Reunida, a MCR, em 2022. A empresa opera as minas de Santa Cruz e Urucum, localizadas em Corumbá e Ladário, no Mato Grosso do Sul.

Os ativos produzem minério de ferro de alto teor e manganês. A qualidade do produto é considerada estratégica para siderúrgicas que procuram reduzir emissões, uma vez que minérios com maior concentração de ferro exigem menos processamento e podem diminuir o consumo de energia durante a produção do aço.

Segundo informações da companhia, a produção anual atingiu 12 milhões de toneladas. Quando a J&F assumiu os ativos, o volume estava próximo de 2 milhões de toneladas por ano.

A expansão foi acompanhada por investimentos em processamento, logística e escoamento. A LHG utiliza uma estrutura integrada que inclui transporte rodoviário e ferroviário, portos fluviais no rio Paraguai, navegação em barcaças e terminal marítimo no Uruguai.

A produção percorre aproximadamente 2,5 mil quilômetros pelos rios Paraguai e Paraná até Nueva Palmira, de onde é transferida para navios destinados ao mercado internacional. A companhia também atende clientes brasileiros por terminais rodoviários e ferroviários.

A J&F trabalha com projetos para elevar substancialmente a capacidade do complexo. Um dos planos apresentados em Mato Grosso do Sul prevê investimento de R$ 4 bilhões para ampliar a produção para 25 milhões de toneladas anuais.

A LHG também obteve apoio financeiro para expandir sua frota hidroviária. O projeto prevê a construção de 400 balsas e 15 empurradores, com financiamento de R$ 3,7 bilhões, destinado ao transporte de minério de ferro e manganês.

O crescimento transformou a mineração em uma das principais frentes de diversificação da J&F. A holding, historicamente associada à indústria de alimentos, passou a ampliar sua presença em setores de infraestrutura e recursos naturais.

J&F reúne alimentos, energia, celulose e mineração

Wesley e Joesley Batista são acionistas da J&F, conglomerado que controla a JBS, a Eldorado Brasil, a Âmbar Energia, a Flora e a LHG Mining.

O grupo também mantém investimentos em negócios financeiros, petróleo, gás e comunicação. Entre as empresas de seu portfólio estão PicPay, Banco Original, Fluxus, Canal Rural e MGás.

A J&F informou faturamento de R$ 490 bilhões em 2025 e presença em mais de 20 países. A estrutura reúne aproximadamente 297 mil trabalhadores e operações em alimentos, celulose, energia, mineração e bens de consumo.

A entrada na Vale representaria uma mudança de escala para o braço de mineração. A LHG passaria a coexistir, dentro da estratégia de investimentos dos Batista, com uma participação em uma das maiores produtoras mundiais de minério de ferro e níquel.

Para a J&F, o movimento poderia oferecer exposição a uma plataforma global, fluxo de dividendos e participação em decisões estratégicas do setor. Para a Vale, a presença de um grupo empresarial com ativos concorrentes exigiria atenção redobrada às regras de governança e aos possíveis conflitos de interesse.

Conselho da Vale seria centro da disputa por influência

A entrada de um novo acionista relevante não significa controle automático da companhia. Na estrutura atual da Vale, a influência depende da capacidade de formar alianças com outros investidores e de obter apoio nas assembleias.

O conselho de administração é eleito pelos acionistas e possui maioria de integrantes independentes. Alterações em sua composição exigem votação e podem envolver disputas entre fundos, investidores institucionais e grupos com interesses estratégicos.

Uma participação próxima ou superior a 5% poderia permitir aos irmãos Batista participar de maneira mais ativa dessas discussões. O alcance dessa influência dependeria do percentual adquirido, do modelo de titularidade e da relação construída com os demais acionistas.

O mercado também avaliaria a natureza do investimento. Uma compra puramente financeira teria implicações diferentes de uma operação voltada à indicação de conselheiros, integração de ativos ou coordenação estratégica entre Vale e LHG.

Qualquer aproximação industrial teria de considerar a concorrência entre as empresas. A Vale atua em escala global e possui um portfólio que inclui minério de ferro, pelotas, níquel e cobre. A LHG está concentrada em minério de alto teor e manganês, com crescimento baseado nos ativos de Mato Grosso do Sul.

Movimento pode afetar percepção sobre Vale (VALE3)

Para os acionistas da Vale, a notícia tende a ser interpretada inicialmente como sinal de interesse estratégico em uma companhia com capital pulverizado e elevada capacidade de geração de caixa.

A entrada de um investidor disposto a aportar bilhões pode sustentar expectativas sobre a demanda pelas ações. Esse efeito, entretanto, depende de evidências concretas. Sem comunicação formal, o mercado trabalha apenas com a hipótese de uma movimentação futura.

A reação também pode ser limitada pela incerteza sobre os objetivos dos empresários. Investidores deverão avaliar se uma eventual participação teria caráter financeiro, se buscaria influência no conselho ou se abriria espaço para novas discussões envolvendo ativos da LHG.

A Vale se prepara para divulgar o balanço do segundo trimestre de 2026 em 30 de julho. Nesse contexto, desempenho operacional, custos, preços do minério, geração de caixa e remuneração aos acionistas continuarão sendo os principais fatores para a ação.

O interesse atribuído aos irmãos Batista adiciona um componente societário à avaliação da companhia. Até que haja compra de ações, proposta ou comunicado ao mercado, porém, a possibilidade de a J&F ocupar uma posição de referência na Vale permanece como projeto relatado nos bastidores, e não como operação contratada.

Tags: acionistas da ValeB3EmpresasJ&FJoesley BatistaLHG MiningMineraçãominério de ferroValeVALE3Wesley Batista

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