O primeiro leilão de baterias do Brasil, previsto para dezembro de 2026, já começou a movimentar empresas de energia, fabricantes de equipamentos e instituições financeiras antes mesmo de sua realização, com expectativa de atrair cerca de R$ 8 bilhões em investimentos, segundo estimativa da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE). O certame, cujas diretrizes foram publicadas pelo Ministério de Minas e Energia (MME), busca contratar sistemas de armazenamento de energia em baterias, conhecidos pela sigla BESS, para reforçar a segurança do sistema elétrico, reduzir cortes forçados de geração renovável e estimular uma nova cadeia produtiva no país.
A iniciativa é considerada um marco para o setor elétrico brasileiro porque cria, pela primeira vez, uma contratação estruturada exclusivamente voltada a baterias de grande porte. A expectativa é que o leilão de baterias dê previsibilidade econômica a projetos que ainda enfrentavam incertezas regulatórias e comerciais, apesar do avanço acelerado da geração solar e eólica no Brasil.
As baterias são vistas como solução estratégica para um dos principais gargalos da transição energética: o desequilíbrio entre produção e consumo de eletricidade ao longo do dia. Em períodos de forte geração renovável e baixa demanda, parte da energia produzida por usinas solares e eólicas pode ser desperdiçada por determinação do operador do sistema. Esse corte forçado é conhecido no setor como curtailment.
Com os sistemas BESS, a energia excedente pode ser armazenada e depois injetada na rede nos horários de maior consumo. Na prática, a tecnologia aumenta a flexibilidade do Sistema Interligado Nacional, melhora a estabilidade da rede e reduz o risco de restrições operacionais em momentos críticos.
Baterias entram no centro da agenda elétrica
O avanço do leilão de baterias ocorre em um momento em que o Brasil amplia rapidamente sua capacidade renovável, mas ainda precisa adaptar a infraestrutura de transmissão, distribuição e operação para lidar com fontes intermitentes. A geração solar depende da incidência de luz ao longo do dia, enquanto a eólica oscila conforme as condições de vento. Sem mecanismos de armazenamento, o sistema precisa equilibrar oferta e demanda em tempo real, o que aumenta a complexidade operacional.
Para o diretor-executivo da ABSAE, Fabio Lima, o certame tende a acelerar o desenvolvimento tecnológico e a posicionar o país como um polo regional de soluções de armazenamento na América Latina. Segundo ele, a contratação em escala cria um sinal econômico relevante para fabricantes, integradores, investidores e fornecedores de componentes.
O setor trabalha com diferentes tecnologias de baterias, arquiteturas de integração e modelos comerciais. Há aplicações voltadas a grandes usinas renováveis, projetos industriais, infraestrutura de rede, consumidores comerciais e sistemas capazes de prestar serviços de flexibilidade ao operador nacional. A existência de um leilão específico para esse tipo de ativo pode consolidar a demanda e permitir a estruturação de projetos de maior porte.
Além do impacto operacional no sistema elétrico, o leilão de baterias tem potencial de induzir investimentos industriais. Empresas já começaram a anunciar planos de produção, integração e montagem local, em uma tentativa de reduzir dependência externa e capturar parte do valor agregado da nova cadeia.
WEG prepara maior fábrica de BESS do país
Uma das companhias que já se movimentam para atender à demanda é a WEG, grupo brasileiro especializado em soluções de engenharia elétrica. Em fevereiro, a empresa recebeu financiamento de R$ 280 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para modernizar uma unidade dedicada à produção e integração de sistemas BESS e construir uma nova fábrica em Itajaí, em Santa Catarina.
A nova estrutura deverá ser a maior unidade do tipo no Brasil. Com a conclusão dos investimentos, a capacidade produtiva prevista será de até 2 gigawatts-hora por ano. A fábrica deve ficar pronta no fim de 2027 e será voltada à produção de sistemas de armazenamento para aplicações comerciais, industriais e de grande porte, incluindo usinas renováveis e projetos de infraestrutura de rede.
O vice-presidente de Automação e Sistemas da WEG, Manfred Peter Johann, afirmou que o armazenamento deve se tornar cada vez mais estratégico para o setor elétrico brasileiro nos próximos anos. A companhia avalia novos investimentos em expansão industrial, desenvolvimento tecnológico e nacionalização gradual da cadeia produtiva.
Atualmente, a produção de sistemas BESS no país ainda depende de componentes importados, especialmente células de baterias produzidas na China. Essas células são o núcleo tecnológico do equipamento e concentram parte relevante do valor industrial. A nacionalização de etapas adicionais da cadeia é considerada um desafio de médio e longo prazo, condicionado à escala da demanda, ao custo de capital, à política industrial e à disponibilidade de minerais estratégicos.
BNDES vê espaço para nova cadeia produtiva
O BNDES tem atuado como um dos principais financiadores da estruturação industrial ligada ao armazenamento de energia. Segundo o diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do banco, José Luis Gordon, a nova unidade da WEG deverá inaugurar a fabricação de sistemas BESS em larga escala em território nacional.
O banco possui três programas com orçamento somado de R$ 54 bilhões que podem ser acessados por empresas com projetos relacionados a sistemas de armazenamento de energia. A expectativa é que os empreendimentos vencedores do leilão de baterias também possam buscar financiamento para viabilizar investimentos, implantação e expansão industrial.
A atuação do BNDES é relevante porque projetos de armazenamento exigem capital intensivo, contratos de longo prazo e segurança regulatória. O modelo de receita depende da forma como o sistema será remunerado, da disponibilidade contratada, das exigências técnicas e das condições de conexão à rede.
O leilão de baterias procura resolver parte dessas incertezas ao criar contratos de reserva de capacidade com duração de 15 anos. Esse prazo é considerado importante para atrair investidores, fabricantes e financiadores, pois permite estimar fluxo de caixa e amortização dos equipamentos.
Anodox escolhe o Ceará para primeira fábrica brasileira
Outra empresa que decidiu avançar no mercado brasileiro é a Anodox, companhia sueca de sistemas BESS que está presente no país desde o fim de 2024. A empresa foi contemplada com financiamento do BNDES na mesma chamada pública que selecionou a WEG, voltada a planos de negócios ligados à transformação de minerais estratégicos.
A Anodox escolheu o Ceará para instalar sua primeira fábrica no Brasil. A unidade deve iniciar operação em 2028 e criar 590 empregos, entre diretos e indiretos. A capacidade projetada poderá chegar a 2 gigawatts-hora por ano.
Em uma primeira etapa, a operação brasileira será concentrada na montagem modular e na integração de sistemas BESS, em parceria com um sócio chinês. A estratégia é iniciar a produção local por etapas, com possibilidade de avançar posteriormente para atividades de maior valor agregado, como montagem de células e processamento de minerais estratégicos em território nacional.
O CEO e sócio da Anodox no Brasil, Cristiano Braga, afirma que a fase inicial tem o objetivo de ancorar o negócio, estabelecer a marca no país e criar fluxo de receita para sustentar investimentos futuros. Segundo ele, a consolidação do mercado brasileiro permitirá avaliar a incorporação gradual de novas etapas produtivas.
A decisão da Anodox reforça o movimento de empresas internacionais interessadas em usar o Brasil como plataforma de expansão regional. O país reúne grande mercado potencial, matriz elétrica renovável, demanda crescente por flexibilidade e disponibilidade de minerais relevantes para tecnologias associadas à transição energética.
Brasol aposta em baterias como serviço
Além dos fabricantes e integradores industriais, empresas de soluções energéticas também miram o crescimento do mercado de armazenamento. A Brasol, controlada pelo fundo americano BlackRock e pela Siemens, entrou no segmento de BESS há dois anos e passou a oferecer sistemas voltados a indústrias e comércios.
A companhia atua com dois modelos de fornecimento. Em alguns casos, comercializa sistemas que chegam prontos da China. Em outros, utiliza equipamentos cuja montagem final é realizada por parceiros fabris locais. A empresa também adotou o modelo conhecido como BESS as a Service, no qual assume o investimento total no projeto e firma contrato de leasing com o cliente.
Nesse formato, a Brasol desenvolve, estrutura, implementa, opera e mantém o ativo. O cliente paga mensalidades pelo uso do sistema, sem necessidade de desembolso inicial para aquisição do equipamento. Para empresas industriais e comerciais, esse modelo reduz barreiras de entrada e transfere parte dos riscos técnicos e operacionais ao fornecedor.
O diretor da unidade de BESS da Brasol, Diogo Zaverucha, afirma que a companhia pretende participar do certame de dezembro. Para ele, o leilão de baterias tende a estruturar a cadeia nacional, reduzir custos e ampliar o interesse pela solução.
A redução de preços será um fator decisivo para a difusão da tecnologia. Embora o custo das baterias tenha caído nos últimos anos no mercado internacional, projetos de grande porte ainda dependem de escala, financiamento competitivo, previsibilidade de receita e clareza regulatória para se tornarem economicamente atrativos.
Governo terá dois certames em dezembro
As diretrizes publicadas pelo Ministério de Minas e Energia criam dois certames para contratação de reserva de capacidade com sistemas de armazenamento. O primeiro será realizado em 2 de dezembro e será reservado a projetos que atendam requisitos mínimos de nacionalização definidos pelo BNDES. O segundo está previsto para 4 de dezembro e será aberto aos demais sistemas de armazenamento.
A divisão busca combinar dois objetivos: contratar capacidade para o sistema elétrico e estimular conteúdo local na cadeia produtiva. O modelo cria uma vantagem competitiva para projetos com maior participação nacional, mas também mantém espaço para fornecedores internacionais em uma fase em que o Brasil ainda depende de componentes importados.
A publicação das diretrizes ocorreu um dia após a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovar a regulamentação para sistemas de armazenamento de energia. A decisão consolidou o marco regulatório que o setor aguardava para viabilizar os primeiros projetos em escala comercial.
Os empreendimentos vencedores terão contratos de 15 anos, com início de suprimento em 1º de agosto de 2028. As baterias deverão ser capazes de fornecer a potência contratada por quatro horas consecutivas por ciclo completo. Também poderão realizar até dois ciclos diários, limitados a 366 ciclos por ano.
O Operador Nacional do Sistema Elétrico poderá despachar os sistemas por até 12 horas, conforme as necessidades operacionais da rede. Essa flexibilidade é considerada essencial para lidar com picos de demanda, variações de geração renovável e contingências no sistema.
País busca recuperar atraso em armazenamento
A pesquisadora Luiza Masseno Leal, do Grupo de Estudos do Setor Elétrico do Instituto de Economia da UFRJ, avalia que os leilões serão fundamentais para ampliar a segurança da rede elétrica brasileira. Segundo ela, a urgência de integrar baterias ao Sistema Interligado Nacional é real e crescente.
Países como Estados Unidos, Alemanha e Chile já utilizam sistemas de armazenamento para aumentar a flexibilidade e a segurança de suas redes. A China, por sua vez, lidera com ampla vantagem a implantação de BESS em escala de rede e concentra mais da metade da capacidade global instalada nessa modalidade.
O Brasil, apesar de ter uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, ainda está atrasado na adoção de armazenamento em larga escala. O avanço da geração solar e eólica tornou esse atraso mais evidente, sobretudo em momentos de excesso de oferta e necessidade de cortes de produção.
O leilão de baterias surge, portanto, como uma tentativa de alinhar a expansão renovável à modernização da infraestrutura elétrica. A contratação de sistemas de armazenamento poderá reduzir desperdícios, melhorar a confiabilidade da rede e abrir uma frente industrial relevante para fabricantes, integradores e fornecedores de tecnologia.
A resposta do mercado antes mesmo do certame indica que a demanda reprimida é significativa. Com WEG, Anodox, Brasol e outros agentes preparando investimentos, o setor de baterias deixa de ser apenas uma promessa associada à transição energética e passa a disputar espaço concreto na estratégia industrial e elétrica do país.
Certame coloca indústria nacional no mapa da transição energética
O impacto do leilão de baterias vai além da contratação de capacidade elétrica. O desenho do processo pode definir o ritmo de formação de uma nova cadeia produtiva no Brasil, com reflexos sobre emprego, financiamento, tecnologia, conteúdo local e competitividade regional.
A exigência de nacionalização em um dos certames tende a favorecer empresas que invistam em montagem, integração e produção no país. Ao mesmo tempo, a dependência de células importadas mostra que a criação de uma cadeia completa exigirá tempo, escala e coordenação entre política energética, política industrial e financiamento de longo prazo.
Para investidores, o movimento abre uma nova classe de ativos ligada à infraestrutura elétrica. Para consumidores industriais e comerciais, pode ampliar alternativas de gestão de energia, redução de custos e segurança operacional. Para o sistema elétrico, representa uma ferramenta adicional para enfrentar a intermitência renovável e os riscos de desequilíbrio entre geração e consumo.
Com início de suprimento previsto para agosto de 2028, os projetos contratados ainda passarão por etapas de habilitação, financiamento, implantação e conexão. Mesmo assim, o calendário de dezembro já atua como gatilho para decisões empresariais. O leilão de baterias tornou-se o principal marco de curto prazo para medir a capacidade do Brasil de transformar a expansão renovável em desenvolvimento industrial e segurança energética.









