SÃO PAULO — O colapso recente dos bancos Master, Will Bank e Pleno forçou uma reavaliação imediata de risco no mercado de crédito privado brasileiro, elevando a cautela sobre os CDBs de bancos médios. Com a taxa Selic mantida em 15% ao ano, analistas das principais casas de análise, como Suno, Eleven e Nord Research, emitiram novos pareceres nesta segunda-feira (23) recomendando a concentração de aportes em instituições com maior solidez patrimonial. Entre os nomes que resistem ao estresse de liquidez e mantêm recomendações de “compra”, destacam-se Daycoval, Banco Mercantil, BMG, BR Partners, Pan, Pine e ABC Brasil, que oferecem rentabilidades entre 100% e 109% do CDI com lastro em operações de crédito consignado e financiamento de veículos.
A Anatomia do Risco e a Fragilidade da Garantia do FGC
A crise de confiança gerada pela liquidação de instituições digitais e de médio porte expôs uma falha de percepção crítica entre investidores de varejo: a dependência excessiva do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Embora o fundo proteja depósitos de até R$ 250 mil, a estratégia de investir apenas “pela taxa”, ignorando a saúde do emissor, mostrou-se temerária. O risco de crédito — a probabilidade real de calote — voltou a ser o fiel da balança em 2026.
Especialistas advertem que o FGC deve ser visto como um cinto de segurança, não como o motivo para dirigir em alta velocidade. No cenário atual de juros elevados, a “ganância” por prêmios marginais acima do CDI pode resultar em capital imobilizado por meses durante processos de intervenção do Banco Central (BC). A análise agora foca no Índice de Basileia e no ROE (Retorno sobre Patrimônio Líquido) para separar bancos solventes de instituições que operam com margens perigosamente estreitas.
Daycoval: A Liderança em Solidez e Gestão de Ativos
O Banco Daycoval consolida-se como a preferência unânime entre analistas da Eleven, Nord e Suno. A instituição destaca-se por uma arquitetura de negócios defensiva que equilibra o crédito para médias empresas com linhas de menor risco, como o consignado e o financiamento de veículos.
Com um ROE de 23% registrado nos três primeiros trimestres de 2025, o Daycoval opera com uma eficiência que supera o custo de oportunidade da Selic. O banco mantém um Índice de Basileia elevado, sinalizando conforto patrimonial. Segundo o mercado, um CDB com liquidez diária rendendo 104% do CDI em uma instituição com inadimplência controlada na casa dos 2% é, hoje, o referencial de equilíbrio entre segurança e prêmio de risco.
Especialização como Defesa: Banco Mercantil e BMG
A segmentação em nichos específicos tem sido o diferencial de sobrevivência para os bancos médios. O Banco Mercantil foca sua operação no crédito consignado, utilizando sua capilaridade física para garantir depósitos estáveis, o que reduz a dependência de captações caras no mercado interfinanceiro. A modernização institucional do Mercantil nos últimos anos garantiu balanços robustos mesmo sob o atual ambiente macroeconômico restritivo.
Já o BMG, após períodos de volatilidade, apresenta uma trajetória de melhora operacional. Com CDBs que oferecem entre 105% e 109% do CDI, a instituição atrai investidores que buscam rentabilidade superior fundamentada em uma carteira pulverizada. Embora exija monitoramento constante, o avanço no crédito consignado — com desconto direto em folha — confere uma camada de proteção adicional aos ativos do banco.
Estratégias Corporativas e o Papel do BR Partners
Diferente do varejo bancário massificado, o BR Partners opera como um banco de investimento de nicho. Sua estrutura de custos enxuta e a experiência de sua gestão sênior permitem que a instituição navegue por ciclos de juros altos com menor exposição à inadimplência de pessoas físicas. A recomendação de analistas baseia-se na capacidade do banco em diversificar receitas através de assessoria financeira e mercado de capitais, tornando seus CDBs uma opção de diversificação para carteiras de alta renda.
Mitigação de Danos: Banco Pan, ABC Brasil e Pine
O Banco Pan mantém 90% de sua carteira lastreada em garantias reais, como veículos e consignado. Essa colateralização é vista como um ponto forte por analistas da Nord, que apontam o crescimento consistente da carteira ano após ano. Mesmo opções sem liquidez diária, rendendo 103% do CDI para quatro anos, são consideradas atrativas pelo risco controlado.
No segmento corporativo, o ABC Brasil e o Banco Pine são citados pela Hike Capital como exemplos de governança e foco no “Middle Market”. Ao evitarem a exposição direta a cartões de crédito e crédito pessoal sem garantia, essas instituições mantêm balanços mais saudáveis e índices de inadimplência inferiores à média do setor bancário, sendo indicadas para investidores que buscam segurança institucional acima da média.
Metodologia de Alocação em Cenário de Juros Altos
Para o investidor que busca CDBs de bancos médios sem comprometer o patrimônio, a Gazeta Mercantil sintetiza quatro pilares de análise técnica:
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Natureza do Crédito: Priorize bancos com foco em consignado ou garantias reais.
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Solvência (Basileia): Monitore se a instituição mantém folga superior aos 11% exigidos pelo regulador.
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Rentabilidade Operacional: Fuja de bancos que operam com prejuízo recorrente ou ROE abaixo da Selic.
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Liquidez de Captação: Avalie se a instituição possui base de depósitos estável ou se depende de investidores institucionais voláteis.
Perspectivas para o Mercado de Renda Fixa
O cenário pós-crise dos bancos Master e Will Bank exige uma postura mais ativa do investidor e dos órgãos reguladores. A transparência na oferta de produtos em plataformas de investimento será o tema central de 2026. Em um Brasil com Selic em dois dígitos, a renda fixa deixou de ser um investimento passivo para se tornar um exercício rigoroso de análise de crédito privado. A preservação do capital deve prevalecer sobre a busca por décimos de rentabilidade em emissores de governança duvidosa.









