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Palma de óleo mira 1 milhão de hectares no Brasil com corrida por SAF e diesel verde

Setor projeta mais que triplicar a área cultivada em dez anos, mas avanço dependerá de crédito de longo prazo, rastreabilidade, capacidade industrial e comprovação de que a expansão não provoca desmatamento.

por Daniel Wicker
23/07/2026 às 21h29
em Agronegócio
Palma De Óleo Mira 1 Milhão De Hectares No Brasil Com Corrida Por Saf E Diesel Verde - Gazeta Mercantil

O setor brasileiro de palma de óleo projeta ampliar a área cultivada dos atuais 280 mil hectares estimados para até 1 milhão de hectares ao longo da próxima década, impulsionado pela perspectiva de aumento da demanda por combustível sustentável de aviação, diesel verde e outros biocombustíveis de baixa emissão. A expansão deverá se concentrar em áreas anteriormente desmatadas ou alteradas pela atividade humana, sobretudo no Pará, maior produtor nacional, para evitar que o crescimento seja associado à abertura de novas áreas de floresta.

A projeção foi apresentada pela Associação Brasileira de Produtores de Óleo de Palma, a Abrapalma, e representa uma estimativa do setor, não uma meta oficial do governo. Para que esse cenário se concretize, o Brasil precisará elevar os investimentos em plantio, processamento, logística e certificação ambiental, além de assegurar contratos de longo prazo capazes de sustentar uma cultura que demora anos para atingir sua plena produção.

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A corrida por matérias-primas renováveis ganhou força com a Lei do Combustível do Futuro. A legislação criou o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação, o ProBioQAV, que estabelece metas progressivas de redução das emissões nos voos domésticos a partir de 2027.

A exigência começa com redução de 1% das emissões e aumenta gradualmente até chegar a 10% em 2037. A lei também instituiu o Programa Nacional de Diesel Verde, abrindo um novo mercado potencial para óleos vegetais, resíduos e outras matérias-primas que atendam aos critérios técnicos e ambientais.

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A palma de óleo pode disputar parte desse mercado por apresentar rendimento de óleo por hectare significativamente superior ao da soja. A vantagem agronômica, contudo, não garante acesso automático ao setor de combustíveis. Refinarias, companhias aéreas e compradores internacionais exigirão rastreabilidade, certificação e comprovação da intensidade de carbono em toda a cadeia.

Expansão precisa ocorrer fora da floresta nativa

O principal limite ambiental à expansão está definido no Zoneamento Agroecológico da Palma de Óleo, aprovado pelo governo federal em 2010.

O instrumento permite orientar novos projetos para áreas antropizadas, isto é, territórios que já sofreram intervenção humana. O zoneamento exclui vegetação nativa, unidades de conservação, terras indígenas, áreas urbanas e regiões sem aptidão climática ou com elevado risco de degradação.

Também ficaram fora das áreas consideradas aptas os terrenos desmatados a partir de 2008. Na prática, a política foi desenhada para evitar que o crédito rural e os investimentos destinados à palma de óleo estimulem a derrubada recente de floresta.

O zoneamento identificou áreas com condições para o cultivo em estados da Amazônia Legal, como Pará, Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Maranhão e Mato Grosso. Também foram identificadas áreas antropizadas aptas em estados do Nordeste e do Sudeste.

A existência de território tecnicamente disponível não significa que todo ele possa receber plantios. A implantação depende de situação fundiária regular, licenciamento, infraestrutura, disponibilidade de trabalhadores, acesso a crédito e proximidade de unidades de processamento.

Os frutos precisam ser processados rapidamente após a colheita para preservar a qualidade do óleo. Essa característica exige que as plantações estejam ligadas a uma rede industrial e logística, reduzindo a viabilidade de projetos isolados ou muito distantes das usinas.

Pará concentra produtores, indústrias e rastreabilidade

O Pará reúne a maior estrutura produtiva da palma de óleo no país. Dados da Agência de Defesa Agropecuária do Estado apontam 1.438 produtores cadastrados, a maioria formada por agricultores familiares.

O Vale do Acará, principal polo da atividade, concentra 1.921 unidades produtivas e 14 indústrias. Desde a implantação da rastreabilidade estadual, em dezembro de 2023, foram emitidas mais de 69 mil Guias de Trânsito Vegetal.

Esses documentos acompanharam a movimentação de aproximadamente 1,4 milhão de toneladas de cachos de frutos frescos, permitindo identificar a origem e o destino da produção dentro do estado.

A atualização cadastral das unidades produtivas é obrigatória. Quem não regulariza as informações fica impedido de emitir a guia necessária ao transporte dos frutos.

O controle envolve dados do produtor, documentos de posse ou propriedade da terra e Cadastro Ambiental Rural. As áreas declaradas também podem passar por análise de imagens para validação das informações.

A rastreabilidade cumpre funções sanitárias, econômicas e ambientais. Além de monitorar a circulação da produção, cria uma base para comprovar a origem dos frutos e afastar fornecedores ligados a irregularidades fundiárias ou ambientais.

Esse sistema será cada vez mais relevante caso o Brasil pretenda vender óleo ou biocombustíveis a mercados que exigem cadeias livres de desmatamento. A Europa, por exemplo, impõe critérios rigorosos para reconhecer matérias-primas como sustentáveis e contabilizar sua contribuição para a redução de emissões.

Produtividade supera a de outras oleaginosas

A palma possui uma das maiores produtividades entre as culturas destinadas à produção de óleo vegetal.

Estudos da Embrapa indicam que a cultura pode produzir várias vezes mais óleo por hectare que a soja. Em condições adequadas, a diferença pode chegar a dez vezes, embora o resultado dependa da variedade, do clima, do manejo e da idade das plantas.

Essa produtividade reduz a quantidade de terra necessária para obter o mesmo volume de óleo. Do ponto de vista econômico, permite concentrar a produção em uma área menor e diluir custos de colheita e processamento.

A cultura também é permanente. Depois de implantado, o palmeiral pode permanecer produtivo durante décadas, oferecendo um fluxo mais estável de matéria-prima.

Em contrapartida, o investimento inicial é elevado e o retorno não é imediato. A planta demora alguns anos para entrar em produção comercial e só alcança o rendimento máximo depois de um período de maturação.

O produtor precisa financiar mudas, preparo da área, adubação, mão de obra e manutenção antes de receber a primeira receita significativa. Essa defasagem torna o crédito de longo prazo um dos elementos centrais da expansão.

A cultura também está sujeita a riscos fitossanitários. O amarelecimento fatal provocou perdas em áreas produtoras e incentivou o desenvolvimento de híbridos mais resistentes, como materiais resultantes do cruzamento entre a palma africana e o caiaué amazônico.

Agricultura familiar ocupa espaço estratégico

O modelo implantado no Pará combina plantações próprias das empresas com a produção de agricultores familiares integrados.

Esses produtores recebem assistência técnica, acesso a mudas e, em determinados projetos, contratos de compra de longo prazo. O preço costuma acompanhar referências da commodity ou fórmulas acordadas com a indústria.

Para as empresas, a integração amplia a oferta de frutos sem exigir a aquisição de toda a terra necessária ao crescimento. Para as famílias, o contrato oferece um comprador definido e maior previsibilidade de receita.

A estrutura também permite utilizar linhas do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, o Pronaf, e recursos do Plano Safra.

O modelo, no entanto, exige salvaguardas para evitar dependência excessiva de um único comprador. Como o fruto precisa ser processado rapidamente, o produtor geralmente possui poucas alternativas de venda fora da indústria localizada em sua região.

Contratos transparentes, fórmulas claras de preço, assistência técnica independente e mecanismos de solução de conflitos serão necessários para que a expansão distribua renda ao longo da cadeia.

A palma demanda trabalho contínuo durante o ano, diferentemente de culturas concentradas em períodos específicos de plantio e colheita. Essa característica pode gerar empregos mais estáveis, mas também exige treinamento, condições adequadas de trabalho e capacidade de retenção de mão de obra no campo.

SAF cria mercado potencial a partir de 2027

O combustível sustentável de aviação se tornou o principal vetor de expectativa para a cadeia.

A aviação possui poucas alternativas disponíveis para reduzir suas emissões no curto prazo. Aeronaves elétricas ou movidas a hidrogênio ainda enfrentam limitações técnicas para operar em grande escala, especialmente em voos de longa distância.

O SAF pode ser utilizado em mistura com o querosene de aviação convencional, desde que produzido por rotas tecnológicas autorizadas e cumpra padrões internacionais.

A palma pode servir como matéria-prima em determinadas rotas, mas precisará demonstrar redução real de emissões ao longo de todo o ciclo. Entram nessa conta o cultivo, os fertilizantes, o processamento, o transporte e eventual mudança no uso da terra.

Se houver desmatamento associado à produção, a vantagem climática pode desaparecer. Por isso, o uso de áreas já abertas, a recuperação de solos degradados e a rastreabilidade serão determinantes para a aceitação comercial.

A meta brasileira de redução das emissões em voos domésticos começa em 2027 e aumenta durante a década seguinte. Esse calendário oferece perspectiva de demanda, mas não assegura que a palma será a matéria-prima escolhida.

O setor competirá com óleos residuais, gorduras animais, etanol, resíduos agrícolas e combustíveis sintéticos. Preço, disponibilidade, intensidade de carbono e segurança de fornecimento definirão a participação de cada rota.

Dependência de importações expõe contradição do mercado

Apesar de possuir condições climáticas favoráveis e extensa área apta, o Brasil ainda importa parte do óleo de palma utilizado internamente.

A Abrapalma estima que as compras externas atendam cerca de 30% do consumo nacional, que se aproxima de 1 milhão de toneladas por ano. A maior parcela é utilizada pelas indústrias de alimentos, higiene, cosméticos e produtos químicos.

O óleo de palma está presente em margarinas, biscoitos, sorvetes, sabonetes, detergentes e uma ampla variedade de produtos industrializados. Sua estabilidade e versatilidade explicam a demanda global.

A dependência das importações cria espaço para a substituição por produção nacional. Ao mesmo tempo, a entrada de produto estrangeiro com imposto reduzido pode pressionar as margens dos agricultores e das indústrias brasileiras.

Em 2025, o governo federal incluiu o óleo de palma entre os alimentos que receberam redução temporária da tarifa de importação como parte das medidas destinadas a conter preços.

Para os produtores, mudanças frequentes na política tarifária reduzem a previsibilidade necessária a investimentos com retorno de longo prazo. Um palmeiral implantado hoje produzirá por décadas e precisa de regras que permitam estimar receitas ao longo desse período.

Para o governo, o desafio é equilibrar o custo dos alimentos e dos insumos industriais com a criação de uma cadeia nacional competitiva.

Investimento industrial precisará acompanhar os plantios

Levar a área cultivada para perto de 1 milhão de hectares exigiria mais que a distribuição de mudas e a abertura de crédito rural.

A capacidade de processamento terá de crescer no mesmo ritmo. Sem novas usinas, os frutos adicionais não encontrariam destino dentro da janela adequada após a colheita.

Também serão necessários investimentos em estradas, energia, armazenagem, laboratórios, viveiros e sistemas de tratamento de resíduos.

As indústrias de biocombustíveis precisarão estabelecer contratos de fornecimento capazes de justificar o plantio. Como a demanda atual está concentrada em alimentos e produtos de consumo, uma expansão acelerada sem compradores definidos poderia gerar excesso de oferta e queda dos preços.

A chegada do SAF e do diesel verde cria uma saída potencial, mas depende da construção ou conversão de refinarias e da definição de padrões regulatórios.

A participação de grandes companhias de energia pode acelerar o processo. Esses grupos possuem capacidade financeira, acesso a tecnologia e relacionamento com mercados internacionais, mas exigirão escala e segurança jurídica.

O custo logístico também será decisivo. Produzir matéria-prima na Amazônia e transportá-la para refinarias ou terminais distantes pode reduzir parte da vantagem econômica e ambiental.

Rastreabilidade definirá acesso aos mercados mais rentáveis

A projeção de 1 milhão de hectares coloca a palma de óleo diante de uma oportunidade e de um risco reputacional.

A oportunidade está na combinação entre produtividade elevada, disponibilidade de áreas degradadas e crescimento da demanda por combustíveis de baixo carbono.

O risco está na possibilidade de a expansão reproduzir problemas registrados em países do Sudeste Asiático, onde a abertura de plantações foi associada ao desmatamento de florestas tropicais e à perda de biodiversidade.

O Brasil possui instrumentos para evitar essa trajetória, como o zoneamento agroecológico, o Cadastro Ambiental Rural, o monitoramento por satélite e a Guia de Trânsito Vegetal.

A eficácia dependerá da fiscalização, da integração das bases públicas e da exclusão de fornecedores que descumpram as regras.

Compradores internacionais não deverão aceitar apenas declarações de sustentabilidade. Exigirão dados verificáveis sobre origem, emissões, situação fundiária e respeito aos direitos trabalhistas e das comunidades.

Se conseguir demonstrar conformidade, o Brasil poderá oferecer um óleo de palma com atributos diferentes dos produtos associados ao desmatamento em outros países.

Crédito e demanda definirão tamanho real da expansão

A meta setorial de atingir 1 milhão de hectares em dez anos é tecnicamente possível diante da área indicada pelo zoneamento, mas sua realização dependerá de condições econômicas que ainda precisam ser construídas.

O setor terá de mobilizar capital para um cultivo de maturação lenta, ampliar a indústria e garantir contratos antes de realizar plantios em larga escala.

Também será necessário conciliar três mercados: alimentos e produtos de consumo, substituição das importações e novos biocombustíveis.

O SAF pode transformar a demanda, mas a competição entre matérias-primas será intensa. A palma somente ocupará espaço relevante se combinar preço competitivo, fornecimento regular e baixa intensidade de carbono comprovada.

Para os agricultores familiares, o crescimento pode ampliar renda e emprego na Amazônia. Para as empresas, abre a possibilidade de participar de um mercado global pressionado por metas climáticas.

O resultado, porém, será medido pela origem de cada tonelada produzida. A expansão que respeitar áreas já abertas e incorporar rastreabilidade pode transformar a palma em uma nova fronteira de bioeconomia. Sem esse controle, o setor perderá acesso justamente aos compradores dispostos a pagar mais por matérias-primas sustentáveis.

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