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Piracanjuba fecha acordo com Complem e mira processar 600 mil litros de leite por dia

Grupo assumirá fábrica de Morrinhos e marca Compleite, preservará captação com a cooperativa e prevê incorporar cerca de 200 trabalhadores

por João Souza
02/09/2026 às 19h24
em Empresas
Piracanjuba - Gazeta Mercantil

O Grupo Piracanjuba fechou um acordo para assumir a operação industrial de lácteos da Cooperativa Mista dos Produtores de Leite de Morrinhos (Complem), em Goiás, em uma transação que poderá elevar para cerca de 600 mil litros de leite por dia a capacidade de processamento da fábrica. A unidade começará com aproximadamente 300 mil litros diários e deverá receber investimentos em modernização, equipamentos e ampliação. O negócio será estruturado por meio do arrendamento dos ativos industriais e da marca Compleite, mas sua conclusão ainda depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

O desenho do acordo separa a produção industrial da relação da cooperativa com os produtores. A Piracanjuba ficará responsável pela operação da fábrica, pelo processamento do leite e pela produção e distribuição dos produtos da Compleite, além de poder fabricar itens de seu próprio portfólio na unidade. A Complem continuará captando a matéria-prima, mantendo o relacionamento com os cooperados e realizando os pagamentos aos produtores. A cooperativa também preservará suas demais atividades, entre elas grãos, nutrição animal, comércio de insumos, lojas agropecuárias, supermercados e serviços prestados aos associados. Leia também: Cobre fecha em alta após intervenção do Banco do Povo da China no câmbio e expectativas de estímulos econômicos.

A estrutura permite à Piracanjuba aumentar a capacidade produtiva sem absorver toda a operação da Complem e, ao mesmo tempo, mantém a cooperativa na origem da cadeia de suprimento. Até a manifestação definitiva do Cade, no entanto, as duas organizações precisam continuar atuando de forma autônoma e independente. Portanto, embora o acordo já tenha sido anunciado, a transferência da operação industrial não deve ser tratada como concluída antes da autorização concorrencial.

Planta pode passar de 300 mil para 600 mil litros por dia

A dimensão da fábrica de Morrinhos ajuda a mostrar o peso da operação. Com processamento inicial previsto de 300 mil litros de leite por dia, a unidade teria capacidade teórica para industrializar aproximadamente 109,5 milhões de litros em um período de 365 dias, caso funcionasse continuamente no limite anunciado. Se os investimentos planejados efetivamente dobrarem essa capacidade, o potencial anual subiria para cerca de 219 milhões de litros. Leia também: Após 13 quedas consecutivas, Ibovespa fecha no positivo; IRB Re, Vibra e Sabesp lideram valorizações.

Esse cálculo não representa uma projeção de produção efetiva, já que fábricas de alimentos não necessariamente trabalham durante todos os dias do ano nem utilizam permanentemente 100% da capacidade instalada. A comparação, porém, dimensiona o espaço industrial que a Piracanjuba poderá adicionar à sua estrutura. A própria companhia informa possuir capacidade superior a 7 milhões de litros de leite por dia em suas operações. Tomando 7 milhões apenas como referência mínima, os 300 mil litros de Morrinhos equivalem a cerca de 4,3% dessa base; uma planta de 600 mil litros corresponderia a aproximadamente 8,6%.

A expansão ocorre em um Estado historicamente importante para a cadeia leiteira. Goiás produziu aproximadamente 3 bilhões de litros de leite em 2023, segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE, ficando entre os principais produtores brasileiros. A localização em Morrinhos também aproxima a indústria de uma região com tradição agropecuária e de uma rede de produtores que já mantém relacionamento comercial com a Complem. Leia também: Ibovespa fecha em baixa após IPCA.

A matéria-prima continuará passando por essa estrutura. Em vez de substituir a cooperativa na compra do leite, o acordo preserva a Complem como elo entre os produtores e a indústria. A Piracanjuba recebe o leite para processamento, enquanto a cooperativa permanece responsável pela captação e pelo relacionamento financeiro com os cooperados. Esse arranjo reduz uma das dificuldades mais sensíveis em expansões industriais do setor: formar rapidamente uma nova rede de fornecedores em quantidade suficiente para abastecer uma planta de grande porte.

Piracanjuba também assume a operação da marca Compleite

O acordo não envolve apenas os equipamentos da fábrica. A Piracanjuba passará a operar a Compleite, marca regional de leite e derivados com mais de quatro décadas de presença, principalmente em Goiás e no Distrito Federal. A intenção é manter os produtos no mercado, agora produzidos e distribuídos pelo grupo. Leia também: Ouro fecha no maior patamar desde junho após CPI dos EUA abaixo do esperado.

Leia também: BASF prepara IPO de divisão agrícola com quatro bancos e mira Bolsa de Frankfurt

Para a Piracanjuba, a combinação entre fábrica e marca permite avançar por duas frentes. A primeira é industrial: utilizar a unidade para aumentar a produção e acomodar itens do próprio portfólio. A segunda é comercial: incorporar uma marca que já possui distribuição e reconhecimento regional, evitando começar do zero em segmentos e localidades nos quais a Compleite já está presente.

A operação também abre possibilidade de integração comercial entre as empresas. O acordo prevê atuação conjunta em Goiás para a oferta de insumos agrícolas a produtores de leite ligados ao ecossistema da Piracanjuba. A estrutura pode ampliar o relacionamento para além da compra da matéria-prima, aproximando indústria, cooperativa e fornecedor rural em outras necessidades da produção.

A Complem, por sua vez, deixa de concentrar recursos diretamente na gestão da indústria de lácteos e passa a direcionar maior atenção para as demais atividades. O estatuto da cooperativa mostra que sua atuação não está limitada à industrialização de leite. A organização reúne produtores agropecuários e possui objeto social amplo, compatível com atividades de comercialização, prestação de serviços e fornecimento de insumos aos cooperados.

Cerca de 200 trabalhadores deverão migrar para a Piracanjuba

Outro componente importante da transação é a mão de obra. Cerca de 200 funcionários ligados atualmente à operação de lácteos da Complem deverão ser incorporados ao quadro do Grupo Piracanjuba. O objetivo declarado é manter os postos de trabalho relacionados à fábrica e realizar a transição operacional sem desmontar a equipe que já conhece a unidade.

A manutenção desses profissionais reduz a necessidade de reconstruir a operação industrial do início e preserva conhecimento técnico sobre equipamentos, processos e rotina da planta. Para uma indústria de alimentos, essa continuidade também envolve procedimentos de controle de qualidade, manutenção, recebimento da matéria-prima, produção e expedição.

Piracanjuba e Complem continuarão utilizando áreas do mesmo complexo industrial. Além da fábrica de lácteos, o local abriga um armazém de grãos, uma unidade de nutrição animal e estruturas comuns de apoio. Como nem todas essas atividades fazem parte do arrendamento, será necessária uma convivência operacional entre as empresas depois da conclusão da transação.

A separação de responsabilidades está justamente no centro do modelo escolhido. A Piracanjuba assume a indústria de lácteos; a Complem permanece ativa nas outras operações e na relação com os cooperados. A estrutura permite à cooperativa preservar negócios que vão além da produção de leite e, ao grupo industrial, concentrar esforços naquilo que faz parte de sua atividade principal.

Negócio integra uma sequência de expansão da Piracanjuba

A operação de Morrinhos não aparece isoladamente na estratégia recente do Grupo Piracanjuba. A companhia tem realizado investimentos e aquisições para ampliar a presença industrial e geográfica no mercado brasileiro de lácteos.

Em junho, o grupo inaugurou uma nova fábrica em São Jorge D’Oeste, no Paraná, dedicada principalmente à produção de queijos e manteiga. A unidade entrou em funcionamento com capacidade anunciada de aproximadamente 1,2 milhão de litros de leite por dia, um investimento que aumentou de forma expressiva a estrutura produtiva da companhia na Região Sul.

Pouco depois, em julho, o Cade aprovou a aquisição do Laticínio Sertão, em Monteirópolis, Alagoas. A empresa havia anunciado a transação em maio como parte da expansão no Nordeste. A unidade alagoana é especializada em queijos e derivados e passou a integrar a estratégia do grupo para melhorar a distribuição e aumentar a presença em uma região na qual a distância em relação às fábricas tradicionais pode ter peso relevante nos custos logísticos.

A Piracanjuba também havia anunciado no início de 2026 a aquisição da Básel Lácteos, em Antônio Carlos, Minas Gerais, empresa ligada ao segmento de queijos premium. Em conjunto, os movimentos mostram uma estratégia que combina aumento de capacidade, entrada em novas regiões, incorporação de marcas e crescimento em produtos de maior valor agregado.

A parceria com a Complem acrescenta uma característica diferente a essa sequência. Em vez da aquisição integral de uma companhia, o modelo utiliza o arrendamento dos ativos industriais e da marca Compleite, mantendo a cooperativa independente e responsável por outras partes da cadeia.

Grupo processa mais de 7 milhões de litros de leite por dia

O Grupo Piracanjuba informa possuir capacidade superior a 7 milhões de litros de leite por dia e milhares de funcionários distribuídos por suas operações industriais e postos de resfriamento. Além da marca Piracanjuba, o portfólio reúne Emana e LeitBom e produtos licenciados, como leites longa vida Ninho e Molico e bebidas à base de amêndoas Almond Breeze.

A empresa nasceu em Goiás em 1955 e cresceu a partir da indústria de laticínios. Sua expansão recente mostra uma tentativa de aumentar simultaneamente a escala de produção e a diversidade do portfólio. A companhia vem investindo em queijos, proteínas, produtos funcionais, bebidas e categorias voltadas a diferentes ocasiões de consumo, além dos mercados tradicionais de leite, creme de leite, manteiga e leite condensado.

A capacidade de Morrinhos pode parecer pequena quando comparada aos mais de 7 milhões de litros diários declarados pelo grupo, mas o potencial de dobrar a produção torna a operação mais significativa. Com 600 mil litros por dia, a fábrica teria uma escala equivalente à de uma unidade industrial relevante e poderia fortalecer particularmente a estrutura do grupo em Goiás, onde a companhia tem suas origens.

A integração da Compleite também oferece acesso imediato a uma marca regional. Em uma indústria na qual distribuição, relacionamento com varejistas e confiança do consumidor têm peso importante, adquirir ou operar marcas existentes pode reduzir o tempo necessário para transformar capacidade industrial em vendas.

Complem preserva cooperados e outras fontes de receita

Para a Complem, a parceria permite reduzir a necessidade de investimento direto na fábrica sem abandonar a cadeia leiteira. Os produtores continuam vinculados à cooperativa, que permanece recebendo o leite, mantendo o atendimento e realizando os pagamentos. A mudança ocorre depois dessa etapa: a matéria-prima captada será destinada à Piracanjuba para industrialização.

A cooperativa foi fundada em 1978, em Morrinhos, e expandiu suas atividades para além do leite ao longo das décadas. Seu modelo inclui negócios relacionados a grãos, pecuária, nutrição animal, insumos e varejo. Documentos institucionais da organização mostram uma estrutura criada para atender diferentes necessidades econômicas dos produtores associados.

Esse desenho ajuda a explicar por que a Complem consegue entregar a gestão industrial sem deixar de existir como agente relevante da cadeia. A cooperativa continuará tendo relacionamento direto com os produtores e atuando em negócios capazes de gerar receita e serviços para a base de associados.

A manutenção da captação também cria uma interdependência econômica entre as duas organizações. A fábrica administrada pela Piracanjuba precisará de matéria-prima; a Complem continuará reunindo o leite produzido pelos cooperados. Se a capacidade industrial alcançar os 600 mil litros diários projetados, a necessidade de abastecimento poderá crescer e criar espaço para aumento de produção na região, embora isso dependa de demanda, preço do leite, produtividade e decisões de investimento dos produtores.

Cade decidirá se operação pode ser concluída

A etapa imediata agora é regulatória. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica tem competência para analisar atos de concentração que atendam aos critérios previstos na legislação, avaliando se operações empresariais podem afetar a concorrência. Enquanto não houver decisão definitiva, Piracanjuba e Complem informam que continuarão independentes.

Esse cuidado é particularmente importante porque a Piracanjuba já participa de forma relevante do setor de lácteos e tem realizado aquisições recentes. Em julho, o próprio Cade autorizou a compra do Laticínio Sertão, permitindo que o grupo concluísse aquela operação no Nordeste.

No caso de Morrinhos, a análise ocorre sobre um arranjo diferente, baseado no arrendamento da fábrica e da marca. O resultado da avaliação concorrencial definirá quando a Piracanjuba poderá efetivamente assumir a operação industrial conforme os termos anunciados.

Até lá, a unidade continua sob a estrutura vigente. Se o negócio receber autorização e os investimentos forem realizados como previsto, Morrinhos acrescentará inicialmente 300 mil litros diários à estrutura operada pelo grupo, com potencial para chegar a aproximadamente 600 mil. A partir desse ponto, a principal questão deixará de ser a aprovação da parceria e passará a ser a velocidade com que a Piracanjuba conseguirá transformar a nova capacidade industrial em produção efetiva, enquanto a Complem terá de garantir uma oferta de matéria-prima compatível com uma fábrica potencialmente duas vezes maior.

Fontes:

Grupo Piracanjuba – comunicado institucional sobre a parceria com a Complem, o arrendamento da unidade de Morrinhos e a operação da marca Compleite

Grupo Piracanjuba – informações institucionais sobre capacidade de processamento, estrutura industrial e expansão recente da companhia

Cooperativa Mista dos Produtores de Leite de Morrinhos – Estatuto Social e informações institucionais sobre estrutura e objeto de atuação da Complem

Conselho Administrativo de Defesa Econômica – competências e procedimentos para análise de atos de concentração econômica

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – Pesquisa da Pecuária Municipal e dados sobre a produção de leite no Brasil e em Goiás

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