O UBS BB elevou de R$ 60 para R$ 62 o preço-alvo das ações preferenciais da Petrobras (PETR4) e manteve a recomendação de compra, apoiado principalmente na combinação entre produção de petróleo acima das metas, exposição direta à alta do Brent e capacidade de geração de caixa para remunerar os acionistas. Considerando o fechamento de R$ 48,35 registrado na terça-feira, 22 de setembro, o novo preço-alvo representa potencial de valorização de aproximadamente 28,2%, sem incorporar os dividendos projetados pelo banco.
A revisão ocorre depois de uma valorização expressiva da estatal em 2026. As ações preferenciais acumulavam alta de 66,76% no ano até a sessão anterior, enquanto os papéis ordinários (PETR3), cotados a R$ 53,20, avançavam 72,55%. Mesmo depois desse movimento, o UBS avalia que a relação entre produção, preço internacional do petróleo e distribuição de caixa mantém a companhia entre as petroleiras mais bem posicionadas de sua cobertura.
O banco projeta dividend yield entre 10% e 11% para 2026 e entre 13% e 14% em 2027. O indicador expressa a relação entre os proventos distribuÃdos e o preço das ações. A estimativa não representa um dividendo já declarado pela Petrobras, mas uma projeção dos analistas baseada nas expectativas de fluxo de caixa, investimentos, produção e preços do petróleo. Pela polÃtica vigente da companhia, a remuneração ordinária está diretamente ligada à geração de caixa livre e pode variar conforme investimentos e endividamento.
Preço-alvo implica valorização de 28% além dos dividendos
A mudança feita pelo UBS no preço-alvo foi relativamente moderada: de R$ 60 para R$ 62, uma elevação de 3,3%. O efeito sobre a tese de investimento, porém, é maior quando o novo objetivo é comparado ao preço de mercado. A diferença de R$ 13,65 entre o fechamento de PETR4 na terça-feira e o preço-alvo equivale a um potencial de alta de aproximadamente 28,2%.
O banco também aumentou o preço-alvo dos ADRs da Petrobras negociados nos Estados Unidos, de US$ 22 para US$ 23, revisão de aproximadamente 4,5%. A recomendação permaneceu em compra. Nos dois casos, as projeções refletem uma visão para um horizonte de investimento e não constituem garantia de que as cotações atingirão os valores estimados.
Um dos principais argumentos do UBS está na exposição da Petrobras ao petróleo. Por ser exportadora lÃquida, a companhia captura diretamente parte relevante da valorização internacional da commodity. O banco trabalha com Brent a US$ 85 por barril no terceiro trimestre de 2026, US$ 80 no quarto trimestre e US$ 75 a partir de 2027.
Essa premissa afeta diretamente a estimativa de dividendos. O UBS calcula que cada aumento de US$ 1 por barril no preço médio do petróleo acrescentaria aproximadamente 0,2 ponto percentual ao dividend yield anual projetado. Aplicada mecanicamente, essa sensibilidade significaria que uma variação de US$ 10 por barril poderia alterar em cerca de dois pontos percentuais a estimativa de retorno via proventos, mantidas as demais premissas. O mesmo raciocÃnio funciona no sentido inverso em um ambiente de petróleo mais barato.
Produção acima do plano amplia geração de caixa
A produção é o segundo eixo da análise. O UBS estima produção de 2,73 milhões de barris por dia em 2026, acima dos 2,50 milhões previstos pela Petrobras em seu Plano de Negócios para a produção de óleo. A diferença é de cerca de 230 mil barris diários, ou 9,2% sobre a referência da companhia.
Para 2027, a distância projetada pelo banco é semelhante. O UBS trabalha com aproximadamente 2,84 milhões de barris por dia, enquanto o plano da Petrobras indica 2,60 milhões. São cerca de 240 mil barris adicionais por dia, diferença também próxima de 9,2%.
O desempenho operacional recente fornece suporte para uma revisão dessa natureza. No segundo trimestre, a própria Petrobras informou produção própria de óleo no Brasil de 2,7 milhões de barris por dia, alta de 15% sobre o mesmo perÃodo de 2025. A produção total de óleo e gás natural atingiu o recorde trimestral de 3,34 milhões de barris de óleo equivalente por dia.
Parte do avanço veio das novas unidades de produção e da melhoria da eficiência dos ativos. Segundo a companhia, o aumento da eficiência operacional acrescentou cerca de 70 mil barris por dia na comparação anual do segundo trimestre. Búzios atingiu produção operada de 1,219 milhão de barris por dia em junho, enquanto novas plataformas continuam avançando na curva de produção.
Esse volume maior tem efeito direto sobre a capacidade financeira. A Petrobras apresentou lucro lÃquido de R$ 52,4 bilhões no segundo trimestre de 2026, crescimento de 97% na comparação anual. O Ebitda ajustado alcançou R$ 93,8 bilhões, e o fluxo de caixa operacional chegou a R$ 61,8 bilhões, alta de 46% em 12 meses.
As exportações de petróleo também se aproximaram de um milhão de barris por dia no trimestre. Em um ambiente de preços internacionais elevados, mais produção disponÃvel para exportação amplia a exposição da companhia ao Brent e ajuda a explicar por que o UBS considera a estatal particularmente sensÃvel a um cenário de petróleo mais caro.
Dividendos dependem do caixa depois dos investimentos
A perspectiva de dividendos de dois dÃgitos projetada pelo UBS está diretamente ligada à regra de remuneração adotada pela Petrobras. A polÃtica da companhia determina, atendidas as condições de endividamento e resultado, a distribuição de 45% do fluxo de caixa livre. O cálculo é realizado trimestralmente.
Isso significa que produção e preço do petróleo não são as únicas variáveis importantes. O fluxo de caixa livre corresponde, de forma simplificada, ao caixa gerado pelas operações depois dos investimentos. Quanto maior o capex, menor tende a ser a base disponÃvel para remuneração dos acionistas, mantidas as demais condições.
No segundo trimestre, a companhia aprovou R$ 17,4 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio. A dÃvida bruta encerrou o perÃodo em US$ 70,8 bilhões, abaixo do limite de US$ 75 bilhões definido no Plano de Negócios 2026-2030. A Petrobras pretende convergir para uma dÃvida bruta de US$ 65 bilhões ao longo do horizonte do plano.
O próprio planejamento da estatal indica capacidade relevante de distribuição. Para o perÃodo de 2026 a 2030, a Petrobras estima que o fluxo de caixa livre de sua carteira total de investimentos seja compatÃvel com dividendos ordinários acumulados entre US$ 45 bilhões e US$ 50 bilhões. Esse valor não constitui compromisso de distribuição nem inclui necessariamente remunerações extraordinárias.
O UBS, por sua vez, traduz essa capacidade para o retorno esperado sobre o preço das ações. Sua estimativa de yield de 10% a 11% em 2026 e de 13% a 14% em 2027 coloca a remuneração ao acionista no centro da tese, mesmo depois da valorização superior a 60% de PETR4 neste ano.
Capex é o principal contraponto à tese do UBS
O investimento é justamente o principal risco destacado pelo banco. O UBS projeta capex em caixa de US$ 18,6 bilhões em 2026 e US$ 19,6 bilhões em 2027, valores cerca de 10% superiores à s referências utilizadas pelo banco a partir do planejamento da companhia. Um crescimento ainda maior dos desembolsos, seja em projetos orgânicos, seja por meio de aquisições, reduziria o fluxo de caixa disponÃvel para dividendos.
O Plano de Negócios 2026-2030 da Petrobras prevê US$ 109 bilhões de investimentos no quinquênio. Desse montante, US$ 91 bilhões integram a carteira em implantação e US$ 18 bilhões estão na carteira em avaliação. Dentro da carteira de implantação, US$ 81 bilhões fazem parte da base já considerada no orçamento e outros US$ 10 bilhões dependem de testes de financiabilidade.
Exploração e produção concentram US$ 69,2 bilhões da carteira de implantação alvo, ou aproximadamente 76% do total de US$ 91 bilhões. O pré-sal responde por 62% dos investimentos previstos para E&P. A companhia prevê oito novos sistemas de produção até 2030 e trabalha para concluir a implantação de 11 FPSOs em Búzios até 2027.
O contraste entre produção e investimento é central para o acionista. O capex elevado ajuda a sustentar a curva futura de petróleo e gás, mas consome recursos que poderiam ser distribuÃdos no curto prazo. A tese do UBS depende, portanto, de a Petrobras continuar convertendo os investimentos em volumes adicionais suficientes para preservar uma geração de caixa robusta.
Refino ainda fica abaixo da avaliação considerada ideal pelo banco
O refino aparece como um ponto menos favorável na análise. O UBS observa que a rentabilidade do segmento não está nos patamares considerados ideais e destacou que, no segundo trimestre, a Petrobras apresentou desempenho inferior ao de parte dos pares internacionais na comparação do Ebitda por barril.
Os números operacionais da companhia, porém, mostram elevada utilização fÃsica das refinarias. No segundo trimestre, o fator de utilização atingiu 101,2%, enquanto a produção de derivados chegou a 1,918 milhão de barris por dia, crescimento de 5,6% frente ao primeiro trimestre. Diesel S-10 e querosene de aviação registraram recordes trimestrais de produção.
A diferença entre utilização operacional e rentabilidade é importante. Refinarias podem operar em nÃveis elevados sem necessariamente gerar as mesmas margens observadas em empresas concorrentes, porque o resultado depende do custo do petróleo processado, preços dos derivados, mix de produção, logÃstica e polÃtica comercial.
Nesse ponto, o UBS avalia que as medidas de subvenção adotadas pelo governo para combustÃveis oferecem algum suporte à companhia. Para o diesel, a Petrobras anunciou em setembro aumento de R$ 1 por litro no preço vendido à s distribuidoras, acompanhado por subvenção federal de igual valor, mecanismo que preserva a receita da estatal sem transferir integralmente o ajuste para o preço pago pelas distribuidoras.
Alta de 2026 não eliminou a tese de retorno, segundo o UBS
A reavaliação do UBS ocorre em um momento incomum para uma recomendação de compra: PETR4 já acumula valorização de 66,76% em 2026. O papel chegou a fechar a R$ 50,43 em 15 de setembro e terminou a sessão de terça-feira em R$ 48,35. Ainda assim, o novo preço-alvo de R$ 62 mantém diferença de quase R$ 14 em relação ao mercado.
Para o banco, o suporte vem de três variáveis interligadas: preço do Brent, produção superior à s metas e polÃtica de distribuição baseada no fluxo de caixa. O risco também está concentrado nessa equação. Uma queda mais forte do petróleo reduz geração de caixa; investimentos acima das projeções diminuem o montante disponÃvel aos acionistas; e desempenho abaixo do esperado na produção reduz a capacidade de compensar esses fatores.
Os números do segundo trimestre mostram que, até aqui, a Petrobras mantém capacidade financeira para combinar investimento elevado com remuneração aos acionistas. O fluxo de caixa operacional de R$ 61,8 bilhões superou em mais de duas vezes os R$ 26,7 bilhões investidos no trimestre, embora essa comparação não corresponda diretamente ao cálculo contábil do fluxo de caixa livre previsto na polÃtica de dividendos.
A revisão do UBS, portanto, não depende apenas da expectativa de que PETR4 continue subindo após a valorização acumulada no ano. O ponto central é a capacidade da Petrobras de transformar a produção adicional e os preços internacionais do petróleo em caixa suficiente para financiar um plano de US$ 109 bilhões e, ao mesmo tempo, manter uma distribuição que o banco estima poder alcançar dividend yield de 13% a 14% em 2027.
Fontes:
UBS BB – relatório de análise sobre Petrobras, projeções de produção, petróleo, investimentos, dividend yield e revisão do preço-alvo das ações
UBS Investment Bank – histórico de recomendação e preço-alvo para as ações preferenciais da Petrobras e informações de divulgação regulatória da cobertura
Petrobras – Plano de Negócios 2026-2030, projeções de produção, investimentos, endividamento e estimativa de dividendos ordinários
Petrobras – resultados financeiros e operacionais do segundo trimestre de 2026
Petrobras – PolÃtica de Remuneração aos Acionistas e critérios de distribuição vinculados ao fluxo de caixa livre
Petrobras – comunicados sobre remuneração aos acionistas e pagamentos aprovados em 2026









