A Piracanjuba entrou em uma nova etapa de expansão ao combinar três aquisições no setor de queijos com a abertura de um complexo industrial de R$ 612 milhões no Paraná, projetado para produzir muçarela, manteiga, lactose e whey protein. Em pouco mais de um ano, o grupo comprou a Natulact, em Sergipe, a Básel Lácteos, em Minas Gerais, e o Laticínio Sertão, em Alagoas, numa estratégia destinada a ampliar a captação de leite, reduzir custos logísticos e ganhar participação em categorias de maior valor agregado.
O movimento altera o perfil de crescimento da companhia. Tradicionalmente associada ao leite longa vida e a produtos de grande escala, a Piracanjuba está direcionando capital para queijos regionais e premium, bebidas proteicas e ingredientes industriais derivados do soro do leite.
A empresa encerrou 2025 com faturamento próximo de R$ 12 bilhões e, após a conclusão da compra do Laticínio Sertão, passou a reunir 12 unidades industriais no país. As fábricas têm capacidade conjunta para processar mais de 7 milhões de litros de leite por dia e são abastecidas por uma rede de produtores distribuída por diferentes bacias leiteiras.
As aquisições não representam apenas uma ampliação de capacidade. Elas aproximam a Piracanjuba da matéria-prima, dão acesso a marcas regionais e permitem produzir itens com margens potencialmente superiores às do leite UHT, segmento caracterizado por alto volume, competição intensa e menor diferenciação.
Três aquisições ampliam presença em queijos
A sequência começou em maio de 2025, quando a Piracanjuba anunciou a compra da Santa Barbara Indústria e Comércio de Bens e Laticínios, dona da marca Natulact. A operação marcou a entrada industrial do grupo no Nordeste.
Localizada em Nossa Senhora da Glória, em Sergipe, a Natulact está instalada em uma das principais bacias leiteiras da região. A fábrica produz muçarela, queijo coalho, prato, minas frescal, manteiga, requeijão e soro de leite em pó.
O negócio também incorporou cerca de 260 empregados e uma rede local de fornecedores. A Piracanjuba manteve inicialmente a marca Natulact, com a previsão de introduzir gradualmente sua própria identidade nos produtos e ampliar a capacidade da unidade.
Em janeiro de 2026, o grupo avançou sobre outra faixa de mercado ao adquirir a Básel Lácteos, de Antônio Carlos, em Minas Gerais. A empresa é especializada em queijos de inspiração europeia, como Emmental, Gruyère, Maasdam e Gouda.
A transação levou a Piracanjuba a uma categoria com menor volume, mas maior valor por quilo e mais espaço para diferenciação. O segmento de queijos premium também permite ampliar a presença em empórios, supermercados de maior renda, restaurantes e canais especializados.
O terceiro movimento ocorreu em maio, com o anúncio da compra do Laticínio Sertão, instalado em Monteirópolis, em Alagoas. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica aprovou a operação, concluída em 1º de julho.
Fundado em 1955, o Laticínio Sertão produz queijo coalho, muçarela, prato, provolone, ricota, cheddar, requeijão e manteiga. A unidade ocupa uma área de 70 hectares, emprega cerca de 70 pessoas e concentra sua distribuição no Nordeste.
Os valores das três aquisições não foram divulgados. Nos comunicados públicos, a Piracanjuba informou que assumiu integralmente o controle das empresas e que pretende preservar, durante a transição, as marcas, os postos de trabalho e as relações com produtores locais.
Nordeste combina oferta crescente e ganho logístico
A escolha de Sergipe e Alagoas acompanha uma transformação na geografia da produção brasileira de leite. A oferta nordestina cresceu 14,12% em 2025, acima da expansão nacional, segundo levantamento do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste, ligado ao Banco do Nordeste.
O avanço foi sustentado pela melhoria genética dos rebanhos, pela adoção de tecnologias de produção e pelo aumento da produtividade em áreas antes consideradas secundárias para a indústria de laticínios.
A expansão, porém, não eliminou a dependência regional de produtos fabricados em outras partes do país ou importados. O déficit comercial do Nordeste em lácteos aumentou 10,7% em volume em 2025, com destaque para leite em pó e queijos.
Essa combinação cria espaço para grupos com escala financeira e industrial. Ao instalar fábricas próximas das fazendas, a Piracanjuba reduz a distância percorrida pelo leite cru, uma matéria-prima perecível cuja coleta exige refrigeração, regularidade e controle sanitário.
A proximidade também diminui o custo de distribuição para os mercados consumidores do Nordeste. Antes da compra da Natulact, a maior parte da produção própria da Piracanjuba estava concentrada nas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste.
Com duas unidades nordestinas, o grupo passa a operar dos dois lados da cadeia: compra leite de fornecedores locais e distribui produtos fabricados mais perto do consumidor. A estrutura permite ajustar o portfólio aos hábitos regionais, especialmente no mercado de queijo coalho, manteiga e requeijão.
A estratégia também reduz a dependência de uma única bacia leiteira. Condições climáticas, custos de alimentação do rebanho e ciclos de oferta podem variar significativamente entre as regiões brasileiras. Uma rede industrial diversificada oferece maior flexibilidade para administrar essas oscilações.
Fábrica no Paraná transforma soro em proteína
A frente mais intensiva em capital está em São Jorge d’Oeste, no sudoeste do Paraná. O novo complexo da Piracanjuba foi projetado para processar 1,2 milhão de litros de leite por dia e integrar, numa mesma área, a fabricação de queijos e o aproveitamento industrial do soro.
O investimento total previsto é de R$ 612 milhões. Desse montante, R$ 499 milhões foram financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, sendo R$ 277 milhões pelo programa BNDES Mais Inovação e R$ 222 milhões pela linha Finem.
Na primeira etapa, a unidade é dedicada principalmente à produção de muçarela e manteiga. A capacidade instalada prevista chega a 39,4 mil toneladas de muçarela e 7,9 mil toneladas de manteiga por ano.
As fases seguintes incluem duas linhas para transformar o soro do leite em concentrados e isolados proteicos, conhecidos comercialmente como whey protein, além de lactose em pó. Quando estiver integralmente operacional, o complexo poderá produzir até 6 mil toneladas de whey e 14,8 mil toneladas de lactose por ano.
A integração industrial é o ponto central do projeto. O soro é gerado em grande volume durante a fabricação de queijo. Sem estrutura de processamento, o material pode representar um custo de transporte, tratamento ou descarte.
Ao concentrar as operações em um único parque, a Piracanjuba converte o subproduto em matéria-prima para suplementos, alimentos funcionais, fórmulas nutricionais, produtos hospitalares, medicamentos e cosméticos.
O desenho reduz a necessidade de transportar o soro, composto majoritariamente por água, entre plantas distantes. Também permite recuperar proteínas e carboidratos que, em uma operação convencional, teriam menor aproveitamento econômico.
Whey abre caminho para margens mais altas
A aposta no whey protein coloca a Piracanjuba diante de um mercado com características diferentes das observadas no leite longa vida. O ingrediente exige tecnologia de filtração, secagem, concentração e controle de qualidade, mas alcança preços mais elevados e pode ser vendido tanto ao consumidor final quanto para outras indústrias.
A companhia já atua em bebidas prontas com alto teor de proteína por meio da linha Piracanjuba ProForce. A fabricação própria do ingrediente cria a possibilidade de verticalizar parte desse fornecimento, desenvolver novas formulações e reduzir a exposição a custos de importação.
Dados citados pelo BNDES, com base nos ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento, indicam que aproximadamente 85% do whey protein em pó consumido no Brasil é abastecido por importações. A produção doméstica ainda é limitada diante do tamanho da cadeia de leite.
Esse quadro faz do novo complexo um projeto de substituição de importações, embora a Piracanjuba ainda tenha de competir com fornecedores internacionais consolidados. O preço do produto importado depende do câmbio, do custo do leite nos países produtores, do frete e das condições de oferta global.
A produção nacional pode reduzir parte desses riscos, mas não elimina a pressão competitiva. Para conquistar clientes industriais, a companhia precisará assegurar regularidade, diferentes níveis de concentração proteica, rastreabilidade e padrões técnicos compatíveis com os exigidos por fabricantes de alimentos e suplementos.
O potencial vai além das academias. Concentrados e isolados proteicos são usados na nutrição clínica, em produtos para idosos, fórmulas infantis, alimentos de conveniência e itens voltados ao controle de peso.
A demanda por proteína também passou a influenciar categorias convencionais. Leites, iogurtes, bebidas, sobremesas e produtos vegetais vêm sendo reformulados para oferecer maior teor proteico, criando oportunidades para fornecedores de ingredientes.
Queijos ajudam a equilibrar volume e rentabilidade
As aquisições em queijos e o investimento em whey respondem ao mesmo objetivo: elevar o valor obtido a partir de cada litro de leite processado.
No leite UHT, a rentabilidade é pressionada pela concorrência entre grandes marcas, pelo poder de negociação do varejo e pelos custos de embalagem e transporte. O produto também apresenta pouca diferenciação aos olhos de parte dos consumidores.
Queijos, ingredientes proteicos e produtos funcionais permitem uma segmentação maior. A indústria pode trabalhar com maturação, origem regional, teor de gordura, concentração de proteínas, formatos e canais de venda distintos.
A Básel acrescenta à Piracanjuba uma linha premium pronta e experiência em queijos de inspiração europeia. Natulact e Sertão, por sua vez, fortalecem a companhia em variedades de consumo mais amplo e em categorias com forte demanda no Nordeste.
Essa combinação permite operar em faixas de preço diferentes. A Piracanjuba pode usar sua escala comercial para distribuir marcas adquiridas nacionalmente, ao mesmo tempo que preserva produtos com identidade regional.
O grupo também pode compartilhar compras, logística, tecnologia, equipes comerciais e canais de distribuição entre as unidades. A captura dessas sinergias será determinante para que as aquisições gerem retorno superior ao simples aumento da capacidade.
Recorde de leite aumenta competição pela matéria-prima
A expansão da Piracanjuba ocorre num momento de aumento da oferta nacional. Os laticínios sob inspeção sanitária adquiriram 27,51 bilhões de litros de leite cru em 2025, alta de 8,5% em relação ao ano anterior e o maior volume da série histórica do IBGE.
O crescimento ocorreu em 21 unidades da Federação. Minas Gerais respondeu por 23,9% da captação nacional, seguido por Paraná, com 15,6%, e Rio Grande do Sul, com 12,8%.
A oferta recorde ajuda empresas que estão ampliando capacidade, mas também pode pressionar os preços pagos aos produtores. O valor médio do leite adquirido pelos laticínios ficou próximo de R$ 2,56 por litro em 2025, queda de 1,9% em relação a 2024.
No quarto trimestre, a redução foi mais intensa. O preço médio ficou em torno de R$ 2,21 por litro, 19,9% abaixo do registrado no mesmo período do ano anterior.
Para a Piracanjuba, uma rede maior de fábricas amplia a necessidade de coordenar captação, qualidade e contratos com fornecedores. A companhia precisará assegurar volume suficiente para ocupar as novas linhas sem comprometer as margens dos produtores que sustentam sua base de abastecimento.
Uma fábrica de grande porte não depende apenas de equipamentos. A operação requer leite com composição adequada, baixa contagem bacteriana e oferta regular. Essas características são especialmente importantes para queijos e proteínas, cujos rendimentos estão diretamente ligados à qualidade da matéria-prima.
Integração das aquisições será teste para a estratégia
A Piracanjuba construiu uma plataforma industrial mais ampla, mas o retorno do ciclo de expansão dependerá da integração das empresas compradas e da execução das próximas fases do complexo paranaense.
A Natulact e o Laticínio Sertão possuem marcas, portfólios e relações comerciais próprias. A Básel atende a um público diferente daquele alcançado pelos produtos de maior volume do grupo. Preservar essas particularidades enquanto se capturam ganhos de escala será um dos principais desafios.
Também existe risco de sobreposição comercial. A incorporação gradual da marca Piracanjuba pode ampliar a distribuição, mas uma substituição acelerada das marcas regionais poderia eliminar parte do valor adquirido nas transações.
No whey, o desafio será industrial e mercadológico. A empresa terá de colocar as linhas em operação, homologar produtos, conquistar compradores e enfrentar importações que já abastecem a maior parte da demanda brasileira.
A vantagem está na integração. A Piracanjuba controla desde a compra do leite até a fabricação do queijo, a recuperação do soro e a venda de produtos proteicos. Isso permite distribuir custos entre diferentes categorias e obter mais receita de uma mesma matéria-prima.
O ciclo de aquisições mostra que o grupo não pretende crescer apenas pela venda de mais caixas de leite. A estratégia busca transformar escala industrial em um portfólio mais diversificado, com presença regional, produtos premium e ingredientes de maior densidade tecnológica.
Ao avançar sobre queijos e whey protein, a Piracanjuba tenta ocupar um espaço de consolidação ainda aberto no setor brasileiro de laticínios. O resultado dependerá de sua capacidade de integrar fábricas, assegurar leite de qualidade e converter o investimento de R$ 612 milhões em produção competitiva diante dos grandes fornecedores internacionais.










