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Propostas pesam mais que ideologia e debates na escolha do presidente, diz Quaest

Levantamento mostra que 45% priorizam propostas, enquanto ideologia aparece com 17% e desempenho nos debates, com 14%.

por Carlos Menezes
02/09/2026 às 20h48
em Política
Propostas Pesam Mais Que Ideologia E Debates Na Escolha Do Presidente, Diz Quaest - Gazeta Mercantil

As propostas apresentadas pelos candidatos são hoje o principal critério declarado pelos brasileiros para escolher o próximo presidente da República. Pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira, 2 de setembro, mostra que 45% dos eleitores colocam os planos de governo em primeiro lugar na hora de decidir o voto, uma proporção muito superior à registrada para ideologia, desempenho em debates, propaganda eleitoral ou apoio de outras personalidades.

A ideologia do candidato aparece em segundo lugar, mencionada por 17% dos entrevistados, seguida pelo desempenho nos debates na televisão, com 14%. A opinião de amigos, familiares e colegas é apontada por 6%, enquanto a propaganda em rádio e TV, apesar da estrutura e dos recursos mobilizados pelas campanhas, é considerada o fator mais importante por apenas 3% dos eleitores. O apoio de outros políticos aparece com 2%, e o endosso de famosos ou celebridades, com 1%. Outros fatores somam 3%, enquanto 9% não souberam ou preferiram não responder. Leia também: Presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, Reafirma Compromisso Apesar de Críticas.

O levantamento foi realizado presencialmente com 2.004 eleitores de 16 anos ou mais entre 30 de agosto e 1º de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral sob o número BR-07065/2026.

Os números surgem quando a campanha entra na reta final para o primeiro turno, marcado pelo Tribunal Superior Eleitoral para 4 de outubro. Restam pouco mais de quatro semanas até a votação, período em que programas de governo, debates, entrevistas, propaganda eleitoral e confrontos diretos entre os candidatos tendem a ocupar espaço crescente na agenda pública. Leia também: MP aponta propostas ilusórias em crédito de carbono e cobra participação do Estado.

Propostas são citadas quase três vezes mais que ideologia

A distância entre os primeiros colocados ajuda a dimensionar o resultado. Os 45% que apontam as propostas como principal fator de decisão correspondem a mais de duas vezes e meia os 17% que escolhem a ideologia. Em relação aos debates na televisão, a diferença é ainda maior: o conteúdo programático é mencionado por uma parcela mais de três vezes superior à dos eleitores que colocam o desempenho nos confrontos televisivos em primeiro lugar.

O resultado não significa que ideologia, comunicação ou identificação partidária tenham deixado de influenciar o voto. A pergunta da pesquisa pede ao eleitor que escolha o fator considerado mais importante entre diferentes alternativas. Uma pessoa que responde “propostas”, portanto, pode também ter preferência ideológica, rejeição a determinado candidato ou identificação partidária. O levantamento mede qual desses elementos o entrevistado declara colocar acima dos demais. Leia também: Presidente do Peru deve ser investigada por suposto plágio.

Mesmo com essa ressalva, a distância é expressiva. Somados, o apoio de outros políticos e o apoio de celebridades representam apenas 3%, quinze vezes menos do que as propostas dos candidatos. A propaganda eleitoral no rádio e na televisão, isoladamente, registra os mesmos 3%. Os dados indicam que a transferência direta de prestígio de terceiros é reconhecida por uma parcela pequena do eleitorado como fator decisivo.

Para as campanhas, isso aumenta a importância de transformar promessas genéricas em propostas compreensíveis. Temas como emprego, renda, inflação, segurança pública, saúde, impostos, educação e políticas sociais tendem a ganhar peso à medida que o eleitor passa a comparar os programas dos candidatos com maior atenção. Leia também: Entenda o que muda nas compras na Shein e Shopee com o programa Remessa Conforme.

Escolaridade produz uma das maiores diferenças da pesquisa

O recorte por nível de escolaridade revela uma das variações mais acentuadas do levantamento. Entre os eleitores com ensino superior, 58% dizem que as propostas são o principal critério para definir o voto. No grupo com ensino médio, o percentual é de 49%. Entre aqueles com ensino fundamental, cai para 34%.

A diferença entre as extremidades é de 24 pontos percentuais. Em outras palavras, a proporção de eleitores que coloca as propostas no topo da decisão cresce de maneira consistente conforme aumenta o nível de escolaridade. Leia também: Mortadela Brasil, no Mercadão de SP, anuncia expansão em 2024.

O movimento é diferente quando o assunto são os debates na televisão. Entre eleitores com ensino fundamental, 17% dizem que o desempenho nesses encontros é o fator mais importante. A parcela cai para 14% entre os que possuem ensino médio e para 8% entre aqueles com formação superior.

A influência de pessoas próximas também é maior entre os eleitores com menor escolaridade. Amigos, familiares e colegas são citados como principal fator por 8% dos entrevistados com ensino fundamental, ante apenas 2% entre aqueles com ensino superior. Leia também: Ameaças de Assassinato Contra Presidente Eleito da Guatemala Desencadeiam Alerta Internacional.

A ideologia também apresenta diferença relevante: ela aparece como critério principal para 23% dos eleitores com ensino superior, comparativamente a 14% entre aqueles com ensino fundamental. Isso mostra que maior escolaridade não está associada apenas à valorização das propostas, mas também a uma presença mais elevada da identificação ideológica declarada.

Jovens dão mais peso aos programas apresentados

A idade também modifica o peso atribuído às propostas. Entre eleitores de 16 a 34 anos, 48% apontam os planos dos candidatos como principal critério de escolha. Na faixa dos 35 aos 59 anos, são 46%. Entre os brasileiros com 60 anos ou mais, o percentual recua para 35%.

A diferença entre jovens e idosos chega a 13 pontos percentuais. Já a ideologia permanece relativamente estável: é mencionada por 18% dos entrevistados entre 16 e 34 anos, 17% entre aqueles de 35 a 59 anos e 16% no grupo com 60 anos ou mais.

Os números sugerem que o peso do conteúdo apresentado durante a campanha não se distribui igualmente pelo eleitorado. Para candidatos interessados em atingir segmentos mais jovens, a pesquisa indica uma demanda declarada maior por propostas. Entre os mais velhos, outros elementos da decisão ocupam proporcionalmente mais espaço.

A renda familiar mostra tendência semelhante. As propostas são o principal fator para 47% dos entrevistados com renda superior a cinco salários mínimos e para 46% daqueles que recebem entre dois e cinco salários mínimos. Entre famílias com renda de até dois salários mínimos, a proporção cai para 39%.

A ideologia apresenta uma diferença ainda mais marcada nesse recorte: é mencionada por 21% no grupo de renda mais alta e por 12% entre os entrevistados na faixa de até dois salários mínimos.

Resultado se repete entre direita, esquerda e independentes

Talvez o dado politicamente mais relevante seja a predominância das propostas entre eleitores de diferentes posicionamentos. O critério aparece em primeiro lugar tanto entre grupos identificados com Lula quanto entre bolsonaristas, independentes e eleitores que se posicionam à direita ou à esquerda sem aderir aos dois principais polos.

Entre os eleitores que se declaram de direita, mas não bolsonaristas, 50% colocam as propostas no topo. Entre os bolsonaristas, são 45%. O percentual chega a 44% entre independentes e a 43% tanto entre lulistas quanto entre entrevistados identificados com a esquerda não lulista.

Esse resultado reduz a possibilidade de tratar a valorização das propostas como característica exclusiva de um campo político. Embora os grupos tenham prioridades programáticas diferentes, todos declaram, em primeiro lugar, olhar para aquilo que os candidatos dizem pretender fazer caso sejam eleitos.

A ideologia, como seria esperado, tem peso maior em alguns grupos. Ela aparece como principal critério para 22% da direita não bolsonarista, 20% dos bolsonaristas e 20% da esquerda não lulista. Entre independentes, fica em 14%, e entre lulistas, em 11%.

A diferença mostra que declarar as propostas como fator principal não elimina a polarização política. Um eleitor pode considerar o programa de governo decisivo e, ao mesmo tempo, avaliá-lo a partir de valores e preferências ideológicas previamente estabelecidos.

Sul registra maior peso das propostas

A pesquisa também identificou diferenças regionais, embora menores do que aquelas observadas por escolaridade. No Sul, 48% dos entrevistados apontam as propostas como elemento mais importante para definir o voto presidencial. No agrupamento Centro-Oeste e Norte, são 44%, enquanto o Sudeste registra 43% e o Nordeste, 42%.

A variação entre a maior e a menor proporção regional é de seis pontos percentuais. Apesar das diferenças, as propostas lideram em todas as regiões, reforçando a abrangência nacional do resultado.

Para as campanhas, isso significa que apresentar programas de governo não é uma estratégia destinada apenas a segmentos de maior renda ou escolaridade. Mesmo nos grupos em que a proporção é menor, o conteúdo das propostas continua sendo o item individualmente mais citado.

A disputa passa, portanto, pela capacidade de traduzir projetos muitas vezes técnicos em mensagens compreensíveis para públicos diferentes. Um programa econômico voltado ao equilíbrio fiscal, por exemplo, pode precisar ser explicado ao eleitor em termos de inflação, juros, emprego e serviços públicos. O mesmo vale para políticas de segurança, educação ou saúde.

Sete em cada dez dizem que voto já está definido

A Quaest também mediu o grau de consolidação das escolhas. Segundo o levantamento, 71% dos eleitores afirmam que sua decisão de voto é definitiva, enquanto 29% dizem que ainda podem mudar de candidato.

Esse dado chama atenção quando comparado ao registrado em março. Naquela ocasião, 56% afirmavam considerar sua escolha definitiva. A parcela aumentou 15 pontos percentuais ao longo do período, sinal de que a campanha chega a setembro com um eleitorado progressivamente mais consolidado.

Ainda assim, os 29% que admitem mudar de voto representam uma parcela suficientemente grande para influenciar o resultado. É justamente sobre esse grupo que debates, programas, entrevistas, propaganda eleitoral e acontecimentos das próximas semanas poderão exercer maior efeito.

O interesse pela eleição também permanece dividido. A pesquisa mostra que 37% dos entrevistados se consideram muito interessados na disputa, praticamente estáveis em relação aos 36% registrados na rodada de 14 de agosto. Outros 40% dizem estar pouco interessados, enquanto 22% afirmam não ter interesse.

Entre os independentes, grupo particularmente relevante para campanhas que tentam ampliar seus eleitorados para além das bases tradicionais, apenas 24% se declaram muito interessados, enquanto 33% afirmam não ter interesse na eleição. A dificuldade para os candidatos, portanto, não será apenas convencer indecisos, mas despertar atenção em uma parcela do eleitorado que acompanha a campanha de maneira distante.

Debates ainda podem ganhar peso até outubro

O fato de os debates aparecerem com 14%, bem abaixo das propostas, não significa que sua influência esteja definida até a eleição. Os confrontos televisivos funcionam justamente como um dos ambientes em que os candidatos são pressionados a explicar suas propostas, responder a adversários e demonstrar domínio sobre temas de governo.

Por isso, as duas categorias não são necessariamente concorrentes. Um eleitor pode considerar as propostas o elemento mais importante e utilizar o debate como instrumento para avaliá-las. Nas próximas semanas, erros, contradições ou respostas consideradas convincentes podem alterar tanto a percepção dos candidatos quanto a credibilidade de seus programas.

O mesmo raciocínio vale para a propaganda eleitoral. Apenas 3% dizem que rádio e televisão constituem o principal fator para definir o voto, mas a propaganda é um dos canais usados para apresentar justamente os temas que 45% afirmam considerar prioritários.

A reta final da campanha começa, portanto, com uma aparente contradição apenas superficial: o eleitor declara dar pouco peso ao instrumento de propaganda, mas grande importância ao conteúdo que as campanhas tentarão transmitir por meio dele.

Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro e eventual segundo turno previsto para 25 de outubro, a disputa entra em setembro com uma parcela majoritária dos eleitores dizendo que já decidiu seu voto, mas com quase três em cada dez ainda admitindo mudança. Para os candidatos, a pesquisa indica onde está uma das principais oportunidades de convencimento: menos dependência de padrinhos políticos, celebridades e slogans e maior pressão para explicar, de forma concreta, o que pretendem fazer caso cheguem ao Palácio do Planalto.

Fontes:

Quaest – pesquisa nacional sobre critérios de decisão do voto presidencial, realizada entre 30 de agosto e 1º de setembro de 2026 e registrada sob o número BR-07065/2026

Tribunal Superior Eleitoral – calendário e atos gerais das Eleições 2026, com primeiro turno em 4 de outubro e eventual segundo turno em 25 de outubro

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