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Rumo (RAIL3) pode subir 75% após acordo da Malha Oeste, diz BTG

Banco mantém recomendação de compra e preço-alvo de R$ 23 após aditivo limitar atuação da companhia à preservação dos ativos por até 180 dias.

por João Souza
02/07/2026 às 17h04
em Empresas
Rumo (Rail3) - Gazeta Mercantil

A Rumo (RAIL3) iniciou em 1º de julho uma nova etapa na devolução da concessão da Malha Oeste após o término do contrato, ocorrido em 30 de junho, e firmou com o governo federal um aditivo que limita sua atuação à preservação dos ativos por até 180 dias. O acordo, autorizado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), foi recebido de forma positiva pelo BTG Pactual, que manteve recomendação de compra para os papéis e preço-alvo de R$ 23, equivalente a uma valorização potencial de 74,6% sobre a cotação de R$ 13,17 utilizada como referência.

A leitura do banco é que o encerramento da concessão reduz um dos principais riscos regulatórios que ainda cercavam a tese de investimento da maior operadora ferroviária do país. Embora a Rumo permaneça temporariamente responsável pela estrutura, a companhia não realizará transporte de cargas nem ficará sujeita às obrigações econômicas usuais de uma concessão em plena operação.

Leia também: Reestruturação da Raízen (RAIZ4): credores podem assumir 90% da empresa em acordo bilionário.

O quinto termo aditivo estabelece um regime excepcional de transição, com duração inicial de até 180 dias e possibilidade de prorrogação mediante acordo entre as partes. Nesse intervalo, a responsabilidade da Rumo ficará concentrada na vigilância, preservação, manutenção mínima, monitoramento e guarda dos ativos ferroviários pertencentes à União.

O arranjo permite que o poder público prepare a transferência da infraestrutura sem interromper os cuidados essenciais com trilhos, estações, pátios, equipamentos e demais bens reversíveis. Para a Rumo, o formato reduz a exposição a despesas operacionais e compromissos regulatórios que poderiam continuar incidindo mesmo depois do vencimento formal do contrato.

Malha Oeste deixa de transportar cargas durante transição

A principal mudança prática é a suspensão dos serviços de transporte ferroviário na Malha Oeste. A partir do encerramento do contrato original, a ferrovia deixa de integrar a capacidade comercial da Rumo e passa a funcionar exclusivamente sob o regime de preservação determinado pelo aditivo.

Durante a transição, não haverá cobrança de outorga, arrendamento ou outros encargos associados à exploração regular da concessão. A Rumo também não terá obrigação de manter uma operação comercial mínima, captar cargas ou cumprir metas de produção ferroviária vinculadas ao contrato encerrado.

A diferença é relevante para a avaliação financeira da companhia. Em vez de continuar arcando com os custos de uma ferrovia de baixa utilização e elevada necessidade de investimentos, a Rumo prestará serviços específicos de conservação até que a União defina a destinação definitiva dos ativos.

As despesas realizadas pela companhia nesse período serão reconhecidas como créditos perante o poder concedente. Esses valores deverão ser incorporados ao encontro de contas entre a Rumo Malha Oeste e o governo federal, sem integrar o equilíbrio econômico-financeiro do contrato original.

O entendimento reduz o risco de a companhia absorver integralmente gastos que pertencem à administração federal depois do término da concessão. Ainda assim, o reconhecimento contábil e o momento de recebimento dos créditos dependerão da apuração e da validação pelos órgãos competentes.

Encontro de contas definirá créditos e passivos da concessão

A etapa mais sensível do processo será o encontro de contas entre a Rumo e a União. A apuração deverá reunir obrigações e direitos acumulados durante a concessão, incluindo investimentos realizados e ainda não amortizados, créditos reivindicados pela empresa, possíveis passivos regulatórios e despesas assumidas no regime de transição.

Também poderão entrar no cálculo pendências relacionadas à fiscalização da ANTT, ao estado de conservação dos ativos, à reversibilidade dos bens e a obrigações contratuais discutidas ao longo dos últimos anos. O resultado poderá indicar um saldo favorável à companhia, à União ou uma compensação entre valores de naturezas diferentes.

A Rumo informou não esperar impacto financeiro relevante em decorrência do aditivo. A avaliação, contudo, não elimina a necessidade de acompanhamento do processo, porque o montante final do encontro de contas ainda dependerá de análises técnicas, jurídicas, regulatórias e contábeis.

Para o BTG Pactual, o compromisso formal de realizar essa apuração representa uma evolução importante. A ausência de um procedimento claramente definido para encerrar a relação contratual mantinha aberta a possibilidade de disputas prolongadas, provisões adicionais e desembolsos não previstos.

A retirada dessa incerteza ajuda o mercado a separar a antiga concessão da operação que efetivamente sustenta os resultados da Rumo. A Malha Oeste havia perdido relevância econômica dentro do portfólio da companhia, mas continuava sendo observada como uma fonte potencial de passivos e conflitos regulatórios.

BTG mantém preço-alvo de R$ 23 para Rumo (RAIL3)

Com a transição encaminhada, o BTG Pactual manteve recomendação de compra para Rumo (RAIL3) e preço-alvo de R$ 23. Considerando a cotação de R$ 13,17 adotada na análise, o valor representa uma valorização potencial de aproximadamente 74,6%.

O preço-alvo não constitui garantia de retorno. Ele reflete as premissas do banco para crescimento de volumes, tarifas, custos operacionais, investimentos, geração de caixa, nível de endividamento e valor presente dos projetos ferroviários da companhia.

A ação era negociada perto de seis vezes o valor da empresa sobre o Ebitda projetado para 2026, múltiplo considerado atrativo pelo banco diante da escala operacional da Rumo e das perspectivas de expansão dos corredores que ligam o Centro-Oeste aos portos.

O EV/Ebitda compara o valor total de uma companhia, incluindo sua dívida líquida, com a geração operacional de caixa antes de juros, impostos, depreciação e amortização. Um múltiplo mais baixo pode indicar desconto, mas também pode refletir riscos operacionais, exigência elevada de capital e incertezas sobre os resultados futuros.

No caso da Rumo, o mercado acompanha a pressão sobre tarifas ferroviárias, a competição com o transporte rodoviário, a evolução das safras, o preço dos combustíveis e o ritmo de execução dos projetos de expansão. O custo de capital também exerce influência direta sobre a avaliação, porque ferrovias exigem investimentos elevados e possuem retorno de longo prazo.

Resultados operacionais sustentam tese de crescimento

A visão construtiva sobre Rumo (RAIL3) não depende apenas da saída da Malha Oeste. A tese está concentrada principalmente na recuperação dos volumes transportados, no aumento da capacidade logística e na ampliação da presença da empresa nos principais corredores de exportação de grãos.

No primeiro trimestre de 2026, o volume total transportado pela Rumo avançou 26% em relação ao mesmo período do ano anterior. A receita líquida alcançou aproximadamente R$ 3,3 bilhões, alta de 11%, enquanto o Ebitda ajustado chegou a R$ 1,745 bilhão, crescimento de 6,7%.

O lucro líquido ajustado somou R$ 266 milhões, avanço de 41,1% na comparação anual. O desempenho refletiu a normalização da participação da companhia nos mercados de origem e a maior movimentação de cargas nos corredores ferroviários utilizados para o escoamento da produção agrícola.

A expansão dos volumes compensou parcialmente a redução da tarifa média. Esse equilíbrio permanece entre os principais pontos observados pelos investidores: transportar mais carga aumenta a utilização dos ativos, mas preços menores podem limitar a conversão desse crescimento em margens e geração de caixa.

Outro fator relevante é o plano de investimentos. A Rumo projetou desembolsos entre R$ 5,5 bilhões e R$ 6,1 bilhões em 2026, destinados principalmente à expansão de capacidade, compra e modernização de equipamentos, manutenção da infraestrutura e avanço da Ferrovia Estadual de Mato Grosso.

A intensidade dos investimentos cria oportunidades de crescimento, mas também eleva o risco de execução. A companhia precisa entregar os projetos dentro do orçamento, manter sua disciplina financeira e transformar a nova capacidade em contratos e volumes suficientes para remunerar o capital empregado.

Expansão em Mato Grosso assume papel central na estratégia

A Ferrovia Estadual de Mato Grosso é um dos principais projetos da Rumo. A primeira fase amplia o alcance ferroviário a partir de Rondonópolis e busca aproximar a malha das regiões produtoras, reduzindo a distância percorrida por caminhões antes do embarque nos trens.

A estratégia pretende aumentar a competitividade do transporte ferroviário no escoamento de soja, milho e farelo. Ao deslocar o ponto de entrada da carga para áreas mais próximas da produção, a Rumo pode capturar novos volumes e reduzir custos logísticos para seus clientes.

O projeto também reforça a integração com o corredor que segue em direção ao Porto de Santos. Esse eixo concentra uma parcela relevante da operação da companhia e é determinante para a formação de tarifas, ocupação dos ativos e retorno dos investimentos realizados na expansão da rede.

Para os acionistas, a execução da ferrovia representa simultaneamente o principal vetor de crescimento e uma fonte de risco. A construção demanda capital elevado, licenciamento, desapropriações, coordenação com clientes e capacidade de operar volumes adicionais sem comprometer a eficiência da malha existente.

A Rumo afirmou que os investimentos de 2026 permanecerão dentro do intervalo informado e que não há, neste momento, desembolsos comprometidos para uma segunda fase do projeto. A decisão permite concentrar recursos na conclusão e no início da operação da etapa já contratada.

Nova concessão da Malha Oeste prevê até R$ 29 bilhões

Enquanto a Rumo encerra sua responsabilidade comercial sobre a Malha Oeste, o governo federal prepara uma nova concessão para o corredor ferroviário. O projeto aprovado pelo Ministério dos Transportes prevê investimentos de até R$ 29 bilhões ao longo de 57 anos.

A modelagem considera diferentes configurações para a futura licitação e parte da possibilidade de concessão integral da ferrovia. A Malha Oeste possui cerca de 1.625 quilômetros e conecta Mairinque, em São Paulo, a Corumbá, em Mato Grosso do Sul.

A infraestrutura é considerada estratégica para o transporte de minérios, celulose, produtos siderúrgicos e cargas agrícolas. O corredor também possui potencial de integração com a Bolívia e o Paraguai, além de conexões com a rede que dá acesso ao Porto de Santos.

O plano de outorga ainda precisa avançar pelas etapas de análise da ANTT e do Tribunal de Contas da União (TCU). O Ministério dos Transportes indicou a expectativa de publicar o edital em agosto, cronograma que dependerá da conclusão das avaliações regulatórias e de controle.

A atratividade do projeto estará ligada ao volume de investimentos exigido, às condições de financiamento, à demanda potencial por transporte e à participação do governo na recuperação da infraestrutura. Parte significativa da malha exige modernização antes de voltar a operar com maior capacidade e regularidade.

Fim da concessão desloca foco da Rumo para ativos de maior retorno

A conclusão da saída da Malha Oeste permite que o mercado concentre a análise da Rumo nos ativos responsáveis pela maior parcela de sua geração de caixa. Malha Norte, Malha Paulista, Malha Central e os projetos de expansão em Mato Grosso passam a ter peso ainda maior na avaliação de Rumo (RAIL3).

O aditivo não encerra imediatamente todas as obrigações relacionadas à antiga concessão. A empresa permanecerá responsável pela guarda e pela manutenção mínima dos ativos durante o período de transição, enquanto o encontro de contas continuará sujeito à análise dos órgãos públicos.

Ainda assim, o formato reduz a probabilidade de a Rumo precisar sustentar uma operação ferroviária deficitária após o vencimento do contrato. Também cria uma base formal para o reconhecimento dos gastos realizados em nome da preservação do patrimônio federal.

Para o BTG Pactual, a combinação entre retirada do risco regulatório, múltiplo descontado e expansão dos corredores de maior produtividade sustenta a recomendação de compra. A materialização do potencial de valorização dependerá, porém, do crescimento dos resultados, do controle do capex e da capacidade de converter os novos projetos em geração de caixa.

A Malha Oeste deixa, portanto, de ser um ativo operacional da Rumo, mas continuará no radar até a conclusão do encontro de contas. O desfecho financeiro da devolução e o avanço da nova concessão determinarão quando a companhia poderá considerar definitivamente encerrado um dos capítulos regulatórios mais prolongados de seu portfólio.

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