O Santander mantém recomendação de compra para 3tentos (TTEN3) e MBRF (MBRF3), duas empresas expostas a segmentos diferentes do agronegócio brasileiro, mesmo após um segundo trimestre marcado por pressão sobre margens, aumento de endividamento e maior necessidade de capital de giro. Os documentos mais recentes das companhias mostram que as teses de investimento dependem agora menos de crescimento de receita e mais da capacidade de converter expansão operacional em caixa e rentabilidade.
Na 3tentos, a página de relações com investidores registra recomendação de compra do Santander e preço-alvo de R$ 26,60, atualizado em 29 de julho. É o maior preço-alvo entre as instituições relacionadas pela companhia. O consenso disponível no mesmo levantamento reúne 11 recomendações de compra, nenhuma neutra ou de venda, com preço-alvo médio de R$ 21,78.
A MBRF apresenta quadro menos uniforme entre os analistas. Dos 15 bancos e corretoras relacionados pela própria companhia para 2026, 40% recomendam compra, 53% estão neutros e 7% indicam venda. O Santander, por meio da analista Laura Hirata, aparece no grupo que recomenda a aquisição das ações.
A diferença entre as duas estruturas de cobertura ajuda a explicar o caráter seletivo da visão sobre o setor. Na 3tentos, o mercado acompanha uma empresa em processo acelerado de expansão geográfica e industrial. Na MBRF, o foco está na integração dos negócios, na geração de caixa, no ciclo da carne bovina nos Estados Unidos e na redução da dívida.
Receita da 3tentos cresce, mas rentabilidade sofre forte compressão
O segundo trimestre mostrou claramente essa combinação de expansão e pressão operacional na 3tentos. A receita líquida chegou a R$ 4,7 bilhões, com crescimento de 31,9% sobre o mesmo período de 2025. O avanço foi puxado principalmente pelos negócios de grãos e insumos, beneficiados pela maior originação de soja, expansão da rede e crescimento das operações em novos estados.
O desempenho das margens seguiu caminho diferente. O EBITDA ajustado com hedge ficou em R$ 78,7 milhões no trimestre, queda de 64,3% na comparação anual. A margem correspondente recuou de 6,2% para 1,7%. O lucro líquido ajustado caiu 86,3%, para R$ 14,4 milhões.
A indústria foi o principal ponto de pressão. A companhia informou que a receita industrial alcançou R$ 2,01 bilhões, alta de 4,7%, mas o lucro bruto ajustado do segmento caiu 41,2%, para R$ 244,8 milhões. A margem recuou de 21,7% para 12,2%.
Entre os fatores registrados pela própria 3tentos estão a queda dos preços do farelo de soja e do biodiesel. O preço do farelo caiu 12% na comparação anual e o do biodiesel recuou 3%. Os maiores volumes compensaram essa retração na receita, mas não impediram a deterioração da rentabilidade industrial.
A empresa também atravessa um período de aumento de capacidade. A primeira fábrica de etanol de milho, instalada no Vale do Araguaia, em Mato Grosso, começou a operar durante o segundo trimestre e encerrou o período utilizando cerca de 80% da capacidade diária. Ao mesmo tempo, plantas de processamento de soja e produção de biodiesel passaram por expansões.
Esse processo cria um ponto relevante para os próximos balanços: o crescimento da capacidade instalada precisa ser acompanhado por maior utilização dos ativos e recuperação das margens. Caso contrário, a expansão pode elevar a necessidade de capital antes de produzir retorno proporcional.
Canola ganha peso dentro da estratégia da 3tentos
A canola aparece como uma das frentes que podem modificar essa equação. A 3tentos afirma ter alcançado participação equivalente a aproximadamente 25% da área cultivada com a oleaginosa no Rio Grande do Sul por meio da venda de insumos.
Os dados da Companhia Nacional de Abastecimento confirmam a expansão estrutural da cultura, embora as estatísticas oficiais mais recentes exijam cautela com percentuais divulgados isoladamente. Em maio, a Conab estimava 276,8 mil hectares de canola no Brasil em 2026, crescimento de 30,6% sobre os 211,9 mil hectares do ciclo anterior.
Em janeiro, a estatal havia projetado uma expansão ainda maior para a cultura, sustentada pela liquidez e pelos preços pagos aos produtores. À medida que a safra avançou, as projeções foram ajustadas, movimento normal nos levantamentos agrícolas.
No boletim de junho, a Conab destacou que a canola mantém boa liquidez e é impulsionada pela demanda industrial para produção de óleos e biodiesel. No Paraná, por exemplo, o órgão avaliou que a ampliação da área representa uma consolidação gradual da cultura dentro do portfólio de inverno.
Para a 3tentos, a oportunidade vai além da venda de sementes, fertilizantes e defensivos. A companhia opera uma estrutura verticalizada que começa no fornecimento de insumos, passa pela originação do grão e chega ao processamento industrial.
No segundo trimestre, a receita do segmento de insumos atingiu R$ 487,3 milhões, alta de 24,6%. O lucro bruto ajustado da divisão avançou 35%, para R$ 96,3 milhões, enquanto a margem aumentou de 18,2% para 19,8%.
Esse desempenho contrasta com a deterioração da indústria e mostra por que a diversificação das operações tem relevância para a tese da ação. Enquanto um segmento enfrenta margens menores, outro pode absorver parte da volatilidade.
MBRF cresce, mas dívida líquida chega a R$ 45 bilhões
Na MBRF, o principal desafio é diferente. A companhia encerrou o segundo trimestre com receita líquida consolidada de R$ 40,72 bilhões, crescimento de 4,9% sobre os R$ 38,8 bilhões registrados um ano antes.
O EBITDA ajustado aumentou 5,4%, de R$ 3,039 bilhões para R$ 3,203 bilhões, e a margem ficou praticamente estável, passando de 7,8% para 7,9%. O lucro líquido foi de R$ 69 milhões.
A unidade originada da BRF continuou representando uma parcela importante do resultado. A receita líquida desse negócio ficou em R$ 15,43 bilhões, enquanto o EBITDA ajustado alcançou R$ 2,596 bilhões. A margem avançou de 16,4% para 16,8%.
A operação bovina na América do Sul também apresentou expansão. A receita passou de R$ 5,055 bilhões no segundo trimestre de 2025 para R$ 6,389 bilhões no mesmo período de 2026, alta de 26,4%. O EBITDA ajustado aumentou 22,1%, para R$ 570 milhões.
Nos Estados Unidos, entretanto, a escassez de gado continua pressionando a atividade. A própria companhia informou que o volume maior, favorecido pelo aumento do peso médio das carcaças, compensou apenas parcialmente a menor disponibilidade de animais. O negócio norte-americano operou com margem EBITDA ajustada de apenas 0,7%.
Esse contraste entre geografias é central para avaliar a companhia. A diversificação reduz a dependência de um único ciclo pecuário, mas não elimina o efeito que uma deterioração prolongada do mercado americano pode produzir sobre resultados e geração de caixa.
Capital de giro passa a ser peça-chave para a MBRF
O balanço também mostra por que a desalavancagem ocupa posição central na avaliação da MBRF.
A dívida líquida terminou junho em R$ 45,008 bilhões, alta de 2,4% em relação ao trimestre anterior. A relação entre dívida líquida e EBITDA ajustado dos últimos 12 meses ficou em 3,41 vezes, ante 3,37 vezes no primeiro trimestre.
O caixa operacional alcançou R$ 2,168 bilhões, mas os investimentos, despesas financeiras e outros desembolsos levaram o fluxo de caixa livre a resultado negativo de R$ 864 milhões.
Parte importante dessa pressão está no capital de giro. Estoques e ativos biológicos consumiram R$ 1,6 bilhão no primeiro semestre. A administração declarou como meta reverter integralmente esse efeito durante a segunda metade de 2026.
O estoque passou de R$ 12,441 bilhões no fim de 2025 para R$ 13,432 bilhões em junho. Os ativos biológicos aumentaram de R$ 3,440 bilhões para R$ 4,031 bilhões no mesmo intervalo.
Se essa reversão ocorrer, a liberação de recursos pode melhorar a geração de caixa e criar condições para redução da dívida. Caso os estoques permaneçam elevados ou a recuperação operacional dos negócios de carne bovina demore mais que o esperado, a alavancagem continuará sendo um elemento de risco.
A integração dos negócios também começa a produzir efeitos mensuráveis. A MBRF informou captura de R$ 158 milhões em sinergias no trimestre, além de R$ 328 milhões provenientes do programa interno de eficiência MBRF+. Esses ganhos precisam continuar crescendo para compensar pressões externas sobre matérias-primas e ciclos pecuários.
Recomendações dependem de execução, não apenas de preço das ações
Os números mostram que as recomendações de compra não equivalem a uma avaliação de ausência de riscos. Na 3tentos, a questão central é recuperar rentabilidade industrial depois de um trimestre em que o EBITDA ajustado caiu mais de 60%, apesar do avanço expressivo das receitas.
Na MBRF, a prioridade é transformar desempenho operacional em caixa suficiente para reduzir uma dívida líquida de R$ 45 bilhões e evitar que a alavancagem permaneça em trajetória ascendente.
Há, ao mesmo tempo, vetores que podem fortalecer as duas teses. A expansão da canola aumenta o universo de produtos e serviços para a 3tentos. A entrada do etanol de milho adiciona uma nova frente industrial. Na MBRF, a normalização do capital de giro, a expansão das sinergias e uma eventual melhora do ciclo bovino americano podem alterar a geração de caixa.
Por isso, o desempenho das ações dependerá menos de uma recuperação genérica do agronegócio e mais da capacidade das empresas de entregar resultados específicos. Para a 3tentos, os próximos balanços deverão mostrar se as novas plantas conseguem elevar utilização e reconstruir margens. Para a MBRF, a principal evidência será a reversão do capital de giro no segundo semestre e seu efeito concreto sobre dívida líquida e alavancagem.










