A Saraiva, maior rede de livrarias do Brasil durante mais de uma década, encerrou 109 anos de operação contínua com a falência decretada pela Justiça de São Paulo em 6 de outubro de 2023, com dívida informada de R$ 675 milhões. O pedido foi de autofalência, apresentado pela própria companhia dois dias antes, após o fechamento das cinco últimas lojas físicas em 20 de setembro e a demissão dos funcionários da operação presencial, mantendo apenas o comércio eletrônico por poucos dias.
Segundo a decisão da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Capital, o juiz Paulo Furtado de Oliveira Filho reconheceu o descumprimento do plano de recuperação judicial e determinou a suspensão de ações e execuções contra a falida e a apresentação da relação de credores. De acordo com a magistratura paulista, embora a empresa tenha alegado cumprir os documentos exigidos pelo artigo 105 da Lei 11.101 de 2005, já havia nos autos notícia de descumprimento do plano, o que determina, por força do artigo 73, inciso IV, a convolação da recuperação em falência, independentemente da vontade das devedoras.
De acordo com a empresa, a RSM Brasil Auditores Independentes deixou de prestar serviços de auditoria independente no mesmo período, e o então diretor-presidente e diretor de Relações com Investidores, Jorge Saraiva Neto, e o vice-presidente Oscar Pessoa Filho renunciaram aos cargos em 22 e 23 de setembro de 2023, às vésperas do encerramento definitivo.
De Livraria Acadêmica em 1914 à maior rede com 100 lojas
A Saraiva foi fundada em 13 de dezembro de 1914 pelo imigrante português Joaquim Ignácio da Fonseca Saraiva, de Trás-os-Montes, no centro da cidade de São Paulo. Segundo registros históricos da companhia e da enciclopédia colaborativa Wikipédia, a primeira sede ficava no Largo do Ouvidor, próxima à Faculdade de Direito de São Paulo, e operava sob o nome comercial de Livraria Acadêmica, o que levou à especialização inicial em títulos jurídicos.
Em 1947, a empresa se transformou em sociedade anônima e passou a se chamar Saraiva S.A. Livreiros Editores. Em 1972, tornou-se companhia aberta. Nos anos 1970, foi inaugurada a segunda livraria, na Praça da Sé, unidade que resistiu até o fechamento final em 2023. Nos anos 1980, a companhia investiu em distribuição e iniciou expansão em shoppings, com o formato de megastores. Em 1998, inaugurou seu comércio eletrônico, uma das primeiras lojas online do país, e adquiriu a Editora Atual, ampliando atuação em livros didáticos.
Conforme a Wikipédia, em 6 de março de 2008 a empresa comprou a totalidade das ações da Livraria Siciliano por R$ 60,03 milhões, somando às suas 36 lojas mais 63 unidades em 14 estados, provenientes da rede Siciliano. De acordo com o portal de tecnologia Tecnoblog, a operação fez a Saraiva deter cerca de 20% do mercado livreiro nacional no período.
O tamanho que fortaleceu a marca também elevou despesas fixas com aluguéis em shopping centers, folha de pagamento, estoques em consignação, logística e tecnologia. Segundo a própria companhia, em comunicados divulgados à época da recuperação, os negócios começaram a perder ritmo a partir de 2014, com estagnação da economia, impacto da greve dos caminhoneiros e da Copa do Mundo de 2018, desabastecimento de fornecedores de telefonia e tecnologia e problemas na implementação de novo sistema interno de gestão.
Recuperação judicial de 2018 não conteve queda de receita e fechamento de lojas
A Saraiva entrou com pedido de recuperação judicial em 23 de novembro de 2018, com dívida declarada de R$ 674 milhões, valor frequentemente arredondado para R$ 675 milhões nas decisões judiciais. Segundo a Justiça de São Paulo, o pedido foi aberto pela Saraiva e Siciliano S.A. e pela Saraiva Livreiros S.A. perante a 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo e foi concedido em 26 de novembro de 2018.
De acordo com o Tribunal de Justiça de São Paulo, o plano de recuperação judicial foi aprovado por maioria dos credores em Assembleia-Geral ocorrida em 29 de agosto de 2019 e previa reorganização da estrutura com adoção de processos gerenciais e reestruturação do passivo conforme cada classe de credor.
A execução do plano, contudo, coincidiu com agravamento da crise do varejo de livros. Em outubro de 2018, ainda antes do deferimento, a empresa fechou 20 lojas em um único dia, restando 84 unidades. Segundo levantamento da Wikipédia baseado em relatórios mensais de atividades, a rede fechou 36 unidades entre março e novembro de 2020 e teve queda de 75% na receita do grupo em 2020 na comparação com o ano anterior, ficando com 39 lojas físicas mais o ambiente virtual. A companhia passou a enfrentar ações de editoras pedindo devolução de livros em consignação nas lojas fechadas.
Em 2022, a Saraiva aprovou junto a parte dos credores a conversão de R$ 163 milhões de dívida em ações, com capital pulverizado na bolsa, e passou a ter dívida inferior a R$ 300 milhões. Conforme o Tecnoblog, a empresa informou ter obtido o primeiro resultado financeiro positivo em anos, com 34 lojas, número inferior às 113 unidades existentes no início de 2017, antes do pedido de recuperação. A melhora não se sustentou.
Segundo a empresa, em maio de 2023 ainda havia seis lojas e 321 empregados, conforme relatório mensal de atividades. Em setembro, restavam cinco.
Últimas cinco lojas fecharam em setembro de 2023 e deram lugar a leilão do site em 2025
As últimas unidades encerradas em 20 de setembro de 2023 estavam concentradas em quatro pontos no estado de São Paulo e um no Mato Grosso do Sul. De acordo com comunicados de shopping centers e com o portal E-Commerce Brasil, eram as lojas da Praça da Sé, no centro da capital, segunda inaugurada pela empresa nos anos 1970, do Shopping Aricanduva, também na capital, do JundiaíShopping, em Jundiaí, do Novo Shopping, em Ribeirão Preto, e do Shopping Bosque dos Ipês, em Campo Grande.
Conforme a rede, cerca de 150 funcionários de lojas, centros de distribuição e setores administrativos foram demitidos naquela semana, após comunicado da área de Recursos Humanos informando que o próprio departamento só permaneceria até 21 de setembro. No site, o link para Nossas Lojas passou a redirecionar para a página de Mais Vendidos.
A decisão de manter apenas o comércio eletrônico não gerou caixa suficiente. Segundo a TMA Brasil, associação de profissionais de reestruturação, o anúncio de fechamento ocorreu duas semanas antes do pedido de autofalência. Em comunicado ao mercado, a companhia informou que o pedido foi protocolado nos autos da recuperação judicial e que a continuidade exclusiva no online não reverteria a insolvência.
De acordo com a Justiça de São Paulo, com a falência decretada, os bens remanescentes passaram a ser geridos por administrador judicial para venda em leilões e pagamento de credores conforme ordem legal, com prioridade para dívidas trabalhistas, seguida de créditos com garantia real, tributários e quirografários. O processo tramita sob o número 1119642-14.2018.8.26.0100.
O fim da operação física não encerrou os desdobramentos patrimoniais. Segundo o portal PublishNews, em 26 de fevereiro de 2025 o domínio saraiva.com.br foi colocado a leilão após a URL não ter sido renovada no Registro.br, órgão brasileiro de controle de domínios. A informação indica a dispersão final de ativos intangíveis da massa falida.
Crise combina aluguel alto, consignação e avanço do comércio eletrônico
A falência da Saraiva ocorre em um contexto de transformação profunda do mercado livreiro brasileiro. De acordo com análise do Tecnoblog, livrarias de grande porte apontaram fatores como preços praticados por plataformas de comércio eletrônico, crise econômica, defasagem de preços de livros e baixo hábito de leitura, mas a causa principal estaria relacionada a falha de gestão, modelo baseado em megastores em shoppings com custo fixo elevado e dependência de consignação.
No modelo de consignação, editoras entregam livros e só recebem após a venda, com acerto em 120 dias, o que pressiona capital de giro das fornecedoras quando há atraso. Segundo relato de editores ouvidos pelo Tecnoblog, a Saraiva passou a apresentar atrasos, sumiço de estoque e dificuldade de acerto, levando editoras a suspender fornecimento ou exigir compra firme.
Conforme o mesmo portal, a Amazon, que entrou de forma mais agressiva no Brasil a partir de 2014, passou a comprar lotes em vez de consignar, oferecendo pagamento em 60 a 90 dias e antecipação de recebíveis com taxas menores que as de mercado, além de logística própria. De acordo com o cofundador da editora Antofágica, Daniel Lameira, em entrevista citada pelo Tecnoblog, para o mercado editorial era melhor destinar 60% do valor do livro para a plataforma e receber corretamente do que manter consignação com risco de não recebimento.
Segundo a Wikipédia, a Saraiva chegou a ser acusada em 2012, conforme reportagem da revista IstoÉ Dinheiro, de dificultar entrada da Amazon ao usar poder sobre editoras, acusação negada à época pelo então presidente-executivo Marcílio Pousada. A disputa ilustra a mudança de poder de barganha no setor.
Além da concorrência digital, o setor de livrarias físicas enfrentou queda de venda de categorias que sustentavam receita de megastores, como eletrônicos, games, CDs e DVDs, migradas para varejistas especializados e marketplaces. A combinação de aluguel atrelado a shopping, folha extensa e estoque alto tornou a operação vulnerável a qualquer desaceleração de consumo.
Impacto para trabalhadores, credores e mercado editorial
De acordo com o Sindicato dos Comerciários de Porto Alegre, o Sindec-POA, as duas últimas lojas da rede no Rio Grande do Sul encerraram atividades afetando 22 comerciários e o sindicato entrou com pedido de execução de rescisão para cobrar parcelas devidas. Segundo a entidade, com a decretação de falência, os créditos trabalhistas passaram a ser definidos pela Justiça do Trabalho por meio do processo de massa falida, onde trabalhadores têm prioridade legal no recebimento.
Para editoras, o impacto foi duplo. De um lado, a perda de canal de exposição para lançamentos, sessões de autógrafos e leitura presencial, presente na formação de diferentes gerações. De outro, a necessidade de renegociar consignações e habilitar novos canais, incluindo livrarias independentes, redes menores e plataformas digitais. O mercado livreiro brasileiro continuou operando após a falência, mas sem uma estrutura centenária que concentrava parte relevante da venda física.
Para credores, a conversão da recuperação em falência significou a liquidação de ativos para pagamento conforme ordem legal. Segundo a TMA Brasil, a decisão reconheceu descumprimento do plano e suspendeu ações e execuções contra a falida, centralizando habilitações no juízo universal.
Próximos desdobramentos envolvem liquidação de ativos e leilão de marca
Com a falência decretada, o administrador judicial permanece responsável por identificar, arrecadar e alienar bens, incluindo estoques remanescentes, mobiliário, equipamentos e direitos de propriedade intelectual. De acordo com o Tribunal de Justiça de São Paulo, a relação de credores deve ser apresentada e atualizada no curso do processo falimentar.
A venda do domínio em 2025 indica que a massa falida ainda busca monetizar ativos digitais. Não há previsão de retorno da rede física. O caso da Saraiva passou a ser citado em estudos de reestruturação como exemplo de dificuldade de adaptação de varejo de grande área à transformação digital, ao lado do processo da Livraria Cultura, que também entrou em recuperação judicial em 2018.
O encerramento de uma empresa fundada em 1914 não significou o fim do mercado de livros, mas marcou o fim de um modelo baseado em megastores ancoradas em shopping centers e em consignação como principal forma de abastecimento. A trajetória de expansão via compra da Siciliano em 2008, que levou a rede a cerca de 100 lojas, elevou escala e custos fixos que não foram compensados por receitas digitais suficientes para sustentar operação durante a recuperação.








