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Fundos para empresas em crise superam private equity em capital disponível no Brasil

Veículos de special situations acumulam R$ 17,4 bilhões para investir, enquanto juros elevados, inadimplência e recuperações judiciais ampliam a oferta de ativos estressados.

por Camila Braga
28/08/2026 às 18h03
em Mercados
Fundos Para Empresas Em Crise Superam Private Equity Em Capital Disponível No Brasil - Gazeta Mercantil - Mercados

O mercado brasileiro de investimentos privados atravessa uma mudança que ajuda a revelar o grau de pressão financeira sobre as empresas. Pela primeira vez, os fundos especializados em special situations passaram a ter mais dinheiro disponível para novos investimentos do que os fundos tradicionais de private equity, invertendo uma relação que durante anos favoreceu estratégias voltadas à aquisição e ao crescimento de companhias.

Levantamento da Spectra aponta que os fundos de special situations acumulavam R$ 17,4 bilhões em recursos ainda disponíveis para investir em junho de 2026, contra R$ 14,6 bilhões dos veículos de private equity. A diferença de R$ 2,8 bilhões pode parecer pequena diante do tamanho do mercado de capitais, mas representa uma transformação relevante na forma como investidores profissionais enxergam as oportunidades no país.

Enquanto o private equity tradicional procura empresas com potencial de expansão, ganho de eficiência e valorização ao longo de alguns anos, as estratégias de special situations operam justamente onde existem situações mais complexas: companhias endividadas, créditos problemáticos, ativos depreciados, recuperações judiciais, renegociação de passivos e estruturas financeiras que precisam ser reorganizadas.

O dinheiro, portanto, não desapareceu. Ele mudou de endereço.

E os indicadores mais recentes mostram por quê.

Mais de 9,1 milhões de empresas estão inadimplentes

A pressão financeira sobre o setor empresarial continuou aumentando no primeiro semestre.

Dados divulgados pela Serasa Experian mostram que o Brasil encerrou junho de 2026 com mais de 9,1 milhões de empresas inadimplentes, novo recorde da série histórica. O estoque de dívidas negativadas chegou a R$ 232,9 bilhões.

Em média, cada empresa inadimplente acumulava 7,3 compromissos em atraso, com dívida média de aproximadamente R$ 25,5 mil por CNPJ.

O dado de junho torna o quadro ainda mais severo do que aquele observado apenas um mês antes. Em maio, eram pouco mais de 9 milhões de empresas negativadas, com R$ 229,9 bilhões em dívidas.

Isso significa que, em apenas um mês, aproximadamente R$ 3 bilhões foram adicionados ao estoque de débitos empresariais negativados.

A deterioração não ocorre de maneira isolada. Ela combina um longo período de juros elevados, restrições na concessão de crédito, menor capacidade de refinanciamento e dificuldade de recomposição do capital de giro.

Empresas conseguem conviver durante algum tempo com margens menores ou crescimento mais lento. O problema surge quando o custo financeiro começa a consumir continuamente o caixa necessário para manter estoques, pagar fornecedores, investir ou simplesmente refinanciar dívidas que estão vencendo.

É nesse estágio que situações originalmente classificadas como problemas de liquidez podem evoluir para dificuldades estruturais.

Crédito às empresas continua custando mais de 25% ao ano

Mesmo com a redução da taxa básica de juros em relação ao pico recente, a transmissão dessa queda para o crédito empresarial é lenta.

Segundo o Banco Central, a taxa média das novas operações de crédito com recursos livres para pessoas jurídicas ficou em 25,2% ao ano em maio.

O número é particularmente relevante porque representa o custo efetivamente observado nas novas concessões realizadas pelo sistema financeiro, e não apenas a Selic definida pelo Comitê de Política Monetária.

A diferença ajuda a explicar por que a redução da taxa básica não produz imediatamente uma melhora equivalente nas condições financeiras das empresas.

A Selic funciona como referência para o custo do dinheiro na economia, mas o financiamento empresarial incorpora outros componentes, como risco de crédito, inadimplência, custo de captação dos bancos, prazo da operação, garantias disponíveis e margem financeira das instituições.

Em maio, o Banco Central registrou inclusive aumento de 0,3 ponto percentual na taxa média do crédito livre às empresas em relação ao mês anterior.

O resultado mostra que é possível haver redução da taxa básica e, ao mesmo tempo, manutenção de condições financeiras bastante restritivas para determinadas companhias.

Essa diferença é fundamental para entender o avanço dos fundos especializados em situações especiais.

Dívida barata virou dívida cara

Uma empresa que contratou financiamento em um ciclo de juros baixos pode descobrir, no momento de renovar essa dívida, que a operação deixou de ser economicamente sustentável.

O impacto não aparece necessariamente de uma vez. Ele ocorre progressivamente no balanço.

Uma dívida de R$ 10 milhões remunerada a 10% ao ano produz aproximadamente R$ 1 milhão de juros em doze meses, desconsiderando amortizações e efeitos compostos. Se o custo financeiro sobe para 25%, a despesa passa para aproximadamente R$ 2,5 milhões.

A diferença precisa sair da geração operacional de caixa.

Quando isso acontece simultaneamente com desaceleração das vendas, custos maiores ou menor acesso a linhas bancárias, o problema pode rapidamente deixar de ser apenas financeiro.

Investimentos são adiados, expansão é suspensa, fornecedores passam a receber mais tarde e ativos podem ser colocados à venda.

É justamente nesse momento que investidores com capital flexível conseguem estruturar operações que dificilmente seriam realizadas por bancos tradicionais ou por fundos de private equity convencionais.

Recuperações judiciais atingiram recorde

Outro indicador reforça esse movimento.

A Serasa Experian identificou 2.466 empresas envolvidas em recuperações judiciais durante 2025, maior número já registrado pela série histórica da instituição e aproximadamente 13% acima do ano anterior.

Foram 977 processos de recuperação judicial no período.

A diferença entre quantidade de processos e número de empresas ocorre porque uma mesma recuperação pode envolver diferentes CNPJs de um grupo econômico.

O aumento das recuperações cria um universo crescente de ativos, créditos e empresas que precisam de capital especializado.

Recuperação judicial não significa necessariamente que uma companhia deixou de ser economicamente viável.

Em muitos casos, a operação continua gerando receita, possui clientes, ativos, marcas e capacidade produtiva, mas a estrutura financeira construída anteriormente tornou-se incompatível com o caixa disponível.

É essa diferença entre empresa operacionalmente saudável e balanço financeiramente deteriorado que pode criar oportunidades para investidores especializados.

O que os fundos de special situations compram

A expressão special situations engloba estratégias bastante diferentes.

A própria Spectra já descreveu esse universo como formado por operações que podem incluir crédito estruturado, participações em empresas estressadas, estratégias de loan-to-own, financiamento DIP para companhias em recuperação judicial, aquisição de créditos inadimplentes e direitos decorrentes de disputas judiciais.

Em uma operação de crédito estruturado, por exemplo, o investidor pode fornecer dinheiro para uma empresa que encontra dificuldade em acessar bancos tradicionais, exigindo em contrapartida garantias, remuneração elevada e condições específicas de proteção.

Em outros casos, um fundo pode comprar dívidas de uma empresa com desconto, apostar na recuperação parcial do crédito e participar posteriormente de uma reestruturação.

Também existem estratégias nas quais o investimento pode resultar em participação societária ou até controle de ativos.

O denominador comum é a complexidade.

Quanto maior a dificuldade para avaliar o ativo, estruturar garantias, negociar com credores ou compreender a situação jurídica de uma empresa, menor tende a ser a quantidade de investidores capazes de participar da operação.

É justamente essa ineficiência que esses fundos procuram transformar em retorno.

Número de gestores especializados cresceu

O desenvolvimento dessa indústria não ocorreu apenas pelo aumento do capital disponível.

O levantamento da Spectra mostra também uma expansão significativa na quantidade de gestores que trabalham com situações especiais no Brasil.

Em 2015, eram apenas cinco. Em 2026, o número chegou a 57.

A transformação ocorreu paralelamente a um período particularmente turbulento para as empresas brasileiras, marcado por recessões, pandemia, aumento de juros e crescimento das reestruturações financeiras.

Para os investidores, esse histórico criou equipes mais especializadas em analisar empresas sob pressão.

Mas o aumento da quantidade de dinheiro e gestores também introduz um novo problema: competição.

Se muitos fundos perseguirem simultaneamente os mesmos créditos, empresas e recuperações judiciais, os preços desses ativos podem subir e reduzir os retornos potenciais.

Nesse sentido, o crescimento da indústria depende não apenas da disponibilidade de capital, mas também da capacidade de encontrar operações suficientemente rentáveis.

Private equity enfrenta ambiente mais difícil

A inversão entre os dois segmentos também revela mudanças do outro lado do mercado.

Fundos de private equity normalmente compram participações em empresas esperando valorizá-las por meio de crescimento, aquisições, profissionalização da gestão ou aumento da eficiência.

Para que esse modelo funcione, existe um componente essencial: a saída do investimento.

Ela pode ocorrer por venda para outra empresa, negociação com outro fundo ou oferta pública de ações.

Quando as condições financeiras se deterioram, essas saídas tendem a ficar mais difíceis.

Juros altos também aumentam a taxa de retorno exigida pelos investidores. Se títulos públicos oferecem remuneração elevada com risco relativamente baixo, comprar uma participação em uma empresa exige perspectiva de retorno significativamente superior para compensar a iliquidez e os riscos do negócio.

A consequência é uma seleção mais rigorosa dos investimentos.

O capital continua existindo, mas o preço que uma empresa precisa pagar — direta ou indiretamente — para obtê-lo aumenta.

A mudança do capital revela uma economia sob pressão

A diferença entre os R$ 17,4 bilhões disponíveis nos fundos de special situations e os R$ 14,6 bilhões dos fundos de private equity não deve ser interpretada isoladamente como sinal de crise.

O amadurecimento de mercados de crédito estruturado e ativos alternativos é natural em sistemas financeiros mais sofisticados.

Esses fundos podem inclusive desempenhar papel importante na recuperação de empresas que continuariam viáveis se conseguissem reorganizar seus passivos.

O sinal econômico aparece quando esse crescimento é analisado junto com os demais indicadores.

Mais de 9,1 milhões de empresas inadimplentes. R$ 232,9 bilhões em dívidas negativadas. Crédito livre empresarial acima de 25% ao ano. E recorde de companhias envolvidas em recuperações judiciais.

Vistos em conjunto, os números mostram que uma parcela significativa do setor produtivo atravessa um período de forte pressão financeira.

Há alguns anos, parte relevante do capital alternativo procurava principalmente companhias capazes de acelerar crescimento.

Agora, volumes crescentes estão preparados para encontrar empresas que precisam reorganizar dívidas, vender ativos ou reconstruir o próprio balanço.

Essa talvez seja a principal mensagem produzida pela inversão entre special situations e private equity: o mercado ainda dispõe de dinheiro, mas mudou o tipo de empresa para a qual uma parcela desse capital está olhando.

O próximo teste será determinar se a redução gradual dos juros conseguirá devolver espaço ao financiamento tradicional e aos investimentos de expansão ou se o estoque elevado de endividamento continuará alimentando o mercado de ativos estressados ao longo de 2027.

Fontes:

Banco Central do Brasil — Estatísticas monetárias e de crédito

Banco Central do Brasil — Série de juros das operações de crédito livre para pessoas jurídicas

Serasa Experian — Indicador de inadimplência das empresas, junho de 2026

Serasa Experian — Indicador de falências e recuperações judiciais

Spectra Investments — Estudos sobre investimentos alternativos e special situations

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