As taxas dos contratos de Depósitos Interfinanceiros (DIs) encerraram esta quinta-feira (25) sem direção única, refletindo dois vetores distintos que movimentaram o mercado ao longo do dia. A divulgação do IPCA-15 de junho abaixo das expectativas levou investidores a ampliar as apostas em um novo corte de 0,25 ponto percentual da taxa Selic na reunião de agosto do Comitê de Política Monetária (Copom). No entanto, declarações do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e do diretor de Política Econômica, Paulo Picchetti, reduziram parte desse entusiasmo ao reforçarem que a autoridade monetária não pretende antecipar os próximos passos da política de juros.
A combinação entre uma inflação mais favorável e uma comunicação cautelosa do Banco Central produziu um movimento de inclinação da curva de juros. Enquanto os vencimentos mais curtos encerraram o pregão em queda, os contratos de prazo mais longo inverteram a tendência observada pela manhã e fecharam em alta.
No encerramento dos negócios, o DI com vencimento em janeiro de 2028 recuava para 14,24%, oito pontos-base abaixo do ajuste anterior. Já o contrato para janeiro de 2035 avançava para 14,30%, alta de nove pontos-base na comparação com a sessão precedente.
IPCA-15 fortalece expectativa de inflação menos pressionada
O principal fator de alívio para o mercado foi a divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), considerado a prévia oficial da inflação brasileira.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o indicador avançou 0,41% em junho, desacelerando em relação à alta de 0,62% registrada em maio. O resultado também ficou abaixo da expectativa mediana dos economistas consultados, que projetavam avanço de 0,44%.
Além do resultado agregado mais favorável, a composição do índice também foi considerada positiva pelos agentes financeiros.
Entre os principais componentes acompanhados pelo mercado, os serviços subjacentes — considerados importantes por refletirem a dinâmica mais estrutural da inflação — desaceleraram de 0,53% para 0,27%, segundo levantamento do Banco Bmg.
Os serviços intensivos em mão de obra também perderam força, passando de alta de 0,60% em maio para 0,50% em junho. Já a inflação do setor de serviços como um todo caiu de 0,48% para 0,40%.
Outro indicador acompanhado de perto pelo Banco Central foi a média dos núcleos de inflação, que desacelerou de 0,48% para 0,34%, sinalizando uma disseminação menor das pressões inflacionárias.
Esse conjunto de indicadores reforçou a percepção de que o processo de desinflação continua avançando, ainda que em ritmo gradual.
Mercado amplia apostas para nova redução da Selic
A reação inicial dos contratos futuros foi imediata.
Logo após a divulgação do IPCA-15, praticamente toda a curva de juros passou a precificar um ambiente mais favorável para a continuidade do ciclo de flexibilização monetária iniciado pelo Banco Central.
Na reunião mais recente do Copom, a autoridade monetária reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, levando os juros básicos para 14,25% ao ano.
Desde então, parte do mercado passou a discutir a possibilidade de novos cortes ainda em 2026, caso o comportamento da inflação permanecesse compatível com a convergência para a meta.
Segundo Marcos Praça, diretor de Análise da Zero Markets Brasil, os contratos mais curtos já refletem essa expectativa.
Na avaliação do economista, o contrato conhecido no mercado como “Faca 27”, referente ao DI de janeiro de 2027, já embute espaço para mais uma redução de 25 pontos-base na reunião de agosto.
Apesar disso, ele ressalta que os próximos indicadores de inflação continuarão sendo determinantes para confirmar ou não esse cenário.
Comunicação do Banco Central reduz euforia
O ambiente de maior otimismo perdeu força durante a manhã, quando dirigentes do Banco Central participaram da apresentação do Relatório de Política Monetária.
Durante a coletiva, Paulo Picchetti procurou afastar interpretações de que a instituição estaria modificando seu horizonte de atuação ou preparando terreno para uma sequência de cortes de juros.
Segundo o diretor, o Banco Central não pretende alongar o horizonte relevante utilizado na condução da política monetária e tampouco pretende fornecer orientações antecipadas sobre decisões futuras.
Picchetti explicou que a referência ao primeiro trimestre de 2028 presente nas comunicações recentes decorre da necessidade de avaliar choques de oferta que fogem ao alcance da política monetária.
Entre esses fatores estão os efeitos da guerra no Oriente Médio sobre os preços internacionais e os impactos climáticos associados ao fenômeno El Niño.
Na avaliação do dirigente, elevar os juros não seria capaz de eliminar esses choques.
Segundo ele, uma política monetária excessivamente restritiva poderia apenas provocar desaceleração mais intensa da atividade econômica, sem resolver as causas externas da inflação.
Gabriel Galípolo reforça postura de cautela
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reforçou a mesma linha de comunicação.
Segundo ele, o ambiente econômico permanece cercado por elevado grau de incerteza, motivo pelo qual a autoridade monetária optou por não antecipar qualquer sinalização sobre os próximos movimentos da Selic.
Galípolo afirmou que não houve mudança na estratégia do Banco Central nem alteração na forma de condução da política monetária.
As declarações reduziram parte das apostas mais agressivas que surgiam após a divulgação do IPCA-15 e provocaram uma reversão parcial dos movimentos observados pela manhã.
O mercado interpretou que, embora o cenário tenha melhorado, o Copom continuará dependente da evolução dos indicadores antes de confirmar novos cortes.
Curva de juros termina inclinada após forte volatilidade
A mudança de percepção ficou evidente ao longo do pregão.
O contrato DI para janeiro de 2028 chegou a atingir mínima de 14,12% durante a manhã, refletindo o entusiasmo inicial com o IPCA-15.
Após a entrevista dos dirigentes do Banco Central, entretanto, voltou a subir e alcançou máxima de 14,29% no período da tarde, antes de encerrar em 14,24%.
Movimento semelhante ocorreu com os contratos de prazo mais longo.
O DI para janeiro de 2035 chegou a operar em 14,12%, mas terminou o dia em 14,30%, evidenciando maior cautela dos investidores em relação às perspectivas de inflação e juros para horizontes mais longos.
Esse comportamento resultou em uma inclinação da curva de juros, fenômeno que costuma indicar percepção de maior incerteza para o cenário econômico de médio e longo prazo.
Relatório eleva projeção para o PIB e mantém inflação acima da meta
Além da comunicação sobre política monetária, o Relatório de Política Monetária trouxe revisões importantes para as projeções econômicas.
O Banco Central elevou sua estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2026 de 1,6% para 2,0%.
Segundo a autoridade monetária, a revisão incorpora um desempenho mais resiliente da atividade econômica, sustentado pelo mercado de trabalho, pela expansão do consumo e pelas medidas de estímulo implementadas pelo governo.
Por outro lado, o Banco Central continua projetando inflação acima do limite superior da meta ao longo deste ano.
A estimativa oficial aponta inflação de 5,2% no encerramento de 2026, acima do teto de 4,5%.
A convergência para patamares mais próximos da meta ocorreria apenas de forma gradual.
As projeções indicam inflação de 3,7% no fim de 2027, 3,2% no primeiro trimestre de 2028 e 3,1% no encerramento daquele ano.
Esse cenário reforça a necessidade de uma condução cautelosa da política monetária, mesmo diante da melhora recente dos indicadores.
Ambiente internacional também favorece ativos de renda fixa
O cenário externo também contribuiu para o comportamento dos mercados brasileiros.
Nos Estados Unidos, indicadores de inflação divulgados ao longo do dia vieram ligeiramente abaixo das expectativas de parte dos investidores.
Como consequência, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano operaram em queda durante a sessão.
O Treasury de dez anos, referência global para precificação de ativos financeiros, recuava para 4,392% no fim da tarde.
A redução dos juros americanos tende a favorecer mercados emergentes ao diminuir a pressão sobre ativos de maior risco, incluindo títulos públicos brasileiros e contratos futuros de juros.
Ainda assim, os agentes permanecem atentos aos próximos dados econômicos tanto no Brasil quanto no exterior antes de consolidar expectativas para os próximos movimentos da política monetária.
O comportamento das taxas dos DIs nesta quinta-feira mostrou que, embora a desaceleração da inflação fortaleça a possibilidade de continuidade do ciclo de cortes da Selic, a comunicação do Banco Central continua sendo determinante para calibrar as expectativas do mercado e evitar interpretações de flexibilização prematura da política monetária.









