A JBS (JBSS32) anunciou nesta segunda-feira (10) que Wesley Batista Filho assumirá o cargo de CEO Global da companhia em janeiro de 2027, substituindo Gilberto Tomazoni, que deixará a principal função executiva depois de oito anos no comando. A mudança representa o retorno de um integrante da família controladora à liderança operacional do grupo e foi apresentada pela empresa como parte de um processo planejado de sucessão.
Tomazoni permanecerá na JBS após a troca. Durante os próximos cinco meses, ele conduzirá o processo de transição e, posteriormente, passará a atuar como Vice Chairman do Conselho de Administração e Senior Advisor. O executivo continuará também como chairman do conselho da Pilgrim’s Pride e assumirá a presidência do Conselho do Instituto J&F.
Wesley Batista Filho chega ao comando global depois de construir praticamente toda a carreira profissional dentro da JBS. Atualmente, ele dirige a JBS USA, maior plataforma da companhia em geração de receita, e já comandou operações no Brasil, Canadá, Uruguai e Paraguai, além de ter presidido a Seara e ocupado a posição de Presidente Global de Operações.
A sucessão ocorre em um momento de forte transformação da companhia. Nesta mesma segunda-feira, a JBS informou ter alcançado receita líquida recorde de US$ 23,9 bilhões no segundo trimestre de 2026, avanço de 14% sobre igual período do ano anterior, enquanto amplia investimentos internacionais e prepara uma nova frente de expansão na Ásia.
Wesley Batista Filho está na JBS desde 2011
Wesley Batista Filho iniciou sua trajetória profissional na companhia em 2011, como trainee na unidade de carne bovina de Greeley, no Colorado, nos Estados Unidos. Posteriormente, mudou-se para São Paulo para trabalhar na divisão de exportações de carne bovina e, entre 2012 e 2013, assumiu responsabilidades pelas operações no Uruguai e no Paraguai.
A carreira avançou rapidamente para posições de comando. Entre 2014 e 2015, Wesley presidiu a JBS Canadá e, posteriormente, retornou aos Estados Unidos para liderar a JBS USA Fed Beef, uma das maiores unidades de negócios do grupo. Em 2017, voltou ao Brasil para assumir a presidência da operação brasileira.
Em 2020, passou também a comandar a Seara, acumulando a liderança da empresa de alimentos processados, aves e suínos com a operação brasileira da JBS. Dois anos depois, tornou-se Presidente Global de Operações, passando a acompanhar negócios da companhia na América do Norte, América do Sul, Oceania e Europa.
Desde maio de 2023, Wesley Batista Filho ocupa a posição de CEO da JBS USA. Documentos da própria companhia apresentados à Securities and Exchange Commission (SEC) mostram que ele já vinha sendo inserido em posições estratégicas de gestão e governança ao longo dos últimos anos.
JBS USA será uma das principais experiências levadas ao comando
A passagem pela operação norte-americana possui peso especial na escolha porque a JBS USA responde por mais da metade da receita global da companhia, segundo a própria empresa. A plataforma reúne negócios de carne bovina, suína, aves e alimentos preparados e emprega cerca de 70 mil pessoas em 31 estados norte-americanos.
O mercado dos Estados Unidos também atravessa um momento particularmente desafiador para o segmento de carne bovina. A redução da oferta de gado mantém os custos elevados para as processadoras, comprimindo as margens da indústria mesmo diante dos preços historicamente altos da carne ao consumidor.
No segundo trimestre, a JBS Beef North America alcançou receita líquida recorde de US$ 7,8 bilhões, crescimento de 14,2% na comparação anual. O aumento do custo do gado, entretanto, permaneceu superior ao avanço dos preços da carne, e a unidade registrou EBITDA ajustado negativo de US$ 100 milhões.
O resultado representou melhora diante do prejuízo operacional de US$ 264 milhões registrado no mesmo período de 2025, mas mostra que Wesley assumirá o comando global carregando experiência recente na administração de uma das partes mais cíclicas e relevantes do portfólio da JBS.
Tomazoni encerra ciclo de oito anos como CEO Global
Gilberto Tomazoni assumiu o comando global da JBS em dezembro de 2018, depois de ocupar diferentes funções dentro do grupo. Antes disso, construiu uma carreira de 27 anos na Sadia, onde chegou à presidência, e teve passagem pela Bunge Alimentos.
Na JBS, ingressou em 2013 para liderar o negócio global de aves e, posteriormente, comandou a Seara. Em 2015, assumiu a Presidência Global de Operações e, em 2017, tornou-se COO Global, movimento que antecedeu sua chegada ao posto de CEO.
Durante a gestão de Tomazoni, a receita anual da companhia cresceu 73%, de US$ 49,7 bilhões para US$ 86,2 bilhões, segundo dados divulgados pela JBS. O período foi marcado por maior diversificação entre proteínas e geografias, expansão dos produtos de valor agregado, investimentos em novas áreas e avanço da estrutura de capital.
A companhia também conquistou grau de investimento e concluiu sua listagem na Bolsa de Valores de Nova York, um movimento estratégico para ampliar o acesso ao mercado internacional de capitais e aproximar a empresa de investidores globais.
A permanência de Tomazoni no conselho e como assessor sênior sinaliza que a mudança pretende preservar continuidade na execução da estratégia, em vez de representar uma ruptura na direção dos negócios.
Sucessão devolve comando executivo à família Batista
A escolha também possui uma dimensão societária relevante. Wesley Batista Filho é filho de Wesley Batista, um dos controladores da J&F, e neto de José Batista Sobrinho, fundador da empresa que deu origem à JBS. Documentos regulatórios da companhia registram formalmente essas relações familiares e as posições desempenhadas pelos integrantes da família dentro do grupo.
Wesley Batista, pai do futuro CEO, já comandou a JBS e atualmente integra o Conselho de Administração, além de ocupar posição relevante nos comitês responsáveis por remuneração e sucessão executiva.
A volta de um integrante da família ao principal cargo operacional não significa, contudo, a chegada de um executivo externo à estrutura profissional da empresa. Wesley Batista Filho está há 15 anos na JBS e passou por diferentes unidades, países e proteínas antes de ser escolhido para a sucessão.
A própria companhia caracteriza a troca como um processo planejado de continuidade. O novo CEO deverá assumir uma organização cuja estratégia já está estruturada em torno da diversificação geográfica, expansão de produtos de maior valor agregado, crescimento internacional e disciplina na alocação de capital.
Receita da JBS chega a US$ 23,9 bilhões no trimestre
A anúncio da sucessão foi realizado no mesmo dia em que a companhia divulgou seus resultados do segundo trimestre, reforçando a dimensão do negócio que Wesley Batista Filho passará a comandar.
A receita líquida atingiu US$ 23,9 bilhões entre abril e junho, um recorde trimestral e crescimento de 14% em relação ao mesmo período de 2025. O EBITDA ajustado somou US$ 1,257 bilhão, enquanto o fluxo de caixa livre ficou positivo em US$ 130 milhões.
O desempenho mostra como a diversificação do grupo reduz a dependência de uma única proteína ou região. Enquanto a carne bovina nos Estados Unidos continua pressionada pela escassez de animais, operações como Seara, JBS Brasil, Pilgrim’s Pride, suínos nos Estados Unidos e JBS Austrália apresentaram resultados capazes de compensar parte desse impacto.
A JBS Brasil, por exemplo, alcançou receita recorde de US$ 4,6 bilhões, expansão de 28% em um ano, enquanto o EBITDA ajustado avançou 22,1%, para US$ 273 milhões. A Seara registrou receita de US$ 2,5 bilhões e EBITDA ajustado de US$ 315 milhões, mantendo margem de 12,3%.
Na Austrália, a receita cresceu 30%, para US$ 2,6 bilhões, apoiada por preços e volumes maiores, enquanto a diversificação entre carne bovina, suínos, alimentos preparados e salmão fortaleceu o resultado regional.
Novo CEO recebe uma JBS em expansão na Ásia
A sucessão ocorre também poucos dias depois de a companhia anunciar um acordo de grande porte para acelerar a presença na Indonésia e no Sudeste Asiático, região que deverá ocupar parte importante da agenda do futuro CEO.
Na sexta-feira (7), a JBS anunciou uma parceria com a Danantara Investment Management, braço de investimentos do fundo soberano da Indonésia. Pelo acordo, a Danantara investirá US$ 2,5 bilhões para adquirir 25% das operações da JBS na Austrália e na Nova Zelândia.
A joint venture poderá captar outros US$ 2,5 bilhões em financiamento, levando o potencial total de recursos da estrutura a US$ 5 bilhões. O dinheiro deverá financiar aquisições, projetos greenfield e outras oportunidades de expansão na Indonésia, Austrália, Nova Zelândia e demais mercados do Sudeste Asiático.
A região é estratégica porque combina população elevada, aumento de renda, urbanização e crescimento do consumo de proteína, fatores que podem criar novas oportunidades para empresas globais de alimentos.
A JBS pretende utilizar sua estrutura australiana como uma plataforma para ampliar a atuação regional, mantendo a diversificação geográfica que se tornou uma das principais características do grupo durante o período comandado por Tomazoni.
Produtos de maior valor agregado seguem entre prioridades
Outro eixo que deverá permanecer na estratégia é a ampliação da participação de produtos de marca e maior valor agregado, iniciativa que busca reduzir a exposição da companhia aos ciclos tradicionais das commodities.
A JBS já atua em diferentes segmentos além da carne bovina convencional, incluindo aves, suínos, alimentos preparados, ovos, cordeiro e salmão, além de manter um portfólio internacional de marcas.
Na América do Norte, a expansão de produtos preparados tem contribuído para reduzir parte da volatilidade característica dos negócios de proteína in natura. No segundo trimestre, a Pilgrim’s Pride informou crescimento da operação de alimentos preparados, enquanto a JBS USA Pork atribuiu parte da melhora de resultados ao avanço de produtos de marca e de maior valor agregado.
No Oriente Médio, a companhia também criou neste ano uma plataforma multiproteínas em Omã, com investimento de US$ 150 milhões e produção local de carne bovina, aves e cordeiro, reforçando a estratégia de crescer mais perto dos mercados consumidores.
Troca será concluída em janeiro de 2027
Até o fim deste ano, Gilberto Tomazoni e Wesley Batista Filho trabalharão juntos no processo formal de transição, buscando preservar a continuidade operacional enquanto o futuro CEO amplia sua participação nas decisões relacionadas ao comando global.
A partir de janeiro de 2027, Wesley passará a responder pela estratégia e pelas operações de uma companhia presente em diferentes continentes e submetida simultaneamente a ciclos distintos de proteínas, moedas, custos e consumo.
A sucessão ocorre sem indicação, até o momento, de uma mudança estrutural no direcionamento da companhia. A comunicação oficial da JBS enfatiza continuidade, disciplina operacional, atendimento aos clientes e produtores e geração de valor de longo prazo como prioridades do futuro comando.
O principal desafio será executar essa estratégia em uma organização que ficou maior, mais diversificada e mais exposta ao mercado internacional de capitais, ao mesmo tempo em que administra dificuldades cíclicas na carne bovina norte-americana e acelera investimentos em regiões como Ásia e Oriente Médio.
Ao anunciar Wesley Batista Filho com quase cinco meses de antecedência, a JBS prepara uma passagem de comando gradual em vez de uma troca imediata. Tomazoni permanecerá dentro da estrutura de governança, enquanto um executivo formado nas próprias operações da companhia e pertencente à terceira geração da família fundadora assumirá o principal posto executivo a partir de 2027.










